A propósito de pontuação 3, por Walnice Nogueira Galvão
No caso de Guimarães Rosa, contamos com a correspondência trocada com os tradutores: trata-se de uma preciosidade extremamente rara. Os tradutores são na maioria do Grande Sertão: Veredas, que é a obra mais traduzida – mas há exceções muito honrosas que serão devidamente apontadas.
Mais raro ainda é o próprio tradutor publicar as cartas. É o caso de Edoardo Bizzarri, que foi um tradutor excepcional, tendo levado a cabo a versão para o italiano de Grande sertão: veredas, Corpo de baile, Sagarana e Primeiras estórias . Nisso, só é comparável ao tradutor alemão, Curt Meyer-Clason. Bizzarri, um homem culto especialista em Dante que vivia no Brasil e era amigo de nosso autor, foi diretor do Instituto Cuotual Italo-Brasileiro. O resultado foi notável, tanto nas cartas quanto na tradução. É bom lembrar que Guimarães Rosa nunca criou qualquer obstáculo para a publicação nem de suas cartas, nem de suas obras.
De modo geral, é admirável seu afinco, que ia a extremos para melhorar – e com isso controlar – a tradução: não tinha preguiça, não se furtava à labuta, inventava soluções novas que o original não comportava, fazia croquis e pequenos desenhos se isso ajudasse….
Pode-se aquilatar o desespero dos tradutores: ler Guimarães Rosa não é fácil, imaginem traduzir…
Não podemos esquecer que ele era um poliglota de talento e, segundo meu levantamento, sabia grego clássico, latim, francês, inglês, alemão, espanhol, italiano. Até aí, tudo normal para uma pessoa culta. Mas sabia também – embora mais como estudioso dos mecanismos de funcionamento do que como falante, como ele mesmo diz – tupi, chinês, persa, húngaro, japonês, árabe, hindi, holandês, servo-croata, malaio, russo, sânscrito, lituano, hebraico, finlandês, dinamarquês, sueco. Não lhe escapou nem sequer uma língua artificial, o esperanto, que andou visitando. E, se duvidarmos e acharmos que 25 línguas é um exagero, fui a seu discurso de formatura na Faculdade de. Medicina de Belo Horizonte (turma de 1930) e lá achei muitas citações digamos “normais” em francês, latim, russo, grego e italiano. Mas também há, supreendentemente, uma citação em… eslovaco! Os ouvintes devem ter caído de costas… Como isso foi em 1930 e ele nunca parou de estudar novas línguas, o repertório foi-se formando de maneira crescente.
Afora a correspondência com os tradutores, há dois acervos importantes publicados.
O primeiro consta do livro da autoria de seu tio Vicente Guimarães, que escrevia para crianças com o pseudônimo de Vovô Felício, Joãozito: Infância de Guimarães Rosa (1972). O tio, o que acontecia com frequência nas famílias de prole numerosa, era só ligeiramente mais velho que o sobrinho, e assim foram companheiros de folguedos infantis e de vida, o que aumenta sua importância como testemunha. Ao iniciar seus estudos em Belo Horizonte, nosso autor foi morar em sua residência. Traz 10 cartas – poucas, se comparadas às do livro da filha. Mas uma delas, de várias páginas, é de uma relevância extraordinária, porque seu autor se coloca no seio da literatura contemporânea e desfere um veemente ataque ao Regionalismo, que nunca assumiria em público.
O segundo foi publicado pela filha Vilma Guimarães Rosa, no livro Relembramentos: Guimarães Rosa, meu pai (1983), que traz cerca de 70 cartas, de imenso valor porque ao círculo familiar mais íntimo, aos pais, às filhas, à primeira esposa Lygia Cabral Penna, a parentes próximos. Mas também a colegas da carreira diplomática e a outros escritores. Recobrem mais ou menos a parte inicial da vida profissional de Guimarães Rosa, ou seja, até a opção pela diplomacia.
Ainda há inéditos da correspondência ativa e passiva no Fundo Guimarães Rosa do Instituto de Estudos Brasileiros (IEB-USP), que podem ser lidos mas não publicados sem permissão dos herdeiros
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O estudo contrastivo dos acervos de Guimarães Rosa e de Euclides da Cunha enquanto missivistas permite algumas conclusões interessantes.
E em primeiro lugar posta-se a seguinte: o uso da pontuação que esses dois escritores fazem em seus textos não é o mesmo que fazem em suas cartas.
Essa é uma afirmação que exige ser trocada em miúdos, como se verá a seguir.
Walnice Nogueira Galvão é Professora Emérita da FFLCH-USP
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