O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, recusou-se nesta quarta-feira (28) a endossar o comunicado em que o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) se declarou “líder” político do Brasil. Questionado sobre a ofensiva do parlamentar, que chegou a Miami após deixar o território brasileiro por terra, o republicano confirmou a liberação do visto, mas buscou distanciamento do caso.
Mais cedo, Flávio havia publicado nas redes sociais uma carta, com versão em inglês, em que se autoproclamava o “verdadeiro presidente eleito do Brasil“. Minutos depois, recuou e alterou o termo no documento, passando a se apresentar como “líder do Brasil“.
“Eu não vou fazer um comentário sobre isso, mas eu sei que nós demos a ele um visto para entrar no país, então vamos ver. Mas eu não vou me envolver, foi uma eleição muito estranha, isso com certeza“, disse Trump a jornalistas.
Rota de fuga e investigações
A chegada de Flávio e de sua família à Flórida marca a saída do senador do Brasil após o Supremo Tribunal Federal (STF) ordenar a entrega de seu passaporte à Polícia Federal. Ele é investigado por suspeita de lavagem de dinheiro em um esquema envolvendo o advogado Willer Tomaz e empresas de apostas (bets). Ambos confirmam a amizade, mas negam ter sociedade ou envolvimento em irregularidades.
Para contornar a restrição judicial, o parlamentar cruzou a fronteira com a Argentina de carro na noite de terça-feira (27). A partir de Puerto Iguazú, embarcou em um voo privado e fez uma escala no Equador antes de alcançar os Estados Unidos com o aval do Departamento de Estado americano.
Dúvidas sobre o pleito brasileiro
Apesar de rejeitar o envolvimento direto com a autodeclaração do senador, Trump voltou a lançar dúvidas sobre o processo eleitoral brasileiro, a partir da decisão do ministro do STF Cristiano Zanin, que prorrogou o horário de votação no país.
“Eu não tomei partido nesta eleição, como você sabe. Quando eu vejo algo que é inadequado, eu falo sobre isso. Eu acho que ele e a família foram tratados de forma muito injusta“, afirmou o presidente americano.
A retórica contrasta com os resultados ratificados pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE), que oficializou a vitória de Luiz Inácio Lula da Silva (PT). Além disso, missões de observação, como o Carter Center e a Organização dos Estados Americanos (OEA), atestaram a normalidade da eleição e elogiaram a organização do pleito. O próprio partido de Flávio, o PL, reconheceu o resultado, embora tenha pedido esclarecimentos à Justiça.
Pragmatismo no Planalto
Diante do episódio, o Palácio do Planalto orientou ministros e o corpo diplomático a ignorarem os movimentos de Flávio Bolsonaro, respondendo apenas caso ocorra alguma violação à soberania nacional em coordenação com o governo americano.
A ordem é não alimentar narrativas extremistas e tentar pavimentar uma relação pragmática com a Casa Branca. O governo brasileiro avalia que a família Bolsonaro está entrincheirada nos EUA e que um eventual pedido de extradição teria poucas chances de sucesso. Assim, o foco recai sobre a retomada de negociações comerciais, com a expectativa de que o Escritório de Comércio americano (USTR) crie um cronograma para solucionar impasses tarifários.
No campo diplomático, a diretriz é a reciprocidade. O Brasil sinaliza que dispensará ao futuro embaixador indicado por Trump, Daniel Perez, o mesmo tratamento que a embaixadora brasileira em Washington, Maria Luiza Viotti, tem recebido. Nos últimos meses, Viotti sofreu modificações em seu visto e, caso deixe os Estados Unidos, não poderá retornar sem requerer uma nova autorização.
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