4 de junho de 2026

Ajuste fiscal permanente e o terrorismo das elites, por Juliano Giassi Goularti

 
Por Juliano Giassi Goularti*
Doutorando do Instituto de Economia da Unicamp. É colunista do Brasil Debate
 
 
A austeridade que vem sendo praticada desde a década de 1980, com um interstício heterodoxo nos governos Lula-Dilma, é vista pelo pensamento liberal ortodoxo como condição para manter a confiança dos agentes econômicos. Com a emenda do teto de gastos, ela se torna perene
 

No campo da teoria macroeconômica, desde a crise da dívida nos anos 1980, a política fiscal vem sofrendo uma inflexão quanto a sua capacidade de financiar o processo de desenvolvimento. Naquela década, com um quadro de desequilíbrio nas contas públicas advindas da ruptura do padrão de financiamento, do endividamento e da inflação galopante, a visão de política econômica dominante que passou a exercer influência dentro do Estado foi o monetarismo da Escola de Chicago, protagonizado por Milton Friedman.

Siga o Jornal GGN no Google e receba as principais notícias do Brasil e do Mundo

Seguir no Google

A partir da crise fiscal dos anos 1980, que resultou na vitória das ideias de Friedman, estabeleceu-se uma política fiscal de rigidez do fundo público, pois se partia do princípio de que a inflação e o déficit decorriam do gasto governamental. Na visão que se tornará, até hoje, dominante, a gestão macroeconômica voltaria para o equilíbrio das contas públicas e contenção de despesas para assim prover a credibilidade e confiança dos agentes econômicos.

Destarte, a crise fiscal e financeira dos anos 1980 resultou em sucessivos ajustes fiscais depois que foi assinado o acordo com o FMI em 1983. Sendo a crise de proporções estruturais, ela atravessou a década em companhia dos desajustes do setor público para salvaguardar a riqueza privada. Assim, a crise adentrou com mais força nos anos 1990.

Dentro da performance do capitalismo, na década de 1990, difundiu-se no Brasil uma mudança de política econômica que resultou numa contrarreforma do Estado. A esse respeito, o arranjo institucional assentado pelas políticas do Consenso de Washington estabeleceu reformas pró-mercado que correspondiam a metas de inflação, juros elevados, superávitprimário e equilíbrio nas contas públicas. Na prática, estava ocorrendo a convergência da política econômica  e a agenda dos policy makers, ou melhor, isso funcionaria como uma espécie garantia de um ambiente econômico de maior previsibilidade para os agentes formarem suas expectativas e tomarem suas decisões racionais, baseada em regras, antecipando os benefícios e internalizando os custos.

Ao aderir às propostas do Consenso de Washington materializado pelo Programa de Ação Imediata (PAI) e Plano Arida, o governo brasileiro se comprometeu com determinado programa de ajuste que envolvia disciplina fiscal, liberalização financeira e comercial, desregulamentação e privatização. Com os neoliberais tomando a dianteira, as medidas de controle do gasto público representariam um começo de arrumação da casa, isto é, a reorganização fiscal é a pedra fundamental do Plano Real no processo de estabilização dos preços. Partindo desse princípio, sem isso, qualquer esforço de combate à inflação terá curta duração e estará fadado ao fracasso.

Com as velhas receitas do FMI e do Banco Mundial desenhadas nos anos 1980 para se chegar ao equilíbrio fiscal, na década de 1990 os monetaristas neoliberais que conduziam a política econômica aprofundaram a radicalidade liberal editando um conjunto de leis e decretos de austeridade fiscal. Entre eles se destacam: i) Decreto n°. 21/1991; ii) Decreto n°. 475/1992; iii) PAI/1993; iv) Plano Arida/1993; v) Lei n°. 9.249/1995; vi) Lei nº. 9.430/1996; vii) Lei n°. 9.496/1997; viii) Medida Provisória n°. 1.602/1997; ix) Lei n°. 9.532/1997; x) Decreto n°. 2.773/1998; xi) Memorando de Política Econômica/1998; e, por fim, xii) Memorando de Política Econômica/1999.

No interior deste debate, se restringiu a política fiscal ao superávit. Seguindo essa tradição, a função da política fiscal passa a ser: i) fiadora da estabilidade macroeconômica; ii) âncora da política monetária; e, iii) farol do comportamento esperado das principais variáveis macroeconômica. Recaindo exclusivamente sobre a população pobre, a austeridade ganha amplitude política na primeira década do novo milênio com a Lei de Responsabilidade Fiscal, que acabou estabelecendo regras permanentes para os gastos públicos.

Entre 2000 e 2005, houve um conjunto de Memorando de Política Econômica (8 ao total) e Cartas de Intenções (dez ao total) junto ao FMI que sinalizavam o compromisso do governo com a rigidez fiscal. Mesmo sem renovar o acordo com o Fundo em 2005, continuou-se seguindo uma política com generosos superávits, porém com expansão nas despesas primárias em função do crescimento real da arrecadação e de expansão dos direitos sociais e garantias fundamentais dentro do fundo público.

À vista disso, embora preservando-se o superávit primário, o ajuste econômico ortodoxo perde força relativa entre 2007 e 2010. Não havia desajuste fiscal, apesar do crescimento do gasto público. Mas, a partir de 2011, mesmo gerando superávit, com a queda do crescimento econômico e aumento nas desonerações tributárias, houve uma piora dos resultados fiscais e se começou novamente a falar em ajuste fiscal. O governo Dilma-Levy realiza um forte ajuste numa economia já fragilizada, que, por sua vez, agravaria os problemas existentes, contribuindo para a desaceleração econômica.

Assim, depois de 15 anos (1998-2013), em 2014 temos um déficit primário de 0,63% do PIB. Nos anos seguintes, o déficit expandiu para 2,47% em 2015 e 1,85% em 2016. Neste sentido, o governo Temer-Meirelles, para restabelecer o controle das despesas públicas, cria, por meio da Emenda Constitucional n.° 95, pelo prazo de 20 anos, um teto para crescimento das despesas públicas vinculado à inflação. Dessa forma, a austeridade que se arrola desde o início da década de 1980, com seu interstício heterodoxo, é questão sine qua nondo fetiche do pensamento liberal ortodoxo para o país trilhar no caminho do crescimento, do emprego e da distribuição de renda e riqueza.

Para tanto, ao invés de a política fiscal ser utilizada para dar efetividade à demanda efetiva e se contrapor ao ciclo econômico, como a presente crise, os monetaristas a rebaixam como valor síntese do superávit primário como pressuposto para restabelecer a confiança na solvência da dívida pública em relação ao PIB. Assim, com seus primeiros passos em 1980, materialidade na década de 1990, continuidade na primeira década do novo milênio, com um pequeno interstício, e agora constitucionalmente definido até 2036 pela Emenda Constitucional n° 95/2016, pode-se dizer que o ajuste fiscal é permanente.

 

Patricia Faermann

Jornalista, pós-graduada em Estudos Internacionais pela Universidade do Chile. Coordenadora de Projetos. Repórter e documentarista de Política, Justiça e América Latina do GGN desde 2013.

Assine a nossa Newsletter e fique atualizado!

Assine a nossa Newsletter e fique atualizado!

Mais lidas

As mais comentadas

Colunistas

Ana Gabriela Sales

Repórter do GGN há 9 anos. Especializada em produção de conteúdo para as redes sociais.

Camila Bezerra

Graduada em Comunicação Social – Habilitação em Jornalismo pela Universidade. com passagem pelo Jornal da Tarde e veículos regionais. É...

Carla Castanho

Carla Castanho é repórter no Jornal GGN e produtora no canal TVGGN

3 Comentários
...

Faça login para comentar ou registre-se.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

  1. Roberto Sidnei

    24 de dezembro de 2017 8:50 pm

    inflacão financeira

    a conta não fecha quando colocamos a inflação financeira nas contas. Por conta da financeirização da economia, temos uma inflação “implicita” em torno de 20 a 30%. Como a economia está engessada pela inflação e o superavite, a concentração de renda continua numa espiral geométrica. Não precisamos ser espertos para imaginar que no limite a renda estaria concentrada na mão de poucos e o restante da população passando fome. Neste momento não teremos mais economia, apenas uma elite vivendo de excessos e o restante pauperizado em favelas.

  2. AMORAIZA

    24 de dezembro de 2017 8:51 pm

    Ortodoxia e economia doméstica
     

    ORTODOXIA

    PAI

    “Ao aderir às propostas do Consenso de Washington materializado pelo Programa de Ação Imediata (PAI) e Plano Arida, o governo brasileiro se comprometeu com determinado programa de ajuste que envolvia disciplina fiscal, liberalização financeira e comercial, desregulamentação e privatização.”

    ECONOMIA DOMÉSTICA

    MÃE

    A gente economiza bastante porque vai ganhar menos, compra pouco, mas  cada um compra o que quer e não ajuda o outro e quando os credores chegarem a gente vai vendendo o que tem em casa

    OS FILHOS

    Mas mãe, além de a gente continuar devendo ainda não vai ter nem os móveis da casa.

    Logo a gente não vai ter nem o que comer.

    A MÃE

    Faz mal não, a gente pega mais dinheiro emprestado, paga no cartão e usa o limite do cheque especial.

    OS FILHOS

    Mas mãe, o nosso nome vai ficar sujo e a gente vai ficar sem crédito.

    A FAMÍLIA

    Deus proverá! A gente vai na Igreja Universal e faz o Clamor dos 318 Pastores!

    OS CREDORES ESFREGANDO AS MÃOS

    EBAAAA!!!!!

  3. Nabucodonosor

    25 de dezembro de 2017 10:25 am

    Os inflacionistas estão com a

    Os inflacionistas estão com a corda toda.

    Não basta arrecadar 40% e gastar mal pra caramba. Tem que dobrar a dose!

Recomendados para você

Recomendados