Um natal só.
Mathilde D’Antanho.
E se por fim eu reconhecesse que você não virá?
E se, então, eu não saísse às ruas nessa procura
desnecessária,
que ao final só me conduzirá ao mesmo de ontem?
Se eu não contasse com seu lugar à mesa,
se não houvesse, como não há, razão para contigo
ou teu, ou nosso,
conosco, nós ou você?
E se eu, finalmente, eu, desse razão ao espelho,
olhasse em volta e
enxergasse que não há motivo ou porquê;
que tudo está bom como está,
que, para um, o que existe já dá,
que não há pretexto para uma mesa,
nem toalha de mesa, nem copo, nem taça;
e que, logo, são dispensáveis a meia-noite,
o bom natal ou o ano bom,
já que tudo é simples, único, individual?
Se no término da mão pendente só restasse a madrugada de amanhã
com o sol já nascente,
não haveria véspera de nada,
e, portanto, não haveria a espera por algo,
que, afinal, não existe, nem existirá.
Só mais um dia, outro dia,
nenhum significado especial
que o somar inútil do tempo
em inexorável contagem regressiva.
E se ao fim e ao cabo, eu, sempre eu, decidisse
reservar lugar para um só,
para, então, descobrir,
que tudo é assim mesmo,
que vida não é substantivo coletivo?
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