19 de outubro de 2026

O Brasil está gritando Bolsonaros nunca mais, por Gustavo Tapioca

Jovens, adultos e idosos rejeitam nas ruas o projeto autoritário, negacionista e entreguista do clã Bolsonaro.
Arte de Gustavo Tapioca e ChatGPT

Segundo turno presidencial no Brasil em 25/10 definirá entre Flávio Bolsonaro e Lula na disputa pelo Planalto.
Flávio Bolsonaro promete anistiar o pai, condenado por golpe e corrupção, e alterar a Constituição para concentração de poder.
Manifestações em várias cidades reúnem jovens e adultos contra o projeto Bolsonaro, em defesa da democracia e memória da pandemia.

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O Brasil está gritando Bolsonaros nunca mais 

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Jovens, adultos e idosos rejeitam nas ruas o projeto autoritário, negacionista e entreguista do clã Bolsonaro. 

Por Gustavo Tapioca 

Faltam seis dias para o segundo turno. No próximo domingo, 25 de outubro, o Brasil decidirá se entrega a Presidência ao Bolsonaro de prenome Flávio, o herdeiro escolhido para levar de volta ao Planalto um projeto que tentou impedir, pela força, a alternância democrática. Ou se reelege Lula. 

A pergunta de João Moreira Salles, na Revista piauí de outubro, foi dirigida a uma parcela poderosa da elite econômica que recebeu Flávio para jantar:  

“Até onde se pode normalizar os Bolsonaro sabendo quem são?”  

Quando empresários e banqueiros discutem déficit, impostos e privatizações como se a democracia fosse apenas mais uma variável de mercado, o risco é tratar como normal o que deveria estabelecer um limite moral.  

Tortura, ditadura, milícia e golpe não são itens de uma planilha. 

O que está em disputa não é apenas a continuação de um sobrenome. Bolsonaro filho, de prenome Flávio, declarou que pretende honrar o pai, libertá-lo da prisão e governar ao lado dele. Promete anistiar o Bolsonaro pai Jair e a organização criminosa que se tornou célebre no 8 de janeiro de 2023.  E já disse que Bolsonaro pai vai subir a rampa do Planalto junto com ele, Bolsonaro filho. Um compromisso político anunciado em público. 

O assassinato de Lula e Alckmin 

Jair Bolsonaro foi condenado a 27 anos e três meses de prisão, como líder da organização criminosa que tentou dar um golpe de Estado. A trama buscava impedir a posse de Lula, eleito em 2022 e empossado em 1de janeiro de 2023. A denúncia da PGR descreveu o “Punhal Amarelo”, como o plano que previa assassinar Lula e Alckmin.  

Bolsonaro Filho não se apresenta como alguém disposto a romper com essa história e chama a tentativa de golpe de “farsa armada para tirar o presidente Bolsonaro da vida pública”.  

Ao transformar a condenação em perseguição e prometer anistia ao pai e aos demais condenados, o filho de Jair Bolsonaro pede ao eleitor que aceite uma inversão: os responsáveis pela ruptura seriam vítimas; as instituições que protegeram a ordem constitucional, culpadas; a derrota eleitoral vira fraude; a investigação, perseguição; a condenação judicial, prova de que o líder enfrenta o “sistema”.  

Bolsonaro pai, condenado e inelegível, permanece no centro do projeto. Bolsonaro filho oferece a candidatura para trazê-lo de volta à vida política. 

O título Traidor da Constituição é traidor da Pátria recupera a advertência de Ulysses Guimarães na promulgação da Constituição Cidadã. Flávio Bolsonaro promete alterar a Carta, indicar cinco ministros ao STF, e chegou a falar em “usar a força” se o Judiciário questionasse um indulto ao pai.  

Não se trata de afirmar que toda reforma constitucional seja golpe. Uma democracia permite mudanças. O perigo está em usar a maioria parlamentar para remover obstáculos à impunidade e concentrar poder no mesmo grupo que tentou permanecer no governo depois de perder a eleição. 

Rachadinha e DarkHorse 

É longa a biografia manchada de crimes de Flávio Bolsonaro. Destacamos uma já quase esquecida. Outra bem recente.  

Na reunião ministerial de 22 de abril de 2020, o então presidente Jair Bolsonaro, o pai de Flávio, vinculou mudanças na Polícia Federal à proteção da família e dos amigos. Em reunião ministerial disse: 

 “Vai trocar. Se não puder trocar, troca o chefe dele. Não pode trocar o chefe? Troca o ministro. E ponto final.” Dois dias depois, exonerou o diretor-geral da PF Maurício Valeixo que comandava as denúncias contra Bolsonaro filho. Depois foi a vez do ministro da Justiça Sergio Moro. Bolsonaro pai nomeou ministro no lugar de Moro o terrivelmente evangélico André Mendonça, que depois pulou para o SIF. O processo das rachadinhas foi arquivado.  

Agora, a Polícia Federal investiga o financiamento do Dark Horse, filme de exaltação de Jair Bolsonaro. Flávio confirmou que procurou Daniel Vorcaro, a quem chama de “irmão”. O filho de Jair, o senador Flávio, pediu R$ 131 milhões.  Cerca de R$ 60 milhões foram “doados”. Flávio, o filho Bolsonaro, voltou a pedir os outros 70 milhões, quando Vorcaro já estava preso acusado de responsável pelo maior escândalo financeiro da história do Brasil. A investigação apura crimes de lavagem de dinheiro, corrupção e evasão de divisas. 

No debate de ontem,18, Lula insistiu para Flávio responder onde foi parar os milhões que ele ganhou de Vorcaro e o que deu em troca dessa fortuna. Insistiu na pergunta. Não houve resposta. O debate continuou. Bolsonaro filho imitou a provocação vazia que aprendeu com Pablo Marçal, presente na plateia. Fez caretas de moleque, exibiu palavras escritas na mão e lançou acusações em série e sem qualquer evidência.   

Quando as perguntas de Lula voltaram a tocar no Dark Horse, continuou sem responder e fugiu delas. Também não respondeu por que defendeu um policial acusado de matar uma menina de 5 anos e porque apoiou o fim da marcação de munições adquiridas por órgãos de segurança.  

Lula então propôs o teste mais simples: que os dois candidatos e suas famílias abrissem os sigilos bancários e telefônicos e entregassem os dados aos presidentes do STF e do TSE.  

Flávio disse que nada tinha a esconder, mas não aceitou o desafio e mudou de assunto. Lula continua esperando. A cena resumiu a candidatura do filho de Bolsonaro a presidente do Brasil: valentia para acusar, deboche para tumultuar e silêncio quando chega a hora de prestar contas. 

O legado que ele promete honrar 

Bolsonaro filho “esqueceu” também que as mais de 700 mil mortes por Covid no Brasil não são uma abstração. E de que pelo menos 400 mil vidas seriam poupadas se o governo do pai Jair não se negasse a adotar medidas determinadas pela OMS para conter a pandemia. Adiou o quanto pôde a compra de vacinas e promoveu medicamentos sem eficácia comprovada. As decisões agravaram a crise. E muito.  

É essa memória que voltou às ruas, junto com a lembrança de hospitais sem oxigênio e de um presidente que debochava da dor. Se Bolsonaro filho diz que vai honrar o Bolsonaro pai, deve ser herdeiro também dessa herança maldita. 

Os estudantes, secundaristas e universitários, os jovens do primeiro voto apareceram logo após a divulgação dos resultados do primeiro turno, no dia 4 de outubro. Voltaram como protagonistas de uma lembrança que os adultos não têm o direito de abandonar. Foram às ruas, e permanecem nelas, gritando Bolsonaros, nunca mais. 

O buraco é mais em cima  

A ascensão da extrema direita brasileira, liderado pelo pai Jair Bolsonaro que quer transferir o trono para o filho Flávio também se conecta a uma ofensiva regional de Donald Trump e Marco Rubio para ampliar a influência de Washington sobre a América Latina e, especialmente, sobre o Brasil, a joia da coroa. 

Flávio Bolsonaro defende, e reiterou a defesa ontem na Band, a adesão do Brasil ao “Escudo das Américas”, aproximação política com Trump e parcerias para explorar terras raras e minerais críticos brasileiros.  

O problema não é cooperar com os Estados Unidos. É prometer acesso a recursos estratégicos e alinhamento geopolítico sem apresentar salvaguardas claras para a soberania brasileira.  

Lula chamou essa submissão pelo nome. Lembrou que Eduardo Bolsonaro vive nos Estados Unidos há quase dois anos articulando pressões contra o próprio país e acusou o clã de “trair a Pátria”. Pouco antes, apoiadores dos Bolsonaro chegaram ao absurdo de exibir em manifestação um míssil inflável com um pedido para que Donald Trump bombardeasse o Brasil.  

Por que Milei e Bukele? 

Lula perguntou, também no programa da Band, por que Flávio apontou Javier Milei como referência na Economia e elogia Nayib Bukele, de El Salvador, na Segurança. Sobre Milei deu um arremedo de resposta que ninguém entendeu. A respeito de Bukele, falou em criar 500 mil vagas no sistema prisional e pronunciou a frase: “El Salvador é pouco”. 

 A promessa de Bolsonaro Filho sobre Milei está clara no que disse a coordenadora de Economia da campanha dele Daniella Marques: “o governo de Javier Milei é um ótimo exemplo”. Lula criticou o desastre do governo Milei na Argentina. Flávio fez que não ouviu. 

Sobre o modelo Bukele, o candidato Bolsonaro filho de Jair afirmou: “Aqueles que acham que eu sou radical na segurança pública não viram nada ainda. Eu já estou trocando uma ideia com o Derrite, porque estou achando que El Salvador é pouco.” 

Sonia Wolf, pesquisadora especialistas em segurança pública, autora do livro Mano Dura, advertiu que Bukele executa um “modelo” de radicalização da velha política de “mano dura”. Para ela, a política de mão de ferro usa a violência das gangues para solidificar poder político nas mãos da elite, com políticas draconianas que violam direitos humanos, mas fazem pouco para atacar as raízes do problema – pobreza, exclusão, deportações dos EUA e falta de reintegração.  

É populismo penal – continua Wolfe – “dá apoio popular rápido, mas não resolve.” Por isso ela diz que não é replicável no Brasil: “o Brasil tem facções empresariais, com controle territorial e econômico muito diferente das maras (gangues) salvadorenhas, e o “sucesso” de El Salvador depende de um país minúsculo (do tamanho de Sergipe) onde o presidente Bukele controla o Executivo, o Judiciário e o Legislativo, exatamente o que o filho de Jair quer fazer no Brasil. 

O filho Flávio de Jair Bolsonaro já domina o Legislativo com maioria de deputados e senadores. Se ganhar o Executivo, no dia 25, poderá dominar o terceiro pilar, o Judiciário. E matar a Democracia por dentro. Este é o seu plano. Este é o golpe mais “inteligente” do que aquele que o pai Jair tentou várias vezes durante seu governo de 2019 a 2022, que culminou no 8 de janeiro de 2023. E não deu certo. 

O ronco das ruas 

Desde a divulgação do resultado do primeiro turno, em 4 de outubro — com Flávio à frente de Lula por uma diferença estreita —, jovens passaram a ocupar ruas e praças. Os atos se multiplicaram em diferentes capitais e pelo interior do Brasil. Neste domingo, 18, a uma semana do segundo turno, manifestações em defesa da democracia e pela reeleição de Lula reuniram milhares de pessoas em várias cidades, com participação de estudantes e artistas.  

A juventude puxou pais, mães, tios e avós para fora da zona de conforto e para as ruas. A indignação saiu das telas do celular e das janelas do panelaço. A memória dos mortos pela irresponsabilidade criminosa do pai Jair Bolsonaro na condução da pandemia; e a defesa da democracia ganharam corpo nas praças. 

Para muitos dos mais velhos, a cena trouxe de volta a lembrança das Diretas Já, quando a ditadura assassina de1964 a1985 dava seus últimos suspiros. Em abril de 1984, um milhão de pessoas se reuniram diante da Candelária, no Rio, em 10 de abril. Seis dias depois, 1,5 milhão lotaram o Vale do Anhangabaú, em São Paulo. E se espalhou pelo Brasil inteiro com o grito de Liberdade, Liberdade, Abaixo a Ditadura, Diretas Já. 

As lutas da revolta dos meninos de hoje e os daquela época não são idênticas. Mas, sim, muito semelhantes. A lição permanece nos adultos que ainda estão aqui para participar desse evento histórico, quando a democracia é ameaçada. Hoje como ontem, o silêncio se rompe com o ruido ensurdecedor do ronco das ruas e com o som metálico das panelas gritando por democracia.  

A pergunta de João Moreira Salles, na Revista piauí de outubro, continua valendo para os que conhecem a história e ainda cogitam votar em Flávio.   

“Até onde se pode normalizar os Bolsonaro?” 

Que justificativa moral pode haver para entregar o comando da República a quem faz da anistia aos golpistas e da libertação do próprio pai o centro de seu projeto político, enquanto ameaça a Constituição Cidadã de Ulysses Guimarães? 

O país não é herança de família, e a democracia não pode ser moeda de troca para a impunidade. 

O Brasil está gritando Bolsonaros nunca mais 

Gustavo Tapioca – Jornalista. Ex-diretor do Jornal da Bahia. Assessor de Comunicação da Telebrás. Consultor do Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef). Autor de “Meninos do Rio Vermelho” e de “Entre o golpe e a eleição“.

O texto não representa necessariamente a opinião do Jornal GGN. Concorda ou tem ponto de vista diferente? Mande seu artigo para [email protected]. O artigo será publicado se atender aos critérios do Jornal GGN.

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Gustavo Tapioca

Gustavo Tapioca é jornalista formado pela UFBa e MA pela Universidade de Wisconsin. Ex-diretor de Redação do Jornal da Bahia. Assessor de Comunicação da Telebrás, Oficial de Comunicação do Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) e do IICA/OEA. Autor de Meninos do Rio Vermelho, publicado pela Fundação Jorge Amado.

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