1 de novembro de 2026

Para além de Lula, o “L” tornou-se um símbolo da luta antifascista no mundo, por Márcio Sampaio de Castro

Em uma série de países, a reeleição de Lula também é encarada como uma vitória sobre o obscurantismo e uma inspiração para as disputas locais.
Foto de Fabio Rodrigues-Pozzebom - Agência Brasil

O “L” de Lula tornou-se símbolo global da luta antifascista, ganhando apoio de artistas e líderes internacionais.
Lula venceu a eleição com mobilização popular contra o medo, rejeitando intolerância, racismo e obscurantismo.
Nos EUA, Europa e Palestina, a vitória de Lula inspira resistência ao neofascismo e ao trumpismo.

Esse resumo foi útil?

Resumo gerado por Inteligência artificial

Para além de Lula, o “L” tornou-se um símbolo da luta antifascista no mundo

Siga o Jornal GGN no Google e receba as principais notícias do Brasil e do Mundo

Seguir no Google

Um dos maiores símbolos da campanha de reeleição de Luiz Inácio Lula da Silva ao Planalto tornou-se global e agora o “L” é um ícone da luta antifascista

Por Márcio Sampaio de Castro

“Não há nada mais parecido a um fascista do que um burguês assustado”. A frase atribuída a Bertolt Brecht jamais foi dita ou escrita por ele, mas é uma perfeita síntese dos pensamentos presentes em artigos e peças do poeta e dramaturgo alemão.

Brecht, que produziu sua obra no período compreendido entre as décadas de 1920 e 1950, caracterizou seu trabalho como uma incessante luta antifascista. Ele testemunhou o avanço e a ascensão do fascismo ao poder na Europa e, particularmente, na Alemanha nos anos do entreguerras e sabia muito bem que o avanço do liberalismo escamoteado sob um discurso de eficiência, liberdade e mérito trazia consigo o hálito nauseante da intolerância, da exclusão, da morte e da guerra.

No mundo contemporâneo, após mais de 40 anos de uma ordem neoliberal que se espalhou, sobretudo, no Ocidente, acompanhamos na última década o avanço daquilo que alguns especialistas arriscam classificar como um neofascismo. Neo porque adaptado ao contexto social, político e tecnológico do final do século XX e do século XXI e não exatamente idêntico a seu congênere dos anos 1930. A xenofobia, o racismo, a misoginia, o anti-intelectualismo, o ultranacionalismo, o revisionismo histórico e líderes histriônicos e reacionários caíram nas graças de multidões nos mais diversos países da bacia do Atlântico. Os exemplos são tantos espalhados aqui e ali que vale a pena sintetizá-los em apenas uma figura: o presidente dos EUA, Donald Trump.

Catapultado ao poder desde 2016 por gênios da comunicação como Steve Bannon, que soube catalisar a frustração das massas sob os efeitos do neoliberalismo e devolver-lhes a esperança através de uma figura autoritária e mal-educada, Trump é uma síntese desse movimento porque ao apresentar-se como uma alternativa ao sistema apenas o reforça, o agudiza, aprofundando o desamparo econômico e alimentando as guerras, a violência e até o genocídio mundo afora.

É importante destacar aqui que a ordem liberal (ou neoliberal) não é só econômica. Ela é também política e conta com o auxílio luxuoso da mídia corporativa e mais recentemente das Big Techs. Esta combinação engoliu as esperanças das pessoas comuns e produziu os horrores da intolerância que temos visto nidificar em nosso tempo.

A impressionante mobilização que levou Luiz Inácio Lula da Silva à sua quarta vitória eleitoral não foi apenas uma campanha política, foi uma mobilização nas redes, nas ruas, nas casas, nas rodas de conversa, onde o tom foi um só: a esperança precisa vencer o medo. A agenda do medo, valendo-nos aqui de Michel Foucault, é a agenda do controle dos corpos. Como mostraram as pesquisas, muitas mulheres rejeitaram o candidato adversário de Lula e nunca saberemos quantas foram para as urnas votar no presidente eleito, mesmo tendo jurado para suas famílias que jamais o fariam. Muitos jovens se recusaram a hipotecar seu futuro a uma agenda obscurantista e de tamanho mau gosto, pois entre eles há vários que não conseguem achar graça em piadas racistas, homofóbicas ou misóginas. O povo nordestino, historicamente acostumado a ser tratado como inferior por sulistas e sudestinos, se uniu de maneira impressionante para reforçar a constatação incrédula e assombrada de Euclides da Cunha: “O nordestino (sertanejo) é, antes de tudo, um forte”.  Enfim, cada um em seu canto e com suas razões, mas todos com uma convicção em comum, não tolerar a intolerância.

Mas não foi somente no Brasil que esse levante tomou corpo, os atores Mark Ruffalo, Javier Bardem, Juliette Binoche, os cineastas Guillermo del Toro e Pedro Almodóvar, a cantora Madonna,  os músicos Roger Waters e Tom Morello, a ambientalista Greta Thunberg, dentre várias outras personalidades, gravaram vídeos ou publicaram fotos fazendo o L e declarando apoio a Lula.

O prefeito de Nova Iorque, Zohran Mamdani, relatou em entrevista coletiva que no dia da eleição estava voltando para casa e presenciou um grupo de nova-iorquinos gritando o nome de Lula nas ruas em celebração à sua vitória nas urnas. Nos EUA, as eleições brasileiras estão sendo tratadas pelos opositores de Trump com um novo “Si, se puede”. Exemplo a ser seguido na luta contra o trumpismo. Um dos vídeos mais emocionantes a viralizar nas redes foi a celebração de crianças palestinas correndo em meio às ruínas de Gaza com a bandeira do Brasil e também gritando o nome de Lula. Na Espanha, na França, na Argentina e em uma série de outros países, a reeleição do presidente brasileiro também é encarada como uma vitória sobre o obscurantismo e uma inspiração para as disputas locais.

Mas voltemos a Brecht. No ato final de sua peça de 1941, A Resistível Ascensão de Arturo Ui, o protagonista que lhe dá o título arranca o bigode postiço, encara a platéia e profere uma advertência: “A cadela do fascismo está sempre no cio”. O L pode ter virado um símbolo global, mas a luta que ele representa está longe de acabar.

Márcio Sampaio de Castro é mestre em Comunicação e Cultura pela Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo. É professor nos cursos de Relações Internacionais e Propaganda e Marketing das Faculdades de Campinas (FACAMP), onde coordena o Centro de Análise e Pesquisa sobre a China (CAP – China).

O texto não representa necessariamente a opinião do Jornal GGN. Concorda ou tem ponto de vista diferente? Mande seu artigo para [email protected]. O artigo será publicado se atender aos critérios do Jornal GGN.

“Democracia é coisa frágil. Defendê-la requer um jornalismo corajoso e contundente. Junte-se a nós: https://www.catarse.me/JORNALGGN “

Observatorio de Geopolitica

O Observatório de Geopolítica do GGN tem como propósito analisar, de uma perspectiva crítica, a conjuntura internacional e os principais movimentos do Sistemas Mundial Moderno. Partimos do entendimento que o Sistema Internacional passa por profundas transformações estruturais, de caráter secular. E à partir desta compreensão se direcionam nossas contribuições no campo das Relações Internacionais, da Economia Política Internacional e da Geopolítica.

Assine a nossa Newsletter e fique atualizado!

Assine a nossa Newsletter e fique atualizado!

Mais lidas

As mais comentadas

Colunistas

Ana Gabriela Sales

Repórter do GGN há 9 anos. Especializada em produção de conteúdo para as redes sociais.

Camila Bezerra

Graduada em Comunicação Social – Habilitação em Jornalismo pela Universidade. com passagem pelo Jornal da Tarde e veículos regionais. É...

Carla Castanho

Carla Castanho é repórter no Jornal GGN e produtora no canal TVGGN

...

Faça login para comentar ou registre-se.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *


Recomendados para você

Recomendados