29 de outubro de 2026

O traidor de 60 milhões também fugiu, por Gustavo Tapioca

Flávio Bolsonaro repete a covardia do pai e abandona os mais de 60 milhões de brasileiros que acreditaram em suas promessas e suas mentiras.
Imagem gerada por IA

Flávio Bolsonaro fugiu para os EUA sob tutela de Marco Rubio, desrespeitando decisões judiciais brasileiras.
A ação visa fortalecer a política externa de Rubio e criar oposição ao governo brasileiro da Flórida.
No Brasil, a saída de Flávio desidrata o bolsonarismo, entregando a oposição ao Centrão e reduzindo sua influência.

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O traidor de 60 milhões também fugiu 

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Ao fugir para os EUA sob a tutela de Marco Rubio, Flávio Bolsonaro repete a covardia do pai e abandona os mais de 60 milhões de brasileiros que acreditaram em suas promessas e suas mentiras. 

Por Gustavo Tapioca 

A partida repentina de Flávio Bolsonaro para os Estados Unidos — realizada à revelia de sua própria base e em aberto descumprimento de decisões judiciais no Brasil — intrigou observadores da política nacional e internacional.  

À primeira vista, o movimento foi interpretado no debate público como um ato de desespero diante do cerco jurídico.  

No entanto, uma análise mais apurada das engrenagens de Washington sugere uma inversão fundamental de premissas:  

quem mais precisava de Flávio Bolsonaro em solo americano neste exato momento não era ele próprio, mas sim o Secretário de Estado e estrategista conservador Marco Rubio. 

Álibi geopolítico e o Senado  

A operação ocorre em um momento crítico para a política externa e interna dos Estados Unidos.  

Sob a sombra das disputas eleitorais e diante de uma correlação de forças acirrada no Senado americano, lideranças neoconservadoras encontram-se sob forte pressão.  

Trazer Flávio Bolsonaro para os EUA sob a salvaguarda de setores influentes em Washington atende a um duplo propósito utilitário para Marco Rubio. Instrumentalizar a pauta sul-americana para alimentar a base republicana com o discurso de “perseguição política” à extrema-direita no continente. 

Afirmar-se como o principal formulador e articulador da política externa para a América Latina sob a doutrina de segurança e influência hemisférica. 

 (“This is our hemisphere”) (“Este hemisfério é nosso”), a frase de Marco Rubio consolida sua projeção interna como o sucessor natural de Donald Trump. 

Bastidores de Washington 

A tese de que a ida do senador brasileiro atende primordialmente aos interesses táticos de Washington encontra respaldo em reportagens e análises veiculadas pela imprensa brasileira e internacional.  

Interlocutores e veículos de comunicação registraram que a acolhida e a facilitação da fuga e da estadia do parlamentar contaram com articulações diretas sob o guarda-chuva de Marco Rubio e do Departamento de Estado que ele comanda.   

Analistas internacionais destacam que o movimento busca fixar uma referência de “oposição no exílio” a partir da Flórida para exercer pressão diplomática sobre o governo brasileiro.  

Ao mesmo tempo, o movimento provocou reações no meio político em Washington: parlamentares democratas repudiam o uso de estruturas diplomáticas para abrigar aliados políticos estrangeiros.  

O episódio elevou o tom do debate diplomático, expondo a tentativa republicana de transformar fricções institucionais sul-americanas em ativos para a disputa política doméstica nos Estados Unidos. 

O bolsonarismo desidrata  

Enquanto em Washington a presença de outro Bolsonaro fugitivo atende a uma necessidade tática de Rubio, no Brasil o efeito imediato foi o atordoamento e a orfandade do campo bolsonarista raiz. 

Ao trocar o mandato em Brasília pela tutela de gabinetes e dos encantos da Flórida, Flávio Bolsonaro não protagoniza um ato de bravura ou resistência, mas a capitulação definitiva e covarde da sua própria relevância.  

É a amarga ironia do discurso ultranacionalista: o patriotismo de brado que inflamou praças e telas no Brasil termina no silêncio acomodado sob a guarida de burocratas estrangeiros.  

Ao fugir do país e entregar o próprio destino às conveniências de Marco Rubio, o senador comete a maior das afrontas: traiu abertamente os seus 60 milhões de eleitores, virando as costas para a metade do Brasil que acreditou em suas promessas e em suas mentiras. 

Abandonando lideranças atônitas e militantes órfãos à própria sorte, o senador desidrata o bolsonarismo e entrega de bandeja o controle da oposição ao pragmatismo fisiológico do Centrão.  

De pretenso líder de um movimento nacional a ativo conveniente na diplomacia de Washington, Flávio assina sua própria irrelevância ao trocar a altivez do mandato parlamentar pelo triste papel de figura secundária no teatro de sombras norte-americano. 

No afã de escapar do escrutínio judicial e servir de álibi retórico para o projeto de poder de Marco Rubio, ele descobre a lição mais dura do pragmatismo internacional: na geopolítica das superpotências, quem desonra o próprio povo para virar peça no jogo alheio não é tratado como aliado de primeira hora — é usado até o limite da conveniência e descartado como mero peão assim que o vento político muda. 

De pai para filho desde 2022 

Seu pai, Flávio, abandonou o país em 2022, traindo milhões de pessoas que acreditaram nele — muitas das quais foram levadas a lutar em um golpe fracassado para mantê-lo no poder. Hoje cumprem penas severas de prisão.   O destino de pai Jair também foi a prisão, condenado a uma pena de 27 anos e três meses de reclusão. 

Seguindo os mesmos passos, você também fugiu para os Estados Unidos de Trump e Rubio, consumando a traição a 60 milhões de eleitores — a metade do Brasil que agora assiste, perplexa, à repetição da história e da farsa da dinastia Bolsonaro. 

Gustavo Tapioca – Jornalista. Ex-diretor do Jornal da Bahia. Assessor de Comunicação da Telebrás. Consultor do Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef). Autor de “Meninos do Rio Vermelho” e de “Entre o golpe e a eleição“.

O texto não representa necessariamente a opinião do Jornal GGN. Concorda ou tem ponto de vista diferente? Mande seu artigo para [email protected]. O artigo será publicado se atender aos critérios do Jornal GGN.

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Gustavo Tapioca

Gustavo Tapioca é jornalista formado pela UFBa e MA pela Universidade de Wisconsin. Ex-diretor de Redação do Jornal da Bahia. Assessor de Comunicação da Telebrás, Oficial de Comunicação do Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) e do IICA/OEA. Autor de Meninos do Rio Vermelho, publicado pela Fundação Jorge Amado.

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