Jornal GGN – A jornalista Paula Puliti lança, nesta segunda-feira (13), às 18h30, na Livraria Cultura do Conjunto Nacional (São Paulo), o livro “O juro da notícia: jornalismo econômico pautado pelo mercado financeiro”. Nele, a profissional, com larga experiência em informação em tempo real, na Broadcast/Agência Estado, destrincha como se deu o processo de financeirização das pautas econômicas, a partir de meados da década de 1980. O jornalista Luis Nassif é um dos entrevistados. A seguir, os principais trechos da entrevista que Paula concedeu ao Jornal GGN.
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Jornal GGN: Como foi sua experiência em tempo real?
Paula: Positiva. Tracei um caminho que poucos haviam traçado e que não se tem noção na escola. Tornei-me ágil e desconfiada do que as fontes falavam. Aprendi um novo tipo de jornalismo – o de não ter medo de escrever.
JG: Você diz, no livro, que desde meados dos anos 1980 a imprensa começou a ser pautada pelo mercado financeiro. Como isso de deu? Qual a origem?
P: A origem foram os grandes conglomerados bancários que se formaram nos Estados Unidos. Desde antes de 1929, já havia grandes bancos. Nos anos 1980 e início de 1990, tivemos uma série de fatos que permitiram aos bancos tomar lugar de destaque no discurso econômico, a saber: o capitalismo venceu a Guerra Fria, Tatcher e Reagan tiveram importantes experiências com o Estado mínimo; prosperaram as escolas de economia; a econometria ganhou status de neutralidade (os números não mentem); muita gente ficou rica da noite para o dia com ações e surgiram os yuppies. Isso tudo junto deu força para que o discurso ortodoxo (como hoje é chamado o neoliberalismo) ganhar a posição de destaque que tem hoje. É difícil encontrar alguém que discorde da ortodoxia. É um discurso vencedor.
JG: Com o advento das agências de notícias em tempo real, a academia e o setor produtivo não se deram conta da necessidade de respostas rápidas?
P: Não se deram conta na época. O perfil da imprensa estava mudando, mas a academia e o setor produtivo demoravam dias para uma entrevista.O capital financeiro prosperava, discurso apolítico e muito crível, baseado em números, muita gente fazendo dinheiro no mercado financeiro (inclusive o setor produtivo), e os bancos aproveitaram a abertura política no Brasil para também fazer dinheiro. Os bancos não falavam na ditadura. Só depois, na abertura, começaram a falar: primeiro da hiperinflação, depois instrumentos financeiros para se proteger dos preços altos, e aí veio a inflação mais baixa (com Fernando Henrique Cardoso). Já não era preciso proteger, mas multiplicar o dinheiro. Houve também uma mudança na imprensa: com a abertura, editores passaram a querer outras fontes que não as do regime, mas de onde vinha o dinheiro. Os jornais, principalmente o Estadão, passaram a reproduzir matérias da Broadcast, um serviço voltado para o mercado exclusivamente. Isso contaminou a imprensa em geral, porque a agência de notícias do Estadão distribuía essas matérias. Também houve a proliferação das assessorias de imprensa para promover esses serviços.
JG: Os bancos contrataram economistas para serem meros porta-vozes para a imprensa imediatista do real time?
P: Economistas e financistas foram contratadaos para fazer análises de papeis, juros, moeda e gerir carteiras – projeções que os bancos vendiam. Surgiram no Brasil os departamentos econômicos. Aquele que falava bem passava por uma espécie de treinamento e atendia os jornalistas do real time.
JG: Com a proliferação de sites e redes sociais, você vê alguma mudança neste perfil do noticiário econômico?
P: Sim. Mudou a forma como se faz jornalismo. Agora, os sites buscam profissionais real time — não importa o tema. Cada um sai com um tablet e escreve a matéria de onde estiver. Os celulares vão na boca do entrevistado e saí exatamente o que o entrevistado diz – tem de ter cuidado com o que fala. Com as redes sociais, ficam mais fáceis as denúncias, que podem dar origem a boas matérias. Mas também a publicidade, os anúncios. É toda uma forma nova de fazer jornalismo, baseada em consumo tecnológico-empresarial. Eu acho que as fontes, até os bancos, estão perdidos.
JG: Algum caso emblemático desta submissão da imprensa ao mercado?
P: Eu acho que as matérias de projeção são uma submissão. Há anos, os economistas/financistas erram PIB, IPCA e outras variáveis. Mas a imprensa sempre fazia essas matérias com gente de banco e consultorias econômicas. Isso só serve para um saber o que o outro pensa. Não vale para o leitor comum. Também havia matérias que demonizavam o aumento do emprego – vinham muitas das agências internacionais – por causa da inflação. Ora, só interessavam ao mercado financeiro. Hoje, a academia e o setor produtivo aparecem mais na mídia. Aprenderam com os bancos.
Assis Ribeiro
13 de janeiro de 2014 1:27 pmÉ mais amplo
O jornalismo está pautado no pessimismo…
o conformismo com o mainstream,
o rolo compressor…
contra o governo do PT
Hoje, houve um pedido de desculpas por se seguir, sem reflexões e aprofundamentos, a corrente; os leitores demonstraram estar bem mais informados do que o veículo; daí as desculpas; não colou…
“A nota oficial da ONG Agência Publica sobre a Copa do Mundo”
ArthurTaguti
13 de janeiro de 2014 1:41 pmDifícil identificar nos
Difícil identificar nos economistas da grande mídia um “não convertido” ao mercado financeiro.
Não menciono que são liberais porque no Brasil se professa um falso liberalismo, o que prega a minimização do Estado mas ama o Bndes, o que diz que o Estado é ineficiente mas ergue impérios/vai a bancarrota sem a sua ajuda.
Tanto que a Folha usa de um artifício típico da mídia estadunidense, reservando “cotas” de esquerdistas (vide Vladmir Safatle), mas não vislumbro isto no seu time de economistas. Não vejo na nossa grande mídia nacional uma figura semelhante ao Paul Krugman (que a Carta Capital, aliás, reproduz textos imperdíveis toda semana).
Claro, existem articulistas econômicos que não seguem a religião, tal qual Nassif, ou Beluzzo, mas não dá para falar, propriamente, que eles são “grande mídia”. Nesta, existe na área econômica uma ditadura da voz única quase impossível de romper.
Nela conseguimos ver um Jânio de Freitas protestando contra o julgamento do mensalão, mas eu nunca vi um economista da Folha questionando o rentismo.
Benedito
13 de janeiro de 2014 1:41 pmjornalismo e sistema financeiro
O jornalismo brasileiro rendeu-se ao neoliberalismo que chegou ao Brasil nos anos 90. O projeto neoliberal era o projeto do governo Collor, que pensou que Brasília era Maceió e foi defenestrado. FHC foi eleito para fazer o que Collor não fez: implantar no país a ideologia do Consenso de Washington. A imprensa aderiu de corpo e alma a FHC e às oportunidades de lucrar com as privatizações, principalmente nas telecomunicações. O sistema financeiro foi o grande condutor desse processo. Embora tivéssemos um presidente sociólogo, o pensamento acadêmico foi desprezado no país nos anos 90, dando lugar à tecnocracia financista dos economistas dos bancos, treinados segundo a ideologia neoliberal. O setor produtivo se contentou com os ganhos financeiros dos juros estratosféricos de Malan e companhia. E os economistas de Fiesp etc acompanharam o discurso neoliberal. O sistema financeiro exerce pesado controle sobre o conteúdo da imprensa. São os bancos os grandes anunciantes e aqueles que têm o dinheiro para momentos de crise das empresas de comunicação. Os economistas de bancos, na verdade, não são economistas. São apenas reprodutores de um discurso que atende aos interesses da elite econômica formada pelo sistema financeiro. Defendem o Estado mínimo, mas foram os Estados (com dinheiro dos impostos pagos por nós) que os salvaram na crise por eles provocada de 2008 para cá. E a imprensa, ao invés de mostrar o quanto esse quadro é prejudicial à saúde da economia produtiva (que gera renda, emprego e consumo), continua “embebed” nas lições já derrotadas do neoliberalismo financeiro dos anos 90..
aliancaliberal
13 de janeiro de 2014 3:22 pmA retórica fica ate boba
A retórica fica ate boba quando se pensa que a era pré FHC a inflação era a principal fonte de rendimento das empresas e governo, o Real que é um processo não um plano, liquidou com a principal fonte de renda não produtiva. Tanto é assim que o govermo necessitou elevar a carga tributária.
Robson Lopes
13 de janeiro de 2014 2:24 pmFalta de intimidade com os números
Não apenas os economistas/financistas erram os números de PIB, IPCA, Inflação, os jornalistas tem errado muito esses números, e pelo que tenho lido, não parece ser má fé, mas sim completa falta de intimidade com os números, quando falam de violência usam os números absolutos para ranquear as cidades, na inflação não conseguem fazer operações simples para comprovar ou negar o que estão dizendo, é um festival de “furos”, não no bom sentido, que chega a ser engraçado.
AlvaroTadeu
13 de janeiro de 2014 3:20 pmTriste fim de Policarpo Quaresma.
A imprensa no Brasil no final dos anos 70 era a Folha. A Folha criticava o Regime Militar, repercutiu como ninguém a campanha das Diretas-Já, que indiretamente derrotou o regime. Mesmo sendo Sarney e Tancredo pilares civis da Ditadura Militar, com eles, não houve mais generais na Presidência da República e após Sarney, todas as eleições foram diretas. Na primeira, em 1989, estava todo mundo perdido, as eleições seriam solteiras. Apareceu todo tipo de candidato, até um tal Marronzinho, que chamava FHC de maconheiro. Isso era horrível, porém, premonitório. Hoje o ex-presidente faz apologia da erva. Já tem gente nos blogs mudando suas iniciais para “THC”. Naquelas eleições solteiras, a Direita ficou imobilizada. Havia o Collor, não era confiável, mas era melhor Collor do que Brizola, ou pior, Lula! Lula foi para o segundo turno, massacrado pela Rede Globo e pelos barões da imprensa. De lá para cá, não houve mais surpresas, a Direita sempre esteve preparada. Escandalizando inflação de 5,8% a.a., quando não se escandalizava com inflação a 10% AO MÊS, durante quase todo o “mandato” do general figueiredo. Economistas zombando do crescimento de 2% sob Dilma, com PLENO EMPREGO, quando não criticavam PIB semelhante com desemprego aberto de 22%. Dois dígitos! Vinte e Dois!
Um tal de Mailson da Nóbrega que subiu no BB e no Ministério da Fazenda bajulando os superiores, com um diplominha de economista de faculdade de quinta categoria, aparece na TV e nos jornais “comentando” a política econômica do governo. Logo ele, o mais fracassado dos ministros da Fazenda da História do Brasil. Entregou a inflação a 80% AO MÊS. Merece algum respeito esse cidadão? Por que ele tem tanto espaço em todas as mídias empresariais? É como dar o prêmio de melhor jogador da Copa um atacante que tenha perdido 3 pênaltis na Final, perdido o título e indicado como o melhor jogador.
Quem achou que havia alguma decência na Revista do Esgoto, em algum programa da Rede Globo/GloboNews, nas Folhas, Estadão, Estado de Minas (“Estadinho”), algum comentarista de Economia e até mesmo de futebol, como eu, danou-se. Fico parado, olhando, pensando, qual será o próximo capítulo?