Flávio Bolsonaro (PL), candidato à Presidência da República, é investigado por lavagem de dinheiro, evasão de divisas e corrupção. Somente no Supremo Tribunal Federal (STF), ele chega ao pleito eleitoral alvo de dois inquéritos com movimentações bilionárias em esquemas criminosos. Nas investigações, o nome Flávio Bolsonaro aparece ao lado do advogado Willer Tomaz, já publicamente seu amigo, em uma rede de empresas e apostas que movimentou cerca de R$ 1,4 bilhão. No caso Dark Horse, as investigações mostram que Flávio Bolsonaro não recebeu do ex-banqueiro Daniel Vorcaro, do Banco Master, os R$ 62,9 milhões para financiar de forma oficial e privada o filme de seu pai, mas os repasses foram escondidos, sem contratos ou valores declarados. Outros episódios suspeitos, como a compra de uma mansão de R$ 6 milhões quitando o financiamento integral em 3 anos, com supostas parcelas de R$ 20 mil mensais, que quase totalizavam a sua remuneração foram integrados à investigação. O senador ainda carrega um passado sombrio, acusado de desvios de salários na Alerj, no esquema “Rachadinhas”, e fortes vínculos públicos com milicianos, que são grupos armados criminosos do Rio de Janeiro.
Confira, abaixo, um compilado organizado pelo GGN dos inquéritos e suspeitas contra o candidato Flávio Bolsonaro (PL):
Dark Horse
- Acusações: Suspeita de lavagem de dinheiro, evasão de divisas e corrupção.
- Relator no STF: Ministro André Mendonça.
- Entenda o caso: A Polícia Federal investiga irregularidades no financiamento do filme Dark Horse, obra audiovisual que retrata seu pai, Jair Bolsonaro. A investigação foi aberta após vir a público um áudio em que Flávio negociava um repasse milionário com o então banqueiro Daniel Vorcaro, ex-controlador do Banco Master. O financiamento do filme de Flávio Bolsonaro envolve, ainda, outros personagens e transações suspeitos. Paulo Calixto é o administrador e representante legal de um fundo internacional, o Havengate Development Fund LP, com sede no Texas, EUA, que recebeu as transferências de cerca de R$ 60 milhões de Vorcaro para financiar a produção, transferidos em seis operações entre fevereiro e maio de 2025. Calixto é também advogado que atua na defesa de Eduardo Bolsonaro. Nas investigações também aparece Fabiano Zettel, cunhado e operador financeiro de Vorcaro e amigo de Flávio Bolsonaro, como elo de conexão.
- Defesa e desdobramentos: Flávio Bolsonaro nega irregularidade e sustenta que os recursos arrecadados para o filme vieram exclusivamente de patrocínio privado legal. Mas a PF apura se os valores declarados como patrocínio privado ocultavam o uso ilegal de verbas públicas (como emendas parlamentares) ou benefícios indevidos em razão de seu mandato. Além disso, informações entregues pelo liquidante da massa falida do Master, Eduardo Bianchini, comprovam que não há qualquer documento, contrato ou comprovação de financiamento privado pelo banco ao filme e que os valores, portanto, foram entregues pelo ex-banqueiro “debaixo do tapete”. O GGN revelou em reportagem recente que, sob a relatoria de André Mendonça, a investigação contou com irregularidades e pouco avançou.
Mansão Milionária
- Investigação: Flávio Bolsonaro levantou suspeitas da Polícia Federal dentro do Caso do Banco Master com a compra de uma casa de luxo avaliada em R$ 6 milhões, localizada em região nobre do Lago Sul, em Brasília.
- Entenda o caso: A investigação faz parte do inquérito da Operação Compliance Zero, que investiga o ex-banqueiro Daniel Vorcaro e o Banco Master e o BRB, apontando suspeitas de favorecimento. Na compra, realizada em 2021, Flávio Bolsonaro e sua esposa deram uma entrada de R$ 2,87 milhões e financiaram os R$ 3,1 milhões restantes pelo banco estatal BRB, à época sob a presidência de Paulo Henrique Costa, posteriormente preso no caso Master. A principal suspeita da compra da mansão é a incompatibilidade de renda de Flávio: a parcela do financiamento era de R$ 18 a 20 mil mensais, que equivalia a quase 80% do salário líquido de senador na época, que era de aproximadamente R$ 24,9 mil. O senador justificava o complemento orçamentário por meio de ganhos de seu escritório privado de advocacia e uso de recursos da venda de um imóvel.
- Quitação Relâmpago: Além disso, apesar de ter contraído uma dívida estruturada para durar 30 anos, Flávio Bolsonaro quitou integralmente os R$ 3,1 milhões do empréstimo em apenas três anos, o que acelerou o interesse da PF em rastrear a origem exata do dinheiro utilizado para encerrar o saldo devedor. Até hoje, Flávio não explica completamente como pagou a mansão milionária, apenas que foi “dentro da legalidade”.
Willer Tomaz
- Acusações: Suspeita de lavagem de dinheiro, evasão de divisas e corrupção.
- Relator no STF: Ministro Alexandre de Moraes.
- Entenda o caso: A investigação nasceu de uma apuração da PF no Rio Grande do Sul sobre crimes financeiros de plataformas de apostas e sistemas digitais de pagamento. O foco é o advogado Willer Tomaz, amigo pessoal de Flávio Bolsonaro, e as movimentações realizadas por suas empresas e contas bancárias, no montante de R$ 1,4 bilhão. Ao investigar os dados na nuvem de Tomaz, os investigadores encontraram e-mails, documentos pessoais e registros financeiros de que Flávio Bolsonaro figurava como “usuário master”, o que concede a ele acesso operacional, de uma conta bancária da Alcazar Holdings, empresa do advogado e sediada na Ilha da Madeira, em Portugal. A empresa é uma das envolvidas no crime financeiro. Ainda, em polêmica recente, uma funcionária de Willer Tomaz encaminhou um pedido ao banco Santander, em 2025, para desvincular Flávio da conta empresarial, buscando retirar as suspeitas contra o senador. Segundo a investigação, e-mails e registros apreendidos pela PF mostram também viagens conjuntas de Flávio e Willer ao exterior, incluindo deslocamentos entre Portugal e França, em 2025, custeadas pelas empresas do advogado. A PF também examina a disponibilização de imóveis e estruturas por Willer Tomaz para atividades da campanha de Flávio em São Paulo.
- Defesa: A assessoria do senador declarou que as acusações são infundadas e que sua relação com o advogado restringe-se à esfera da amizade pessoal, alegando também que o vazamento do inquérito tem motivação político-eleitoral. O advogado também nega que tenha movimentado R$ 1,4 bilhão com a Blaze ou realizado saques em plataformas de apostas no exterior.
Escândalo das Rachadinhas
- Acusações: Lavagem de dinheiro, peculato (desvio de dinheiro público) e organização criminosa. O caso foi arquivado.
- Entenda o caso: O Ministério Público do Rio de Janeiro (MP-RJ) acusou Flávio Bolsonaro de liderar um esquema de recolhimento ilegal de parte dos salários de assessores de seu gabinete na época em que era deputado estadual (ALERJ), utilizando uma franquia de uma loja de chocolates da Kopenhagen e transações imobiliárias para lavar os recursos. A investigação e testemunhas revelaram que o atual candidato à Presidência contratava funcionários de sua confiança, incluindo familiares do miliciano Adriano da Nóbrega, como assessores da Assembleia Legislativa do Rio (Alerj), para receber parte dos salários deles. O dinheiro em espécie, vivo, era desviado e colocado na loja de chocolates para dar aparência legal ao dinheiro. Entre 2015 e 2018, os investigadores constataram que a loja recebeu 1.512 depósitos em dinheiro vivo. Auditorias apontaram que a chocolataria registrava lucros extraordinariamente lineares e regulares ao longo de todo o ano. Em 2020, Fabrício Queiroz, ex-policial militar e amigo de Flávio Bolsonaro foi preso, acusado de operar o esquema. Queiroz movimentou cerca de R$ 1,2 milhão em operações consideradas atípicas pelo Coaf.
- Desfecho judicial: A defesa de Flávio Bolsonaro conseguiu que os tribunais superiores anulassem as principais bases da investigação por erros formais e técnicos, conseguindo arquivar o processo. Os advogados alegaram que a quebra dos sigilos bancário e fiscal de Flávio Bolsonaro e dos demais investigados não foi devidamente fundamentada e a Quinta Turma do Superior Tribunal de Justiça (STJ) concordou, esvaziando legalmente a acusação. Na prática, Flávio Bolsonaro não foi condenado por esse episódio, mas o arquivamento não significou a sua inocência.
Passado sombrio e vínculo com miliciano Adriano da Nóbrega
A acusação mais emblemática dentro do caso das Rachadinhas envolveu o ex-capitão do Bope Adriano da Nóbrega, apontado como chefe do Escritório do Crime, uma das milícias mais violentas do Rio de Janeiro.
- Emprego de familiares: Flávio Bolsonaro empregou em seu gabinete na Assembleia Legislativa do Rio (Alerj) a mãe de Adriano (Raimunda Magalhães) e a então esposa do miliciano (Danielle Mendonça da Costa). Segundo a denúncia do MP-RJ (posteriormente arquivada), as duas familiares de Adriano participavam do esquema de “rachadinha” e teriam repassado cerca de R$ 400 mil para as contas administradas pelo operador Fabrício Queiroz.
- Financiamento de prédios da milícia: Relatórios de inteligência financeira indicaram que parte dos valores recolhidos na “Rachadinha” do gabinete de Flávio teria sido usada para financiar e lucrar com construções ilegais de edifícios controlados pela milícia nas regiões de Rio das Pedras e Muzema.
- Homenagens oficiais: Além disso, enquanto exercia mandato na Alerj, Flávio concedeu a Medalha Tiradentes, a maior honraria da casa, a Adriano da Nóbrega quando este se encontrava preso sob acusação de ser um dos maiores matadores do Rio de Janeiro.
“Nosso senador”: Emendas parlamentas a milicianos
A Polícia Federal investiga o repasse de verbas públicas por meio de emendas parlamentares pelo senador Flávio Bolsonaro a figuras ligadas a milícias:
- O caso “Peixe”: Já como senador, a PF apura a destinação de uma emenda parlamentar no valor de R$ 200 mil enviada pelo gabinete de Flávio Bolsonaro a pedido de Robson Calisto, conhecido como “Peixe”. Peixe foi condenado por integrar a milícia armada dos irmãos Brazão e no envolvimento logístico no assassinato da vereadora Marielle Franco e do motorista Anderson Gomes. A investigação analisa se houve desvio na aplicação desse recurso público. Flávio Bolsonaro repassou o dinheiro supostamente para a organização de futebol infantil em uma região de influência política dos Brazão, mas a PF e o TCU identificaram que o dinheiro público teria sido integralmente desviado para um escritório de advocacia. Em mensagens apreendidas, os milicianos chamavam Flávio Bolsonaro de “nosso senador”. A defesa afirma que as emendas seguiram a legislação e que a fiscalização dos recursos cabe aos órgãos executores e aos ministérios competentes.
- Outras entidades: Relatórios investigativos apontaram que outras emendas apresentadas pelo senador abasteceram contratos com institutos indicados por lideranças regionais suspeitas de serem de domínio de milícias e ONGs consideradas “inexistentes” pela Receita Federal.
Os criminosos no entorno de Flávio
O histórico público do senador e candidato à Presidência, Flávio Bolsonaro (PL), reúne conexões com diversas pessoas investigadas ou condenadas por corrupção, lavagem de dinheiro e milicianos. Abaixo, listamos especificamente estes nomes e a relação de Flávio Bolsonaro com cada um:
Núcleo das Milícias e do Caso Marielle Franco
- Adriano da Nóbrega: Ex-capitão do BOPE e chefe do Escritório do Crime (grupo de extermínio da milícia fluminense), morto na Bahia em 2020. Flávio Bolsonaro empregou a mãe (Raimunda Magalhães) e a ex-esposa de Adriano (Danielle Mendonça) em seu gabinete na Alerj. Investigações apontaram que as duas repassavam salários para o operador do gabinete e que a verba retroalimentava a construção de prédios ilegais da milícia em Rio das Pedras. Flávio também condecorou Adriano duas vezes na Alerj. A defesa alega que as nomeações foram de responsabilidade de Fabrício Queiroz e que Adriano era um policial sem máculas na época.
- Robson Calisto Fonseca (“Peixe”): Ex-policial militar condenado por integrar a milícia armada liderada pelos irmãos Chiquinho e Domingos Brazão (mandantes do assassinato de Marielle Franco). Investigações da PF de 2026 revelaram que, a pedido de “Peixe”, Flávio Bolsonaro assinou uma emenda parlamentar de R$ 200 mil direcionada a uma ONG de futebol infantil na Zona Sudoeste do Rio, reduto dos Brazão. A PF e o TCU detectaram que os fundos públicos foram integralmente desviados para um escritório de advocacia. Nas mensagens de áudio interceptadas, os criminosos referiam-se a Flávio como “nosso senador”. Flávio alega que o envio de emendas segue critérios técnicos e que ele não possui gerência sobre desvios posteriores.
- Irmãos Brazão (Chiquinho e Domingos): Políticos condenados como mandantes do atentado contra Marielle Franco. Embora não haja acusação de autoria intelectual contra o senador, o grupo político de Flávio Bolsonaro mantinha amplas alianças territoriais com os Brazão na Zona Oeste do Rio.
- Discursos de blindagem às milícias: No início dos anos 2000, Flávio Bolsonaro utilizou a tribuna da Alerj em diversas ocasiões para defender a atuação das chamadas “milícias autodefesas”, classificando-as como movimentos espontâneos de policiais para garantir a segurança de comunidades contra o tráfico, dissociando-as de grupos criminosos.
- Voto contra a CPI das Milícias: Flávio Bolsonaro foi um dos parlamentares que se posicionou de forma contrária à instalação da histórica CPI das Milícias na Alerj em 2008, coordenada pelo então deputado Marcelo Freixo, que acabou por indiciar mais de 200 políticos, policiais e criminosos envolvidos com o controle de taxas ilegais de gás, TV a cabo e transporte.
- PMs seguranças: os policiais militares gêmeos Alan e Alex Rodrigues de Oliveira, que atuaram na segurança de Flávio Bolsonaro em agendas públicas durante a campanha eleitoral ao Senado de 2018, foram presos na Operação Quarto Elemento, do MP-RJ, por organização criminosa de PMs. Eles eram irmãos de uma assessora próxima de Flávio, que também atuava como tesoureira de seu partido à época.
- Legislação sobre munições: Já no Senado, o parlamentar manteve pautas de segurança que geram forte controvérsia e oposição. Flávio é autor e defensor de um projeto de lei que extingue a obrigatoriedade da marcação e rastreamento de lotes de cápsulas de munição adquiridas por órgãos de segurança pública. Partidos como o PT acusam o senador de “legislar a favor do crime organizado” com a proposta, uma vez que o fim do rastreamento inviabiliza que a perícia identifique se munições desviadas de arsenais oficiais foram usadas por milícias em homicídios. Flávio Bolsonaro defende-se afirmando que as regras atuais engessam o trabalho policial e que a alteração é apenas um “detalhe técnico” desvirtuado pela oposição.
Escândalo Master e Dark Horse
- Daniel Vorcaro: Ex-controlador do extinto Banco Master, Vorcaro foi preso sob acusação de fraudar bilhões no sistema financeiro. Mensagens reveladas pela imprensa apontam que Flávio Bolsonaro (que chamava o banqueiro de “irmão” em áudios) negociou com ele um repasse de R$ 134 milhões (US$ 24 milhões à época) para custear o longa-metragem. Metade do valor foi transferida por fundos no Texas. Flávio sustenta que se tratou de um acordo puramente privado de patrocínio e que a verba é lícita.
- Willer Tomaz: Advogado e amigo pessoal do senador, tornou-se alvo de outro inquérito no STF em outubro de 2026, sob a relatoria do ministro Alexandre de Moraes. Ao cruzar dados de Tomaz com um esquema de apostas e plataformas de pagamento, a PF indicou Flávio Bolsonaro como “usuário master” de contas bancárias da empresa Alcazar Holdings, pertencente ao advogado, além de apontar que as firmas de Tomaz pagaram passagens aéreas e cederam imóveis de campanha ao senador.
- Fabiano Zettel: Cunhado e apontado pela PF como principal operador financeiro de Daniel Vorcaro no mercado. O apartamento cedido por Willer Tomaz para a campanha de Flávio Bolsonaro em São Paulo pertencia originalmente a Zettel antes de ser transferido ao advogado. Diversas conexões apontam amizade entre Zettel e Flávio Bolsonaro.
- Paulo Calixto: Advogado que atua na defesa de Eduardo Bolsonaro, Calixto aparece nos registros como administrador e representante legal do fundo internacional Havengate Development Fund (com sede no Texas), que recebeu o dinheiro de Vorcaro, solicitado por Flávio, para o filme Dark Horse.
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