O candidato Flávio Bolsonaro mente sobre os Fundos de Pensão
por Guilherme Lacerda e Ricardo Berzoini
O candidato Flávio Bolsonaro mentiu desavergonhadamente na entrevista concedida à Renata Lo Prete na TV Globo ao afirmar que os fundos de pensão PREVI, ligado ao Banco do Brasil e FUNCEF, ligada à Caixa, fizeram aplicações com o banco do amigo dele, Daniel Vorcaro. Essa foi uma dentre as inúmeras farsas que assumiu com a cara mais lavada.
Não investiram. Nem os dois e nem nenhuma outra Entidade Fechada de Previdência Complementar, os conhecidos Fundos de Pensão, tinha aplicação no Banco Master. É isso que informa a PREVIC, órgão regulador e fiscalizador das 265 entidades do sistema. Os Fundos de Pensão administram recursos dos empregados de empresas públicas e privadas e também os da FUNPRESP (previdência complementar dos servidores federais). Atualmente, o conjunto destas entidades administra mais de R$1,3 trilhão e paga anualmente cifra superior a R$100 bilhões de benefícios. É claro que pelo tamanho que possuem seria de se esperar que o setor fosse alvo de ataque do banqueiro.
Mas ele quebrou a cara. A previdência complementar fechada no Brasil tem uma governança exemplar. As normas em vigor e o padrão de acompanhamento dos planos previdenciários feitos pela PREVIC seguem as melhores técnicas internacionais. A ABRAPP é a entidade corporativa conceituada que representa o setor. O sistema prioriza a formação profissional com cursos e treinamentos para os gestores e fóruns permanentes de interlocução para se aprimorar a governança dos ativos e passivos administrados.
A desfaçatez do candidato em afirmar que houve aplicação é mais uma calúnia na linha da doutrina Stevie Bannon, de mentir, mentir e mentir para confundir e criar narrativas.
A liquidação do Banco Master, precedido da comprovação das dificuldades que se acumularam, levou a fortes perdas para empresas e pessoas físicas. E impactou com exigências superiores a R$ 40 bilhões o FGC – Fundo Garantidor de Créditos, criado em 1995 para proteger as aplicações de até R$250 mil.
O fato nu e cru, comprovado, é que o Sr. Vorcaro encontrou caminho aberto para levantar uma quantia espantosa de recursos de previdências dos funcionários de estados e prefeituras. Ali sim ele fez a festa. Pegou grandes recursos dos empregados e deu generosos presentes a torto e a direito para o pessoal que estava abrindo os caminhos. As estimativas informam que tais saques de servidores implicaram em rombo de mais de 2 bilhões de reais. É isso que mostra as investigações da PF e relatórios do BACEN.
Também nos Bancos públicos federais o banqueiro não conseguiu colher de chá para saciar sua megalomania financeira com dinheiro dos outros. Nenhum deles concedeu empréstimos ao Master. Na Caixa a solicitação de tomar R$ 500 milhões tramitou e foi vetada por diligentes funcionários da área de risco. Qualquer afirmação contrária a esta, feita para confundir, é rigorosamente mentirosa e precisa ser rechaçada por todas as pessoas de bem deste país.
Essa realidade de seriedade nos fundos de pensão e nos bancos federais destoa do que aconteceu com o BRB, que fez negócios vultosos com o Banco do Sr. Vorcaro. As estimativas do rombo chegam a mais de R$12 bilhões que foram sacados de forma irregular do Banco, com o beneplácito de sua diretoria e do governo do Distrito Federal. A atual candidata a governadora e então Vice Governadora era ativa na condução da gestão governamental junto com o titular, Ibaneis Rocha. Agora, alega que não tem nada a ver com o ocorrido e tem o despautério de defender que o governo federal participe da salvação do Banco, utilizando dinheiro público.
A ousadia irresponsável do candidato em fazer afirmações como estas relacionadas aos fundos de pensão mostram a sua personalidade doentia.
Quem vai pagar o prejuízo que os servidores públicos de estados e municípios tiveram em suas reservas bancárias?
A falência do Banco Master revela o risco que se corre nas instituições financeiras e nas entidades previdenciárias. Todas as suas repercussões econômicas e políticas impõem a necessidade de se fortalecer estruturas de regulação e fiscalização de todo o sistema financeiro e da poupança administrada por entidades próprias. A afinidade de comportamentos e a proximidade pessoal do candidato com o candidato não pode ser minimizada. Ele lança, sem pejo, uma mentira sobre os investimentos de fundos de pensão; com isso ele mostra mais uma vez o risco que a sociedade brasileira corre se esse grupo político de relações perigosas chegar novamente ao poder.
A sociedade brasileira não pode aceitar tal situação. E os funcionários dos bancos federais e todos os associados na ativa ou já aposentados dos fundos de pensão ligados a eles precisam ter clareza do risco que correm neste momento.
Portanto, vamos nos empenhar em mostrar a verdadeira face deste candidato que quer restabelecer o processo de abusos, de desmonte do setor público e de entrega do país iniciado por seu pai.
Guilherme Lacerda, doutor em Economia (Unicamp), mestre em Economia (IPE-USP). Foi presidente da Funcef (2003-2010) e diretor do BNDES (2012-2015). Autor do livro “Devagar é que não se vai longe – PPPs e Desenvolvimento Econômico”, publicado pela Editora LetraCapital.
Ricardo Berzoini foi ministro da Previdência, das Comunicações e de Relações Institucionais. Ex-deputado federal. Aposentado do Banco do Brasil.
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