4 de junho de 2026

Rolezinhos e capitalismo predador, por Aldo Fornazieri

Caracterização dos Rolezinhos

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Os Rolezinhos se tornaram o tema do momento. Já houve um esforço significativo de sociólogos, analistas e da imprensa para tentar defini-los e compreendê-los. Num primeiro movimento, os representantes das ciências sociais tentaram defini-los como um movimento de protesto contra a exclusão que o capitalismo impõe ao consumo dos setores pobres da população nos espaços dos shoppings centers. Numa primeira aproximação, parece ser mais fácil definir os Rolezinhos por aquilo que eles não são do que por aquilo que eles são.

Se tomarmos a definição forte do conceito de “movimento social”, derivada de Marx, Dhurkheim e Weber, pode-se dizer que os Rolezinhos não são um movimento social. Um movimento social seria uma referência a uma ação coletiva de um grupo orientada para a mudança social por meio da mobilização e do  protesto,  visando alcançar objetivos e interesses que se configuram a partir de valores e ou ideologias comuns. Os Rolezinhos, no entanto, poderiam se enquadrar na definição de “movimento social” no sentido fraco do conceito, que se refere a uma ação coletiva, mesmo que espontânea e sem propósitos claramente definidos.

Assim, os Rolezinhos não são expressão de uma luta de classes, não são um movimento político, não são um movimento revolucionário, não são de direita ou de esquerda. Embora não sejam tudo isto, não são um fenômeno sem de causas e motivações, desprovido de sentido político e social e sem possíveis conseqüências e desdobramentos. Pelo lado das definições positivas, pode-se dizer que os Rolezinhos são filhos da necessidade de espaços urbanos de encontros para adolescentes e jovens. Espaço para o namoro, a zoeira, a diversão, o toque e o beijo. São filhos também dos desejos, da vontade de consumir, das marcas, do fascínio das vitrines e dos objetos que se encontram no espaço clean dos shoppings. O rolezinho de adolescentes e jovens existia antes de sua convocação massiva pelas redes sociais e é a partir dela que ele começa a mudar de significado. Como movimento ou manifestação espontânea, típica da idade ou não, os Rolezinhos tendem a desaparecer. O que não deve desaparecer, ao menos no médio prazo, são as causas que fizeram nascer este fenômeno.

A convocação massiva dos Rolezinhos e sua ocorrência, os tornam um fato social, passível de interpretação, de debate, de atribuição de significações e sentidos políticos e sociais. Se os Rolezinhos são filhos da necessidade de espaços para encontros, a primeira constatação que precisa ser feita é a que diz respeito ao fato de que a cidade de São Paulo é extremamente segregadora quanto à distribuição dos equipamentos públicos de cultura, esporte e lazer, assim como os demais bens de saúde e educação. Esses equipamentos se concentram no centro e nos bairros ricos. A maior parte dos cerca de 260 Clubes da Comunidade está semiprivatizada, nas mãos de grupos particulares. São espaços bloqueados ao acesso livre dos jovens. Os próprios CEUs foram descaracterizados pelas gestões Serra e Kassab enquanto espaços de cultura e convivência das comunidades. Na medida em que não houve uma oferta organizada de espaços para encontros dos jovens e para fruição da vida, eles mesmos forram construindo seus espaços, seja nos shoppings, nos bailes funks nas ruas, em postos de gasolina etc. A cidade foi construindo uma hostilidade em relação aos jovens da periferia e os jovens foram encontrando maneiras próprias de convívio e de expressão com esse e nesse mal-estar. Desta forma, a questão das causas dos Rolezinhos remete para um forte problema de natureza política, que diz respeito às prioridades e às escolhas que a administração pública faz em relação aos diversos grupos que habitam a Cidade.

A reação aos Rolezinhos

A reação institucional aos Rolezinhos veio de duas maneiras. Por um lado, a costumeira e velha repressão num shopping da Zona Leste. A repressão aos Rolezinhos remete para a repressão dos estudantes, em 13 de junho do ano passado, quando a polícia militar de São Paulo usou de violência sem justificativa. As grandes manifestações que se seguiram, em parte, foram motivadas pela repressão. A repressão apenas atesta uma velha tradição: os movimentos sociais e as manifestações sempre são tratados como caso de polícia, pois, além de ameaçar a “ordem”, ameaçam a propriedade.

Por outro lado, ouve a reação das administrações dos shoppings: uns buscaram liminares na Justiça para proibir o encontro dos jovens, como foi o caso do Iguatemi JK, e outros, simplesmente, fecharam as portas. No caso do Shopping Iguatemi JK resvalou-se para algo muito perigoso: a segregação social e/ou racial. Ao se permitir a entrada de uns e bloquear a entrada de outros por critérios visuais, praticou-se algo próximo da segregação dos negros norte-americanos que suscitou os grandes protestos pelos direitos civis ou algo próximo ao que ocorria na África do Sul, onde a lei definia os ambientes que os negros não podiam freqüentar. Os shoppings são espaços privados abertos ao público. Estão submetidos, portanto, a regras dos espaços públicos e não podem definir critérios excludentes de quem pode ou de quem não pode frequentá-los.

A reação da Justiça, proibindo o Rolezinho no JK, também está dentro do previsto. O juiz que concedeu a liminar bloqueou o direito de ir e vir para salvar a propriedade de uma suposta ameaça. Até então, os Rolezinhos não tinham sido violentos. Mas a liminar, além de fixar uma multa diária de R$ 10 mil a cada manifestante identificado, afirma o seguinte: “Comunique-se às autoridades policiais para que tomem todas as medidas necessárias para impedir a concretização do movimento no espaço pertencente ao autor e garantir a segurança pública e patrimonial dos clientes, comerciantes e proprietários do centro de comércio do autor”. Ou seja, mesmo que não houvesse atos de violação da propriedade ou ameaça manifesta, o juiz entendeu que deveria agir preventivamente para garanti-la.

Aparentemente, não há nem uma solução policial e nem uma solução jurídica para os Rolezinhos. Se eles são uma expressão social, uma manifestação social, é neste terreno e, eventualmente, no terreno político que as soluções precisam ser buscadas e geradas. Os Rolezinhos se situam num contexto de conflitos de direitos e de conflitos de interesses. Envolvem direitos públicos e espaços privados abertos ao público. Somente o diálogo, a mediação, a negociação e a paciência podem produzir bons resultados quando conflitos desta natureza se instauram.

O capitalismo predador

A Cidade de São Paulo abriga duas características contraditórias: ao mesmo tempo em que é a cidade do trabalho, do empreendedorismo, do progresso e da vanguarda cultural, é também, o centro do conservadorismo, do exclusivismo e do particularismo de uma elite que só pensa em si e não Brasil e no bem estar da sociedade. O ex-governador Cláudio Lembo captou muito bem este segundo aspecto quando se referiu a uma “elite branca paulista” que precisava “abrir o bolso” para evitar o crescimento da violência e da degradação social.

O fato é que essa elite não abriu o bolso e não quer abri-lo. Mas o que isto tem a ver com os Rolezinhos? Ocorre que os rolezinhos são também filho da classe C, são filhos de nordestinos, mineiros etc., que construíram os shoppings, os condomínios fechados, as piscinas, os edifícios e os estádios. Os filhos da elite branca têm escolas de qualidade, planos de saúde, academias, clubes, piscinas, praias, viagens e assim por diante. Os rolezinhos tem o trabalho, o ônibus, o mestrô, os três da CPTM, a  rua, a violência, dívidas no cartão de crédito, a escola pública de baixa qualidade, a fila do  hospital público etc.

A elite branca paulista não fez e não quer fazer nenhum gesto para melhorar a vida dos rolezinhos. Pelo contrário: envolveu-se num violento esquema de especulação imobiliária; sonegou os impostos da prefeitura articulando-se com a máfia dos fiscais e o presidente da Fiesp derrubou o IPTU progressivo na Justiça. Não há nenhuma contrapartida social na periferia para cada construção de shopping ou grande empreendimento imobiliário.

A Classe C precisa de 160 mil vagas de creches. Vagas que são negadas pelo capitalismo predador instalado na cidade de São Paulo. Capitalismo predador que arranca o suor, o sangue e os direitos dos trabalhadores e se nega a devolver o bem estar para a cidade, seja através da sonegação, seja através da corrupção ou pela simples negativa de querer pagar impostos de uma forma justa. Todos sabem que no Brasil existe uma injustiça tributária: os mais pobres pagam mais impostos do que os mais ricos. O que se observa hoje na cidade de São Paulo é um violento movimento do capitalismo predador contra todas as iniciativas sociais da prefeitura.

O Brasil, de fato, é um país muito singular. Tivemos ao longo da história um capitalismo selvagem que construiu uma monumental desigualdade social – uma das maiores do mundo. Tivemos alguns ensaios de Estado de Bem Estar Social que não se concretizou. Ao que tudo indica, estamos transitando do capitalismo selvagem para o espírito do novo capitalismo, que se caracteriza por ser um capitalismo regenerado, sanguinário na busca de lucro ilimitado, combinado com a degradação social e econômica de um número crescente de pessoas. Este fenômeno, que é mundial, começa a se fazer sentir também no Brasil, em que pese as pequenas conquistas sociais dos últimos anos.

Aldo Fornazieri é Cientista Político e Professor da Escola de Sociologia e Política

Aldo Fornazieri

Cientista político e professor da Fundação Escola de Sociologia e Política.

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6 Comentários
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  1. Joel Miranda

    20 de janeiro de 2014 11:44 am

    Rolezinho
    Brasil
     
    O rolezinho virou moda, mas ele já existe a, pelo menos, 60 anos!
    Eu mesmo já comentei aqui, que o fazia quando estava no ginásio, no Duque de Caxias, na Liberdade, quando saíamos, eu e nossos colegas, correndo pela Rua Lima e Silva!
    Era um barato, como dizemos hoje!
    Corríamos, caíamos, atropelávamos, ríamos, mas só!
    Hoje virou tese de doutores, é brincadeira, é arruaça, é baderna, é arrastão(?), é protesto, ou o que é?
    Os ricos e medianos sempre têm medo, os de ontem e os que alcançam estes patamar, hoje, eles não querem mudanças, não querem solavancos, já estão satisfeitos com o que alcançaram!
    Claro que temos os oportunistas, os que veem uma forma de usá-lo em proveito próprio!
    Com a internet, hoje em dia, tudo é possível!
    Eu mesmo já estou pensando em criar o rolé dos velhinhos, o “ROVELHINHO”, convocando os idosos a irem pros shoppings, pra “correrem” em seus amplos corredores, seria bacana, como dizíamos antigamente!
    Todos os que, como eu, já passam dos 60 anos, estão convidados, como sugestão, para o dia dos vovôs e das vovós!

    1. rita scaramuzzi

      20 de janeiro de 2014 9:16 pm

      quando era adolescente, role

      quando era adolescente, role significava apenas passear: ir ao cinema, ao teatro, sorveteria… nessa época shoppings eram poucos e internet nem pensar. eu adorava cinema, ia todos os domingos na antiga matine… era a época do regime militar e para jovens era proibida a entrada no cinema a noite. só para adultos. a censura era terrivel! eu lembro que eu tinha 10 anos e assisti no cinema” e o vento levou” inteiro! sem reclamação!

  2. Leandro_O

    20 de janeiro de 2014 12:41 pm

    E eu quero parques e praças

    E eu quero parques e praças para passear.

    E não shoppings!!!

  3. leonidas

    20 de janeiro de 2014 12:50 pm

    açao policial para manter a

    açao policial para manter a ordem publica nao tem relaçao alguma com repressao totalitaria

    totalitaria sao atitudes que atentem contra o bom senso no objetivo de subverter o direito do resta da sociedade em nome de interesses de determinados agrupamentos

    oras bolas, nao é mesmo caso de racismo ( nunca foi ) tanto que esses mesmos jonves cansaram de freguentar os shoppings em questao tendo sua entrada cerceada somente a partir do momento que adotaram modos operandis de torcida organizada

    A administraçao do Shopping esta corretissima em impor limites a açao ou ingresso desses tais pois sabemos que todo grupo numeroso é potencialmente uma ameaça de vandalismos, histeria coletiva, panico causado entre os nao adeptos ao movimento  que pode levar ao efeito manada que poderia vitimar inumeras pessoas

    E no fim disso, ninguem iria se responsabilizar ate pq a maior parte destes tais sao menores de idade

    Policia tem o dever de agir PREVENTIVAMENTE faz isso há anos com torcidas organizadas e nao aparece nenhum imbecil do ramo da sociologia para definir o controle de acesso e deslocamento desses grupos como sendo algo voltado a cercear o acesso de negros e pobres que sao imensa maioria nas organizadas

    E apesar de privado o Shopping tem sim direito ao policiamente prventivo pois paga imposto como todos e as pessoas que estao la ( nao vandalas ) tambem pagam imposto e a policia tem a OBRIGAÇAO de garantira a  tranquilidade e principalmente sua segurança

    Pessoas tem o deslocamento atrapalhado no estacionamento como ocorreu em Itaquera onde vandalos se aglomeravam impedindo a passagem dos veiculos e hostilizavam quem tentasse conseguir passar por eles pois estavam ( os veiculos !!!!!! ) atrapalhando a dança dos vagabundos.

    Numa dessa ( na ausencia da policia para impedir algo assim ) um bando desses  vagabundos resolvem depredar um veiculo , o condutor perde a linha e  mata um e temos uma tragédia que poderia e DEVE  ser evitada com o uso preventivo do poder de Policia pois isso sao coisas completamente previsiveis

    E garantir que um estabelecimento seja usado para o fim ao qual se propoe é o minimo que se espera em termos de politica preventiva voltada a segurança publica

    quer dizer entao que devemos permitir que milhares de jovens inimputaveis fiquem reunidos em local improprio para suas festas ( pois é iso que querem , nao tem nada com protestos ) causando animosidade entre usuarios que nao sejam vandalos em nome de uma suposta democracia?

    Faça-me o favor…rs

  4. Durvalino

    20 de janeiro de 2014 4:34 pm

    ELES NAO VOTAM

    …………  imagimem se votassem   !!!

    vao mostrar q nao aceitam ser a geraçao perdida.

  5. Thomaz HB

    21 de janeiro de 2014 12:34 pm

    “Ao se permitir a entrada de

    “Ao se permitir a entrada de uns e bloquear a entrada de outros por critérios visuais, praticou-se algo próximo da segregação dos negros norte-americanos que suscitou os grandes protestos pelos direitos civis ou algo próximo ao que ocorria na África do Sul, onde a lei definia os ambientes que os negros não podiam freqüentar.” Achei este trecho equivocadíssimo. Incorrer no erro de comparar esse caso ao Apartheid é, se não um enviesamento, um ponto de ignorância (ou ao que foi o Aperthei, ou ao que é o rolezinho). O senhor realmente sustenta essa impressão?!

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