4 de novembro de 2026

A resposta das urnas nos EUA confirma: a derrocada de Trump começou no Brasil

Mobilização “vote como os brasileiros” e a marca do “L” consolidam o Brasil como referência de resistência democrática

A derrota de Donald Trump nas eleições legislativas dos Estados Unidos, com a conquista da maioria da Câmara dos Representantes e do Senado pelos democratas, representa um revés para o projeto político da extrema-direita internacional. Uma reação que, na avaliação dos entrevistados pela TVGGN, teve no Brasil um de seus primeiros pontos de inflexão, com a vitória de Luiz Inácio Lula da Silva, no dia 25 de outubro.

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O tema foi discutido pelo cientista político Pedro Costa Jr. e pela ex-juíza Luciana Bauer, fundadora do JusClima, em entrevista ao programa TVGGN 20H desta terça-feira (3), quando os resultados americanos ainda eram contabilizados. Os dois analisaram o impacto da derrota de Trump, a insatisfação do eleitorado com as condições econômicas e a influência da experiência brasileira sobre movimentos de resistência democrática nos Estados Unidos e em outros países.

Para Costa Jr., a extrema-direita construiu uma articulação internacional a partir dos Estados Unidos, mas começa a enfrentar uma reação que também ultrapassa fronteiras. O cientista político lembrou que Trump chegou a apresentar a eleição de governos aliados na América Latina como uma onda de vitórias de seu campo político.

“Ô, Nassif, a onda azul chegou lá. Eles queriam trazer a onda azul para cá, mas a onda azul chegou lá às avessas. Porque a onda azul do Trump aqui para a América Latina, ele disse lá atrás, nessas eleições do Brasil: ‘Nós vencemos nove eleições na América Latina’, colocando os aliados do Trump lá, como Milei, na Argentina, Bukele, em El Salvador. Ele chamou isso de onda azul. E o presidente Lula, o Brasil, o povo brasileiro freou esse tsunami azul na América Latina. Agora a onda azul acontece nos Estados Unidos”, afirmou.

A expressão ‘onda azul’ faz referência à cor dos democratas, que conquistaram o controle das duas casas do Congresso. Para Pedro, a dimensão do resultado vai além de uma derrota eleitoral: representa uma humilhação política para Trump, especialmente diante das vitórias democratas em estados tradicionalmente republicanos, como Texas e Kansas.

A economia cobra a conta de Trump

Na avaliação de Costa Jr., a principal explicação para o resultado está no custo de vida. Trump chegou à Casa Branca prometendo controlar a inflação e reduzir o preço dos combustíveis, mas não entregou o que havia anunciado. “A grande pergunta é entender essa derrota tão grande do Trump. E a resposta direta é, como diria o assessor do Clinton lá atrás: é a economia, estúpido”, afirmou.

O cientista político lembrou que o republicano havia usado a inflação e o custo de vida como argumentos contra o governo de Joe Biden. Depois de assumir a Presidência, porém, não conseguiu reverter o cenário.

“Quando ele assumiu, o preço do galão da gasolina era US$ 3,10 no governo Biden. Ele disse que ia reduzir, mas está mais de US$ 4, está US$ 4,15. Então, o que ele prometeu, ele não entregou. Esse era o principal ponto da campanha dele contra os democratas. E agora as urnas vão cobrar”, disse.

Luciana Bauer acrescentou que a insatisfação também está ligada à perda de perspectivas da juventude americana. Segundo ela, muitos jovens já não têm acesso às mesmas condições de vida que seus pais tiveram e passaram a apoiar candidatos com propostas de ampliação de direitos sociais.

“Querem saúde, querem SUS, querem universidade gratuita ou pelo menos uma universidade muito barata, como a da Europa, em que você paga 500 euros por semestre. Então, o americano médio, e mais ainda esta juventude, não tem mais acesso aos bens da classe média dos seus pais”, afirmou.

Para a ex-juíza, a mobilização expressa uma rejeição mais ampla ao projeto de Trump. “As pessoas percebem que esse mundo não é mais sustentável e vão às ruas eleger um mundo diferente, candidatos diferentes”, disse. “Esta é a eleição da rejeição total aos ideais de Trump, que não trouxeram a América Grande de novo.”

Lula é referência internacional de resistência

A projeção internacional de Lula foi outro ponto central da entrevista. Para Luciana, o presidente brasileiro se tornou uma referência na defesa da democracia e um contraponto ao avanço da extrema-direita.

“Lula é o contraponto ao fascismo no mundo”, afirmou. Ela contou que, durante encontros internacionais ligados à Semana do Clima e à ONU, ouviu repetidamente a expectativa de que o presidente brasileiro pudesse fazer frente a Trump, com a frase “Lula vai derrotar Trump?”.

Essa influência também aparece nas mobilizações populares nos Estados Unidos. Bauer relatou a circulação da expressão “vote like Brazilians” — vote como os brasileiros — nas redes sociais americanas, como forma de incentivar a participação eleitoral.

A ex-juíza também citou a mobilização de estudantes da Universidade da Carolina do Norte que, impedidos de votar no próprio campus, algo similar ao que ocorreu na Bahia nas eleições deste ano, organizaram uma passeata para chegar a outro local de votação. Para ela, a reação e o maior engajamento dos eleitores democratas nas primárias já indicavam a força da mobilização contra Trump.

O “L” de Lula atravessa fronteiras

Outro tema abordado durante a conversa foi o significado do “L”, símbolo associado à vitória de Lula em 2026. Na avaliação do entrevistado, a letra ultrapassou as fronteiras da política brasileira e passou a representar, em diferentes países, a resistência ao trumpismo e à articulação internacional da extrema direita.

“O maior signo de tudo isso, mais do que o Janones ou qualquer outra coisa, é o L. O L se tornou, o mundo fez o L. Se tornou a vitória do Lula contra o Trump, não a vitória do Lula contra o Flávio Bolsonaro, que lá fora ninguém sabe quem é, mas a vitória do Lula contra o Trump”, afirmou.

O cientista político citou a atuação do deputado André Janones na articulação de grupos políticos na Argentina, onde foi criado um grupo de WhatsApp chamado “exército peronista”, com mais de 100 mil participantes. Janones também teria sido convidado a compartilhar a experiência brasileira com movimentos no México, na Colômbia e em países europeus.

Para Costa Jr., a novidade é que o campo progressista começa a construir uma articulação internacional capaz de responder à rede criada pela extrema direita. “A extrema direita se internacionalizou com Trump e Bannon. Mas o curioso é que nós estamos vendo, pela primeira vez, a esquerda, o campo democrático e mais progressista se internacionalizar como não tinha feito antes”, avaliou.

O cientista político vê na vitória de Lula o início dessa reação, que agora alcança o centro do poder político mundial.

“Essa resposta não começou pelos democratas, não começou pela Câmara, nem pelo Biden, nem pelo Obama. Ela começou no Brasil, no Sul Global, na América Latina, no que eles chamam de quintal. (…) Saiu da periferia, tomou o Sul Global e chegou ao centro. Acho que esse é o maior fato que nós temos em muitos anos de política internacional”, concluiu.

Assista a um trecho da entrevista, na TV GGN, pelo link abaixo:

Carla Castanho

Carla Castanho é repórter no Jornal GGN e produtora no canal TVGGN

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Ana Gabriela Sales

Repórter do GGN há 9 anos. Especializada em produção de conteúdo para as redes sociais.

Camila Bezerra

Graduada em Comunicação Social – Habilitação em Jornalismo pela Universidade. com passagem pelo Jornal da Tarde e veículos regionais. É...

Carla Castanho

Carla Castanho é repórter no Jornal GGN e produtora no canal TVGGN

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