A tentativa de Flávio Bolsonaro (PL) de se apresentar como presidente eleito do Brasil, mesmo após perder a disputa para Luiz Inácio Lula da Silva (PT), virou motivo de críticas e ironias na imprensa brasileira.
Em reportagem publicada nesta sexta-feira (30), o jornal britânico The Guardian destaca a repercussão negativa da carta divulgada pelo senador depois de deixar o país e viajar para os Estados Unidos.
Flávio perdeu a eleição por uma diferença de 4,4 milhões de votos. Dois dias depois do resultado, embarcou para Miami, onde chegou na terça-feira (27). Na quarta-feira (28), publicou uma carta na qual se declarou “o verdadeiro presidente eleito do Brasil” e voltou a questionar a legitimidade do processo eleitoral, sem apresentar provas de fraude.
A declaração durou menos de uma hora. Uma versão corrigida substituiu a expressão “presidente eleito” por “líder do Brasil”. O documento também passou por alterações no brasão oficial utilizado no cabeçalho. A primeira versão trazia uma representação antiga da identidade nacional, com a inscrição “Estados Unidos do Brazil”, denominação abandonada em 1967.
A sucessão de versões e os erros no documento ampliaram o constrangimento político. Segundo o The Guardian, a carta teria sido elaborada com auxílio do ChatGPT. O jornal também relata que a mudança de posicionamento ocorreu após questionamentos de integrantes do governo Donald Trump, preocupados com possíveis consequências diplomáticas de um rompimento com as autoridades brasileiras.
Futuro do bolsonarismo em disputa
Além do episódio da carta, a viagem de Flávio aos Estados Unidos abriu um debate sobre o futuro da direita radical brasileira e a capacidade da família Bolsonaro de continuar comandando esse campo político.
O assessor especial da Presidência para assuntos internacionais, Celso Amorim, avaliou que a derrota eleitoral representou o fim do bolsonarismo como força política dominante. Para ele, o resultado marcou o último suspiro de uma direita radical, irracional e mentirosa.
Há, contudo, avaliações divergentes. Outros observadores consideram que o bolsonarismo pode continuar influente, mesmo que a liderança da família esteja enfraquecida após a derrota nas urnas e a repercussão da viagem de Flávio.
Nas redes sociais, a autoproclamação do senador também virou alvo de memes. Uma das montagens ironizava a suposta posse presidencial de janeiro, convidando apoiadores para uma cerimônia no Castelo da Cinderela, na Disney, em Orlando. Outra parodiava o lema do movimento, “Deus, pátria e família”, transformando-o em “Adeus, pátria e família”.
Repercussão na imprensa brasileira
A reação dos principais veículos de comunicação do país foi marcada por críticas contundentes. O jornal O Estado de S. Paulo afirmou que o episódio poderia libertar a direita democrática do domínio de uma família que, segundo seu editorial, manteve o campo conservador refém de atitudes irresponsáveis e de desprezo pelo país.
O O Globo, por sua vez, classificou a saída de Flávio do Brasil como uma decisão vergonhosa e furtiva, que expôs o caráter patético do bolsonarismo. Já a Folha de S.Paulo avaliou que a sequência de acontecimentos revelou a natureza autoritária, ignorante e incompetente da família Bolsonaro.
Até Silas Malafaia, pastor evangélico próximo ao ex-presidente Jair Bolsonaro, criticou os filhos do ex-presidente. Em declaração reproduzida pelo jornal O Globo, chamou os integrantes da família de “idiotas amadores”.
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