5 de junho de 2026

O eterno embate entre progresso social e atraso, por Luis Felipe Miguel

Arte: Banksy

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O eterno embate entre progresso social e atraso

por Luis Felipe Miguel

O bolsomínion na tevê volta a repetir que “o fascismo é de esquerda”. Surfa no analfabetismo político generalizado e segue a velha recomendação de Goebbels – seu correligionário, pois não? – de repetir uma mentira até torná-la “verdade”.

Desde que a metáfora esquerda-direita surgiu, no contexto da Revolução Francesa, ela se relaciona ao eixo progresso social versus conservadorismo e atraso. Da esquerda para a direita, caminhava-se da defesa dos sans-culottes, da laicidade e da república para a defesa da nobreza, da Igreja e da monarquia.

Os contextos mudaram, mas o sentido da metáfora permanece. A esquerda se associa à defesa da classe trabalhadora e ao combate à exploração e à injustiça social; na definição de Norberto Bobbio, seu traço definidor é a adesão à ideia de igualdade. Já a direita julga que as desigualdades são inevitáveis e mesmo benéficas, como recompensa para o talento e a perseverança e como resultado esperado da competição dentro da sociedade, ou então que o combate às desigualdades lesa a liberdade e por isso precisa ser evitado.

Como o conceito de “igualdade” se tornou mais complexo, tendo que lidar também com as reivindicações de respeito às diferenças, prefiro colocar a questão em outros termos. A esquerda se associa às demandas emancipatórias, ao passo que a direita entende que padrões de dominação vigentes na sociedade formam uma base sem a qual a própria sociedade não pode existir (a família tradicional, a propriedade privada etc.).

Fala-se de esquerda e direita como um continuum, mas é mais complexo do que isso, sobretudo por ser uma metáfora que encapsula muitas dimensões. Mas não todas: a questão ambiental, por exemplo, que é cada vez mais evidentemente essencial na política contemporânea, não está bem ajustada. Se ruralistas e mineradores são exemplos da insensibilidade ambiental à direita, na esquerda por vezes grassa um desenvolvimentismo que desqualifica a agenda ecológica. E há um ambientalismo de direita, sintetizado no lema “desenvolvimento sustentável”, em concorrência com os ecossocialismos, ecofeminismos etc., que relacionam a degradação ecológica às desigualdades sociais e à exploração capitalista.

Em todo esse percurso, não surge uma única brecha para caracterizar o fascismo como de esquerda. Se “esquerda” e “direita” são conceitos com algum significado, não palavras vazias, a declaração do tal Frederico d’Ávila só pode ser contabilizada como estupidez ou má fé (eu marco um duplo). É por isso que todo – e todo é todo mesmo, sem exceção – o estudo da história e da ciência política identificam o fascismo como sendo extrema-direita.

Os direitistas honestos (que existem, embora escasseiem no Brasil) não refutam esta constatação. Assim como eu, sendo de esquerda, não vou negar que Stálin era de esquerda. Embora os valores que guiam a esquerda sejam, a meu ver de forma indiscutível, muito superiores aos da direita, as práticas dos grupos políticos que os abraçam podem andar por vielas obscuras.

Mas ter esta honestidade já representa uma abertura para o verdadeiro debate político. E a direita brasileira vive de mistificações e foge do debate o quanto pode, já que defender a desigualdade e a injustiça num país como o nosso é realmente tarefa inglória.

Luis Felipe Miguel – Doutor em Ciências Sociais pela Unicamp, Professor do Instituto de Ciência Política da Universidade de Brasília, onde coordena o Grupo de Pesquisa sobre Democracia e Desigualdades. Pesquisador do CNPq. Autor de diversos livros, entre eles Democracia e representação: territórios em disputa (Editora Unesp, 2014), Feminismo e política: uma introdução (com Flávia Biroli; Boitempo, 2014).

Luis Felipe Miguel

Luis Felipe Miguel é professor do Instituto de Ciência Política da UnB. Autor, entre outros livros, de O colapso da democracia no Brasil (Expressão Popular).

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3 Comentários
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  1. Maria Luisa

    26 de junho de 2018 3:04 pm

    Mais fascista que rede Globo…

    Como na internet tem-se falado bastante em fascismo, o que fazem os fascistoides? Se apropiam do discurso, invertem as flechas e dizem que fascimo é algo que vem da esquerda. Eu nem sei se isso ocorre em outros lugares do mundo, mas esse tipo de falacia so pode funcionar em paises em que a educação é muito precaria e os meios de comunicação se aproveitam disso. 

    1. Gilberto Marcondes

      26 de junho de 2018 5:56 pm

      Esse fenômeno de inversão

      Esse fenômeno de inversão ocorre bastante nos EUA e em parcelas da Europa. Esse discurso deformado em que até o nazismo virou de esquerda é resultado de uma grande esquema de propaganda patrocinado pelo 1% mais ricos. Ex> os irmãos Koch.

  2. Gilberto Marcondes

    26 de junho de 2018 5:59 pm

    É a luta de classes.

    É a luta de classes.

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