Anticlericalismo, por Fernando Nogueira da Costa
O anticlericalismo é definido fundamentalmente como oposição à interferência do poder religioso na sociedade civil e no Estado, e não simplesmente como oposição à religião ou à fé. O verbete a respeito foi escrito pelo historiador italiano Guido Verucci, encontra-se em BOBBIO, Norberto; MATTEUCCI, Nicola; PASQUINO, Gianfranco. Dicionário de Política. 11ª ed. Brasília: Editora Universidade de Brasília, 1998.
Nesta fase pré-eleitoral, é importante conhecer seu significado político. Segundo Verucci, o anticlericalismo reúne ideias e comportamentos críticos em relação ao clero, ao clericalismo e ao confessionalismo, especialmente quando autoridades religiosas procuram estender sua influência institucional sobre o Estado e a sociedade.
Cabe fazer as distinções fundamentais entre Religião (sistema de crenças, valores e práticas espirituais), Clericalismo (pretensão de autoridades ou organizações religiosas de exercer influência ou domínio sobre instituições políticas e civis), Anticlericalismo (reação crítica a essa pretensão, defendendo a autonomia da política diante da autoridade religiosa), Laicismo (princípio político de separação entre o Estado e as confissões religiosas, com garantia de liberdade de consciência).
O anticlericalismo, portanto, pode ser defendido tanto por ateus quanto por pessoas religiosas. Ambos devem rejeitar a utilização da fé como instrumento de poder político.
Quanto à sua origem e evolução histórica, identifica-se três grandes momentos.
Primeiro, surgiu da crítica religiosa ao próprio clero. Desde a Idade Média, surgiram críticas à corrupção, à riqueza, à hipocrisia e ao comportamento de autoridades eclesiásticas, consideradas distantes dos princípios evangélicos. Assim, o anticlericalismo também teve origens cristãs.
Segundo, emergiu durante o Iluminismo e a Revolução Francesa. A crítica racionalista ampliou o questionamento da autoridade religiosa sobre a política. No século XIX, o anticlericalismo tornou-se um movimento de massas em países predominantemente católicos, defendendo o casamento civil, a educação laica e a liberdade de consciência.
Terceiro, apareceu a diferenciação ideológica. Surgiram anticlericalismos liberais, democráticos, radicais, socialistas, anarquistas e até católicos e protestantes. O fenômeno não pertence exclusivamente à esquerda nem pressupõe ateísmo.
Anticlericalismo não implicar necessariamente em ateísmo. Este é, em seu sentido mais amplo, a ausência de crença na existência de divindades. A palavra vem do grego clássico atheos, com significado de “sem Deus”.
Ateísmo prático refere-se a uma postura de indiferença religiosa, onde a pessoa vive o dia a dia de forma materialista, sem levar em conta a transcendência, mesmo sem fazer uma negação teórica formal. Ateísmo filosófico envolve argumentos racionais, científicos e críticos elaborados por pensadores, como os filósofos iluministas, contra a ideia de seres sobrenaturais. Por exemplo, a impossibilidade lógica de haver um ser ao mesmo tempo onipresente, onipotente e onisciente, porque se ele previr o futuro perderá o poder de o alterar.
| Conceito | Objeto principal | |
| Ateísmo | Não crença na existência de divindades | |
| Anticlericalismo | Crítica ao poder político e social do clero | |
| Laicidade | Autonomia do Estado perante as religiões e igualdade de direitos entre crenças | |
| Antirreligiosidade | Oposição à própria religião, suas doutrinas ou práticas | |
Verucci também reconhece uma contradição histórica: movimentos anticlericais em defesa da liberdade acabaram, em determinadas circunstâncias, recorrendo à intolerância, à perseguição e a intervenções estatais contra instituições religiosas.
Aplicando o conceito ao debate brasileiro atual, é possível distinguir a participação democrática de religiosos na política da tentativa de subordinar o poder público à autoridade de dirigentes religiosos.
Uma igreja, seja católica, seja evangélica, ao organizar assistência social, reunir fiéis, participar de debates públicos ou apoiar candidatos está exercendo atividades compatíveis com uma sociedade democrática. Outra questão surge quando uma liderança reivindica autoridade religiosa para impor obediência eleitoral, restringir direitos de outras crenças ou obter privilégios estatais.
Nesse contexto, defender a laicidade não significa combater os evangélicos ou os católicos. Significa preservar a liberdade religiosa, inclusive a liberdade de cada fiel para discordar politicamente de seu pastor ou sacerdote.
Essa distinção também é importante para o apólogo A Lulista e o Pobre de Direita (https://www.viomundo.com.br/politica/fernando-nogueira-da-costa-a-lulista-e-o-pobre-de-direita.html): a personagem Luliana pode reconhecer o papel de acolhimento social da igreja, frequentada pelo motorista, e, simultaneamente, defender a autonomia de sua consciência política.
A principal contribuição do verbete de Guido Verucci é demonstrar o anticlericalismo ter nascido de conflitos históricos entre autoridade religiosa, sociedade civil e poder político, assumindo diferentes orientações ideológicas.
Sua expressão democrática mais consistente é a defesa da laicidade do Estado e da liberdade de consciência, sem transformar a crítica ao poder clerical em hostilidade contra os fiéis. Em uma frase: o anticlericalismo democrático não combate o direito de alguém seguir sua religião; combate sim a pretensão de transformar a autoridade religiosa em autoridade obrigatória sobre todos os cidadãos.
A interferência do evangelismo na política brasileira é marcada por um expressivo crescimento demográfico, pela consolidação de uma bancada parlamentar influente e pela forte atuação em pautas de costumes e disputas eleitorais. Os evangélicos representam cerca de 26% a 33% da população brasileira, com forte presença de vertentes pentecostais e neopentecostais, especialmente nas periferias.
A “bancada evangélica” no Congresso Nacional é uma articulação política formal e ganhou força desde a Assembleia Constituinte de 1987-1988. Hoje, conta com dezenas de deputados federais e senadores organizados em defesa de pautas específicas, em geral, conservadoras diante das pautas identitárias (ou políticas de identidade). São reivindicações e pautas de luta voltadas para grupos sociais específicos, porque compartilham características ou experiências de opressão e marginalização, como raça, etnia, gênero, orientação sexual, religião ou deficiência física.
A atuação legislativa e ideológica concentra-se em pautas conservadoras, como a oposição ao aborto, a defesa de uma concepção tradicional de família e pautas comportamentais. Infelizmente, em campanha eleitoral no Brasil, deixou-se de discutir programa econômico e só se debate a agenda de costumes.
Nas eleições recentes (como em 2018 e 2022), o eleitorado evangélico teve papel central na condução de candidaturas de direita e extrema-direita, destacando-se o apoio expressivo ao clã miliciano Bolsonaro, embora o segmento não seja homogêneo. Esse alinhamento eleitoral provoca polarização e tensões nos debates atuais.
Há contradição com o uso político dos templos. Pesquisas do Instituto de Estudos da Religião (ISER) apontam a grande maioria dos fiéis (cerca de 82% a 90%) rejeita campanhas eleitorais, discussões partidárias ou orientações de voto feitas por pastores dentro dos templos. Há progressivo desgaste das lideranças: especialistas e levantamentos indicam um desgaste de parte do eleitorado em relação à instrumentalização política excessiva da fé, gerando divisões internas nas comunidades religiosas.
Diante do peso desse eleitorado, partidos e figuras de diferentes espectros políticos — incluindo o presidente Luiz Inácio Lula da Silva — buscam aproximações cuidadosas com o segmento evangélico. Tentam evitar tanto a pecha de instrumentalização da religião quanto o distanciamento de pautas sociais e familiares.
Fernando Nogueira da Costa – Professor Titular do IE-UNICAMP. Baixe seus livros digitais em “Obras (Quase) Completas”: http://fernandonogueiracosta.wordpress.com/ E-mail: [email protected].
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