A crise do Ueno Bank, no Paraguai, reacendeu o debate sobre o uso de estruturas políticas para favorecer instituições financeiras em um modelo que guarda semelhanças diretas com o caso Master, no Brasil. Com cerca de US$ 850 milhões em recursos comprometidos, sendo US$ 350 milhões vinculados ao sistema previdenciário, a quebra da instituição atingiu quase metade da população paraguaia e deflagrou uma crise institucional no país.
A avaliação sobre a relação entre os dois casos é de Pablino Cáceres, ex-ministro de Ação Social do governo de Fernando Lugo, que participou de entrevista à TVGGN nesta quinta-feira ao lado de Regiane Bressan, professora de Relações Internacionais da Unifesp. Segundo Cáceres, a principal semelhança entre as duas crises está no tráfego de influência e nas alterações legislativas promovidas pelo poder Executivo para beneficiar dirigentes e a própria estrutura do banco.
Segundo o ex-ministro, o Ueno Bank, instituição relativamente nova no mercado paraguaio, conseguiu captar recursos de diferentes origens em um intervalo curto de tempo, atingindo aposentados, trabalhadores, empresas privadas e órgãos públicos.
“Estamos falando de mais ou menos uma quantidade de 350 milhões de dólares pertencentes ao sistema previdenciário paraguaio. É um banco que captou muitos recursos e muitas pessoas em muito curto tempo. E isso não poderia ter sido feito por uma pessoa só”, explicou Cáceres. O montante total comprometido com a quebra, segundo ele, impacta metade da população do país.
O ex-ministro também relaciona a crise atual ao histórico de instabilidade política do Paraguai, que já enfrentou um processo de impeachment em 2012, contra Fernando Lugo. Os episódios, porém, têm naturezas distintas: enquanto a destituição de Lugo ocorreu em meio a uma articulação política que resultou em sua saída da Presidência, a crise envolvendo Santiago Peña tem como ponto de partida denúncias de irregularidades financeiras e possível favorecimento de interesses privados por meio de estruturas do Estado.
A comparação com o Banco Master passa principalmente pela influência política sobre as estruturas regulatórias. Alterações na legislação permitiram a entrada de ex-dirigentes do banco em posições estratégicas dentro do próprio Banco Central do Paraguai (BCP). “Uma semelhança que tem é a influência do poder político. O poder político que modifica as normas legais para ter acesso à estrutura do banco”, afirmou Cáceres, destacando ainda o tráfego de influência e a concessão de empréstimos irregulares a empresas vinculadas ao grupo controlador.
A imagem da “Suíça Latina” e o mito da migração
Além dos estragos econômicos, o colapso do Ueno Bank coloca em xeque a imagem que o Paraguai construiu nos últimos anos como destino ideal de investimentos e alternativa para brasileiros. O país passou a ser apresentado por setores conservadores no Brasil como uma espécie de “Suíça Latina”, associada à baixa carga tributária e à estabilidade econômica.
Pablino Cáceres, no entanto, questiona essa narrativa e afirma que ela atende a interesses de propaganda em ambos os lados da fronteira. Do lado paraguaio, a divulgação sobre a chegada massiva de brasileiros ajuda a vender a imagem de um país próspero e aberto ao capital externo; no Brasil, o discurso é instrumentalizado por grupos que criticam o sistema tributário nacional.
“Do lado paraguaio, às vezes isso é aproveitado para vender aquela imagem de estabilidade, de bom sucesso, de acolhida favorável a investimentos que vêm de fora. Acho que aconteceu com essa intenção de dar uma publicidade acima da realidade que existe”, avaliou o ex-ministro, citando que a movimentação real na fronteira em Ciudad del Este não confirma o êxodo alardeado.
Contudo, os desdobramentos econômicos da crise bancária tendem a paralisar novos investimentos. A professora Regiane Bressan observa que o Paraguai vinha atraindo desde pequenos empresários brasileiros até indústrias interessadas na internacionalização de suas operações devido aos custos de energia e mão de obra.
“A instabilidade econômica pode ser até mais perversa do que a própria instabilidade política, pensando que metade da população paraguaia está sem acessar seus recursos em conta corrente e poupança. O varejo já viu cair abruptamente a venda, afetando toda a cadeia econômica”, pontuou Bressan.
Disputa geopolítica: China pode ocupar vácuo dos EUA
A crise bancária e institucional ocorre em meio ao acirramento da disputa de poder na América Latina. Regiane lembra que o Paraguai é um aliado histórico de Washington na região, mas avalia que o agravamento da crise interna pode abrir espaço para a aproximação de Pequim.
“Se os Estados Unidos se afastarem nesse momento diante da oposição no Congresso norte-americano, provavelmente a China vai fazer esse papel, porque o país deseja muito se fazer presente na região e aproveitar as vantagens oferecidas. Os Estados Unidos estão vivendo uma retração diante do crescimento gigantesco da China, e deve ser um crescimento sem volta. Toda essa dinâmica é explicada por isso, porque está havendo uma substituição do poder hegemônico econômico dos Estados Unidos pela China. Só que a China atua em outras bases, não publiciza tanto, ou seja, é uma outra forma de negociar, de atuar no plano internacional”, analisou a professora da Unifesp.
Regiane destaca que o interesse chinês envolve o acesso à matriz energética paraguaia e a recursos estratégicos, ressaltando a postura pragmática de Pequim em momentos de estrangulamento econômico na América do Sul, como ocorre no caso argentino, conduzido pelo presidente Javier Milei. “Foi a China quem salvou a Argentina, tem salvado a Argentina constantemente da crise econômica, não são os Estados Unidos”, explicou.
O desgaste prévio de Santiago Peña e a crise no Congresso
Embora a derrocada do Ueno Bank tenha precipitado a crise política, a popularidade do presidente Santiago Peña já enfrentava forte erosão antes do escândalo. Cáceres relembrou que a tensão se aprofundou quando Peña e seu vice, Pedro Alliana, tentaram se distanciar do ex-presidente Horacio Cartes, líder do movimento Honor Colorado (HC) e presidente do Partido Colorado.
“Ele não dava respostas importantes em temas que a população precisava, na questão do desemprego, da saúde e da educação. Tinha muitas questões sendo bem criticadas por diversos setores, não só pela oposição, mas até pelos próprios partidários”, explicou Cáceres.
Com a eclosão da fraude bancária e as denúncias de que o governo operou para proteger o Ueno Bank, a pressão popular e parlamentar tornou-se insustentável, resultando na abertura do processo de impeachment na Câmara dos Deputados e na tentativa do presidente de renunciar ao cargo para manter prerrogativas de foro.
A situação teve novos desdobramentos nesta sexta-feira (6). O Senado retomou os procedimentos para julgar Peña, enquanto a renúncia apresentada pelo presidente não foi aceita.
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