A Vitória da Lulismo e da Inteligência Emocional, por Jorge Alexandre Neves
O presidente Lula tornou-se especialista em derrubar tabus. Não bastasse ter sido o primeiro concorrente à presidência a, em 2022, vencer um incumbente, agora protagonizou outro ineditismo ao sair atrás no primeiro turno e vencer no final. Este resultado provoca algumas reflexões importantes e traz alguns alertas.
Em primeiro lugar, a virada no segundo turno mostrou a inteligência emocional do presidente Lula. Após ficar em segundo lugar no primeiro turno, ele teve a humildade necessária para ouvir políticos jovens e influenciadores digitais do campo progressista, sob o comando do deputado André Janones, e se reinventar completamente, como candidato, bem como usou a caneta e buscou desenvolver um discurso para se comunicar com os “empreendedores individuais”, algo que eu já venho pedindo há muito tempo, e que foi o tema do meu último artigo aqui no GGN. Esta capacidade de mudança em um espaço de tempo tão curto mostra extraordinária habilidade e uma grande flexibilidade cognitiva, um conjunto de inteligências que, em muito, é responsável pela extraordinária trajetória vitoriosa do presidente Lula. O resultado foi tão extraordinário que o “L”, signo maior de Lula e do lulismo, tornou-se instantaneamente um novo símbolo a animar os movimentos progressistas ao redor do mundo.
Antes de partir para os alertas, gostaria de fazer o contraste entre a inteligência emocional do presidente Lula e seu extraordinário sucesso, com o desastre que se abateu com Ciro Gomes. Este é um dos políticos brasileiros intelectualmente mais sofisticados e dono de uma admirável coragem. Todavia, essas virtudes não foram suficientes para livrá-lo de uma humilhante derrota no seu estado natal que, muito provavelmente, significará sua aposentadoria precoce da vida política profissional. Quis o destino que nas mesmas eleições nas quais o presidente Lula conseguiu dois feitos inéditos (a vitória sobre o incumbente em 2022 e a virada histórica de agora), Ciro Gomes amargasse dois grandes fracassos (uma votação muito abaixo do seu histórico de eleições presidenciais em 2022 e a inédita derrota na disputa pelo governo do Ceará deste ano). Um foi alçado a símbolo mundial da luta pela democracia e pela igualdade. O outro se recolherá numa longa amargura, após pagar, inclusive, um alto preço para sua imagem histórica, quando tomou a decisão vexatória de se associar ao neofascismo bolsonarista em seu estado natal, tendo, inclusive, colaborado para que um grande intelectual brasileiro, o Prof. Mangabeira Unger, carregue para a posteridade a desonra de ter pousado para fotografias ao lado de um pilantra frouxo e desqualificado como o primogênito do presidiário Jair Bolsonaro.
Mas, como o primeiro parágrafo deste texto adiantou, há importantes lições que precisam ser muito bem compreendidas ao final desta extraordinária vitória. Começo com a seguinte proposição: este segundo turno significou uma extraordinária vitória do lulismo! Portanto, faço uma avaliação bem diferente daquela que vi na chamada de um vídeo de um analista, no YouTube, que sentenciava algo como “Lula está vivo, mas o lulismo morreu”. Neste segundo turno, as pessoas se moveram da alienação eleitoral para votar em Lula exatamente porque temem que a volta de um membro da família Bolsonaro ao poder leve à destruição dos direitos conquistados com o lulismo (como conceituado por André Singer). A maior evidência disso foi dada pelo próprio analista do vídeo: quanto mais baixo o nível socioeconômico da zona eleitoral, maior foi a elevação do voto em Lula. Este resultado também mostra o quão equivocada é a tese do “pobre de direita”. Mas, este resultado nos mostra algo desafiador, qual seja, que o sucesso do quarto governo Lula depende, inicialmente, da sobrevivência do lulismo, o que pode correr grande risco com as pressões fiscalistas da Faria Lima e da mídia hegemônica.
Por outro lado, é preciso reconhecer que, na virada de 2024 para 2025, a Faria Lima mostrou que tem, de fato, poder para criar grandes dificuldades para o governo federal. Então, será preciso encontrar formas de conciliar a sobrevivência do lulismo com a busca da estabilização da relação dívida pública/PIB. O presidente Lula sempre fala que a melhor forma de resolver o problema fiscal é através do crescimento econômico. Ele tem razão, mas isso não se faz rapidamente. Então, é preciso encontrar um caminho mais rápido para melhorar a situação fiscal. Todas as opções, contudo, têm custo político relativamente elevado. Parece bastante evidente, para mim, que a opção que tem a melhor relação entre viabilidade política e promoção de justiça distributiva está numa redução drástica do chamado “gasto tributário”, ou seja, da renúncia de receitas e incentivos fiscais, que chega a mais de R$ 600 bilhões anuais (como pode ser visto neste estudo da Receita Federal do Brasil: https://www.gov.br/receitafederal/pt-br/centrais-de-conteudo/publicacoes/relatorios/renuncia/gastos-tributarios-ploa/dgt-previsao-ploa-2026-base-conceitual.pdf). Uma forte redução dos gastos tributários permitirá que avanços de prazo mais longo comecem a impactar positivamente a economia. Os significativos investimentos em infraestrutura logística que já estão contratados, bem como outros investimentos, permitirão uma progressiva elevação da produtividade, o que contribuirá sobremaneira para um crescimento mais rápido da economia.
Outro ponto importante é que o caminho de promoção do empreendedorismo (a partir de políticas públicas), bem como de construção de um discurso e de uma cadeia de comunicação com os empreendedores individuais se mantenha e se expanda, com oferta de crédito e de assessoria técnica. O “novo trabalhador brasileiro”, que é justamente o empreendedor individual, tem tudo a ver com o lulismo, como tentei mostrar no meu último artigo aqui no GGN, só falta buscar atraí-lo. Este trabalhador pode ser facilmente trazido para a base orgânica de apoio lulista.
Obviamente, uma redução forte do gasto tributário sofrerá forte oposição de grupos empresariais. Portanto, o sucesso desse caminho para solução dos problemas fiscais poderá ser viabilizado a partir da mobilização popular. Assim sendo, será importante buscar manter, no máximo possível, a mobilização – tanto da rua quanto digital – alcançada neste segundo turno. Outras ações poderão e deverão ser efetivadas para que consigamos o mais importante: a sobrevivência do lulismo!
Jorge Alexandre Barbosa Neves – Ph.D, University of Wisconsin – Madison, 1997. Pesquisador PQ do CNPq. Pesquisador Visitante University of Texas – Austin. Professor Titular do Departamento de Sociologia – UFMG – Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas
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