28 de outubro de 2026

As cinzas e as chamas: da ofensiva política à ofensiva econômica, por Gustavo Livio

Presenciamos a História com H acontecer diante dos nossos olhos e já há alguns fatos desta campanha presidencial que merecem destaque.
Lula em São Miguel Paulista - 2026 - Foto de Ricardo Stuckert

A esquerda mobilizou um exército digital e de rua, com disciplina e pautas econômicas da classe trabalhadora.
A ofensiva política da esquerda forçou adversários a adotarem suas propostas, consolidando consenso social e debate público.
Para sustentar a vitória, é crucial transformar a mobilização em organização permanente e ofensiva econômica contra o neoliberalismo.

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As cinzas e as chamas: da ofensiva política à ofensiva econômica, por Gustavo Livio

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            Advirto desde logo que toda análise daqui em diante pode estar embriagada pela onda de calor dos últimos acontecimentos. Não é fácil escrever a quente. Mas é mais difícil ainda não escrever nada, porque é pela palavra que começamosa elaborar aquilo que sentimos, como sabem tão bem os psicanalistas.

            Presenciamos a História com H acontecer diante dos nossos olhos e já há alguns fatos desta campanha presidencial de segundo turno que merecem destaque. Comecemos pelo início: a gramática. O que ela nos revela é que a esquerda foi capaz de mobilizar milhões de brasileiros a partir da lógica da luta, do conflito e da batalha. Seus integrantes mobilizaram um… EXÉRCITO digital que atingiu a incrível marca de dez milhões de pessoas! Seus comandantes tinham patentes militares (general, marechal) e seus correligionários encarnavam o espírito da disciplina e se autonomeavam “soldados”.

            Esse exército ocupou as ruas e foi responsável pelos maiores atos políticos da história desse país. Mesmo diante dos boicotes da Meta, ocupou também as redes sociais e aprendeu a transformá-las em instrumentos de mobilização e disputa do debate público. Seus conteúdos bateram recordes de visualizações, suas hashtags se espalharam pelas plataformas e suas mensagens alcançaram a consciência e a imaginação de milhões de pessoas. E tudo isso a partir de uma ideia muito poderosa que parecia esquecida: nenhuma participação individual é pequena quando se reconhece como parte de uma força coletiva. Cada like, cada repostagem, cada bandeira empunhada, cada adesivo no peito, cada manifestação singular encontrou sua potência na trama simbólica que conectava milhões de indivíduos, convertendo identidades dispersas em pertencimento e ação coletiva. Estamos falando, portanto, de identidades coletivas que são antitéticas às propostas de “prosperidade individual” no estilo coach que vinham do outro lado (que tinha até a proposta de um Ministério da Prosperidade).

            A esquerda, que parecia ter abandonado a perspectiva militar, redescobre o valor da disciplina e do comando centralizado. Mas é muito mais do que isso: no fundo, redescobre o valor da LUTA, do embate, da ofensiva política. A vitória dessa ofensiva ficou muito clara já no debate da Rede Globo do dia 23.10.2026, quando o candidato adversário passou a sistematicamente endossar as propostas do Presidente Lula. Acuado pela ofensiva, Flávio passou a assumir compromissos históricos da esquerda como o aumento real do salário-mínimo, o desenvolvimentismo a serviço da integração nacional (integração das regiões por sistema ferroviário) e se arrependeu de ter votado contra a licença-maternidade quando era deputado estadual pelo Rio de Janeiro. Nesse mesmo movimento defensivo, havia votado a favor do fim da escala 6×1 quando, antes, havia manifestado ser contrário.

            Esse não é um mero detalhe. A verdadeira vitória de um movimento político é coroada quando seus adversários passam a validar as ideias que antes combatiam. Nesse momento, a controvérsia deixa de expressar uma disputa entre posições particulares e alcança uma dimensão universal. Mas esse reconhecimento não nasce da generosidade dos adversários, é conquistado pela força da mobilização coletiva. Pensemos no voto feminino, no sufrágio universal ou nos direitos trabalhistas. Houve um tempo em que todas essas conquistas estiveram em disputa. Mas quando essas ideias encontraram as massas, converteram-se em forças materiais capazes de transformar a realidade e produzir uma espécie de “pacificação forçada” do conflito, cristalizada em um novo consenso social juridicamente finalizado. Eis a dimensão mais profunda de uma vitória política: não apenas vencer uma disputa, mas constituir, pelo enfrentamento, o próprio consenso político. A votação no Senado com o placar de 75 x 1 sobre o fim da escala 6 x 1 é a ilustração perfeita do que quero dizer. Inúmeros senadores não concordavam individualmente com a proposta, mas votaram a favor dela diante do ambiente das ruas e das redes sociais.

            Há ainda mais um fato novo e histórico sobre a ofensiva desse exército. Sua tropa sagrou-se vitoriosa em uma arena que até então parecia tomada por seus adversários: as redes sociais. Mesmo com as comprovadas “falhas técnicas” da Meta, seus conteúdos bateram recordes de visualizações, likes e outras métricas do mundo informatizado. Essa foi, também, uma batalha digital. Porque se percebeu que a presença física, embora importante, não é necessária para disputar ideias. E aqui me arrisco a formular uma tese: a esquerda finalmente compreendeu que as redes sociais não são apenas espaços de circulação de ideias, mas verdadeiras arenas de conflito alimentadas pelo antagonismo, pela paixão, pelos afetos de medo e ódio e pela disputa permanente de narrativas. Logo, não faz mais sentido adotar tom pejorativo contra comunicadores digitais, chamando-os de “webcomunistas” ou coisas do gênero; afinal, o mundo digital não é um mundo à parte do mundo real, não é uma bolha. Em vez de lamentar essa lógica, a esquerda, diante do abismo, aprendeu a disputar esse terreno digital. Afinal, se havia uma batalha a travar, se milhões de pessoas estavam mobilizadas em um exército, que lugar melhor para transformar a indignação em mobilização e o conflito em engajamento do que o próprio campo de batalha das redes sociais? A esquerda redescobriu, enfim, que não basta denunciar o espetáculo, é preciso entrar em cena e disputar seu protagonismo com a finalidade de dissolvê-lo no longuíssimo prazo. Talvez Guy Debord esteja orgulhoso, talvez eu esteja ainda fazendo análises excessivamente dopaminérgicas.

            Estamos falando da gramática da luta e precisamos agora concretizar algumas coisas: quem luta, pelo que se luta e contra quem se luta? Parece muito claro que este não era um exército do Presidente Lula, era um exército da classe trabalhadora brasileira que teve como ponto de unidade a figura do maior líder popular de nossa história. E quais eram as pautas desse exército? Além da óbvia rejeição ao bolsonarismo, suas teses estavam conectadas fundamentalmente com a melhoria das condições materiais de vida da classe trabalhadora, ou seja, eram teses sobre economia política. Suas principais bandeiras foram o fim da escala 6 x 1, o passe livre nos transportes públicos, a defesa da renda dos mais pobres, programas contra o endividamento da população (como o Desenrola), o programa pé-de-meia, a defesa do SUS e de programas sociais como farmácia popular, aumentos no Bolsa Família, manutenção da política de aumento real do salário-mínimo e a defesa das aposentadorias e do BPC. As teses sobre populismo penal, de outro lado, não mobilizaram ninguém. Tudo isso indica cristalinamente que esse exército tinha uma classe social muito clara, como não poderia deixar de ser (embora a esquerda hegemônica tenha deixado de falar em classes sociais).

            E aqui podemos identificar o acerto de uma tese que já vinha sendo sustentada: a esquerda reencontra sua identidade perdida quando volta a empunhar com altivez as bandeiras que transformam concretamente as condições materiais de existência da classe trabalhadora. Essa é, afinal, sua missão histórica: fazer dos conflitos econômicos uma força de transformação social a serviço dos excluídos pelo sistema capitalista. Uma esquerda que abandona essas lutas não é digna de ser chamada de esquerda. E aqui há uma questão que é importante ressaltar: as propostas neoliberais a respeito da economia são extremamente impopulares. Os trabalhadores não desejam “negociar com o patrão”, não querem trabalhar 6 dias na semana e tampouco são favoráveis a “tesouraços” e cortes de gastos em programas sociais. Essas demandas continuam tão impopulares quanto sempre! O neoliberalismo pode ter conquistado governos, instituições e até o imaginário de parte da sociedade, mas jamais conseguiu eliminar as contradições materiais que alimentam a luta por uma vida melhor. Talvez a esquerda esteja finalmente redescobrindo o que nunca deveria ter esquecido: que os afetos políticos fundamentais são aqueles ligados às condições materiais de existência da maioria da população.

            Escrevi algo a respeito em junho de 2026 e cada dia que passa estou mais convencido do acerto desta tese: o programa de renascimento das esquerdas deve passar pela ofensiva contra o neoliberalismo: “Como todo movimento é marcado por aquilo que ele nega, uma economia política antifascista deve se comprometer com o enfrentamento ao neoliberalismo, e aqui está uma boa ideia para a renovação da gramática progressista: temos que ser antineoliberais para sermos antifascistas responsáveis. Isso significa que devemos nos empenhar em desnutrir as condições materiais e psíquicas que propiciam o surgimento das crises específicas de onde emergem os fascismos. São as necessidades materiais que movem os seres humanos e é a essa ideia que devemos conectar um programa de desenvolvimento econômico. Toda sorte de balela antidemocrática de teor neofascista é produto de muitos anos de estagnações e crises materiais responsáveis pela disseminação de um sentimento de descrédito nas instituições. As instituições estão carcomidas e, por isso, vivenciamos décadas de baixos indicadores de crescimento econômico, estagnação, desemprego e informalidade em massa enquanto as elites lucram como nunca. Há certa dose de realismo na visão antissistêmica que domina o pensamento neofascista e negligenciar esse aspecto é cair em um erro de principiante” (LIVIO, 2026).

            Dissemos quem compõe esse exército: a classe trabalhadora. Dissemos o que ela defende em essência: a melhoria concreta das condições de existência. Simbolicamente, essa tese pode ser confirmada pela última postagem do Presidente Lula antes das eleições: a publicação reverenciava Marx e, ao som de “Levanta e Anda” de Emicida, simbolizou os quatro dedos do Presidente com a bandeira do Brasil e a legenda dizia: “Trabalhadores e trabalhadoras do Brasil, uni-vos”. Em sua fala mais emblemática no debate, Lula disse que não aceitava ser chamado de 9 dedos porque era o único no recinto dos estúdios da Rede Globo que conhecia o mundo do trabalho; e que não aceitava ser chamado de 9 dedos por um GRANFINO que jamais trabalhou. Vejam as palavras usadas: trabalho, granfino, trabalhador, patrão… Essa foi a gramática dessa campanha.

            Destaque-se, então, o aspecto da Luta! Falamos em exército, soldados, generais, batalhas, bandeiras de luta. Mas essa não é uma luta qualquer, é uma luta de classes! Não poderia ser diferente, esse é um fato óbvio para qualquer pessoa que tenha um pingo de inspiração em Marx. Mas a esquerda hegemônica parece ter se esquecido de sua vocação lutadora e parecia ter relegado a perspectiva da luta de classes aos círculos acadêmicos. E talvez tenhamos redescoberto o que nunca deveríamos ter esquecido: que a luta de classes é o motor da história e nunca deixou de sê-lo. E que nossa identidade coletiva precisa ser resgatada nestes termos: a identidade da CLASSE trabalhadora, não do “povo” abstrato nem dos “pobres”. Porque falar em “classe trabalhadora” confere identidade coletiva à ampla maioria da população explorada que, com seu suor, sustenta pelo trabalho toda a sociedade. Precisamos voltar a mobilizar a gramática nestes termos porque este é o real fator de unidade deste exército que o coloca em oposição a outro exército bem menor, mas com armamento muito superior: a burguesia e seus arautos (os “granfinos”).

            A luta de classes nunca foi embora. Ela sempre esteve aí, ainda que dissimulada, nas disputas pelo orçamento público, pela autonomia do Banco Central, pelos cortes de gastos (austeridade fiscal) e pelas ideologias da meritocracia, do “empresário de si mesmo” e etc. O que desapareceu, nesses tempos sombrios, foi a capacidade da esquerda de defender seu programa com altivez, ou seja, de empreender ofensivas políticas. Sua “morte simbólica” enquanto força motriz do progresso histórico foi diagnosticada, sob diferentes perspectivas, por autores como Vladimir Safatle, Wendy Brown, Mark Fisher, Jones Manoel, Heribaldo Maia e tantos outros, entre os quais humildemente me incluo. E o diagnóstico tinha um fundamento comum: a morte da esquerda era, antes de tudo, a morte de sua capacidade de ofensiva política, sua capacidade de pautar os interesses reais da classe a quem representa. A esquerda havia se tornado, vejam só, conservadora! Décadas de hegemonia neoliberal fizeram com que ela passasse a operar dentro da própria lógica neoliberal. Já não questionava os tripés macroeconômicos ou os tetos de gastos: limitava-se a administrá-los. Já não promovia reestatizações, antes o contrário, privatizava. Já não era capaz de resistir às reformas da previdência e às reformas trabalhistas e muitas vezes as apoiava. Já não falava mais em “trabalhadores”, mas em “empreendedores de si”. Disse algumas páginas atrás que a vitória mais profunda de um movimento político se consuma quando seus adversários passam a agir segundo seus preceitos. Pois foi exatamente o que aconteceu: o neoliberalismo alcançou sua maior vitória quando a esquerda deixou de lado sua verve antissistêmica e passou a ser administradora desse modelo, ainda que em sua face “um pouco mais humana”. Sob a bandeira da “defesa das instituições”, passou a conservar aquilo que historicamente deveria revolucionar. A esquerda tornou-se conservadora precisamente porque renunciou à sua vocação de transformar a ordem existente. E isso não significa que o adjetivo “conservador” seja de todo pejorativo, muito ao contrário. Conservar os avanços da Constituição de 1988 contra a barbárie anunciada é fundamental. Mas uma esquerda que perde sua capacidade de mobilização deixa de existir como força histórica de transformação e então perde aquilo sobre o que estamos falando desde o início deste texto: a ofensiva política. Este era o diagnóstico de morte das esquerdas, as cinzas dessa força política incapaz de impedir o avanço desenfreado do neoliberalismo.

            Talvez estejamos testemunhando, neste século XXI, o chá revelação da potência política da classe que tudo produz e das esquerdas que a representam. Mais que isso: talvez estejamos assistindo (aguardemos!) ao nascimento de uma nova forma de fazer política e, com ela, de uma nova esquerda. Os diagnósticos sobre a morte da esquerda neoliberal nunca foram apenas atestados de óbito; eram, sobretudo, chamados à ressurreição, gritos para que a esquerda voltasse a introduzir na equação do poder sua maior força: as MASSAS organizadas como sujeitos políticos. Os governos precisavam convocar mais o povo para ampliar sua margem de manobra e tensionar a correlação de forças a seu favor. E talvez esteja aí a chave para uma nova forma de governar: a mobilização popular e a permanência desse exército digital, disposto a ocupar as ruas e disputar cada palmo das redes sociais, podem se tornar a viga mestra de um governo acuado por um Parlamento amplamente dominado pela oposição. Não sejamos ingênuos: as negociatas, as emendas parlamentares e a distribuição nada republicana de cargos e ministérios não desaparecerão. O presidencialismo de coalizão não morreu, mas talvez tenha finalmente encontrado seus próprios limites históricos: a negociação entre as cúpulas já não parece bastar para garantir a governabilidade, e então é preciso trazer as massas de volta à equação do poder. É por isso que, mesmo correndo o risco de estar excessivamente otimista, arrisco dizer que a transformação deste exército em organização popular permanente não é um detalhe, mas a própria condição para que esse governo não sucumba. E se é pela necessidade que se movimenta a política, que seja pela necessidade política que a esquerda renasça como força capaz de introduzir as massas no xadrez. Afinal, uma campanha pode vencer eleições mobilizando multidões, mas uma esquerda só reencontra sua razão de existir quando é capaz de transformar essas multidões em sujeitos permanentes da política. Do contrário, tudo isso terá sido apenas um extraordinário surto de entusiasmo eleitoral, uma explosão passageira de energia coletiva (histórica, sem dúvida!) incapaz de produzir transformações duradouras. E seria uma ironia cruel que a esquerda, depois de finalmente redescobrir a força das massas, voltasse a abandoná-las no dia seguinte à vitória.

            Já há algumas pistas sobre a transformação deste exército em algo permanente: primeiro, o próprio general André Janones falava em suas “lives” que esse exército deveria continuar mobilizado após as eleições. Outra pista é que o Presidente Lula já fala em criar uma Secretaria de Comunicação Digital. E há ainda mais uma pista que alimenta especialmente meu otimismo: seu caráter internacionalista. O Brasil deu aula para o mundo inteiro sobre organização política e estamos nos sentindo orgulhosos. O atual primeiro-ministro da Espanha, Pedro Sanchez, colocou o Brasil no centro do seu discurso e disse abertamente que quer se inspirar em nossa experiência para mobilizar a população a favor das pautas da esquerda. A Espanha é a “aldeia gaulesa” (lembram de Asterix?) da Europa e haverá eleições dia 29 de novembro. Parte do exército digital brasileiro já se mobilizou para apoiar o representante da esquerda naquele país. O mesmo acontece com a França, onde Melenchon já criou um exército semelhante. Talvez estejamos presenciando um momento de virada no internacionalismo digital de esquerda, talvez estejamos finalmente voltando a falar em massas, em classes. Ou talvez seja apenas eu que estou excessivamente otimista. O tempo dirá, mas que diga enquanto a mobilização se torna permanente!

            Disse que seria uma ironia cruel se a esquerda institucional vitoriosa nas urnas abandonasse as massas depois de redescobrir sua força. É preciso então criar um ambiente macroeconômico de melhorias gerais para a classe trabalhadora capaz de corresponder à campanha histórica de mobilização. Como fazer isso? Abandonando, tanto quanto possível, as práticas neoliberais de condução da política econômica. A ponta de lança desse governo conectado com as massas deveria ser a revogação do Novo Arcabouço Fiscal, norma jurídica que impede a mobilização do gasto público a serviço de boa parte das promessas de campanha. Ainda que não seja possível revogar totalmente o Arcabouço (afinal, a oposição domina o parlamento), pode ser possível abrir algumas brechas. Uma ideia pode ser retirar algumas despesas do teto, como despesas de investimento em infraestrutura, tal como proposto por Elias Jabbour (deputado federal recém-eleito). Mas há coisas que não dependem do Parlamento, como o aumento real do salário-mínimo e a revisão das metas de inflação, com a consequente diminuição das obscenas taxas de juros brasileiras.

            É importante cobrar que se governe como a campanha foi ganha. Se ela foi ganha com uma ofensiva política, que se governe com uma ofensiva econômica para garantir aquilo que mobilizou a classe trabalhadora ao redor dessa já histórica campanha popular. Mas mal se encerraram as eleições e o mercado financeiro já se reorganiza para exigir mais um ajuste fiscal. Os grandes conglomerados de mídia repercutem a velha cantilena da inevitabilidade dos cortes, enquanto o próprio ministro da Fazenda, Dario Durigan, anuncia novas medidas de ajuste. Só se esquecem que esse não foi o programa vitorioso, foi o programa derrotado! Quem prometeu tesouraços foi Flávio Bolsonaro. Ajustes fiscais não são “exigências técnicas”, são escolhas políticas. E aqui há uma contradição que não pode passar despercebida: a mobilização popular que marcou estas eleições se construiu, em larga medida, precisamente contra a ameaça de cortes nos direitos e programas sociais. Se essa mobilização foi histórica, seria então uma ironia igualmente histórica que a energia política despertada em defesa das condições de vida dos trabalhadores terminasse subordinada aos mesmos imperativos econômicos que ajudou a combater. Os interesses do mercado financeiro não são os interesses nacionais e isso já deveria estar muito claro. É aqui que a ofensiva política precisa encontrar sua expressão mais concreta: uma ofensiva econômica capaz de disputar não apenas o orçamento público, mas também o próprio conteúdo das políticas fiscal e monetária. É hora de recolocar no horizonte a expansão do SUS, o fortalecimento das universidades públicas e, por que não, a construção de um Programa de Garantia de Emprego que garanta um número significativo de empregos diretos às pessoas desempregadas. Não se trata de ignorar a ampla maioria da oposição no Congresso, mas de recusar que a austeridade seja apresentada como destino inevitável acima de qualquer deliberação democrática. Afinal, a disputa pelo orçamento é também uma disputa sobre quem deve suportar os custos e colher os frutos da organização econômica.

            A esquerda não pode reencontrar sua força nas ruas para voltar a perdê-la nas planilhas. Se a mobilização popular não for capaz de se traduzir em transformações materiais nas condições de existência da classe trabalhadora, toda essa extraordinária ofensiva política correrá o risco de se dissolver em mais um entusiasmo eleitoral passageiro. Porque uma vitória nas urnas pode até mudar um governo, mas somente a transformação das prioridades econômicas pode dar conteúdo duradouro à promessa de uma nova política. E é precisamente isso que acontecerá caso o governo Lula 4 opte de novo pela receita dos ajustes fiscais. Temos uma oportunidade histórica de transformar a ofensiva política em uma ofensiva econômica planejada. Esse foi o programa defendido pelo exército e seria um histórico balde de água fria se a chama da mudança apagasse pelas pressões do mercado.

            Talvez estejamos, enfim, diante de algo maior que uma vitória eleitoral: o renascimento da luta de classes como força motriz da política brasileira e, com ela, a possibilidade de renascimento da própria esquerda a partir de suas cinzas. A classe que tudo produz parece redescobrir sua potência coletiva, e a esquerda, depois de décadas de resignação aos imperativos neoliberais, talvez esteja reencontrando sua vocação histórica: a vocação de organizar as forças capazes de transformar o mundo. Mas a história não se move por entusiasmos passageiros. O verdadeiro desafio começa agora: transformar a mobilização em organização, o engajamento digital em poder popular e a energia das multidões em uma força política permanente, capaz de disputar as redes, ocupar as ruas, tensionar as instituições e recolocar os interesses da classe trabalhadora no centro das decisões nacionais. Os movimentos de massas têm fluxos e refluxos, sabemos todos. Por isso, não podemos nos deixar seduzir pelo romantismo espetacular das imagens da Avenida Paulista lotada. Temos que construir uma nova práxis política cotidiana, que transcenda a atividade partidária e se sustente no engajamento permanente. Repensar a continuidade e as formas de organização desse exército é, portanto, um desafio imediato. Um exército digital organizado, permanente e enraizado nas lutas concretas da sociedade pode representar muito mais que uma estratégia de comunicação: pode ser o embrião de uma nova forma de fazer política na qual a governabilidade deixe de depender exclusivamente dos acordos entre cúpulas e encontre sustentação na potência organizada das massas. Afinal, a luta de classes jamais desapareceu, o que evaporou foi a disposição da esquerda de travá-la. Se essa disposição finalmente ressurgiu, caberá à organização coletiva convertê-la em força histórica duradoura e democrática. Do contrário, teremos vivido apenas mais um extraordinário espasmo eleitoral que virará abóbora caso adotados os “ajustes fiscais” que não melhoram a vida de ninguém. Esse exército, contudo, já mostrou do que é capaz. Se conseguirmos transformar esse despertar em organização permanente, em fogo e chama de mobilização dos afetos a serviço da mudança da sociedade, talvez o futuro nos reserve uma ironia magnífica: a esquerda, que tantos declararam morta, renascerá das cinzas como fogo ardente precisamente porque voltou a fazer aquilo que um dia a tornou necessária: organizar os trabalhadores para que deixem de ser espectadores e voltem a ser protagonistas da História. Escrevo a quente, no calor dos acontecimentos. Que queimem os ajustes fiscais!

Este artigo não representa necessariamente a opinião do Coletivo Transforma MP.

Gustavo Livio é Promotor de Justiça no Ministério Público do Estado do Rio de Janeiro. Ex-Defensor Público do Estado da Bahia. Mestrando com pesquisa em Direito e Economia pela UFRJ. Integrante do movimento Transforma MP.

BIBLIOGRAFIA:

LIVIO, GUSTAVO. Por uma economia política antifascista para o século XXI. Disponível em: https://jornalggn.com.br/artigos/g-livio-por-uma-economia-politica-antifascista-para-o-sec-xxi/. Acesso em 27.10.2026.

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