28 de outubro de 2026

Depois de apoio envergonhado a Flavio Bolsonaro, PCO endossa narrativa de fraude eleitoral, por Francisco Ladeira

No "argumento" de "perseguição judicial" ao bolsonarismo, o PCO recorreu às mesmas narrativas das redes sociais da extrema direita.
Rui Costa Pimenta - PCO - reprodução Facebook

PCO, após apoio a Flávio Bolsonaro, endossa narrativa bolsonarista de fraude na eleição de Lula.
Editorial do PCO sugere que setores da burguesia preferiram Lula para manter o equilíbrio dos poderes.
PCO usa argumentos da extrema direita e minimiza ações que dificultaram voto petista no pleito.

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Depois de apoio envergonhado a Flavio Bolsonaro, PCO endossa narrativa de fraude eleitoral

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por Francisco Fernandes Ladeira

Após o apoio envergonhado a Flávio Bolsonaro no segundo turno, o Partido da Causa Operária (PCO), supostamente de extrema esquerda, resolveu dobrar a aposta. Agora está endossando a hipótese bolsonarista de que a eleição de Lula faz parte de mais uma fraude do “sistema”.

Em editorial intitulado “Por que a burguesia não quis Flávio”, publicado na terça-feira (27/10), o PCO insinua sobre uma “preferência de setores decisivos da burguesia por Lula”. Ou seja, o “sistema” trabalhou em favor do candidato petista à reeleição. O motivo: eleito, Flávio teria “condições de alterar o equilíbrio entre os poderes do regime”.

Isso é fato. Mas o PCO, tal qual a extrema direita, parte de premissas verídicas para construir suas hipóteses delirantes. Na formulação do “argumento” de “perseguição judicial” ao bolsonarismo, o PCO recorreu às mesmas narrativas compartilhadas nas redes sociais pela extrema direita.

Segundo o editorial citado, a decisão de Cristiano Zanin pela prorrogação da votação até as 19 horas no domingo eleitoral ocorreu pelo receio da pressão que um eventual governo Flávio exerceria sobre o STF.

Nenhuma menção sobre prefeitos bolsonaristas diminuírem a circulação de ônibus no dia da eleição, os atrasos de voos com destino a estados do nordeste ou à dificuldade de eleitores embarcarem para suas cidades natais às vésperas do pleito. Todo um conjunto de ações para impedir que eleitores petistas votassem, mas que a realidade paralela do PCO não leva em consideração. Além disso, o editorial do partido capciosamente ocultou o fato de a chapa encabeçada por Flávio também ter pedido a prorrogação da votação. Ao esconderem os fatos, fica mais fácil construir a teoria da conspiração de perseguição ao bolsonarismo e favorecimento ao PT.

Na sequência, o editorial aponta: “a apuração nacional foi interrompida para que o TSE ajustasse seus procedimentos. Uma decisão individual mudou as condições de encerramento da eleição enquanto ela acontecia”. Qualquer semelhança com o discurso bolsonarista de “mudança das regras após o jogo terminado” não é mera coincidência. Já a afirmação “o TSE ajustasse seus procedimentos” vai ao encontro da “tese” bolsonarista de que as duas horas de prorrogação da eleição seriam suficientes para fraudarem as urnas e mudar o resultado em favor de Lula.

Não por acaso, o editorial insinua: “a mudança excepcional no procedimento de votação, determinada pelo STF a pedido da campanha de Lula, no momento em que uma vitória de Flávio ameaçava diretamente o poder e a composição da Corte”. Nessa ótica, o resultado da eleição poderia ter sido modificado, porque setores da burguesia consideram Lula como a opção para manter o atual arranjo institucional, sem danos ao STF.

Para completar o quadro conspiratório e visando atrair a extrema direita, em outro texto do PCO, o confisco do passaporte de Flávio, um dia após a eleição, é apresentado como indício de “ditadura”. No entanto, a fuga do filho 01 de Bolsonaro refuta o delírio do PCO. Invertendo o dito popular: quem deve, teme.

Não se trata aqui de fazer uma defesa do STF ou mesmo das urnas eletrônicas. Mas denunciar mais uma manobra oportunista. A tendência é o PCO se aproximar cada vez da extrema direita – movimento que não é recente, porém agora se tornou explícito.

Após se recusar a apoiar Lula contra a candidatura fascista, o PCO se isolou de vez na esquerda. Até veículos da imprensa alternativa que deram palco ao partido reviram suas posições. Resta, assim, fidelizar o público da extrema direita.

E ainda há quem defenda efusivamente esse partido em comentários nas redes sociais.

***

Francisco Fernandes Ladeira é pesquisador de pós-doutorado no Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia (IFMG) – campus Ouro Preto. Doutor em Geografia pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). Autor do livro “Palestina na geopolítica global pós-2023: narrativas e contranarrativas” (Editora CRV)

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