
Certo ou errado não importam, mas sim lúcido ou ignorante
por Marcos de Aguiar Villas-Bôas
A humanidade terrestre é regida por suas crenças, por aquilo que lhe foi transmitido socioculturalmente, que não somente está em tudo ao seu redor, como conversas, filmes, novelas, propagandas, jogos etc., mas também no chamado inconsciente coletivo, naquilo que as consciências foram absorvendo ao longo dos séculos, criando vibrações e ilusões comuns em muitos seres humanos.
O que se tem hoje por aceito é, em grande parte, na visão da espiritualidade superior, considerado ilusão. Essas criações são típicas de seres ainda em estágio que se aproxima do mediano no grau de evolução. Por isso, aqueles que têm suas crenças como verdades e mostram mais dificuldade para se abrirem ao novo, que poderia representar o desfazimento das suas ilusões, terminam ascensionando muito mais lentamente.
Daí a enorme importância do “só que nada sei” de Sócrates. Não se trata apenas de uma questão intelectual, de reconhecer que há um universo infinito e multiversos, que há cerca de 200 países só na Terra, milhares de anos de história e muito mais por vir. Só isso já bastaria para justificar uma profunda humildade intelectual e um sentimento de que precisamos estar abertos a ouvir, a ver o novo, a aprender, a rever, a reaprender.
Acontece que há muito mais aí. Além de haver sempre mais a aprender, muito do que se aprendeu não faz sentido, não está de acordo com as leis da natureza, não leva ao progresso. Não se pode dizer que quem acredita em algo que não corresponde às leis da natureza esteja errado, pois, dentre outras razões, a maioria da humanidade suporta essas crenças.
Não existe o certo e o errado, uma vez que a encarnação tem como fim primordial o aprendizado. Uma das ilusões causadas especialmente pelas religiões é a de que todos os humanos vêm à Terra com o objetivo de fazer o bem, este (“fazer o bem”), aliás, outro conceito muito mal compreendido.
Segundo a visão religiosa, todos deveriam caminhar para se tornarem pessoas iguais lá na frente, ou seja, iguais ao que o messias ou outro ser venerado em cada religião foi ou prega.
Uma das primeiras lições da espiritualidade é que, mesmo todos estando ligados e sendo um, cada uma parte desse um é ainda uma parte única em sua individualidade, que terá suas características específicas. Arcanjos, anjos, diretores dos raios que representam as energias cósmicas são diferentes entre si. São seres elevadíssimos, hiperconectados com a criação e, ainda assim, diferentes, com suas peculiaridades, uns mais ligados ao amor, outros ao saber, outros à proteção, outros à cura e assim por diante.
De acordo com as características que foram desenvolvendo ao longo das encarnações, os espíritos vão se afinizando com egrégoras espirituais. Há espíritos elevadíssimos, como o arcanjo Miguel, que cuidam de proteção, que precisam agir às vezes de uma forma mais ostensiva. Isso contradiz, por exemplo, a ilusão de que todo ser elevado precisa falar sempre baixo, chamar todos de irmãos e mostrar que faz caridade. Esse o arquétipo humano do ser superior.
O objetivo da encarnação, sendo aprendizado, está, sobretudo, no aprender a se conectar com o Eu superior, com o Deus dentro de cada um, o que significa se destituir das ilusões e limitações causadas pelas crenças humanas. É, portanto, sair da ignorância que essas ilusões e limitações provocam, adquirindo lucidez. Está na luz quem está lúcido.
Os moralistas, que se julgam os defensores da moral e/ou dos pobres e oprimidos, muitas vezes estão em profundas trevas, acreditando-se melhores do que aqueles que, por exemplo, se corrompem. Eles seriam os certos e os demais os errados. Isso, em suas ilusões, lhes dá o direito de brigar, gritar, agredir, manipular, enganar etc., uma vez que estariam lutando pela justiça. Será? Passa algum tempo e eles descobrem que estavam imersos em ilusões e aí vem outro grande problema, muito presente nos moralistas: a culpa.
Não se prega jamais a omissão ou o marasmo, mas equilíbrio sempre. Deve-se combater a injustiça, deve-se ser ativo contra aquilo que prejudica as pessoas, mas é preciso ter uma boa lucidez para fazer isso, ou se termina entrando na mesma energia daqueles contra os quais se luta. Essa é a grande dificuldade de quem quer ser um guardião da luz, da lucidez.
O trabalho do guardião da luz é muito mais de trazer consciência, de deixar o cenário em harmonia, de ajudar no equilíbrio. Para tanto, é preciso estar consciente, harmonizado e equilibrado. Os que ainda não estão assim, no entanto, não estão errados, não devem ser julgados. É um estágio de lucidez em que se encontram. Muitas vezes, dentro da mesma encarnação, até em curto espaço de tempo, pode-se afinizar com uma vibração mais ignorante e, com alguns despertamentos, vibrar em seguida numa grande lucidez.
É por isso que não existe certo ou errado. Há infinitos graus de ignorância ou infinitos graus de lucidez, conforme se prefira enxergar. Ignorância e lucidez são opostos da mesma coisa, para usar a lei hermética da polaridade. É uma questão de perspectiva. Em última instância, mais ignorante e menos lúcido significam absolutamente a mesma coisa. É como o copo de água meio vazio e meio cheio.
Certo ou errado são categorias dicotômicas que fazem sentido apenas dentro da dualidade pensada segundo a existência de verdades. Certo é estar dizendo ou fazendo o que é verdade; errado seria o oposto. Não existem verdades no sentido tradicionalmente pensado pelos humanos. Existem apenas opiniões sobre as verdades, experiências que construíram as verdades de cada um.
Se existe uma verdade mais próxima da absoluta, ela só vai ser atingida quando o espírito chegar a um grau tão elevado de lucidez que se encontre unido com o todo de modo a ter uma visão 360 graus, de infinita extensão e profundidade sobre as coisas, os acontecimentos, os seres. É como decodificar a matriz por completo, algo como ver tudo naqueles números de programação que criavam a realidade do filme Matrix. Estamos muito distantes disso.
Na encarnação, sobretudo, quando até o mais ascensionado dos espíritos se vê num corpo denso e é também atraído por afinizações mais densas, parece-nos impossível falar numa verdade como a que se imaginou ao longo dos últimos milênios da história humana.
Mais importante do que saber de coisas, portanto, e do que ser cheio de verdades, é ter entendimento, ou seja, é compreender melhor como funciona a vida real, aquela que se inicia no espírito e que passa pela encarnação como uma fase de aprendizado e de ajuda para que outros aprendam.
É por tal razão que, como diz o Livro dos Espíritos, num planeta de provas e expiações como a Terra, o indivíduo venha basicamente para aprender por meio das provas, para expiar quando não tiver lucidez e para exercer missões que envolverão causar provas, expiações, lucidez, equilíbrio e harmonia aos demais.
No Diálogo com os Espíritos n. 451, um dos espíritos da falange Ogum Beira Mar ensina que uma boa encarnação não é definida por fazer o certo ou o errado, mas por ganhar entendimento. Muitas vezes, um espírito estava precisando exatamente viver num meio difícil, onde o risco de se corromper seria grande e, acontecendo isso, todas as provas e expiações que ele passa poderão levá-lo para um grau de entendimento bem maior, para aquilo que ele precisa naquele momento:
https://www.youtube.com/watch?v=Rm4OSWRohmI]
Em outras palavras, alguém que, numa vida, trai, é ganancioso, vaidoso, mata etc. pode terminar, com todo as expiações que angaria ali para si e com todas as provas (experiências), entendendo uma porção de coisas que antes não conseguia ver. Isso é um salto de entendimento para aquele espírito. Ele pode, após passar pelo processo de depuração daquela encarnação, já sair dela bem mais lúcido. Quando ele depurar os carmas atraídos naquela encarnação, então, poderá chegar a uma grau de lucidez ainda muito maior.
Por outro lado, um espírito que encarnou sucessivamente, por diversas vezes, como uma pessoa extremamente religiosa, que vivia como um beato, depois como um padre e em outras posições religiosas, vivendo sempre pregando regras morais, sem gozar da vida, aproveitando pouco as experiências terrenas, pode ter um ganho de lucidez muito menor do que o espírito do exemplo antes citado.
Em suma, para que fique bem claro, o assassino pode, em uma encarnação, ter uma ascensão espiritual muito maior do que o padre de várias encarnações. Isso vai causar susto em muitos, ojeriza em outros, mas é o que os espíritos ensinam e, se pensado profundamente, faz um sentido gigantesco.
Boa parte da humanidade construiu uma ideia de que certo e bom é sinônimo de moralismo, enquanto que certo e bom são conceitos bastante fluidos e quase sempre construídos com base em ilusões humanas. Interessa para o espírito ganhar lucidez, entendimento, equilíbrio e paz.
Já dissemos em outros textos deste blog que quem mata, arrepende-se e fica em paz no plano espiritual pode vibrar melhor do que quem não mata, mas vive em ilusões e causando ilusões a outros, e, ao chegar ao plano espiritual, por estar tão afundado nas ilusões, permanece nelas, crendo e vibrando as mesmas pregações de moralismos, o mesmo fechamento de consciência que tinha na encarnação.
Nos Diálogos com os Espíritos n. 428 e 429, um dos espíritos da falange Exu Destranca Rua das Almas explica, de uma forma engraçada, mas que soa agressiva para os moralistas, que o mais importante é ser quem somos, pois, assim, nos aproximamos do nosso Eu superior e sabemos o que precisa ser trabalhado. Ele xinga durante boa parte dos diálogos e afirma repetidamente que aquele é ele e quem não gostar que se vire:
https://www.youtube.com/watch?v=h3qz2G3bF9M
[video:https://www.youtube.com/watch?v=jHgZofX3aQQ&t=3599s
No nosso modo de ver, o que esse espírito e a egrégora dele quiseram passar é que não devemos viver sob máscaras, escondendo quem somos, ou estaremos traindo a nossa própria realidade e terminaremos não vivendo aquilo que estava estabelecido no programa encarnatório, causando menos ganho de entendimento, de lucidez, que é o fim principal.
O referido Exu xinga o tempo todo, faz críticas, sabe que muitos não vão gostar, mas não muda o jeito dele, pois ele é ele e vive em paz com isso. Saint Germain e outros mestres não dizem que precisamos declarar todo dia que “Eu Sou”? “Eu Sou o que Sou. Esse é o meu Eu Sou” é outra declaração muito importante. Eu tento me melhorar a cada dia, mas eu sou o que sou. Viver contrariando o que se é causa uma das maiores ilusões e traz grande sofrimento, pois contradiz a essência do espírito. Por isso, muitos vivem deprimidos e não entendem a razão disso.
Há espaço para todos e a lei de amor, que é a vibração maior do próprio cosmo, o cerne daquilo que se chama de Deus, estabelece nas estruturas energéticas da existência, que devemos respeitar o que cada um é, inclusive nós mesmos. Daqui a um tempo, aquele que julgamos hoje poderá estar mais lúcido do que nós mesmos. Não devemos gastar o tempo precioso que temos com preocupações acerca do outro estar certo ou errado. O foco deve ser no nosso autoconhecimento e no nosso automelhoramento.
A busca deve ser por paz, equilíbrio, entendimento, autoaceitação, autoamor, e não por acúmulo de teorias, por acúmulo de regras morais, por certezas, por estar certo, por saber as verdades, por ser bonzinho perante os olhos dos demais, por seguir à risca uma doutrina que ilusoriamente seria a chave da salvação. Ninguém se salva da sua própria vibração, sobretudo quando está liberto da carne.
Marcelo Castro
2 de fevereiro de 2018 10:01 pmhierarquia e amoralismo com pé de barro
Numa curiosa guinada , depois de uma série de artigos equivocados a um publico leigo, o sr. Villas Bôas traz o artigo com o qual deveria ter começado a sua série. Dificil entender porque o blog selecionou a particular visão espiritualista do sr. Villas Bôas como um ponto de vista previlegiado.
Entende o sr. Villas Bôas que há toda uma hierarquia espiritual a ser conquistada por meio de graus crescentes de ” lucidez ” e que estamos condenados a uma mediocridade espiritual pelo moralismo . O sr. Villas Bôas não explica muito bem o que entende por ” lucidez ” , mas garante que uma vez atingida nos garantirá um estado de paz, equilibrio e harmonia Sobre a questão ” lucidez ” caberia todo um debate filosófico e visto que muitos seres humanos além de lúcidos ainda tem a capacidade da empatia, diante das desigualdades do mundo, eu estou inclinado a pensar que muitas vezes ao invés de paz e harmonia, a lucidez sujeita os seres não alienados à angustia e ao sofrimento. Ou alguém diria que Nietzsche ou Schopenhauer não eram lúcidos ?
De outra forma a espiação do moralismo como bode espiatório da nossa condenação de espiritos baixos e pouco evoluidos me parece bem simpática . Tem um apelo new age quase irresistível. Afinal o moralismo, que foi aprisionado pelas religiões, realmente é um grilhão a nos tolher o desenvolvimento pessoal . Desta forma, convoco aos de bem a se libertarem também desta nova modalidade de moralismo conhecida como espiritismo.
Travestida de uma hierarquia falaciosa onde espiritos ” elevados” estariam numa condição superior de uma cadeia de espiritos menores, o espiritismo nos condena a um moralismo tribal, primitivo. A condição de um ser humano liberto é a reciprocidade. Nada devemos a um espirito que diante das misérias do mundo se encontra em perfeita paz, equilibrio e harmonia. Nada devemos a um espirito superior que nos exige fé cega numa reencarnação e transcedencia de espirito que nossa legitima ciência é incapaz de referendar. Dificil entender porque o blog sujeita seus leitores à condição de crianças a serem doutrinadas.
Edna Baker
2 de fevereiro de 2018 10:52 pmÉ. Disse tudo.
É. Disse tudo.