São 290 páginas de pura dinamite. A investigação do Ministério Público do Estado do Rio de Janeiro reconstitui, em detalhes, o esquema de desvio de salários e lavagem de dinheiro que, segundo a acusação, funcionou no gabinete de Flávio Bolsonaro antes de sua chegada ao Senado.
A denúncia, formulada em 19 de outubro de 2020, quando Jair Bolsonaro já ocupava a Presidência da República, descreve uma estrutura que teria operado de 2007 a 2018. Flávio é acusado de liderar uma “organização criminosa” que desviava parte dos salários de servidores da Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro (Alerj), por meio da chamada “rachadinha”, e depois lavava os recursos.
O mecanismo descrito é conhecido: assessores eram nomeados, muitos deles apontados como funcionários fantasmas, e devolviam parte da remuneração. Os repasses, segundo o MP, ocorriam por transferências bancárias, saques, depósitos em espécie e entregas de dinheiro em mãos.
Os três núcleos
A acusação divide a estrutura em três núcleos:
- Político: Flávio Bolsonaro, apontado como líder.
- Operacional: Fabrício Queiroz, descrito como operador financeiro, e Miguel Ângelo Braga Grillo, chefe de gabinete acusado de atestar falsamente a frequência dos servidores.
- Executivo: 12 assessores que, segundo a denúncia, repassavam parte dos salários.
A conexão com Adriano da Nóbrega
A denúncia também situa Adriano da Nóbrega no núcleo executivo e atribui a ele a inserção da esposa e da mãe como assessoras no gabinete. Ex-capitão do Bope, Adriano havia sido denunciado pelo MP em 2019, na Operação Intocáveis, como integrante do chamado Escritório do Crime.
Adriano morreu em 9 de fevereiro de 2020, durante uma operação das forças de segurança na Bahia.
O documento recorda duas homenagens concedidas por Flávio a Adriano: uma moção de louvor, em 2003, e a Medalha Tiradentes, em 2005, quando o homenageado já estava preso, acusado de homicídio.
Segundo a denúncia, Queiroz e Adriano se conheceram em 2003, quando integravam a mesma guarnição do 18º Batalhão da Polícia Militar. Os dois também aparecem em um inquérito sobre o homicídio de Anderson Rosa de Souza, na Cidade de Deus.
Os números da acusação
Nas páginas 13 a 19, o MP apresenta os seguintes valores:
- Total que teria sido desviado: R$ 6.100.091,52.
- Repasses identificados a Queiroz: R$ 2.079.149,52.
- Saques identificados: R$ 2.154.413,45.
- Acesso estimado a dinheiro em espécie: R$ 4.233.562,97.
A acusação descreve três caminhos pelos quais os recursos teriam sido incorporados ao patrimônio da família: depósitos em espécie, pagamentos de despesas com dinheiro vivo e operações de compra e venda de imóveis.
O caminho dos imóveis
Copacabana, 2012
Dois apartamentos foram comprados em 27 de novembro de 2012, pelos valores declarados de R$ 140 mil, na Prado Júnior, e R$ 170 mil, na Barata Ribeiro. Segundo o MP, outros R$ 638 mil teriam sido pagos “por fora”, em espécie, a Glenn Dillard, procurador dos vendedores.
A acusação aponta que os preços declarados estavam cerca de 30% abaixo dos valores das compras anteriores, apesar da valorização do bairro. Nas revendas, os ganhos declarados teriam alcançado 293% e 237%. O documento registra ainda que a advogada do investidor americano estranhou os preços baixos e cita um e-mail em inglês sobre o “fechamento no HSBC” como elemento de apoio à tese acusatória.
Barra da Tijuca, 2014
O valor declarado foi de R$ 2,55 milhões, com financiamento de R$ 1.074.750 pelo Itaú. O vendedor afirmou que Flávio também depositou R$ 30 mil em espécie, de forma fracionada, para pagar por móveis, sem contrato.
Laranjeiras, 2011
O preço inicial do apartamento era de R$ 1.753.140 e chegou a R$ 2,26 milhões após a correção. Houve um acordo para conceder desconto de R$ 320 mil em razão do atraso da obra.
Impostos pagos em espécie
O MP aponta o pagamento de R$ 33.969,20 de ITBI referente às salas do Barra Prime, em 2010, sem identificar saque que desse lastro à despesa. Calcula também pelo menos R$ 18.845,14 de IPTU pagos em espécie em 2016 e 2017.
Peculato e lavagem de dinheiro
A denúncia organiza a acusação em 16 conjuntos de fatos. Entre eles estão:
- Peculato — fatos 2 a 12: um conjunto por assessor apontado como “fantasma”. Ao todo, o MP imputa o desvio de 1.803 pagamentos.
- Lavagem de dinheiro — fatos 13 a 16: a acusação reúne depósitos fracionados, quitação de despesas e operações imobiliárias.
Nos depósitos, o MP identifica 83 ocorrências na conta de Flávio, entre 2014 e 2018, e cinco na conta de sua esposa, Fernanda Bolsonaro, em abril de 2014. Registra ainda dez depósitos na conta de David Macedo Neto, em outubro e novembro de 2014.
Entre as despesas que teriam sido pagas com dinheiro desviado, estão 49 boletos da escola Ecran e 114 do plano de saúde Unimed Rio.
Já no caso dos apartamentos de Copacabana, comprados pelos valores declarados de R$ 140 mil e R$ 170 mil e revendidos por R$ 550 mil e R$ 573 mil, a tese do MP é que o pagamento da diferença “por fora”, por intermédio de Glenn Dillard, permitiu simular um ganho de capital de cerca de R$ 800 mil.
O encadeamento da acusação é esse: o desvio de salários alimentaria a circulação de dinheiro em espécie, que, por sua vez, seria usado para pagar despesas e adquirir patrimônio. É essa ligação entre a origem dos recursos e sua destinação que dá unidade aos fatos descritos pelo Ministério Público.
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Rui Ribeiro
19 de outubro de 2026 8:21 amLi uma matéria intitulada *”E se o seu dinheiro acabar antes de você”*, do blog De grão em grão, na Folha, na qual o autor defende que, enquanto não morrermos, devemos canalizar todos os nossos esforços e fazer os maiores sacrifícios possíveis para que o dinheiro não acabe antes que a gente morra, mas que a gente morra antes que o dinheiro acabe.
Só que o problema é justamente o dinheiro, não a falta dele.
O que ele está defendendo, no fundo, é que a gente prolongue a vida apenas para pagar boletos e mais boletos. Que a gente transforme a existência numa planilha de acumulação infinita, onde saúde, tempo, afeto e presente são sacrificados no altar do futuro.
E se não conseguirmos ser essa máquina perfeita de juntar grão em grão? A solução que ele oferece é perversa: que morramos antes que o dinheiro acabe.
É a lógica mais cruel do capitalismo tardio escancarada sem verniz: a vida não vale por si, vale pelo quanto de boleto ela consegue pagar. Se o saldo não fecha, não é o sistema que está errado, é você que viveu demais.
É exatamente o que o Dalai Lama avisou: perdemos a saúde pra juntar dinheiro, depois perdemos o dinheiro pra tentar recuperar a saúde. Vivemos como se nunca fôssemos morrer e morremos como se nunca tivéssemos vivido.
Não quero morrer antes do dinheiro acabar. Quero que o dinheiro sirva pra eu viver antes de morrer.
“O Preço do Amanhã
A pergunta correta a partir da provocação da Folha não é matemática, é existencial: quantos anos de vida você está disposto a assassinar hoje para comprar a promessa de um amanhã seguro?
A lógica da acumulação obsessiva propõe um pacto macabro. Ela exige que você sangre no presente, mutile seus desejos e transforme seus melhores anos em pura privação. Tudo para que, no leito de morte, você possa estampar um sorriso de orgulho diante de um extrato bancário obeso. É a vitória do saldo sobre o pulso.
Transformamos a prudência em uma patologia. Nessa engrenagem, o dinheiro deixa de ser o oxigênio que viabiliza a jornada e passa a ser o ídolo no altar onde sacrificamos o tempo, a saúde e o afeto. Adiamos a existência como se o tempo fosse um recurso acumulável, ignorando que cada hora economizada em nome do medo é uma hora sumariamente perdida. O dinheiro aceita o acúmulo; o tempo só aceita o desperdício ou o usufruto.
A ironia dessa matemática é perversa e definitiva: quem gasta a vida inteira construindo uma fortaleza contra a escassez do futuro termina por se trancar em uma cela de miséria emocional no presente. O risco real não é a conta zerar aos 80 anos; o risco real é descobrir, aos 80, que sua vida foi uma eterna sala de espera para um trem que nunca partiu.
Não se prega aqui o niilismo financeiro ou a inconsequência. Prega-se o fim da submissão cega. Guardar tudo para um amanhã hipotético é uma aposta arrogante contra a imprevisibilidade da biologia.
Morrer antes do dinheiro acabar não é uma estratégia de sucesso; é apenas um erro de cálculo que mascara uma vida vazia. Se a sua segurança financeira custa a sua vivacidade presente, você não está comprando independência. Você está financiando o seu próprio cativeiro.
Li a matéria – “E se o seu dinheiro acabar antes de você?”-, publicada no blog “De grão em grão”, da Folha, e fiquei com uma pergunta: e se, na obsessão de não deixar o dinheiro acabar antes da vida, a gente acabar com a vida antes de conseguir vivê-la?
A recomendação é canalizar todos os esforços, fazer os maiores sacrifícios possíveis e acumular o suficiente para que a morte nos encontre com dinheiro sobrando.
Mas o problema talvez esteja justamente aí: **fizemos do dinheiro a finalidade da vida, quando ele deveria ser apenas um dos meios de vivê-la.**
Nessa lógica, sacrificamos o presente para financiar o futuro, a saúde para garantir a aposentadoria, o tempo com quem amamos para engordar o patrimônio. Adiamos viagens, prazeres, encontros e sonhos como se a vida fosse uma dívida a ser quitada antes que nos fosse permitido desfrutá-la.
E se o futuro não chegar como planejamos? E se a saúde faltar antes da aposentadoria? E se, depois de décadas economizando para viver com tranquilidade, descobrirmos que já não temos a disposição, as pessoas ou o tempo que tornariam essa tranquilidade valiosa?
A ironia é brutal: podemos passar a vida inteira tentando garantir que o dinheiro não acabe antes de nós e terminar sem ter vivido o suficiente para justificar tanto sacrifício.
Não se trata de defender a irresponsabilidade financeira, ignorar a longevidade ou desprezar a importância de poupar. Trata-se de questionar uma mentalidade que transforma a prudência em privação permanente e faz do saldo bancário a medida silenciosa de uma vida bem-sucedida.
**Não quero morrer antes que o dinheiro acabe. Quero evitar que a obsessão por não ficar sem dinheiro me faça desperdiçar a vida enquanto ainda a tenho.**
Porque, no fim, o dinheiro que não foi usado para viver pode até permanecer na conta. Mas o tempo gasto para acumulá-lo não volta.
E há uma tragédia maior do que o dinheiro acabar antes da gente: **a gente chegar ao fim sem que a vida tenha começado de verdade.**
“Quando o último rio secar, a última árvore for cortada e o último peixe pescado, Os Bostonaristas vão finalmente entender que dinheiro não se come”.
Rui Ribeiro
19 de outubro de 2026 10:32 am“O seu dinheiro é por fora sempre. Não está na sua conta, está sempre em outro lugar”, Flávio Bostonaro, ao ser desafiado por Lula a abrir os sigilos telefônico e bancário.
O dinheiro do Flávio Bostonaro, ao contrário do dinheiro do Lula, não é por fora SEMPRE, só excepcionalmente. O $ujeito é tapado. E não esperem ele abrir a conta nem o telefone, pois ele sabe o que fez no verão passado.