Vitória histórica de Lula, do povo e da juventude, por Aldo Fornazieri
Foi uma vitória histórica de Lula, do povo e da juventude. O impossível foi buscado para conquistar o possível. Foi uma vitória da liberdade, dos direitos, da justiça, da igualdade e da democracia. Foi a vitória do meio ambiente, da paz e da esperança de construir um futuro melhor.
Foi a vitória contra o golpismo, contra o crime organizado, contra os milicianos, contra a mentira, contra a hipocrisia, contra a imoralidade, contra a corrupção, contra o neofascismo, contra os predadores do meio ambiente das riquezas nacionais, contra as big techs. Foi uma vitória das mulheres, dos negros, dos pobres, dos povos indígenas, das periferias, dos idosos, dos humilhados, dos desamparados dos doentes e da dignidade das pessoas. Foi uma vitória da educação, da Ciência, da Saúde, do Estado laico, do pluralismo religioso, do multiculturalismo e da diversidade étinica.
Foi a vitória da energia, do entusiasmo, da paixão, da vibração, da virtude, do amor e do calor da juventude. Foi uma vitória de Janones, o maior general da campanha, o maior cabo eleitoral que o Lula já teve em todas as suas campanhas. A conexão entre a energia espontânea das ruas e a energia das redes comandadas por Janones produziu essa explosão anímica de entusiasmo que produziu uma vitória extraordinária.
No artigo “O Povo Toma a Campanha em suas Mãos” chamei a atenção sobre a potência avassaladora que mobilizações espontâneas desencadeiam. A queda da Bastilha, em 1789, foi produzida por uma mobilização espontânea, sem liderança central pré-organizada. As massas tomaram a fortaleza-prisão que simbolizou a queda da monarquia francesa.
Em 1974, um levante militar espontâneo de jovens oficiais, que se conectou com a mobilização espontânea das massas na rua, produzindo a Revolução dos Cravos e a queda da ditadura portuguesa. Em 1989, após semanas de protestos populares, multidões de berlinenses orientais e ocidentais se reuniram espontaneamente e, por enorme pressão humana, puseram abaixo do Muro de Berlin.
As mobilizações espontâneas ocorrem quando inexistem lideranças no contexto de acontecimentos graves ou quando as lideranças existentes são omissas e incompetentes. Foi isso que aconteceu no segundo turno: milhões de pessoas saíram as ruas para derrotar o bolsonarismo e dar a vitória a Lula.
Poderíamos citar, ainda, como exemplos, o início da campanha das Diretas Já, a Marcha sobre Washington por Trabalho e Liberdade em 1963, a Primavera Árabe e o movimento, Black Lives Matter mais recentemente. Não se pode duvidar da potência da vontade das multidões quando elas decidem agir.
Também não se pode duvidar da capacidade de líderes idosos de conectar-se com a energia das massas, quando as outras lideranças falham ou inexistem. Foi isso o que Lula fez no segundo turno, depois de perceber que a campanha do primeiro turno foi a mais desorganizada de todas as que ele participou.
Exemplos históricos não faltam. Em 1940, Churchill, com 65 anos, assumiu o comando da Inglaterra no pior momento da Segunda Guerra Mundial e, com discursos poderosos e firmeza estratégica, unificou a população na luta contra o nazismo. Nelson Mandela, depois de passar 27 anos na prisão, liderou difíceis negociações para pôr fim ao apartheid e eleger-se como primeiro presidente negro na África do Sul aos 75 anos, em 1994. Mahatma Ghandi, com idade avançada, conduziu a luta pela independência da Índia do domínio do Império Britânico, conquistada em 1947, quando o líder tinha 77 anos. O Cacique Raoni, com mais de 90 anos, ainda e um dos maiores líderes indígenas do Planeta e está na vanguarda da defesa da Amazônia, dos povos originários e do meio ambiente.
Lula, em 2022, com 77 anos, e em 2026, com 81 anos, precisou colocar-se à frente de disputas eleitorais para derrotar o golpismo do bolsonarismo e garantir a democracia. O campo democrático, progressista e de esquerda precisa se perguntar acerca da razão de não existirem lideranças nacionais significativas capazes de empalmar a tarefa de comandar tão difícil tarefa na luta pela democracia, direitos e liberdade.
Os jovens que foram às ruas no segundo turno precisam se inspirar nesses líderes históricos e nos exemplos de suas lutas, de sua dedicação e coragem para comandar multidões, liderar batalhas e construir vitórias. Esses jovens precisam saber que somente nas lutas dos povos se forjam lideranças autênticas. Precisam saber que após as mobilizações espontâneas é necessário construir organizações para que aquela energia das mobilizações não se dissipe e se evapore.
Esse foi o mal que acometeu tantos desses movimentos maravilhosos que fizeram brilhar um sol intenso em poucos dias na história e, depois, o céu se tornou novamente cinza com a restauração das velhas dominações. Foi mais ou menos isso o que aconteceu com a Primavera Árabe, com os Indignados de Madri e com tantas outras mobilizações.
Lula não recebeu um cheque em branco dos jovens e do povo que foram às ruas para garantir a vitória. No discurso que fez no domingo à noite, após as eleições, Lula reconheceu que se tornou devedor das ruas, das massas do asfalto. Os milhões que foram as ruas também sabem que são devedores de Lula, que buscaram a vitória para homenageá-lo e honrá-lo pelo que fez. Essas dívidas de mão dupla sacramentam um mútuo compromisso de produzir um novo tipo de governo. Um governo que seja permeado e penetrado pelas forças que vêm das ruas.
Neste momento de descompressão de tensões, angústias e ansiedades, neste momento de euforia, não dá para esquecer que enormes desafios e perigos estão logo ali. As vitórias costumam apagar erros e diluir responsabilidades. Desta vez não pode ser assim. Por pouco, o Brasil quase caiu nas mãos do neofascismo e do crime organizado. Não dá para esquecer que o bolsonarismo continua vivo e forte. Não dá para esquecer que a extrema-direita avançou na América Latina e no mundo. Não dá para esquecer os erros que foram cometidos pelo governo e pela campanha.
É uma enorme consagração e honra para Lula ter sido eleito presidente democraticamente por quatro vezes. Ele precisa medir essa consagração pelo metro de suas responsabilidades para com o povo e para com o Brasil. Que a arrogância desça a rampa do Palácio do Planalto e saia dos cômodos gabinetes brasilienses. E que o senso de responsabilidade, recordando Weber, seja a estrela polar, o guia absoluto, a conduzir Lula e os demais dirigentes do futuro governo.
Aldo Fornazieri – Professor da Escola de Sociologia e Política e autor de Liderança e Poder.
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