E daí? Eu não sou trabalhador de aplicativo, por Daniele Barbosa
Foi com grande espanto que assisti à cena em que o candidato Flávio Bolsonaro se reuniu, às vésperas do segundo turno, em São Paulo, com os entregadores em plataforma digital. Vestindo um colete usado pelos entregadores em aplicativo e comendo pizza com eles, Flávio tenta se aproximar da categoria, às pressas, com uma mensagem fácil de decodificar: sou um de vocês! Será mesmo? Por que, então, Flávio está sempre se manifestando contrariamente às conquistas trabalhistas? Somente recuando, por meio de manobras eleitoreiras, quando é preciso forjar um compromisso, que nunca teve, com a classe trabalhadora. Lula, ao contrário, sempre teve um projeto de sociedade voltado para a inclusão dos trabalhadores. E isso a gente não pode negar, mesmo aqueles que não gostam do presidente.
Lula acaba de lançar, inclusive, um projeto que contemplará um aplicativo nacional, público, com a cobrança de uma taxa que poderá chegar, ao máximo, a 10%, para que os motoristas e para que os entregadores tenham uma alternativa à exploração da Uber, da 99 e do iFood.
Como o meu trabalho sempre foi voltado para a escuta das trabalhadoras e dos trabalhadores em plataformas digitais, em articulação com a análise de como operam as instituições no Brasil para a produção da maximização da precariedade desta parcela da população, venho fazer um apelo público, neste momento crítico das eleições, convocando todos, principalmente aqueles que atuam na área trabalhista, para defenderem a nossa democracia, a nossa soberania e condições de trabalho dignas.
A esquerda precisa avançar mais nas pautas trabalhistas? Não há a menor dúvida de que sim! E é o que os trabalhadores em aplicativo e nós, comprometidos com o Direito do Trabalho, vamos cobrar do governo Lula 4. Mas, com o Flávio eleito, não teremos nem mesmo as condições de possibilidade para qualquer cobrança desse tipo.
Será que já nos esquecemos do pronunciamento debochado, feito por Jair Messias Bolsonaro, quando ocupava a presidência de um país, durante a Covid? Diante das inúmeras mortes causadas, principalmente, pela irresponsabilidade dele em providenciar as vacinas, em não acatar as recomendações da Organização Mundial de Saúde (OMS), enquanto as famílias sofriam pela perda dos seus entes queridos, ele disse: E daí? Eu não sou coveiro.
Por saber da falta de compromisso dos Bolsonaros com a classe trabalhadora, fico pensando que, se Flávio for eleito e se os trabalhadores em aplicativo forem buscar alguma ajuda dele, lembrando daquela confraternização que tiveram em São Paulo, será que ele não dirá, atualizando a violenta declaração do pai:
E daí? Eu não sou trabalhador de aplicativo.
Daniele Barbosa é autora do livro “A precariedade politicamente induzida e o empreendedor de si mesmo no caso Uber” (Lumen Juris, 2020). Idealizadora e coordenadora do projeto “Trabalhadores de Apps em Cena” (2021/2022). Coordenadora da série “Escute o recado de…” com o jurista Márcio Túlio Viana (2026). Foi professora de Direito do Trabalho na UERJ e convidada na pós-graduação de Direito do Trabalho e Previdenciário (CEPED/UERJ). Foi Conselheira no Conselho Mídia e Democracia (FGV). Integrante do GT ¿Qué trabajo para qué futuro? (CLACSO), do grupo de pesquisa O Direito Achado Na Rua (UnB) e do Coletivo Trabalhadores de Apps em Cena (@trabalhadoresdeappsemcena).
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