Esquerda e direita: de onde vieram, como se transformaram e o que significam hoje?, por Maurício Martinelli Luperi
Da Revolução Francesa à crise da social-democracia e à ascensão da extrema direita: mais de dois séculos de disputas sobre igualdade, liberdade, democracia e poder econômico.
1. Uma divisão política que atravessou mais de dois séculos
O que significa ser de esquerda ou de direita no século XXI? À primeira vista, a resposta parece simples: a esquerda defenderia maior igualdade social e intervenção estatal, enquanto a direita privilegiaria a propriedade privada, a liberdade econômica e o funcionamento dos mercados. Entretanto, essa definição é insuficiente para compreender mais de dois séculos de transformações políticas.
A esquerda nem sempre foi socialista, assim como a direita nem sempre foi liberal. Houve liberais revolucionários situados à esquerda, conservadores favoráveis à intervenção estatal, socialistas autoritários e movimentos de extrema direita que combateram as próprias instituições liberais.
Essas categorias nasceram antes da industrialização capitalista, atravessaram a formação do movimento operário, a Revolução Russa, duas guerras mundiais, o Estado de bem-estar social, a expansão do neoliberalismo e a dissolução da União Soviética.
O filósofo italiano Norberto Bobbio, em Direita e Esquerda: Razões e Significados de uma Distinção Política (1994), oferece uma referência fundamental para compreender essa trajetória. Segundo sua interpretação, uma diferença persistente entre esquerda e direita está na maneira como cada campo político percebe as desigualdades e avalia a necessidade de enfrentá-las.
A distinção não significa que toda esquerda defenda igualdade absoluta ou que toda direita rejeite a igualdade. Trata-se, sobretudo, de diferentes atitudes diante das desigualdades sociais, de suas origens e de sua legitimidade.
Entretanto, para compreender como essas posições se constituíram, é necessário retornar à Revolução Francesa.
2. A Revolução Francesa: girondinos, montanheses e o nascimento da esquerda e da direita
A origem das expressões esquerda e direita está associada à organização espacial dos representantes políticos durante a Revolução Francesa de 1789.
Na Assembleia Nacional Constituinte, os deputados favoráveis à preservação de prerrogativas monárquicas e à continuidade de instituições tradicionais concentravam-se à direita da presidência. Os defensores de mudanças mais profundas e de limitações ao poder real passaram a ocupar posições à esquerda.
A controvérsia sobre o poder de veto do rei foi particularmente importante para consolidar essa diferenciação.
Mas a Revolução não permaneceu dividida entre dois blocos imutáveis. À medida que a monarquia enfraquecia e a radicalização política avançava, surgiram novas divisões dentro do próprio campo revolucionário.
A transformação tornou-se especialmente visível na Convenção Nacional, instalada em setembro de 1792, após a derrubada da monarquia.
Três grandes agrupamentos passaram a organizar as disputas parlamentares.
Os girondinos, associados a figuras como Jacques-Pierre Brissot e Pierre Vergniaud, ocupavam predominantemente a direita da Convenção. Eram revolucionários relativamente moderados que, após participarem das disputas em torno da monarquia constitucional, passaram a atuar na República. Vinculados a setores da burguesia comercial e profissional, defendiam a propriedade privada, demonstravam resistência à intervenção econômica exigida pelos movimentos populares e se opunham à concentração do poder político em Paris.
Os montanheses, conhecidos também como La Montagne, ocupavam os bancos mais elevados à esquerda. Entre seus principais representantes estavam Maximilien Robespierre, Georges Danton, Jean-Paul Marat e Louis Antoine de Saint-Just. Defendiam uma atuação revolucionária mais radical, maior centralização política e, em determinadas circunstâncias, medidas econômicas destinadas a enfrentar a carestia e atender às reivindicações populares.
A Planície, também chamada de Pântano, reunia deputados menos vinculados às duas principais facções, frequentemente decisivos na formação das maiorias parlamentares.
Os girondinos e montanheses não eram partidos políticos modernos, com estruturas permanentes, programas uniformes e disciplina partidária. Tratava-se de agrupamentos relativamente fluidos, com divergências internas e alianças mutáveis.
O aspecto historicamente mais importante é que os girondinos, situados à direita da Convenção, também pertenciam ao campo revolucionário. Sua posição à direita dos montanheses não os transformava em defensores do Antigo Regime.
A própria localização política havia mudado em poucos anos.
Enquanto em 1789 a direita estava fortemente associada à preservação do poder monárquico, em 1792 uma parte importante da direita parlamentar já participava das instituições republicanas.
Essa transformação revela uma característica permanente dos conceitos de esquerda e direita: seus conteúdos dependem das disputas e das condições históricas em que são utilizados.
Propriedade, igualdade e participação popular
As diferenças entre girondinos e montanheses não se limitavam à organização do poder político.
Os girondinos tendiam a atribuir maior importância à liberdade econômica e à proteção da propriedade. Os montanheses, pressionados pelos sans-culottes — trabalhadores urbanos, artesãos e pequenos comerciantes mobilizados na Revolução —, admitiram medidas de controle de preços e abastecimento.
A discussão antecipava, ainda que em condições muito diferentes das atuais, uma questão que atravessaria os séculos seguintes: até que ponto a liberdade econômica pode coexistir com profundas desigualdades materiais?
A Constituição montanhesa de 1793 reconheceu direitos sociais, incluindo a assistência pública e a instrução, preservando também o direito de propriedade. A Constituição foi aprovada, mas nunca efetivamente aplicada, em razão da suspensão do funcionamento constitucional ordinário durante o governo revolucionário.
A radicalização revolucionária, entretanto, também expôs contradições entre igualdade e liberdade política.
A derrota dos girondinos, em junho de 1793, abriu caminho para o predomínio montanhês e para o governo revolucionário associado ao período do Terror, marcado pela repressão política e pela utilização de tribunais de exceção.
Portanto, a Revolução Francesa não estabeleceu uma associação automática entre radicalismo igualitário e democracia pluralista.
Ela inaugurou conflitos que permaneceriam presentes em diferentes experiências políticas: a relação entre liberdade e igualdade, a legitimidade da propriedade, a participação popular e os limites do poder estatal.
A esquerda daquele período ainda não era socialista. A direita girondina tampouco correspondia à direita neoliberal contemporânea.
Mas ali já estavam presentes algumas das tensões que dariam novos significados a essas denominações.
3. A Revolução Industrial e o nascimento da esquerda socialista
O século XIX modificou profundamente o conteúdo da divisão política.
A expansão do capitalismo industrial, a urbanização e a formação de uma classe trabalhadora assalariada transformaram a relação entre capital e trabalho em um conflito central.
As revoluções liberais haviam combatido os privilégios aristocráticos e afirmado a igualdade jurídica. Entretanto, a expansão industrial evidenciou que a igualdade perante a lei não eliminava a concentração da propriedade nem as profundas desigualdades econômicas.
É nesse contexto que Karl Marx e Friedrich Engels publicaram, em 1848, o Manifesto do Partido Comunista.
A contribuição de Marx e Engels consistiu em interpretar as transformações políticas a partir das relações sociais de produção e dos conflitos entre classes.
Em O Capital (1867), Marx aprofundou sua análise sobre o valor, a exploração do trabalho e a dinâmica da acumulação capitalista.
A esquerda incorporava uma dimensão inexistente em sua formulação original: a crítica às relações capitalistas de propriedade e produção.
Mas o socialismo não constituía um pensamento homogêneo.
Socialistas utópicos, marxistas, anarquistas e outras correntes divergiam quanto à propriedade, à organização do trabalho, ao papel do Estado e aos caminhos da transformação social.
A direita também se diversificou. O conservadorismo passou a conviver com diferentes vertentes liberais, algumas comprometidas com reformas constitucionais e outras mais diretamente associadas à defesa da propriedade e da ordem econômica capitalista.
A divisão entre esquerda e direita deixava de expressar principalmente o conflito entre aristocracia e forças revolucionárias para incorporar a disputa entre capital e trabalho.
4. A formação dos partidos socialistas e o conflito entre reforma e revolução
A industrialização também criou condições para o surgimento de sindicatos, organizações operárias e partidos políticos de massas.
A Associação Internacional dos Trabalhadores, fundada em 1864, procurou articular diferentes correntes socialistas e movimentos de trabalhadores.
Na Alemanha, a formação do Partido Social-Democrata da Alemanha (SPD) tornou-se uma referência para a organização política do movimento operário europeu.
É importante destacar que a social-democracia não nasceu como uma dissidência externa ao socialismo. Ela se desenvolveu dentro do próprio movimento socialista e, durante parte de sua história, esteve fortemente associada ao marxismo.
As divergências surgiram principalmente em torno da estratégia de transformação da sociedade.
Eduard Bernstein, em Socialismo Evolucionário (Evolutionary Socialism, obra originalmente publicada em 1899), questionou a expectativa de colapso inevitável do capitalismo e defendeu a possibilidade de mudanças progressivas por meio das instituições democráticas, da organização sindical e de reformas sociais.
Rosa Luxemburgo, em Reforma ou Revolução? (1900), contestou a perspectiva revisionista. Para ela, as reformas eram importantes para melhorar as condições de vida dos trabalhadores, mas não substituíam a necessidade de transformação das relações capitalistas.
Karl Kautsky também desempenhou papel fundamental nos debates da Segunda Internacional, defendendo posições marxistas que não podem ser simplesmente identificadas com a estratégia bolchevique posterior.
A questão fundamental estava colocada: seria possível superar as contradições do capitalismo por meio de reformas democráticas ou seria necessária uma ruptura revolucionária?
Essa divergência antecedeu a Revolução Russa, mas seria profundamente transformada por ela.
5. A Revolução Russa, a União Soviética e a divisão internacional da esquerda
A Revolução Russa de 1917 inaugurou uma nova etapa na história da esquerda.
Sob a liderança de Vladimir Lenin, os bolcheviques assumiram o poder em outubro, defendendo a transformação revolucionária da sociedade e a construção de uma alternativa ao capitalismo.
Em 1922, foi formalmente constituída a União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS).
A criação da Internacional Comunista, em 1919, aprofundou a separação entre organizações comunistas vinculadas à estratégia revolucionária e partidos socialistas favoráveis a caminhos parlamentares ou reformistas.
A cisão provocou a formação ou reorganização de partidos comunistas em diversos países.
Na França, o Congresso de Tours, em 1920, levou à formação da organização que se tornaria o Partido Comunista Francês (PCF). Na Itália, a ruptura de Livorno, em 1921, originou o Partido Comunista da Itália. No Brasil, a organização comunista fundada em 1922 adotaria posteriormente a denominação Partido Comunista Brasileiro (PCB).
A esquerda internacional passou a apresentar duas grandes tradições institucionais: a comunista revolucionária e a socialista ou social-democrata, embora existissem importantes correntes intermediárias e alternativas.
A experiência soviética produziu resultados contraditórios.
A industrialização acelerada, a expansão da escolarização e a mobilização de recursos econômicos coexistiram com a supressão do pluralismo partidário, a repressão política, a coletivização coercitiva e, particularmente sob Stalin, graves violações dos direitos humanos.
Essa experiência mostrou que a transformação da propriedade e a promessa de igualdade econômica não asseguram, por si mesmas, a liberdade política.
O pensador italiano Antonio Gramsci, dirigente comunista e autor dos Cadernos do Cárcere, contribuiu para ampliar a reflexão sobre Estado, sociedade civil, hegemonia e construção do consenso político.
A esquerda passava a enfrentar um problema histórico decisivo: como combinar transformação social, igualdade econômica e instituições democráticas?
6. Fascismo, nazismo e as transformações da direita
Enquanto a esquerda se dividia entre projetos revolucionários e reformistas, a direita também atravessava transformações profundas.
O fascismo italiano e o nazismo alemão representaram experiências de extrema direita caracterizadas por ultranacionalismo, autoritarismo, mobilização de massas e rejeição do pluralismo político.
Não se tratava de simples continuidade do conservadorismo tradicional ou do liberalismo econômico.
Esses movimentos combateram instituições liberais e organizações socialistas e comunistas, defendendo formas de organização política subordinadas a projetos nacionalistas autoritários.
O nazismo acrescentou uma ideologia racial genocida, responsável pelo Holocausto.
A ascensão desses regimes demonstrou que o conflito entre esquerda e direita não poderia ser reduzido à oposição entre intervenção estatal e liberdade de mercado.
Regimes de extrema direita podiam recorrer a forte intervenção econômica, planejamento direcionado e mobilização estatal sem abandonar a propriedade privada ou suas estruturas hierárquicas de poder.
A Segunda Guerra Mundial também mostrou que alianças políticas podiam atravessar divisões ideológicas: democracias liberais e União Soviética combateram conjuntamente o nazismo.
A relação entre democracia e autoritarismo tornava-se uma dimensão indispensável da análise política, embora não substituísse as diferenças entre esquerda e direita.
7. O pós-guerra e a consolidação da social-democracia
Entre 1945 e o início dos anos 1970, a Europa Ocidental experimentou um período de crescimento econômico, fortalecimento sindical e expansão dos sistemas públicos de proteção social.
A social-democracia consolidou-se como uma força política capaz de combinar economia capitalista, democracia parlamentar, redistribuição de renda e ampliação dos direitos sociais.
O economista John Maynard Keynes, em A Teoria Geral do Emprego, do Juro e da Moeda (1936), havia questionado a capacidade dos mercados de assegurar automaticamente o pleno emprego.
Keynes não defendia uma revolução socialista. Sua contribuição foi demonstrar a importância da demanda efetiva, do investimento e das políticas econômicas para o funcionamento do capitalismo.
Suas ideias forneceram instrumentos relevantes para políticas adotadas por governos social-democratas, trabalhistas, democrata-cristãos e liberais reformistas.
O historiador Tony Judt, em Pós-Guerra (2005), analisa como a reconstrução europeia combinou crescimento econômico, instituições democráticas e diferentes modelos nacionais de proteção social.
A social-democracia não foi a única responsável por essas transformações. Movimentos sindicais, partidos democrata-cristãos, organizações populares e circunstâncias internacionais específicas também contribuíram para a construção do Estado de bem-estar social.
Entretanto, a experiência demonstrou que o capitalismo poderia funcionar sob instituições que limitassem parcialmente o poder econômico privado e ampliassem a proteção social.
A expansão do consumo, a elevação dos salários reais e o fortalecimento de serviços públicos tornaram-se componentes fundamentais do compromisso entre capital e trabalho.
Esse compromisso, porém, dependia de condições históricas que começariam a se modificar nas décadas seguintes.
8. A crise dos anos 1970 e a ascensão do neoliberalismo
O esgotamento do ciclo de expansão do pós-guerra, os choques do petróleo, a inflação e a desaceleração do crescimento enfraqueceram o consenso econômico anterior.
A crise abriu espaço para a ascensão de correntes favoráveis à liberalização econômica, à redução de determinadas intervenções estatais e ao fortalecimento dos mecanismos de mercado.
Friedrich Hayek e Milton Friedman tornaram-se referências intelectuais importantes dessa transformação, embora apresentassem diferenças teóricas relevantes.
Com Margaret Thatcher, no Reino Unido, e Ronald Reagan, nos Estados Unidos, políticas de privatização, desregulamentação, liberalização financeira e enfrentamento do poder sindical ganharam projeção internacional.
A transformação ultrapassou a política econômica.
A internacionalização da produção, a mobilidade do capital e as mudanças tecnológicas modificaram as bases sociais e institucionais dos partidos trabalhistas e social-democratas.
A capacidade de negociação coletiva enfraqueceu em diversos países, enquanto os mercados financeiros passaram a exercer influência crescente sobre as decisões econômicas nacionais.
O sociólogo Wolfgang Streeck, em Buying Time: The Delayed Crisis of Democratic Capitalism (2014, edição inglesa da obra originalmente publicada em 2013), interpreta essas mudanças como parte de uma tensão crescente entre capitalismo e democracia.
A questão fundamental deixou de ser apenas quanto o Estado deveria intervir na economia. Passou a envolver também a capacidade efetiva dos governos democráticos de formular políticas diante de mercados financeiros internacionalizados.
9. A dissolução da União Soviética e a transformação da social-democracia
A queda do Muro de Berlim, em 1989, e a dissolução da URSS, em 1991, transformaram profundamente o cenário político internacional.
O colapso soviético resultou de dificuldades econômicas, rigidez institucional, problemas de inovação e coordenação, tensões nacionais e uma crise de legitimidade política aprofundada pelas reformas de Mikhail Gorbachev.
A dissolução da URSS representou a derrota histórica de um modelo específico de socialismo, caracterizado pelo planejamento centralizado e pelo monopólio político do partido comunista.
Não demonstrou, entretanto, que todas as formas de socialismo ou de organização econômica não capitalista seriam necessariamente inviáveis.
O cientista político Francis Fukuyama, em O Fim da História e o Último Homem (1992), interpretou a vitória das democracias liberais sobre seus principais adversários ideológicos como um possível ponto culminante da evolução das formas de organização política.
A história posterior mostrou que a expansão do capitalismo não conduziria automaticamente à consolidação universal da democracia liberal.
Ao mesmo tempo, parte da social-democracia europeia passou por transformações programáticas profundas.
A chamada Terceira Via, associada ao sociólogo Anthony Giddens e à experiência política de Tony Blair, procurou conciliar objetivos sociais com globalização econômica, mercados competitivos e disciplina fiscal.
O problema não estava simplesmente em reconhecer a importância dos mercados, mas em avaliar até que ponto a aceitação de determinadas premissas neoliberais restringia a capacidade da centro-esquerda de apresentar alternativas econômicas efetivamente distintas.
Essa transformação não ocorreu de maneira uniforme. Partidos social-democratas escandinavos, alemães, franceses e britânicos percorreram trajetórias diferentes.
Entretanto, em diversos países, a aproximação programática entre centro-esquerda e centro-direita contribuiu para enfraquecer identidades partidárias historicamente vinculadas ao trabalho organizado.
A crise da social-democracia não decorreu apenas da vitória política do neoliberalismo. Também envolveu escolhas programáticas que, em determinados contextos, contribuíram para reduzir sua capacidade de representação social.
A social-democracia nasceu no movimento socialista, consolidou-se reformando o capitalismo e, em parte de sua trajetória recente, passou a administrar restrições econômicas que anteriormente procurava transformar.
Essa contradição ajuda a compreender seu enfraquecimento, mas não autoriza afirmar que todas as experiências social-democratas tenham fracassado ou abandonado seus compromissos históricos.
10. Financeirização, dominância epistêmica e crise de representação
A crise financeira internacional de 2008 expôs contradições profundas do capitalismo financeirizado.
Instituições financeiras privadas receberam apoio público extraordinário, enquanto diversos governos adotaram posteriormente políticas de austeridade que restringiram despesas sociais e investimentos.
A assimetria adquiriu importância política: perdas financeiras privadas podiam ser socializadas, enquanto políticas redistributivas eram frequentemente apresentadas como fiscalmente insustentáveis.
O economista e historiador Karl Polanyi, em A Grande Transformação (1944), havia demonstrado como a tentativa de subordinar amplas dimensões da vida social à lógica dos mercados poderia produzir reações políticas e sociais profundas.
Sua análise não explica diretamente os acontecimentos atuais, mas oferece uma referência relevante para interpretá-los.
A financeirização acrescentou uma dimensão institucional à relação entre economia e política.
A influência dos mercados financeiros não se manifesta apenas por meio de taxas de juros, fluxos de capitais ou valorização de ativos. Também se expressa na capacidade de condicionar agendas públicas e estabelecer parâmetros considerados legítimos para a política econômica.
É nesse contexto que se torna útil distinguir dominância financeira de dominância epistêmica.
A primeira refere-se ao poder material e institucional das finanças sobre decisões econômicas e políticas públicas.
A segunda corresponde, em nossa interpretação, à capacidade de determinadas concepções econômicas de se apresentarem como tecnicamente neutras, restringindo o espaço de alternativas legítimas no debate público.
Isso não significa que preocupações com inflação, dívida pública ou estabilidade financeira sejam necessariamente ilegítimas.
Significa reconhecer que escolhas distributivas podem estar incorporadas a instrumentos, objetivos e restrições apresentados como exclusivamente técnicos.
Enquanto parte da esquerda tradicional perdeu capacidade de mobilização, movimentos da direita radical passaram a explorar insatisfações relacionadas à desigualdade, à imigração, à identidade nacional, à insegurança econômica e à desconfiança nas instituições.
A extrema direita contemporânea, entretanto, não pode ser explicada exclusivamente pela austeridade ou pela financeirização.
Nacionalismo, autoritarismo, transformações culturais, conflitos religiosos e mudanças nos meios de comunicação também desempenham papéis importantes.
O resultado é uma reorganização das disputas políticas na qual conflitos distributivos coexistem com questões identitárias, culturais e institucionais.
11. O Brasil e as particularidades da esquerda e da direita
No Brasil, a formação da esquerda e da direita ocorreu sob condições históricas distintas das europeias.
A escravidão, a concentração fundiária, a industrialização tardia e a fragilidade histórica das instituições democráticas moldaram conflitos específicos.
O movimento comunista organizado surgiu em 1922. O trabalhismo ganhou força especialmente a partir da Era Vargas, articulando direitos sociais, industrialização e participação estatal na economia, embora sua formação também tenha ocorrido sob instituições autoritárias.
A ditadura militar iniciada em 1964 reprimiu organizações de esquerda, sindicatos e movimentos populares, ao mesmo tempo que promoveu políticas de industrialização com forte participação estatal.
Esse exemplo demonstra por que a oposição entre Estado e mercado é insuficiente para distinguir esquerda e direita.
Um regime autoritário de direita pode ampliar a intervenção estatal sem abandonar a defesa de hierarquias políticas e sociais.
A fundação do Partido dos Trabalhadores (PT), em 1980, reuniu sindicalistas, movimentos populares, intelectuais e setores da esquerda democrática.
A Constituição de 1988 consolidou direitos sociais e instituições democráticas, embora sua implementação tenha convivido com desigualdades estruturais e sucessivas disputas sobre financiamento público, política econômica e distribuição de renda.
Nas décadas seguintes, a reorganização das direitas brasileiras incorporou correntes liberais, conservadoras, religiosas e nacionalistas, algumas comprometidas com a democracia constitucional e outras associadas a discursos e práticas de contestação de suas instituições.
A experiência brasileira também revela que políticas redistributivas podem coexistir com estruturas financeiras concentradas, taxas de juros elevadas e limitações ao investimento produtivo.
A questão, portanto, não é apenas identificar quais partidos se declaram de esquerda ou de direita, mas compreender quais relações de poder suas políticas preservam, modificam ou procuram superar.
12. Afinal, o que significa ser de esquerda ou de direita hoje?
Depois de mais de dois séculos, a distinção continua relevante, mas não pode ser compreendida como uma oposição simples entre capitalismo e socialismo, ou entre Estado e mercado.
Há direitas liberais, conservadoras, nacionalistas e autoritárias. Há esquerdas social-democratas, socialistas democráticas, comunistas e movimentos progressistas com prioridades distintas.
A posição diante da democracia constitui uma dimensão própria. É possível encontrar defensores e adversários do pluralismo político em diferentes tradições ideológicas, embora suas histórias e projetos não sejam equivalentes.
A contribuição de Norberto Bobbio permanece particularmente útil: a maneira como uma corrente política interpreta a igualdade e a desigualdade oferece um critério importante para compreender sua posição no espectro político.
Mas a realidade contemporânea exige acrescentar outras perguntas.
Quem controla os recursos econômicos? Como se distribuem os resultados do crescimento? Quais instituições condicionam as escolhas democráticas? Quem define os limites considerados aceitáveis para a política econômica? E quais grupos sociais possuem capacidade efetiva de influenciar essas decisões?
A esquerda contemporânea enfrenta o desafio de reconstruir uma proposta de transformação social compatível com a democracia, a diversidade das sociedades atuais e as mudanças no mundo do trabalho.
A direita democrática, por sua vez, enfrenta o desafio de distinguir a defesa legítima da liberdade econômica, da tradição e da ordem institucional das correntes autoritárias que procuram restringir o pluralismo político.
A crise da social-democracia mostra que a defesa da igualdade perde força quando deixa de se traduzir em projetos econômicos e instituições capazes de alterar as relações distributivas.
A experiência soviética demonstra que a promessa de igualdade não legitima a supressão da liberdade política.
A própria Revolução Francesa já revelava essas tensões.
Os girondinos participaram das instituições republicanas, mas resistiam à radicalização social e política dos montanheses. Estes, por sua vez, procuravam aprofundar a Revolução, mas participaram de uma experiência de concentração do poder e repressão política.
Desde então, esquerda e direita passaram por sucessivas transformações, incorporando novos conflitos, interesses e projetos de sociedade.
Talvez a principal questão de nosso tempo não seja descobrir se a esquerda e a direita desapareceram, mas compreender por que suas diferenças econômicas se tornaram menos claras em determinados contextos, justamente quando as desigualdades e os conflitos sobre o poder voltaram a ocupar o centro da vida política.
Esquerda e direita continuam existindo. O que mudou foram suas bases sociais, seus programas, suas alianças e as condições históricas em que disputam o futuro.
Compreender essas transformações é indispensável para que a escolha política deixe de ser apenas uma identificação partidária e volte a representar uma reflexão sobre a sociedade que se pretende construir.
Leitura recomendada
As referências estão apresentadas em português ou inglês. Os anos correspondem à publicação original das obras, com indicação das edições traduzidas quando pertinente.
Revolução Francesa e origem da divisão política
1. ENCYCLOPAEDIA BRITANNICA. French Revolution. Panorama histórico da Revolução Francesa, das transformações institucionais e dos conflitos políticos que deram origem às denominações esquerda e direita.
https://www.britannica.com/event/French-Revolution
2. ENCYCLOPAEDIA BRITANNICA. National Convention. Verbete histórico sobre a Convenção Nacional francesa e as disputas políticas entre girondinos e montanheses.
https://www.britannica.com/topic/National-Convention
3. HUNT, Lynn. Politics, Culture, and Class in the French Revolution. University of California Press, 1984. Reedição de 2004. Estudo sobre a cultura política revolucionária e a formação de novas identidades políticas.
https://www.ucpress.edu/book/9780520241565/politics-culture-and-class-in-the-french-revolution
Socialismo, comunismo e social-democracia
4. MARX, Karl; ENGELS, Friedrich. Manifesto do Partido Comunista. 1848. Referência fundamental para compreender a formação da esquerda socialista e a interpretação dos conflitos de classe.
https://www.marxists.org/portugues/marx/1848/ManifestoDoPartidoComunista/index.htm
5. BERNSTEIN, Eduard. Evolutionary Socialism (Socialismo Evolucionário). Obra original de 1899; tradução inglesa publicada no início do século XX. Referência fundamental para compreender o revisionismo socialista e a evolução da social-democracia.
https://www.marxists.org/reference/archive/bernstein/works/1899/evsoc/index.htm
6. LUXEMBURGO, Rosa. Reforma ou Revolução? Primeira edição em livro de 1900; segunda edição revista em 1908. Crítica ao revisionismo de Bernstein e reflexão sobre a relação entre reformas sociais e transformação socialista.
https://marxists.architexturez.net/portugues/luxemburgo/1900/ref_rev/index.htm
7. HOBSBAWM, Eric. Era dos Extremos: O Breve Século XX, 1914–1991. Original de 1994. Análise das guerras mundiais, da experiência soviética e das transformações do capitalismo.
https://www.penguinrandomhouse.com/books/80963/the-age-of-extremes-by-eric-hobsbawm
Capitalismo, democracia e crise contemporânea
8. POLANYI, Karl. A Grande Transformação: As Origens Políticas e Econômicas de Nossa Época. Original de 1944. Investigação das relações entre mercados, instituições sociais e reações políticas.
https://www.beacon.org/The-Great-Transformation-P46.aspx
9. JUDT, Tony. Pós-Guerra: Uma História da Europa desde 1945. Original de 2005. Análise da reconstrução europeia, da social-democracia e das transformações políticas do pós-guerra.
https://www.penguinrandomhouse.com/books/292994/postwar-by-tony-judt/9781440624766
10. STREECK, Wolfgang. Buying Time: The Delayed Crisis of Democratic Capitalism. Verso, 2014. Tradução inglesa da obra originalmente publicada em 2013. Análise das tensões entre capitalismo, finanças públicas e democracia.
11. PIKETTY, Thomas. Capital e Ideologia (Capital and Ideology). Obra original de 2019; edição inglesa publicada pela Harvard University Press em 2020. Investigação histórica das desigualdades, das ideologias e das transformações das coalizões políticas.
https://www.hup.harvard.edu/books/9780674980822
12. BOBBIO, Norberto. Direita e Esquerda: Razões e Significados de uma Distinção Política (Left and Right: The Significance of a Political Distinction). Obra original de 1994; edição inglesa publicada pela Polity Press em 1996. Referência conceitual central para compreender a persistência da distinção entre esquerda e direita.
Mauricio Martinelli Luperi é economista, doutor pela FGV-SP e mestre pela USP. Professor e pesquisador há mais de duas décadas, dedica-se ao estudo da macroeconomia, do desenvolvimento econômico, da política monetária e da história do pensamento econômico. Autor de trabalhos sobre equilíbrio geral, metodologia da economia, industrialização e regime de metas de inflação, tem concentrado suas pesquisas recentes na relação entre sistema financeiro, Banco Central e desenvolvimento, formulando o conceito de “autonomia capturada” para analisar a condução da política monetária brasileira.
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