Nosso estrato social mais poderoso econômica e politicamente está frustrado com o país e, sem saber que direção seguir, caminha para as fronteiras. Mas antes chegará às urnas.

O mal-estar do Brasil descente, por Sergio Saraiva
Existe um mal-estar instalado no país.
“Sente-se onde haja gente, logo você vai notar. Mesmo e até principalmente
onde menos queixas há. Sente-se a moçada descontente onde quer que se vá. Sente-se que a coisa já não pode ficar como está”. O Eterno Deus Mu Dança – Gilberto Gil – 1989.
A data desses versos não poderia ser mais significativa. Há 30 anos estava presente o mesmo sentimento de mal-estar. Não havia mais uma ditadura, mas nada parecia haver melhorado. Talvez ao contrário. O Brasil não dera certo.
O mesmo sentimento está de volta. Não há mais corrupção, o “chefe da quadrilha” está na cadeia. Era só derrubar Dilma e tudo se resolveria. Pois bem, o PT não está mais no poder, mas nada parece ter melhorado. O Brasil não deu certo.
Desencanto. Esse é o sentimento. Algumas pesquisas têm dado números a esse sentimento de desencanto.
E embora esse sentimento seja geral, trataremos aqui de um segmento específico do nosso quando socioeconômico – o jovem adulto de até 34 anos, com instrução superior e renda familiar de classe-média acima de 10 SM – salários mínimos. Quem conhece minimamente o recorte socioeconômico deste país sabe – trata-se dos brancos. Pelo menos majoritariamente.
Da Folha de São Paulo, uma pesquisa muito significativa.
A maioria dos jovens brasileiros – 62% dos brasileiros jovens entre 16 e 24 anos e metade dos jovens adultos entre 25 e 34 anos – deixaria o país se pudesse.
Mas quem são eles?
56% dos que têm curso superior e 51% dos que pertencem às classes A e B.
Ainda que minoritário, há números significativos também entre os jovens de nível médio de instrução – 48% e que pertencem à classe C – 44%.
Números de maio de 2018.
Aliás, o sumiço das indefectíveis camisas amarelas, em plena copa do mundo, é representativo desse estado de espírito.
Há ainda outros dados a serem considerados.
Ainda segundo o Datafolha.
Nesse segmento: jovens até 34 anos, com curso superior e renda familiar acima de 10 SM, o Poder Judiciário tem o seu menor grau de confiança. E esse grau de confiança caiu espantosamente de 2017 para 2018.
Hoje, não confiam no Poder Judiciário 32% das pessoas até 34 anos– eram 25% em 2017. Com nível superior de instrução, 30% não confiam no Poder Judiciário – eram 21% em 2017. E com renda familiar acima de 10 SM, 34% não confiam no Poder Judiciário – eram 28% em 2017.

Em 2018, confiam muito no Poder Judiciário 17% das pessoas até 34 anos e com curso superior e 13% dos que têm renda familiar acima de 10 salários mínimos.
Os índices referentes especificamente ao STF – Supremo Tribunal Federal são ainda piores. Mas isso pode ser explicado como uma consequência da atuação “garantista” de alguns Ministros, notadamente o ministro Gilmar Mendes.
Mas em relação ao Judiciário – ponta de lança do combate ao PT, em particular, e às esquerdas, em geral – só um desencanto ainda não explicitado explicaria. Mas os números estão aí e o desencanto também.
E agora a Pesquisa Ipsos-Estadão publicada em 23 de junho de 2018 vem confirmar essa percepção.
Por ela, o índice de aprovação de um ícone do antipetismo – Sergio Moro – despenca. Seu grau de aprovação é de 37% – era de 55% em agosto de 2017. E sua desaprovação atualmente é de 55% – era coincidentemente de 37% em agosto de 2017. Uma completa inversão em apenas um ano.

O jovem adulto brasileiro, branco, com instrução superior e de classe-média está decepcionado com o país. Quer ir embora. Não se sente motivado a lutar pela melhoria do país que é seu.
Frustrou-se, mas, na verdade, não sairá do país. Ficará por aqui. Quem tinha como ir já foi.
Econômica e politicamente esse é o segmento mais poderoso de qualquer país. Eleitoralmente, no Brasil, perde para os pobres. Mas basta ver 30 minutos de televisão, ou abrir qualquer revista, para saber que é a ele que se dirigem as propagandas.
E esse estrato da nossa sociedade está frustrado.
Há uma eleição logo à frente, nela desaguará toda essa frustração.
Mas hoje, diferente de 30 anos atrás, não há um Collor de Mello, não há um FHC – rostos em que se espelhou. E lhe é negado um Lula – a quem recorreu quando sua frustração venceu o seu medo.
Quem será, desta vez, esse estuário? Como será a partir de 2019, caso as eleições de 2018 o frustrem também?
Mais algumas incógnitas a serem consideradas pelo grupo que hoje decide os destinos do país.
PS: Oficina de Concertos Gerais e Poesia – filho da puta quem nos partiu a Pátria entre patrício e apátrida.
Marcia Hollanda Ribeiro
24 de junho de 2018 9:17 pmO mal-estar do Brasil descente, por Sergio Saraiva
Gostei e retratou bem a semelhança desta época com a de Colllor e Fernando Henrique Cardoso. A única diferença é que naquela época a mídia (Globo) e o “mercado” tinham candidato e agora estão ainda a procura. A satisfação ou a insatisfação da maoiria da população não é considerada, pois entendem que havendo um “bom candidato” está resolvida a situação. Será que este desencanto da população, principalmente a idade comentada pelo artigo, não vem desta situação? Pouco hoje influenciam pois quem manda efetivamente é o “mercado” (setor financeiro principalmente) e a mídia (Rede Globo).
Marcia Hollanda Ribeiro
24 de junho de 2018 9:18 pmO mal-estar do Brasil descente, por Sergio Saraiva
Gostei e retratou bem a semelhança desta época com a de Colllor e Fernando Henrique Cardoso. A única diferença é que naquela época a mídia (Globo) e o “mercado” tinham candidato e agora estão ainda a procura. A satisfação ou a insatisfação da maoiria da população não é considerada, pois entendem que havendo um “bom candidato” está resolvida a situação. Será que este desencanto da população, principalmente a idade comentada pelo artigo, não vem desta situação? Pouco hoje influenciam pois quem manda efetivamente é o “mercado” (setor financeiro principalmente) e a mídia (Rede Globo).
giorgio xenofonte
24 de junho de 2018 9:27 pmSó um detalhe que pode ou não
Só um detalhe que pode ou não ser importante:
É um país que desce, então descente… ou, o mais provável, é o mal-estar do pais composto por pessoas que se acham “decentes”? 🙂
Sergio Saraiva
24 de junho de 2018 10:11 pmDescente, não resisti à ironia.
Não é minha, roubei-a na cara dura.
Não sou decente?
Aureliano
24 de junho de 2018 10:44 pmCármem Lúcia: o máximo em matéria de indecência no STF
MARCO AURÉLIO MELLO CULPA CÁRMEN LÚCIA POR PRISÃO ILEGAL DE LULA
Um dia depois de denunciar à televisão portuguesa que o ex-presidente Lula está preso ilegalmente no Brasil, o ministro Marco Aurélio Mello, do Supremo Tribunal Federal, responsabilizou Cármen Lúcia, presidente da corte, pela ilegalidade; “A presidente está retendo esses processos, não designa data para julgar. Eu liberei as duas declaratórias de inconstitucionalidade em dezembro do ano passado”, afirmou; “A presidente, muito poderosa, não designa dia, e ficamos por isso mesmo”
https://jornalggn.com.br/blog/sergio-saraiva/o-mal-estar-do-brasil-descente-por-sergio-saraiva
Lucio Vieira
25 de junho de 2018 1:07 am“Gente de bem” que torna este pais “descente” vai chupinhar fora
Esta pseudo elite que está indo para Portugal, inflacionou o custo de vida, em especial dos aluguéis em terras lusas e atualmente o SEF (Serviço de Estrangeiros e Fronteiras) já não dá mais conta do aumento de demanda em legalização. Atualmente quem não tem 6 a 12 vezes os valores de aluguéis, não mais conseguem locar imóveis. Esta classe média brasileira que em sua maioria chupou e bebeu do sumo brasileiro até pouco sobrar, agora vai chupinhar em terras estrangeiras.
Gilberto Marcondes
25 de junho de 2018 4:34 amMeu único alento nesse caos é
Meu único alento nesse caos é saber que essa classe de coxinhas que destruiu o Brasil não pode ir embora e que sofrerá junto com os pobres que condenou. Uma hora a retribuição virá, em forma de violência ou no dia a dia mesmo.
Serão eternamente medíocres em um páis medíocre que criaram. Espero que estejam satisfeitos.
Marcos K
25 de junho de 2018 8:57 amÉ perfeitmante compreensível
É perfeitmante compreensível o mal-estar com o Brasil. O brasileiro em geral desconhece a história do próprio país e, mesmo tendo curso superior, é estúpido demais para entender o que está acontecendo.
Forma sua opinião com base na ignorância, preconceito e aparência. Portanto, acredita piamente nas explicações que tem como base esses três fatores, normalmente transmitida pela GloboNews e quejandos (como Datenas e Boechats da vida). Sua capacidade cognitiva está muito aquém de compreender o sentido mais profundo, estruturado e completo da coisa. Não tem QI. Não tem preparo.
Como não sabe porque o país dá errado não tem como saber como pode dar certo.
Gilberto Marcondes
25 de junho de 2018 5:59 pmO pior parte desse tempo de
O pior parte desse tempo de revelações que estamos vivendo é descobrir que nosso “complexo de vira-lata”, eternizado pelo brilhante Nelson Rodrigues, não é piada ou exagero. Na verdade, não se pode chamar de complexo quando se trata da realidade.
O brasileiro é medíocre mesmo. Uma pena.
Claudionor de Medeiros
25 de junho de 2018 6:08 pm”Sua capacidade cognitiva
”Sua capacidade cognitiva está muito aquém de compreender o sentido mais profundo, estruturado e completo da coisa. Não tem QI. Não tem preparo.”
Isto se refere aos criadores do ”Não vai ter golpe”?
Marcos K
26 de junho de 2018 1:08 amTambém a estes. Aliás, o
Também a estes. Aliás, o Brasil está infestado de seres a direita, centro e esquerda do espectro político quem tem baixissima capacidade de compreender as coisas.
E só pro teu governo: desde que começaram as manifestações de 2013 eu sabia que ia ter golpe. Nunca me iludi sobre isso.
andrels
25 de junho de 2018 1:36 pmA maioria não sabe o que é
A maioria não sabe o que é ser de esquerda ou direita e muito menos comunista. Acreditam que um gestor de empresa privada com a visão puramente capitalista vai resolver a situação. Não considera que um país não é um empresa, é um sociedade complexas com camadas da socidade com expectativas diferentes, carências. Imbutiram na cabeça da classe média que a pessoa vence simplesmente pela sua boa vontade de vencer, não entendem que as pessoas precisam de oportunidade para conseguir avançar na vida.