O pior dos homens é meu professor. Ele me ensina como não agir.
Em relação a isso, o artigo de Demétrio Magnoli, “Sete desejos de ano novo”, na Folha de hoje, sábado 04.01.2014, é uma aula. Ele consegue reunir em um único texto boa parte dos argumentos e preconceitos do nosso reacionarismo. E uma boa notícia, eles são muito fracos.
http://www1.folha.uol.com.br/colunas/demetriomagnoli/2014/01/1393227-sete-desejos-de-ano-novo.shtml
Vamos a eles.
“1. As denúncias de Edward Snowden… Faz sentido criminalizar o personagem que apontou as distorções… de uma agência estatal descontrolada? Desejo que Obama anistie incondicionalmente o delator. Seria um sinal de vitalidade da democracia americana e… resgataria Snowden do abraço de urso de Putin”.
Um desejo humanitário e a favor das liberdades civis? Quando a presidente Dilma se indignou com as informações sobre espionagem e cancelou a visita a Obama, tal atitude foi tratada com desdém, como se fosse uma manifestação de provincianismo. Magnoli reviu sua posição de grupo? Não, é que, após editorial do NYT pedindo clemência para Snowden, esse caso ganhou um “international appeal” irresistível para alguém como Magnoli. Defender Snowden agora é “cult”. Sempre foi, aliás. E quanto a Assange, nenhum desejo, pequeno que fosse, de Magnoli?
Quanto a Putin, Magnoli parece achar que ele é ainda o Secretário Geral do Partido Comunista da URSS.
“2. A “maior Copa de todos os tempos”, na frase de Dilma, é a Copa mais cara da história. A festa macabra da Fifa, bancada com dinheiro público, simboliza a inigualável soberba do lulismo. Que as pessoas voltem às ruas desde a hora do apito inicial e, no entorno das arenas bilionárias, até a cerimônia de encerramento, exponham ao mundo a desfaçatez dessa aliança profana entre os donos do negócio do futebol e os gerentes dos “negócios do Brasil”. Que a polícia trate com urbanidade os manifestantes -e com a dureza da lei os vândalos mascarados”.
Em um parágrafo de 8 linhas, Magnoli alinha 7 impropérios contra a realização da Copa do Mundo no Brasil: “Copa mais cara da história”, “festa macabra da Fifa”,”soberba do lulismo”, “bancada com dinheiro público”, “arenas bilionárias”, “desfaçatez”,” aliança profana”. O fim de ano foi de excessos para Magnoli, três dias após as festas da virada, seu fígado ainda não se recuperou.
Mais um que se acha dono do povo, já o convoca em manifestações que tumultuem a realização dos jogos. Enfim, é o desespero. Na falta do argumento, o apelo à exceção como esperança.
Magnoli é da turma do quanto pior melhor, mas não gosta de “vândalos mascarados”. Não se faça de tolo Demétrio, sem eles, a burguesia branca, com o perdão do pleonasmo vicioso, vai estar nas cadeiras numeradas dos modernos estádios brasileiros, torcendo pelo Brasil e portando cartazes pedindo alguma coisa “padrão FIFA” para aparecer nas câmeras da Globo. É hipócrita? É e assim são as nossas classe-média e plutocracia.
Quanto à “aliança profana entre os donos do negócio do futebol e os gerentes dos “negócios do Brasil”, alguém avise a Demétrio Magnoli que a Dilma é a presidente do Brasil, não da FIFA ou da Globo, no Brasil, organizadora do evento esportivo e dona dos direitos de transmissão, respectivamente. Parece que Magnoli, que é um desinformado, ainda não sabe.
Quanto à “Copa mais cara da história”, já estou esperando a manchete da Folha no dia 14 de julho de 2014, logo abaixo da foto dos nossos jogadores segurando a taça: “Brasil tem lucro com a Copa do Mundo, mas é menor desde 1950”. Porque, no plano exclusivamente econômico, isso é o que importa, o quanto resta ao final; e não o quanto custou no início. Demétrio não entende nada de manifestações populares, de futebol, nem de economia. Como aqui tratamos apenas dos seus desejos, então, está tudo bem.
3. Serra colou sua foto à de Lula na campanha presidencial de 2010 e tentou colar em todo o PT o rótulo infamante de quadrilha de corruptos nas eleições municipais de 2012. Que Aécio aprenda com tais precedentes a lição do que não se deve fazer. Oposição se faz com o bisturi afiado da crítica e com a bússola apontada para um rumo de mudança. Que o tucano combine radicalidade (de fundo) e civilidade (de forma).
Duplamente errado, em relação a Serra e a Aécio. Em 2010, Serra colou sua foto no Bispo de Guarulhos, no pastor Malafaia e na intolerância religiosa. Em 2012, trocou a “bolinha de papel” por uma bola de verdade e uma foto do “tiozinho gagá que perdeu o sapato no campinho”. Aécio desde a muito é um “besouro rola-bosta”. Que tenha, agora, um discurso que combine “radicalidade (de fundo) e civilidade (de forma)” é desejo difícil de ser obtido. É melhor Demétrio começar a colocar as suas fichas nos “olhos azuis” de Marina Silva e sua novilíngua esverdeada.
“4. “Vemos as filhas do Bolsa Família serem mães do Bolsa Família. Vamos assistir a elas serem avós do Bolsa Família?”Eduardo Campos revela a ousadia dos estadistas quando, desafiando a geleia geral brasileira, indica os limites dos programas de transferência de renda. Que ele desenvolva esse tema difícil sob o fogo da propaganda eleitoral. Que estraçalhe o véu atrás do qual se esconde o deplorável conservadorismo de um governo devotado à reprodução infinita do círculo de ferro da pobreza e da dependência”.
Falando nos ”olhas azuis de Marina Silva”, ei-lo aqui. Eduardo Campos estadista ousado? Só nos desejos de Magnoli. Eduardo Campos é só mais um político que cospe no prato em que comeu, é o que é graças ao montante de dinheiro federal despejado no seu governo. Durante a campanha, Lula lembrará isso ao povo Pernambucano.
“Vemos as filhas do Bolsa Família serem mães do Bolsa Família. Vamos assistir a elas serem avós do Bolsa Família?”.
O “Bolsa Família” tem apenas 10 anos. Tempo pouco demais para filhas se tornarem mães. Todo o mais é preconceito do classe-média que desconta plano de saúde, gasto com educação e previdência privada do Imposto de Renda, mas julga que quem recebe o Bolsa Família não deve ter o direito de votar. A frase de Eduardo Campos foi um dos seus erros, Marina foi outro, a grande imprensa fez que não notou. Na hora certa, Campos vai desdizê-la e afirmar o oposto do que deseja Magnoli. Nem Aécio de fogo afirmaria em uma campanha eleitoral que é contra o Bolsa Família, e que, se eleito, acabaria com o programa. De qualquer sorte, Campos vai pagar por ela.
“Que estraçalhe o véu atrás do qual se esconde o deplorável conservadorismo de um governo devotado à reprodução infinita do círculo de ferro da pobreza e da dependência”
Alguém sabe se Demétrio Magnoli é fã de chá de cogumelo alucinógeno? O governo do PT é um governo conservador que reproduz o círculo de pobreza e dependência? O governo do PT deposita dinheiro diretamente na conta de cada beneficiário do “Bolsa Família”. Bom era quando o povo pobre formava fila na porta da prefeitura para receber uma cesta básica das mãos do cabo eleitoral do prefeito, que, depois, na época da eleição, ia visitá-lo em casa para lembrar-lhe do favor? Se não é efeito alucinógeno é uma tentativa canhestra de bancar o malandro que rouba uma carteira e grita “pega ladrão”.
“5. Franklin Roosevelt governou por 12 anos, entre 1933 e 1945. Depois, para reforçar o princípio da alternância no poder, uma emenda constitucional impôs a regra de uma reeleição única. O provável triunfo de Dilma estenderia a presidência lulista a 16 anos, um intervalo longo o suficiente para converter um governo num regime. A eternização no poder de uma corrente política que tende a borrar as fronteiras entre Estado, governo e partido envenena as instituições democráticas. Nossa democracia não precisa de um Partido com inicial maiúscula. Que as urnas de outubro cortem o caminho do quarto mandato consecutivo do lulismo”.
Franklin Delano Roosevelt foi um dos grandes presidentes americanos. Foi quem forjou a poderosa classe-média americana e o modelo de administração dos EEUU por 60 anos. Se Lula tivesse tomado as mesmas medidas de Roosevelt, Magnoli teria pegado em armas para derrubar o seu governo.
Magnoli tenta aqui outra malandragem, soma Lula a Dilma para dizer que não há alternância no poder. Deveria dizer o mesmo do longo período do PSDB em São Paulo, mas aí o malandro perde a memória.
Quanto ao 4º mandato consecutivo do PT no governo federal e ao 5º do PSDB no governo paulista, vale a regra “um homem, um voto”, ganha quem tiver, ao final, 50% mais um. É a democracia, goste Demétrio ou não, deseje ou não outra forma de eleição.
“6. Suzana Singer qualificou Reinaldo Azevedo como “um rottweiler”, dois dias depois da publicação do primeiro texto do novo colunista, que não continha nenhuma impropriedade, e revelou sua insatisfação com a chegada de outro colunista (este aqui), acusado do crime hediondo de ser um “crítico entusiasmado do PT”. Há algo de muito errado no cenário do debate público quando a ombudsman do maior jornal do país faz tabelinha com as correntes difamatórias da internet financiadas pelo Banco do Brasil e a Caixa Econômica Federal. Que Suzana recupere o prumo e a compostura”.
Então, quem critica Magnoli não tem prumo nem compostura? Como já dizia minha avó: “de pretensão e água benta cada um se ser do quanto quiser”.
Deselegante e vingativo, lembrou-me o Ministro Joaquim Barbosa negando cumprimento à Presidente Dilma na recepção ao Papa Francisco. Cavalheiros não agem assim, trata-se de duas senhoras.
Quanto à comparação de Reinaldo Azevedo com um rottweiler, Suzana foi preconceituosa – com os rottweilers. Sei do que falo, já tive uma rottweiler que foi, enquanto viveu, um exemplo de nobreza e dedicação. Guardou minha casa por uma vida, não lembro de ter agredido ninguém.
“7. Um relatório judicial entregue ao STF revelou que 59 presos foram assassinados na cadeia de Pedrinhas (MA), onde a tortura e o abuso sexual entre prisioneiros fazem parte do cotidiano…. Durante o julgamento do “mensalão”, o ministro da Justiça José Eduardo Cardozo crismou o sistema carcerário brasileiro como “medieval”, uma incrível descoberta propiciada pelo espectro da condenação definitiva de seus companheiros petistas. Que, 12 anos depois da ascensão de seu partido ao poder, Cardozo supere o hiato entre a palavra e a ação”.
Alguém lembre ao Demétrio Magnoli, que, embora existam presídios federais, a maioria é de responsabilidade dos governos estaduais. Creio que o de Pedrinhas e mesmo o da Papuda o são. O desejo de Magnoli estaria mais próximo da realidade se fosse dirigido aos governadores – Geraldo Ackmin, entre eles, ainda que o Ministro da Justiça possa ajudar muito nesse assunto.
E eu, o que desejo a Demétrio Magnoli?
Nada.
Poderia lembrar dos versos de “Décadence avec élégance” e desejar: “seja um bom rapaz, pratique algum esporte, tenha bons ideais. Afinal de contas, o fim do mundo não é nenhum fim do mundo e , se for, descanse em paz”.
Mas esses são versos de Lobão e, nesse caso, quando se encontrarem pelos corredores de Veja ou da Folha, eles mesmos que se desejem.
No mais, até 2015, Demétrio, desculpe o mau jeito e obrigado pela aula. Reforçou-me a convicção sobre como não agir e ao que não desejar.
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