5 de junho de 2026

Minha ansiedade me convenceu que todos me odeiam, por Matê da Luz

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Minha ansiedade me convenceu que todos me odeiam – uma tradução introduzida 

por Matê da Luz

Durante muitos anos, fui o que tantos chamam de “pessoa problemática”. O rótulo me acompanhou, me envolveu e acabou dominando minha vida em forma de diagnóstico: borderline, naquela época. Lutei muito contra este condição, com terapias intensas, medicação e algum auto-flagelo (muito, serei honesta) e, enfim, com o passar dos anos algumas coisas aconteceram e esta coisa toda se transformou em algo que faz mais sentido pra mim: a ansiedade.

Não, não estou dizendo que ser ansiosa é melhor do que borderline: bom mesmo é ser livre, mesmo que acompanhado de alguma enfermidade mental, ocasional ou condicionada. Nos tempos de hoje, quem nunca, né? Acontece que entender o que se passa é premissa, para mim, para começar a trabalhar os temas que a vida apresenta e, no caso da ansiedade, é muito mais simples de identificar. Posso ser uma borderline ansiosa também, por que não?, mas o caso é que particularmente me afetam muito mais os sintomas de ser-estar ansiosa.

A paralisação, por exemplo. Quando estou atacada pela ansiedade, não consigo produzir nada, mesmo que peguem minhas mãos e me obriguem. É como se toda minha energia estivesse comprometida com pensamentos ruins e circulares, daqueles que grudam e não vão embora nem sob decreto. A sensação de dia perdido, ainda, ajuda a cumular culpa e mais julgamentos negativos. Sofrível e lamentável, posso dizer.

Estudar psicologia me atraiu para mais perto das soluções de descanso mental, mas o processo terapêutico é o que segura a onda quando a maré esbraveja por aqui. Eis que recebi este texto, traduzido abaixo, que fala um tanto sobre como me sinto quando ela aparece. Compartilho com vocês e divido as dores e angustias que, com alguma conversa e respiração, abrandam as sensações de inutilidade e menos-valia. Estar presente em situações verdadeiramente amorosas também, mesmo que eu tenha que fazer mil vezes a mesma pergunta para me sentir amada. Cada qual com a metodologia que lhe cabe no momento, né? 

O original está aqui. 

***

Por causa da minha ansiedade, eu levo tudo pessoalmente.  Se um amigo leva tempo demais para responder uma mensagem, eu começo a fazer suposições. Eles não querem falar comigo. Estou irritando-os. Eles estão me ignorando de propósito. Eles não gostam de mim. Eles me odeiam. 

Eu receio enviar a primeira mensagem porque há uma chance de rejeição. Saber que alguém viu minha mensagem e decidiu não responder a ela me deixa doente no estômago. Isso me faz sentir invisível.  Mesmo que eu receba uma resposta após cinco minutos curtos, ainda vou olhar muito longe em detalhes. Se o texto for curto ou soa rápido, então vou me preocupar que estou desperdiçando o tempo, que só me respondem para que sejam educados. Eu vou me enganar pensando que não deveria ter enviado o texto em primeiro lugar.  Não importa quanto tempo tenha sido amigos de alguém. Preciso de uma constante garantia de que eu sou amado. Caso contrário, irei para o pior caso. Assumirei que fiz algo para aborrecê-los, que eles não me querem mais, que a amizade terminou.

Minha ansiedade me faz superanalizar todas as situações. Não importa se alguém não pode sair durante o fim de semana porque tem que trabalhar tarde. Não vou acreditar na sua desculpa. Eu vou me convencer de que eles estão mentindo e eles secretamente não querem me ver.  Minha ansiedade me faz sentir como se o mundo estivesse contra mim. Eu suponho que se algo ruim puder acontecer, isso acontecerá. É difícil ser otimista quando cheguei a tantos momentos estranhos, quando eu me envergonhava uma e outra vez.  Eu nunca sei o que dizer em situações sociais. Estou muito calmo ou alto demais. Não sei como me comportar como uma pessoa "normal". Eu não sei como me encaixar em multidões.  Uma vez que é tão difícil para mim conversar com familiares que conheci há anos, muito menos com estranhos à minha frente no supermercado, suponho que todos me odeiam. Eu suponho que todos estão rindo de mim atrás das minhas costas.  É por isso que tenho muitos problemas quando se trata de namorar. Eu nunca paquero de volta, porque eu suponho que as pessoas estão apenas sendo legais. Mesmo que esteja claro, eles estão interessados, não aguento minhas esperanças. Vou convencer-me de que não durará muito. Que assim que eles vejam o verdadeiro eu, eles perceberão que não valho a pena estar por aí e correrão na outra direção.

Minha ansiedade me deixa duvidar da minha auto-estima, o que leva a duvidar de todos à minha volta. Quando alguém me elogia, eu não acredito neles. Quando alguém me diz que me ama, não acredito neles. Não consigo ver como isso poderia ser verdade. Não consigo ver por que eles querem qualquer coisa com alguém como eu. 

Por causa da minha ansiedade, eu luto para ver meu valor. Só vejo um milhão de falhas.

 

Mariana A. Nassif

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10 Comentários
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  1. ingrid

    2 de março de 2018 10:55 am

    Coitadinha

    Sempre olhando seu umbiguinho

    Não faltam trabalhos voluntários que podem lhe ajudar a sair do seu mundinho

    1. Matê da Luz

      2 de março de 2018 11:56 am

      engraçado…

      que das poucas pessoas que comentam por aqui, você é habitué. Será que não te faltam trabalhos voluntários pra lhe ajudar a sair do meu mundinho? 😉 

      1. Anna'

        3 de março de 2018 11:58 pm

        Post excelente e resposta
        Post excelente e resposta também.

  2. Lucio Flávio Santos Neves

    2 de março de 2018 11:19 am

    Tenho convivido com problemas
    Tenho convivido com problemas parecidos que me causaram fibromialgia. Durmo e acordo com dores no corpo e tenho uma gigantesca insatisfação em praticar esportes. A ignorância alheia me deixa pior ainda. Tenho feito tratamentos mas depende depende muito do ambiente em que me encontro.

  3. Paulo Dantas

    2 de março de 2018 12:01 pm

    Eu diria que a senhora …

    Eu diria que a senhora é egocentrica.

    Sou psicologo amador …

  4. Não é o Sartre

    2 de março de 2018 4:29 pm

    O Sartre já disse que a

    O Sartre já disse que a existência é angústia.

    A ansiedade vai na mesma linha. Com uma dica importante. 

    Quem é ansioso tem, na verdade, ansiedade por algo (“por isto eu sinto ansiedade”).

    Pra quem acha que não tem diferença… bom, “ansiedade” é “coisa”; “isto ou aquilo, por ele, sinto ansiedade”. 

    Isto vale pra mim, pra você, para aquele ali…

  5. Marly

    2 de março de 2018 11:31 pm

    Realmente sofremos!
    Acho que a ansiedade chega após várias situações estressantes, como doenças e perdas familiares. E a ansiedade traz consigo a depressão. Perdemos a condição de organização até mesmo dos nossos pensamentos. Evidentemente todas esses acontecimentos atingem àqueles que têm a sensibilidade exacerbada. E o sofrimento é grande pois nossa mente começa a imaginar situações não reais. E daí, é um passo para a personalidade boderline, psicótica, depressiva e ou com transtorno obsessivo compulsivo. São os tributos que pagam as pessoas sensíveis e classificadas como pessoas inteligentes e que se importam com o bem estar dos seus. Fica difícil reencontrar a paz interior.

    1. Leticia Loren

      15 de fevereiro de 2020 9:27 pm

      Oi Marly Ayres, e realmente sofremos! Eu temo, porque não vou mais encontrar minha paz interior …

  6. Cristiane N Vieira

    3 de março de 2018 6:53 am

    “A dor e a delícia de ser o que é”
    Sem entrar no mérito da psiquiatrização da vida e das subjetividades que é um assunto denso e difícil de tratar em um espaço como esse*, por perceber e respeitar as experiências existenciais que você corajosamente expõe em seus relatos, me vi compelida a falar de alguns livros e um site que acho que podem ser úteis para todos que ousam se negar à anestesia diante da experiência de estar e se sentir vivo, contra os clichês e contra a redução do ser humano a meros rótulos para (e como) produtos, com defeito ou data de validade vencida, na prateleira dos mercados e assistências técnicas da vida.

    E lembrando que não se deve comprar, nem descartar, um livro (e similares) somente pela capa ou pelo título, com todas as implicações desta metáfora, e de sua literalidade no caso específico. Pela coragem de conhecer.
    1. “Domine seus nervos”, Claire Weekes, apesar do título aparentemente duvidoso, é um achado para quem sofre de ansiedade e variantes, e de qualquer forma de esgotamento físico e/ou subjetivo – o que já chamaram de neurastenia e foi hypado, e simplificado, como síndrome do Burnout (psiquiatras, publicitários e agentes da PF, o que muitas dessas pessoas podem ter em comum além da queda pela criação de rótulos e slogans para seus produtos? Sarcasmo nível 10 da escala Trickster.) A médica que escreveu o livro tem uma intuição admirável, só ofuscada quando se rende ao cientificismo da moda na época da feitura do livro em alguns métodos hoje repudiados – ainda assim, suas opiniões espantam pela vanguarda e precisão, como em muitas coisas que a boa literatura (e as artes em geral) sempre antecipou nos experimentos (tecno)científicos e sociais.
    2. Da psicologia junguiana feita por mulheres, “Mulheres que correm com os lobos”, de Clarissa P. Estes. Um tratado sobre os arquétipos femininos presentes nos contos de fadas, uma obra-prima. Também para homens, transgêneros, agêneros e qualquer um que se identifique como humanóide sensível.
    3. Pra não falar que não falei de homens, “A mente alerta”, Jon Kabat-Zinn, a percepção aguçada de um profissional engajado no cuidado humanista através da meditação e atenção plena como forma de autoconhecimento e humildade diante das nossas fragilidades. E muita técnica e intuição também, como toda boa arte.
    4. (Site) http://www.berniesiegelmd.com. Um grande médico que aceitou o desafio de ser mais que um burocrata de avental e compartilha seus conhecimentos, descobertas e experiências sobre a vida, a espiritualidade e a insolúvel convivência entre humanos (com os animais não há o que resolver, só aprender e desfrutar, nisso também concordamos), e dessa mistura ele “(re)trata” os efeitos, e defeitos, sobre a saúde física e emocional.
    5. Por fim, de um casal, Michelle e Joel Levey, um guia de meditação diferente, sincero, rigoroso, saboroso, “O poder da meditação” (esse se encontra a preço bem acessível em sebos virtuais).

    P.S. Um na lista de espera mas pelo que folheei, trechos que li aleatoriamente, e reportagens a seu respeito, se encaixa tanto em vidas pessoais como no karma coletivo que vivemos: “O avesso do niilismo: cartografias do esgotamento”, Peter Pal Pelbart, relançado no ano passado. (Curiosamente, descobri numa livraria dias depois de assistir ao ex-ministro da Justiça Eugênio Aragão falar que o povo brasileiro sofre de “esgotamento” e por isso não reage à crise.) O projeto gráfico do livro é lindo.

    Quem trabalhou nos materiais citados o fez/faz pelo instinto animal que ainda nos mantém vivos como espécie, a solidariedade com nossos semelhantes na diferença e diferentes na semelhança.

    “Se tens um coração de ferro, bom proveito. O meu, fizeram-no de carne, e sangra todo dia.” José Saramago

    “Não é sinal de saúde estar bem ajustado a uma sociedade profundamente doente.” Krishnamurti

    *Entre muitos, um livro interessante sobre o tema é “Normose – a patologia da normalidade”, Pierre Weil, Jean-Yves Leloup e Roberto Crema.

    [vídeo:https://m.youtube.com/watch?v=4JLhfB8tFlA%5D

    https://m.youtube.com/watch?v=4JLhfB8tFlA

    Sampa/SP, 03/03/2018 – 03:51

    1. Cristiane N Vieira

      3 de março de 2018 7:02 am

      Errata do vídeo (sem acento)
      [video:https://m.youtube.com/watch?v=4JLhfB8tFlA%5D

      Sampa/SP, 03/03/2018 – 04:01

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