O Exército de Lula: o antídoto contra a desinformação que também desafia a democracia, por Mauricio Luperi
Como André Janones transformou milhões de cidadãos em uma rede coordenada de mobilização política — e por que essa experiência pode inaugurar uma nova etapa na disputa pela informação, pela consciência coletiva e pelo poder.
Introdução — uma nova arquitetura da mobilização política
As eleições presidenciais brasileiras de 2026 produziram um fenômeno político que merece ser analisado para além da vitória eleitoral de Luiz Inácio Lula da Silva sobre Flávio Bolsonaro. A iniciativa conduzida pelo deputado federal André Janones transformou um canal de WhatsApp em uma estrutura de mobilização que, segundo reportagens de outubro, superou dez milhões de seguidores e articulou ações no Instagram, no X e em outras plataformas digitais.
O chamado “Exército do Lula” não constitui simplesmente mais um grupo de apoiadores de um candidato. Sua novidade está na combinação de três elementos: centralização das orientações, descentralização da execução e participação voluntária de milhões de indivíduos na circulação de mensagens políticas.
A iniciativa apresenta uma contradição particularmente interessante. Enquanto a desinformação frequentemente se propaga por redes dispersas, difíceis de rastrear e alimentadas por retransmissões, o modelo organizado por Janones estabelece um centro identificável de coordenação. Em princípio, isso pode aumentar tanto a capacidade de resposta à desinformação quanto as possibilidades de fiscalização.
Mas existe outro lado: a mesma arquitetura capaz de distribuir informações verdadeiras pode ser utilizada para disseminar conteúdos falsos, manipular percepções e organizar campanhas de hostilidade política. A tecnologia não determina a finalidade democrática ou autoritária de sua utilização.
Por que milhões de pessoas decidiram aderir? O medo de uma vitória da extrema direita e de suas consequências para a democracia brasileira certamente contribuiu para a mobilização. Entretanto, o receio político não explica sozinho a rapidez da expansão, o engajamento coletivo e a disposição de indivíduos comuns para assumir tarefas de comunicação. A pergunta fundamental não é apenas como Janones reuniu seguidores, mas o que essa experiência revela sobre a organização política contemporânea.
1. Da desinformação pulverizada à mobilização coordenada
Desde 2018, a política brasileira convive com a crescente influência das plataformas digitais na formação da opinião pública. O WhatsApp ganhou importância pela circulação de mensagens em grupos familiares, profissionais, religiosos e comunitários. A extrema direita brasileira explorou essa arquitetura com conteúdos emocionais, mensagens identitárias e, em episódios documentados, informações falsas ou descontextualizadas. Isso não significa que toda comunicação da direita seja desinformativa, nem que a circulação de falsidades seja exclusiva de uma orientação política.
No modelo tradicional, uma mensagem atravessa grupos, é modificada e alcança públicos distantes da origem. A pulverização amplia o alcance e dificulta a identificação de responsáveis. Mesmo depois da checagem, a correção pode circular menos que a mensagem original.
O Exército do Lula introduziu uma arquitetura parcialmente diferente. Um canal central passou a oferecer tarefas: compartilhar conteúdos, ampliar publicações, divulgar vídeos, participar de discussões e convidar novos integrantes. Reportagens descreveram mensagens, vídeos e modelos de convite distribuídos aos seguidores.
A diferença pode ser sintetizada: centralização da coordenação, descentralização da distribuição. O comando identifica prioridades; a execução ocorre por indivíduos em redes próprias. Não se trata de uma rede inteiramente centralizada, pois as interações se espalham por múltiplos espaços; tampouco de uma rede inteiramente horizontal, pois existe um núcleo que define prioridades.
A comunicação política coordenada não foi inventada em 2026. Campanhas, sindicatos e movimentos sociais mobilizam pessoas há décadas. A novidade é a escala, a velocidade e a possibilidade de converter audiência digital em uma rede de distribuição simultânea. O militante que distribuía panfletos encontra seu equivalente parcial no participante que compartilha vídeos e convida conhecidos.
2. Por que milhões de pessoas aderiram?
Dez milhões de seguidores não equivalem a dez milhões de militantes ativos. A adesão tampouco prova mudança de voto ou desenvolvimento da consciência política. Ainda assim, é um comportamento social que merece explicação.
A primeira hipótese é a ameaça percebida como coletiva. A possibilidade de retorno do bolsonarismo ao governo, representada pela candidatura de Flávio Bolsonaro, mobilizou eleitores preocupados com as instituições democráticas. Mas o medo pode gerar também resignação: para transformar receio em participação, é preciso oferecer uma possibilidade concreta de agir.
Surge então a percepção de eficácia coletiva. O compartilhamento isolado parece insignificante; a mesma ação integrada a milhares de outras adquire sentido e importância subjetiva. Um terceiro fator é o pertencimento. A expressão “Exército” transforma seguidores em integrantes de uma comunidade, com linguagem de missão e objetivo compartilhado.
O quarto fator é o baixo custo de participação. Compartilhar uma publicação exige menos tempo e recursos que participar de reuniões ou deslocar-se para manifestações. O quinto é a confiança na liderança: a linguagem direta, informal e combativa de Janones pode produzir identificação com públicos distantes da comunicação partidária convencional.
Por fim, a curiosidade e a prova social: uma rede em expansão atrai observadores, que podem aderir por interesse, identificação ou desejo de acompanhar um fenômeno coletivo. Esses fatores se reforçam mutuamente. Para determinar seu peso relativo, contudo, seriam necessárias entrevistas ou pesquisas com participantes; não se pode deduzir a motivação individual apenas do tamanho da audiência.
3. Do espectador ao participante político
Milhões de pessoas acompanham acontecimentos sem participar diretamente da produção ou circulação de conteúdos. O modelo de Janones tenta superar essa passividade ao oferecer tarefas concretas. Quem apenas recebia notícias pode passar a procurar informações, acompanhar debates e discutir argumentos.
Mas é essencial distinguir participação operacional e participação reflexiva. Na primeira, o indivíduo executa uma orientação e amplia sua circulação. Na segunda, compreende o conteúdo, examina fontes, confronta interpretações e desenvolve julgamento próprio. A primeira pode existir sem a segunda.
Uma rede que transforma seguidores em retransmissores pode ser comunicacionalmente eficiente sem produzir maior consciência política. Quando estimula curiosidade, aprendizado e discussão fundamentada, contudo, pode representar uma etapa relevante na formação de cidadãos ativos. O desafio é transformar mobilização em participação substantiva.
4. Gramsci: hegemonia e consciência coletiva
Antonio Gramsci demonstrou que a manutenção do poder nas sociedades modernas envolve, além da coerção, a construção de consensos, valores e interpretações compartilhadas. A disputa política também ocorre no terreno da cultura e das concepções de mundo.
Quem influencia as interpretações predominantes sobre acontecimentos sociais também influencia os limites do debate público. A desinformação pode atuar nesse processo produzindo percepções distorcidas e explicações simplificadoras. Mas hegemonia não é mera repetição de mensagens: envolve instituições, experiências e práticas sociais que conferem coerência às interpretações difundidas.
O Exército do Lula pode ser interpretado como uma tentativa de disputa contra-hegemônica no ambiente digital. Porém, difundir mensagens não é o mesmo que construir consciência crítica. Se os participantes apenas executam instruções, a estrutura amplia a influência de uma liderança sem necessariamente promover autonomia intelectual. Se estimula debate e elaboração coletiva, pode contribuir para transformação mais profunda.
O potencial de desalienação não está automaticamente na tecnologia. Depende das relações políticas construídas por meio dela.
5. Habermas: esfera pública e comunicação estratégica
Jürgen Habermas enfatiza os espaços nos quais cidadãos discutem assuntos coletivos, confrontam argumentos e formam opiniões. A legitimidade democrática não depende somente das eleições, mas também das condições em que preferências políticas são formadas.
Uma rede digital pode ampliar o acesso a informações e a participação de grupos marginalizados. Pode também reduzir o debate a uma competição por atenção, em que importa mais o número de compartilhamentos do que a qualidade das razões apresentadas.
A comunicação orientada ao entendimento procura oferecer razões examináveis e contestáveis. A comunicação exclusivamente estratégica busca produzir comportamentos. Toda campanha contém elementos estratégicos, mas o problema surge quando a estratégia elimina a preocupação com a veracidade e a autonomia.
Em 2022, Habermas voltou ao tema para examinar como a digitalização expande e fragmenta a esfera pública, tornando participantes potenciais autores. O Exército do Lula ilustra tanto a promessa de ampliar vozes quanto o risco de subordinar a deliberação à eficácia da mobilização.
6. Castells: redes, poder e contrapoder
Manuel Castells analisa a comunicação como dimensão central do poder na sociedade em rede. A capacidade de estabelecer conexões, organizar fluxos e influenciar a circulação de informações constitui recurso político decisivo.
O WhatsApp opera como centro de coordenação, enquanto Instagram, X e outros ambientes oferecem circuitos distintos de visibilidade. A articulação combina coordenação organizacional e capilaridade social. Uma orientação central pode ser adaptada a relações interpessoais, debates públicos e conteúdos audiovisuais.
Castells também ajuda a compreender o contrapoder: grupos podem construir redes alternativas para contestar interpretações dominantes. Contudo, o contrapoder não é democrático apenas por se opor a um poder existente. Sua legitimidade depende de meios, relações internas e finalidades. Uma rede contra a manipulação pode reproduzir técnicas de manipulação se abdicar de critérios de veracidade.
7. Hannah Arendt: ação coletiva e comportamento de massa
Para Hannah Arendt, a política pressupõe indivíduos capazes de agir e se manifestar em um mundo compartilhado. A pluralidade é condição essencial da vida política.
A metáfora militar do “Exército” transmite disciplina, pertencimento e objetivo comum. Isso pode mobilizar, mas a democracia não se organiza pelos mesmos princípios de um quartel. Hierarquia e obediência são centrais na organização militar; dissenso, liberdade de julgamento e contestação são indispensáveis à democracia.
A metáfora não transforma automaticamente a iniciativa em autoritária. O problema surgiria se seus participantes não pudessem questionar orientações, discordar de interpretações ou rejeitar conteúdos inadequados. Milhões de indivíduos agindo simultaneamente não formam, por isso apenas, uma comunidade politicamente autônoma.
8. O paradoxo da centralização e a fiscalização
Quando há um núcleo identificável, é possível apurar quem emitiu determinada orientação, quando foi divulgada e quais conteúdos foram distribuídos oficialmente. Isso não torna toda retransmissão individual atribuível à liderança nem elimina dificuldades técnicas e jurídicas relacionadas a conversas privadas e mensagens editadas.
O caso foi submetido à Justiça Eleitoral. A Agência Lupa analisou 721 mensagens publicadas entre 5 e 12 de outubro e não encontrou desinformação no material examinado. A área técnica do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) tampouco localizou, na amostra analisada, as afirmações falsas indicadas em determinada representação. Essas conclusões têm escopo limitado: não certificam todo o histórico do canal, sobretudo diante de controvérsias sobre mensagens apagadas ou editadas.
A cronologia das decisões mostra disputas sobre suspensão, registro do canal e preservação de evidências. O próprio TSE esclareceu que receber ação de investigação não significa reconhecer a veracidade das acusações. É necessário distinguir alegações das partes, constatações técnicas e decisões judiciais.
A centralização oferece um ponto de responsabilização, mas amplia os efeitos de eventuais erros. Uma mensagem falsa distribuída por uma estrutura de milhões de seguidores pode causar dano maior do que uma mensagem restrita a um pequeno grupo. A centralização concentra responsabilidades e riscos; não elimina a desinformação.
9. A iniciativa individual e a privatização da mobilização
A experiência partiu da iniciativa organizacional de uma liderança política, não de uma instituição pública criada para essa finalidade. Isso não comprova que tenha sido financiada exclusivamente por recursos privados; iniciativa individual e origem do financiamento são questões diferentes.
Uma liderança conseguiu construir alcance comparável ao de grandes organizações tradicionais. Por que partidos, sindicatos e movimentos sociais encontram dificuldades para mobilizar digitalmente parcelas semelhantes da população? Diferenças de linguagem, rapidez de decisão, adaptação e relação com seguidores oferecem hipóteses plausíveis.
A agilidade de uma estrutura personalista traz custos potenciais: dependência de uma imagem individual, baixa deliberação interna e fragilidade de continuidade. Além disso, a rede opera em plataformas empresariais cujas regras e algoritmos não são definidos democraticamente pelos participantes.
Surge uma dupla privatização potencial: liderança individual e infraestrutura corporativa. A oportunidade é reduzir barreiras de participação; o risco é substituir organizações representativas por redes cujas prioridades dependem de poucos administradores.
10. A mesma arquitetura pode servir ao bem ou ao mal
Se uma rede coordenada consegue mobilizar milhões para distribuir informações verificadas e defender instituições, outra pode difundir acusações infundadas, intimidar adversários ou manipular acontecimentos. Não há garantia tecnológica de finalidade democrática.
A extrema direita já utilizava estruturas de comunicação coordenadas antes de Janones. Seria incorreto opor uma direita exclusivamente pulverizada a uma esquerda que teria inventado a centralização. Os dois campos podem combinar comando e distribuição descentralizada. A inovação reside na configuração específica, na escala e na visibilidade do núcleo organizador.
A avaliação democrática deve se concentrar em práticas verificáveis, não em simpatias partidárias. O mesmo comportamento precisa receber o mesmo tratamento jurídico, independentemente da orientação ideológica de seus autores.
11. Regulação democrática: responsabilizar sem censurar
Liberdade de expressão e responsabilização não são incompatíveis. A primeira protege opiniões e participação; a segunda permite apurar condutas ilícitas segundo regras públicas e devido processo.
Redes de grande alcance devem permitir identificação de responsáveis e transparência sobre vínculos formais com campanhas e fontes de financiamento, quando a legislação exigir. Registros de orientações oficiais podem ser preservados sem transformar conversas privadas em objeto de vigilância indiscriminada.
Medidas restritivas devem ser fundamentadas e proporcionais. Uma irregularidade localizada não justifica automaticamente suspender uma rede inteira; sempre que possível, correções específicas, retirada de conteúdos ilícitos e direito de resposta merecem prioridade. Decisões devem admitir contestação e revisão.
A igualdade de tratamento é indispensável. Não pode haver um padrão para redes progressistas e outro para organizações conservadoras. Também importa proteger a liberdade dos participantes para aderir, discordar e sair. O Estado não deve definir a opinião política correta, mas garantir competição dentro de regras iguais e verificáveis.
12. Da campanha à participação permanente
A vitória eleitoral abre outra pergunta: o que ocorre com uma rede de milhões de seguidores depois do pleito? Pode desaparecer, permanecer instrumento de comunicação de uma liderança ou transformar-se em espaço contínuo de participação.
A terceira possibilidade é a mais promissora. A estrutura poderia explicar políticas públicas, acompanhar propostas legislativas e estimular fiscalização cidadã. Mas campanha eleitoral e comunicação governamental possuem deveres diferentes. Recursos públicos não podem ser convertidos em promoção pessoal ou hostilidade institucionalizada contra adversários.
A democracia não termina no voto. Cidadãos precisam acompanhar governos, formular demandas e questionar decisões. O teste de maturidade será saber se a rede admite críticas inclusive ao governo que ajudou a eleger. Uma comunidade que apenas reproduz orientações permanece no apoio político; uma que debate, reconhece erros e formula críticas pode alcançar autonomia maior.
13. A repercussão internacional
Reportagens de outubro relataram a criação de canais inspirados na experiência brasileira na França, na Espanha e na Argentina, envolvendo apoiadores de Jean-Luc Mélenchon, do peronismo e de setores da esquerda espanhola. A existência de experiências semelhantes não demonstra reprodução integral do modelo nem eficácia eleitoral equivalente.
A repercussão sugere, contudo, um problema internacional: como movimentos políticos podem recuperar comunicação direta em uma esfera pública fragmentada e mediada por plataformas privadas? A inovação brasileira pode estar em articular indivíduos já presentes nas redes sem construir uma plataforma própria. Sua difusão reforça a necessidade de examinar oportunidades democráticas e riscos de manipulação.
14. Compartilhar não é compreender: o problema da desalienação
Na tradição crítica, alienação não se reduz à falta de notícias. Envolve dificuldades de reconhecer as relações sociais, econômicas e políticas que condicionam a própria existência. Uma pessoa pode receber milhares de mensagens e continuar sem compreender interesses econômicos, decisões estatais e consequências distributivas.
A intensidade da participação digital não garante reflexão. Plataformas frequentemente premiam velocidade, simplificação e identificação emocional. Uma rede que solicita apenas compartilhamentos amplia circulação, mas não necessariamente conhecimento. Uma rede que estimula leitura, verificação e debate pode produzir efeitos diferentes.
O aspecto promissor talvez esteja na curiosidade política despertada. Quem ingressa por medo de determinado resultado eleitoral pode passar a investigar projetos econômicos, políticas sociais e funcionamento das instituições. Mas essa passagem exige oportunidades de aprendizado; não ocorre automaticamente. Seriam necessárias pesquisas longitudinais para verificar mudanças de conhecimento, comportamento e autonomia.
15. A democracia pode depender de estruturas pouco democráticas?
Uma organização que defende a democracia pode ter comando centralizado. Isso não constitui incompatibilidade automática: campanhas exigem coordenação e rapidez. Porém, quando a estrutura se torna permanente, importa perguntar como decisões são tomadas e como participantes influenciam prioridades.
Uma rede não se torna democrática apenas por apoiar candidato eleito, nem autoritária apenas por possuir liderança. A qualidade democrática depende de transparência, dissenso, deliberação e liberdade de julgamento.
Uma estrutura com milhões de integrantes poderia receber propostas, divulgar critérios de seleção dos conteúdos, promover debates e instituir procedimentos de correção. Assim, a comunicação deixaria de funcionar exclusivamente de cima para baixo, combinando eficiência e elaboração coletiva.
16. Informação como bem de interesse público
Compartilhar informação não significa perdê-la: o mesmo conteúdo pode ser reproduzido inúmeras vezes. Mas produzir e verificar conhecimento confiável custa tempo, trabalho e recursos. Jornalismo, pesquisa e checagem não se tornam gratuitos porque a distribuição digital ficou barata.
Essa assimetria ajuda a explicar a desinformação: uma alegação falsa pode circular instantaneamente, enquanto sua verificação exige investigação. Redes coordenadas podem ajudar a reduzir o desequilíbrio se organizarem também a verificação. Caso contrário, apenas aceleram a circulação.
A responsabilidade começa antes do compartilhamento: identificar fontes, corrigir erros e não deixar que urgência política substitua evidência. A qualidade de uma rede deve ser medida não só pelo alcance, mas pela confiabilidade e relevância pública do que distribui.
17. O que a experiência demonstrou?
O Exército do Lula demonstrou que a mobilização digital em grande escala não é monopólio da extrema direita. Mostrou que milhões podem aderir a uma estrutura coordenada quando identificam objetivos, reconhecem liderança e percebem possibilidade de agir.
Revelou também que comando central e distribuição descentralizada podem coexistir. Essa combinação é uma inovação organizacional relevante em sua escala, embora seus componentes tenham precedentes.
Não demonstrou, por si só, que milhões tenham se tornado militantes ativos, mudado de voto ou desenvolvido consciência crítica. O significado duradouro dependerá do que acontecer depois das eleições e das práticas efetivas da organização. Seu caráter democrático precisa ser julgado pelos conteúdos, pela transparência e pelas relações entre dirigentes e participantes.
Conclusão — o verdadeiro antídoto é a consciência crítica
O Exército do Lula pode representar uma inflexão na organização da comunicação política brasileira. Sua contribuição está em converter adesões individuais em ações coordenadas, utilizando o WhatsApp como centro de orientação e outras plataformas como espaços de distribuição.
Essa arquitetura pode enfrentar desinformação, permitir respostas rápidas e facilitar a identificação de responsáveis. Mas não garante a verdade nem a autonomia. Pode ampliar informações confiáveis ou falsidades; estimular participação ou transformar indivíduos em executores de ordens; fortalecer a democracia ou concentrar poder comunicacional em estruturas privadas pouco transparentes.
O legado de Janones dependerá da capacidade de ultrapassar a lógica eleitoral. A democracia necessita de cidadãos informados, capazes de reconhecer interesses, questionar lideranças e participar das decisões coletivas. A curiosidade pode ser o início, desde que se transforme em conhecimento; o compartilhamento, em reflexão; e a mobilização, em participação autônoma.
O verdadeiro antídoto contra a desinformação não é a existência de um comando centralizado, mas a formação de uma sociedade capaz de pensar criticamente.
O Exército do Lula demonstrou que milhões podem ser mobilizados para agir. A questão decisiva é saber se essa experiência também poderá contribuir para que milhões se tornem mais capazes de pensar, questionar e decidir por si mesmos.
Leitura recomendada — obras teóricas
ARENDT, Hannah (1958). The Human Condition. Chicago: University of Chicago Press. https://press.uchicago.edu/ucp/books/book/chicago/H/bo29137972.html
CASTELLS, Manuel (2009). Communication Power. Oxford: Oxford University Press. https://global.oup.com/academic/product/communication-power-9780199567041
CASTELLS, Manuel (2012). Networks of Outrage and Hope: Social Movements in the Internet Age. Cambridge: Polity Press.
GRAMSCI, Antonio (1971). Selections from the Prison Notebooks. Ed. e trad. Quintin Hoare e Geoffrey Nowell Smith. New York: International Publishers.
HABERMAS, Jürgen (1989). The Structural Transformation of the Public Sphere: An Inquiry into a Category of Bourgeois Society. Cambridge, MA: MIT Press. Original alemão de 1962.
HABERMAS, Jürgen (2022). Reflections and Hypotheses on a Further Structural Transformation of the Political Public Sphere. Theory, Culture & Society, 39(4), 145–171. https://doi.org/10.1177/02632764221112341
Fontes jornalísticas e institucionais
RUDNITZKI, Ethel. Agência Lupa (12 out. 2026). Canal “Exército do Lula” tem desinformação? Lupa analisou mais de 700 mensagens enviadas por Janones. https://www.agencialupa.org/jornalismo/2026/10/12/canal-exercito-do-lula-tem-desinformacao-lupa-analisou-mais-de-700-mensagens-enviadas-por-janones/
TRIBUNAL SUPERIOR ELEITORAL (10 out. 2026). TSE determina esclarecimentos antes de analisar pedidos de Flávio contra Lula e Janones. https://www.tse.jus.br/comunicacao/noticias/2026/Outubro/tse-determina-esclarecimentos-antes-de-analisar-pedidos-de-flavio-contra-lula-e-janones
AZEVEDO, Marcelo. Folha de S.Paulo (13 out. 2026). Veja cronologia da guerra de decisões sobre o canal “Exército do Lula”. https://www1.folha.uol.com.br/poder/2026/10/veja-cronologia-da-guerra-de-decisoes-sobre-o-canal-exercito-do-lula.shtml
TV Sim Brasil (28 out. 2026). “Exército do Lula” de Janones inspira grupos na França e Argentina. https://tvsimbrasil.com.br/brasil/politica/noticia/2026/10/28/exercito-do-lula-janones-inspira-grupos-franca-argentina
Mauricio Martinelli Luperi é economista, doutor pela FGV-SP e mestre pela USP. Professor e pesquisador há mais de duas décadas, dedica-se ao estudo da macroeconomia, do desenvolvimento econômico, da política monetária e da história do pensamento econômico. Autor de trabalhos sobre equilíbrio geral, metodologia da economia, industrialização e regime de metas de inflação, tem concentrado suas pesquisas recentes na relação entre sistema financeiro, Banco Central e desenvolvimento, formulando o conceito de “autonomia capturada” para analisar a condução da política monetária brasileira.
O texto não representa necessariamente a opinião do Jornal GGN. Concorda ou tem ponto de vista diferente? Mande seu artigo para [email protected]. O artigo será publicado se atender aos critérios do Jornal GGN.
“Democracia é coisa frágil. Defendê-la requer um jornalismo corajoso e contundente. Junte-se a nós: https://www.catarse.me/JORNALGGN “
Deixe um comentário