4 de junho de 2026

Modernização fracassada e manipulação dos sistemas de crenças, por Bruno Lima Rocha

A soma da mídia com a difusão cultural estadunidense e as empresas de manipulação da fé corroeram as bases sociais do lulismo

Siga o Jornal GGN no Google e receba as principais notícias do Brasil e do Mundo

Seguir no Google

Modernização fracassada e manipulação dos sistemas de crenças: a luta por corações e mentes do Brasil

Por Bruno Lima Rocha

Ideologia importa, e muito. E sentimento religioso não é alienação, e menos ainda o idealismo ou a dimensão utópica da luta são “ruins”. Tampouco “dilemas de falsa consciência”. Muito pelo contrário. É na resultante entre câmbio ideológico, alteração nas relações sociais e instituições coletivamente controladas que residem chances reais de mudanças de profundas. A complexidade do tema e a observação do que ocorre em nosso país implica em desconstruir alguns mitos das “modernizações”. 

Existe um sistema de crenças paracientífico, eu diria que afirma alguns equívocos.  Um destes é a noção de que “as condições de existência determinam as condições de consciência”. Logo, dentro dos preceitos quadrados ainda de linha soviética (obs. Lembrando que a União “Soviética” era tudo menos governada pelo poder dos conselhos de trabalhadores e soldados), existiria esta fantasia sociológica da “classe em si” e a “classe para si”, com vanguardas auto-eleitas dentro da “razão universal”. Interpreto esta visão tacanha de teoria da história algo que rivaliza com o sentimento religioso, mas através de um instrumental “científico”. Nem toda visão modernizante é tributária do modelo stalinista, mas houve similitude em escala global.

No período da Guerra Fria, para além do bloco do Leste Europeu – taxada como “cortina de ferro” à época – as teorias da modernização governaram corações e mentes dentro da Era da economia planificada e dos trinta anos gloriosos do capitalismo. Como as mentalidades dos tomadores de decisão operam a partir de determinações, logo, seria determinante a mobilidade social dentro de sociedades urbanas, com acesso ao estudo, crédito de consumo, moradia, transporte integrado e outras características da modernidade. Parece que tal estrutura de mentalidades operou durante a chamada Era Lula, onde houve uma massiva promoção social da base de nossa sociedade, mas sem mudança estruturante na significação derivada desta mesma mobilidade. Traduzindo: a maioria não processou a informação como sendo fruto de um “governo progressista através de um pacto de classes”.

Logo, a quase reserva eleitoral não rendeu o que deveria? Por quê? Uma das causas evidentes foi à negação do populismo, ou seja, negar-se a organizar uma parcela – de 5 a 10% por exemplo – dos beneficiados das políticas públicas como garantia de permanência no Poder Executivo através do voto indireto, fazendo assim o bloqueio de fato do sistema político. Rasgaram o manual e por duas vezes; não podia dar em outra coisa. Enquanto isso, no andar debaixo, onde a sociedade pós-colonial realmente existe, vampirizavam os feitos do lulismo.

Posso e devo ser questionado.  Porque isso de novo? Ora, mesmo em um momento de necessária unidade, é necessário um debate franco,  sem sectarismo, mas sem escamotear nada. Não houve um pingo de autocrítica, por consequência, não há reflexão densa e assim tudo pode se repetir. Especificamente na parte que me toca neste latifúndio teórico-político, fico sem compreender a direita mais rançosa. Fizeram e fazem uma gritaria de “revolução cultural” de base gramsciana. Tem gente ainda mais enlouquecida afirmando “mais Mises e menos Paulo Freire”. Apostasias neoliberais à parte, o que menos tivemos na Era Lulista foi Gramsci e Freire, assim como tudo o que o lulismo não fez foi o “populismo latino-americano”. Se tivesse feito, não teria caído, ou ao menos, não tão facilmente.

Alguns dados dos governos de Lula (2003 e 2010) e o período com Dilma na Presidência (2011-2016) indicam a mobilidade social de cerca de 44 milhões de brasileiros. Outros números apontam que o total de pessoas atingidas por alguma política pública como Minha Casa Minha Vida; Bolsa Família; Pronatec; Prouni; Luz para Todos; IPI Reduzido; Vale Reforma; Vale Cultura; Linha Branca; Linha Cinza, dentre outros, chegaria a mais de 62 milhões. É fato, um quarto da cidadania do país mais desigual do mundo industrializado e mais violento do planeta, foi atingida por ações de governo. Logo, se tanta gente teve uma melhoria de suas condições matérias de vida, era de esperar uma mudança automática na perspectiva ideológica e um alinhamento ao projeto de país então vigente. Certo? Absolutamente errado.

A materialidade concreta e o cotidiano incidem sobre nossa percepção do mundo da vida, mas isso por si não altera mentalidades e menos ainda transforma consciências. Para dar significado às políticas públicas, o governo deposto deveria querer fazer justo o que nunca quis: organizar a base da pirâmide social e traduzir as “melhoras” como conquistas coletivas, acima das capacidades individuais. Não que os indivíduos, as mulheres e homens do Brasil, não sejam meritórios de suas vidas melhorarem, mas a ignorância política, somada à manipulação grosseira da fé alheia (blasfemando as palavras e obras do Cristo todo o tempo) e o culto ao individualismo estadunidense, fez da conquista material uma derrota ideológica. A consequência é o desencanto quando o modelo rui pela também derrota ideológica de Dilma no segundo mandato, governando com Joaquim Levy e cumprindo os desígnios dos especuladores e financistas.

Romper o cerco das bolhas de internet e o desencanto somado à sobrevivência durante o terceiro ano de recessão consecutivo não é tarefa fácil, mas pode servir como lição histórica. A traumática experiência dos assassinatos de Marielle Franco e Ânderson Gomes no Rio de Janeiro demonstrou que é possível somar a indignação coletiva, com a prática de um ecumenismo de libertação e exigindo do aparelho de Estado respostas para ausência de direitos. Mas a indignação precisa ser canalizada para algo permanente, tanto no esforço da unidade possível através das lutas sociais, como no diálogo entre os sistemas de crenças, isolando os manipuladores e atraindo para uma agenda construtiva e cidadã os manipulados.

A luta social brasileira é diária, e esta opera de forma independente do calendário eleitoral. Mais importante do que eleger uma candidatura, é ter condições de força para reverter leis e medidas absurdas tomadas pelo governo ilegítimo. E isso já no primeiro semestre de 2019. Ao lado da organização de base – imprescindível e prioritária – esta força social precisa ser transmitida como potência ideológica, afirmando a vida e a sociedade por cima da vilania criminosa dos que querem os recursos do Estado apenas para a camada dominante da população. A luta também é – e sempre foi – por corações e mentes.

Bruno Lima Rocha é cientista político, professor de relações internacionais e de jornalismo

(www.estrategiaeanalise.com.br / estrategiaeanaliseblog.com / [email protected] / Canal  no Telegram t.me/estrategiaeanalise)         

Bruno Lima Rocha

Bruno Lima Rocha Beaklini é jornalista formado pela UFRJ, doutor e mestre em ciência política pela UFRGS, professor de relações internacionais. Editor do portal Estratégia & Análise (no ar desde setembro 2005), comentarista de portais nacionais e internacionais, produtor de canal estrangeiro e editor do Radiojornal dos Trabalhadores.

Assine a nossa Newsletter e fique atualizado!

Assine a nossa Newsletter e fique atualizado!

Mais lidas

As mais comentadas

Colunistas

Ana Gabriela Sales

Repórter do GGN há 9 anos. Especializada em produção de conteúdo para as redes sociais.

Camila Bezerra

Graduada em Comunicação Social – Habilitação em Jornalismo pela Universidade. com passagem pelo Jornal da Tarde e veículos regionais. É...

Carla Castanho

Carla Castanho é repórter no Jornal GGN e produtora no canal TVGGN

3 Comentários
...

Faça login para comentar ou registre-se.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

  1. Pedro ABBM

    1 de maio de 2018 1:03 am

    Conquista material, derrota ideológica

    Penso que essa frase sintetiza bem o governo Lula: o sucesso econômico e social foi inegável, mas o problema foi que, ao incluir milhões na classe média, esses milhões começaram a pensar como classe média, passando a ser críticos da corrupção e do governo gastador e irresponsável. Acostumados à rápida ascenção social dos anos Lula, indignaram-se quando se depararam com o estelionato eleitoral do segundo mandata de Dilma.

    Se o propósito era obter uma vitória ideológica, então Lula errou. A finalidade do populismo é criar uma massa dependente dos favores do governo, e não uma classe média que só depende de si. Fazendo isso, o populismo dá um tiro no pé.

  2. m.cubiak

    1 de maio de 2018 5:57 pm

    Será?

    A História é dinâmica. Algumas análises omitem esse fato.

    Até hoje, muitas análises feitas asseguram que os governos petistas foram de submissão a ordem das coisas brasileiras. Eram governos de concertação.

    E mais, centenas de analistas que sempre tiveram uma, duas, três geladeiras não pararam (ainda) de apontar os dedos que o governo não estava conquistando o coração dos pobres, mas, abrindo linhas de crédito para o consumo. Os governos petistas nada fizeram pela “iluminação” dos excluídos.

    Acho que existem dois equívocos nessas análises.

    O primeiro diz respeito ao papel do governo na conquista de mentes e corações. Não é papel do governo, simples assim. Cabe ao governo ter a sensibilidade democrática, abrir canais de participação e diálogo, ser transparente. Criar políticas públicas de inclusão e de reparação histórica de desigualdades.

    Neste sentido, quem disputa mentes e corações é a sociedade civil. Onde estávamos? E os partidos de esquerda? O PSOL, que tanto aponta dedos para esse aspecto? As Universidades Públicas, as Igrejas, os movimentos sociais?

    As hegemonias não podem ser tarefas da frágil permanência de governos. Ou vem de baixo ou não vem.  Chega de senso comum, como aquele jargão de que o povão é burro. Se dependesse do povão, Lula (representando mais próximo a esses segmentos) seria eleito. E Bolsonaro nem seria mito.

    Intelectual brasileiro que brada “povão asno” não percebe que essa tarefa não era dos governos petistas, nem do lulismo. Era dele. Minha. Anônima.

    Só que nem mesmo fomos capazes de “iluminar” a nossa parentada, vide os tios nos grupos de Whats!

    A segunda indicação de equivoco na análise política do papel dos governos petistas na hegemonia democrática, diz respeito ao próprio acordo de classes, ao cenário de conciliação.

    Como não estou em 2010; e como a História é dinâmica; e pelo momento social que vivemos; me parece que a principal característica dos governos petistas foi, lentamente, romper os limites e muros da conciliação de classes.

    Aqui há um desafio teórico: os governos e seus resultados devem ser observados como limitados a seus mandatos? Ou como algo cujos resultados e políticas fogem a seus marcos temporais?

    Pois, conciliação não é o que se vê, o que se vive, no nosso cotidiano. Nas ruas, o que se vê é um país dividido? Então, como assim, os governos petistas aprofundaram a conciliação de classes? Nas ruas, os grupos e classes sociais não estão de mãos dadas, cantando kumbaya my lord. As políticas públicas do governo, aos poucos, puseram privilégios e reservas de mercado em evidência. Em alguns casos, até mesmo abalou esses resquícios monárquicos.

    Assim:

    A hegemonia democrática e cidadã é tarefa histórica da sociedade, dos movimentos sociais, dos partidos políticos de esquerda.A luta política está aberta, com os brasileiros percebendo com mais clareza os lados em disputa.A luta não se restringe a presidência da república. É pela democratização e transparência das instituições políticas, pela hegemonia no congresso e pela participação e controle social das mídias. E estamos falhando enormemente.

  3. WG

    1 de maio de 2018 6:39 pm

    Lula foi feito prisioneiro

    Lula foi feito prisioneiro político. Lula livre venceria as eleições, portanto, uma parcela significativa da população adquiriu “consciência” do que significa um “governo popular”.  Os governos de Lula/Dilma foram tão impactantes que a burguesia tentará apagá-los da história a qualquer custo, como estamos observando diariamente.

Recomendados para você

Recomendados