Está certo que é um desperdício para o país abrir mão da contribuição de pessoas como Aldo Rebello e Mangabeira Unger, assim como de Ciro Gomes.
Poderiam acrescentar ideias e princípios a um governo, com seus conceitos de soberania. Não Aldo Rebello, que saiu como um mascate oferecendo projetos de acordo com o freguês, terminando por se tornar um defensor do militarismo e da bancada do BBB.
Mas Mangabeira Unger, não fosse essa gana de oferecer seus serviços a um chefe de milícias, teria tido muito a contribuir.
Aqui, suas contribuições ao governo Lula 2, poucas sendo aproveitadas:
Mangabeira Unger formulou propostas muito próximas do problema que estamos discutindo: criar instituições que aproximassem a poupança financeira da produção e ampliassem o acesso de pequenas e médias empresas ao capital e à tecnologia.
Ele foi ministro de Assuntos Estratégicos, e não apenas assessor: atuou no governo Lula, entre 2007 e 2009, e voltou ao cargo no governo Dilma, em 2015. Suas propostas pessoais, porém, não devem ser confundidas com medidas integralmente adotadas pelos governos. congressoemfoco.com.br
1. Aproximar as finanças da produção
Em janeiro de 2009, durante a crise internacional, apresentou um texto entregue a Lula propondo mudanças nas instituições financeiras. Seu diagnóstico era que a ligação entre a mobilização de recursos financeiros e o financiamento produtivo era excessivamente indireta.
Defendia três iniciativas concretas:
- Bancos de desenvolvimento financiando e investindo em pequenas e médias empresas, ampliando a base empresarial atendida.
- Parcela limitada dos recursos previdenciários destinada a capital de risco, por meio de gestão profissional, competitiva e independente.
- Regulação e incentivos tributários que favorecessem o financiamento da produção, aproximando as finanças da expansão dos empreendimentos.
Nesse texto, demonstrava cautela com o favorecimento de setores específicos: a prioridade era transformar a relação entre finanças e produção. Tratava-se de uma proposta de experimentação institucional, não de transferir indiscriminadamente aposentadorias para investimentos arriscados. jb.com.br
A conexão com seu desafio: oferecer canais de investimento produtivo que tenham capacidade de receber recursos quando a aplicação financeira tradicional perder atratividade.
2. Democratizar o crédito, com intermediários locais
Em artigo com Guilherme Afif Domingos, publicado em dezembro de 2015, já depois de sua passagem pelo ministério, defendeu a Empresa Simples de Crédito — ESC.
O desenho era permitir que empreendedores emprestassem recursos próprios a negócios de sua comunidade, ampliando a concorrência e aproximando a poupança local das necessidades produtivas. A restrição central era não captar depósitos ou poupança de terceiros. Partido Social Democrático
A ESC foi regulamentada posteriormente, pela Lei Complementar 167, de 2019, para operações com MEIs, microempresas e empresas de pequeno porte, em âmbito local. Portanto, é preciso separar a proposta defendida em 2015 de sua concretização legislativa posterior. www2.camara.leg.br
3. Combinar crédito, tecnologia, gestão e mercados
A ideia central de seu “produtivismo includente” era ampliar as oportunidades de produzir e inovar. No governo Dilma, dava destaque à formação de empresas médias tecnologicamente avançadas.
Seu argumento era que crédito isolado não resolveria: o apoio precisaria combinar financiamento, conhecimento tecnológico, práticas produtivas e acesso a mercados. camara.leg.br
Sua contribuição mais útil para nossa discussão: não basta criar um fundo; é necessário organizar empresas capazes de transformar o financiamento em produtividade e receita.
4. Mudar as condições da produção
Na exposição à Câmara de julho de 2015, apresentou outras propostas:
| Frente | Proposta |
| Agricultura | Recuperar pastagens, diversificar a produção e industrializar produtos agropecuários |
| Assistência técnica | Reorganizar o extensionismo e ampliar a aplicação das pesquisas da Embrapa |
| Organização dos produtores | Fortalecer o associativismo diante dos fornecedores de insumos e compradores |
| Tributação | Adotar imposto abrangente sobre valor agregado, com componentes federal e estadual |
| Exportações | Tributar mais os produtos menos elaborados, incentivando agregação de valor |
| Desenvolvimento regional | Construir estratégias próprias das regiões, com cooperação entre governos |
São propostas registradas em seu discurso, não uma relação de realizações efetivadas. camara.leg.br
5. Educação, trabalho e política macroeconômica
Em entrevista de maio de 2015, defendia ensino voltado à interpretação, raciocínio e cooperação, associado à formação de professores. Propunha também proteção jurídica complementar para trabalhadores terceirizados, temporários e por conta própria.
Na macroeconomia, defendia disciplina fiscal como condição para reduzir juros e ampliar a autonomia do Estado, câmbio flutuante e facilitação da importação de alta tecnologia. A abertura unilateral para essas importações era uma posição pessoal que reconhecia não ser consensual no governo. O Dia
6. Defesa e Amazônia no governo Lula
Participou da formulação da Estratégia Nacional de Defesa de 2008, articulando defesa, desenvolvimento tecnológico e indústria nacional. Na Amazônia, defendeu regularização fundiária, zoneamento econômico-ecológico e transformação das práticas produtivas. www2.camara.leg.br
É excesso de ingenuidade, provavelmente indo na conversa de Aldo Rebello, de que seria possível incutir princípios racionais em um governo Flávio Bolsonaro. Mas foi o desespero de bater em um governo – o Lula 3 – completamente impermeável a qualquer ideia nova.
Infelizmente, o oportunismo de Aldo matou a oportunidade de Lula 4.0 ter um belo assessor, em Mangabeira Unger.
Espera-se que Lula 4.0 possa incorporar alguma dessas propostas.
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