5 de junho de 2026

O capitalismo chega às cadeias brasileiras

Modelo gera polêmicas por tratar os presos como mercadoria e beneficiar uma única empresa. Três Estados já optaram por adotar esse sistema, São Paulo será o próximo

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Afonso Benites

Com a quarta maior população carcerária mundial, e que cresce a cada ano, o Brasil se depara com um grande desafio: privatizar ou não suas penitenciárias. Hoje, cerca de 548.000 presos se apertam em 340.000 vagas por todo o território brasileiro. Diante desse cenário, vários Governos estaduais já experimentaram entregar a administração das prisões para a iniciativa privada e outros devem seguir o mesmo caminho. O próximo que deve entrar na lista de Estados com cadeias particulares é São Paulo, o mais desenvolvido do país. O Governo de Geraldo Alckmin (PSDB) está em busca de três terrenos no interior para que sejam construídas as cadeias particulares para abrigar 10.500 presos nos regimes fechado e semi-aberto (neste o detento só dorme na prisão).

O modelo adotado pelo Governo é o de Parceria Público-Privada (PPP). Isso quer dizer apenas que a concessão do serviço à iniciativa privada tem prazo para acabar. Em São Paulo, a expectativa da gestão estadual é de que o contrato seja de 27 a 33 anos. Mas, a entrega do serviço de guarda e custódia de detentos é polêmica no Brasil e já recebeu diversos questionamentos, inclusive do Conselho Nacional de Política Criminal e Penitenciária, para quem a administração deve ser estatizada.

Atualmente, apenas três Estados têm penitenciárias nesses moldes: Santa Catarina, Espírito Santo e Minas Gerais. Pernambuco e Rio Grande do Sul também estudam essa possibilidade.

Outros dois Estados já tiveram presídios privados, mas que acabaram voltando para o poder público. No Ceará, uma decisão judicial obrigou que a iniciativa privada devolvesse a gestão para o Governo estadual. No Paraná, o próprio Governo decidiu retomar a administração de uma série de penitenciárias, após avaliar duas questões. A primeira, foi jurídica. Há especialistas que tratam a concessão da gestão como inconstitucional. A outra, financeira, porque nem sempre é tão lucrativo para uma gestão abrir mão desse serviço.

E são exatamente esses dois os principais pontos da discussão. Primeiro, o dinheiro. Hoje um preso custa cerca de 1.300 reais mensais aos cofres públicos. Nos contratos já firmados (como em Minas Gerais) ou nos que ainda serão assinados (por exemplo, São Paulo) o valor estimado de repasse para a empresa que vai gerir o sistema é de 2.700 mensais por detento. Ou seja, em um presídio com 10.500 detentos, o Estado vai entregar para uma única empresa (ou consórcio) cerca de 28,3 milhões de reais por mês.

O temor de quem estuda o assunto é que, além do aumento de gastos para o Governo, os presos passem a ser tratados como mercadoria. “A questão do lucro enraíza um interesse econômico na gestão da política criminal do país. Se tudo for privatizado, a política de encarceramento vai ficar mais forte e acabará entrando em choque com o interesse financeiro”, diz o professor do departamento de Ciências Sociais da Universidade de São Paulo, Laurindo Dias Minhoto.

Autor de um livro sobre o assunto (Privatização de Presídios e Criminalidade – Editora Max Limonad), Minhoto diz que não há dados empíricos que comprovem que a privatização é a melhor saída. “Tanto os Estados Unidos quanto a Inglaterra privatizaram suas prisões e só viram aumentar sua população carcerária. É bem possível que no Brasil aconteça isso também”, ressaltou.

Há, também, a questão legal. No Ceará, em 2007, a Justiça Federal acatou o pedido do Ministério Público e obrigou o Estado a retomar a gestão de uma prisão. Além da questão constitucional, que prevê a segurança como uma função essencial e exclusiva do Poder Público, os procuradores da República alegaram que uma resolução do Conselho Nacional de Política Criminal e Penitenciária, a de número 08/2002, previa que os serviços penitenciários de segurança, administração, gerenciamento de unidades, disciplina, efetivo acompanhamento e avaliação da individualização da execução penal, não são delegáveis à iniciativa privada.

Naquele Estado, conforme o deputado federal Domingos Dutra (PT), as empresas que administravam as prisões queriam apenas o “filé mignon” do sistema penitenciário. “Lá só entrava preso de bom comportamento, que cometeu crimes leves, sem antecedentes e que não dava trabalho. Ninguém queria saber de homicida, de membros de organizações criminosas. E, para piorar, ninguém estava preocupado com a ressocialização do preso, afinal, ele é uma mercadoria”, disse o congressista, que relatou uma Comissão Parlamentar de Inquérito sobre o sistema penitenciário brasileiro.

Há ainda a questão de direitos humanos, que tem sido pouco discutida. Em uma recente inspeção de conselheiros e de organizações não governamentais a uma das unidades privadas, no município de Serra, no Espírito Santo, os visitantes ouviram uma série de reclamações dos presos. A principal era de que vários deles temiam ter problemas mentais por conta da rigidez do regime.

“O ambiente é todo automatizado, muito limpo, muito higiênico, até parece um hospital. Mas os presos ficam trancados 23 horas por dia, têm apenas 90 segundos para tomarem banho e precisam sair ensaboados de suas celas, senão a água é cortada e eles ficam com sabão no corpo. É uma situação desumana”, afirmou o advogado Marcos Fuchs, diretor-executivo da ONG Conectas Direitos Humanos.

A forma com que esses detentos são tratados nessa unidade, que é apenas para presos provisórios (aqueles que ainda não foram julgados), é similar a um dos presídios mais rígidos do país, o de Presidente Bernardes (em São Paulo), onde só estão presos de alta periculosidade, muitos deles ligados a grandes facções criminosas. Lá impera o Regime Disciplinar Diferenciado (RDD).

Poucos são os defensores desse modelo. Obviamente que entre eles estão os Governos que o instalou e as empresas que querem abocanhar esse negócio milionário. Nenhum dos Estados procurados pelo EL PAÍS quis comentar o assunto. Em entrevista concedida ao jornal O Estado de S. Paulo, o secretário de administração penitenciária paulista, Lourival Gomes, afirmou que a capacidade de investimento da iniciativa privada é um ponto positivo da proposta. “A iniciativa privada tem maior facilidade para contratar funcionários e mantê-los nas unidades. A contratação de médicos, por exemplo, é uma enorme dificuldade atual no sistema, situação que pode ser resolvida com um modelo público-privado”, disse.

Os especialistas são unânimes em afirmar que não há uma solução única para a questão penitenciária. Ainda não se sabe se a privatização vai dar certo, mas se a política de aprisionamento continuar assim, em breve não haverá mais onde botar tantos detentos.

“Precisamos que os juízes mudem suas cabeças. Só prender não resolve. É necessário ter mais penas alternativas para crimes leves. Os únicos que ficam presos no Brasil são os pobres. O Estado tem de dar educação e saúde. Se não for assim, esse problema jamais terá solução”, avaliou o deputado Dutra.

Patricia Faermann

Jornalista, pós-graduada em Estudos Internacionais pela Universidade do Chile. Coordenadora de Projetos. Repórter e documentarista de Política, Justiça e América Latina do GGN desde 2013.

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21 Comentários
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  1. Zanchetta

    23 de dezembro de 2013 5:20 pm

    Não demora muito e o governo

    Não demora muito e o governo federal lança uma “concessão” de novas cadeias…

    1. IV AVATAR

      24 de dezembro de 2013 9:28 am

      O judiciário é tucano

      O judiciário, do mais reles juiz a Barbosa, maior autoridade, é tucano.  E como rezam na cartilha do estado mínimo para o povão e máximo para o barão, não será surpresa se o Batman, extremista  que é, decretar o acirramento do caos carceráriocomo forma de castigar os preso ao invés de recuperá-los 

  2. Gilberto .

    23 de dezembro de 2013 5:44 pm

    E o rei da quentinha?

    Não é uma novidade a chegada do capitalismo às prisões.

    Já tivemos o rei e, com sua morte, a rainha das quentinhas.

    Não deixaram boas lembranças:

    http://bit.ly/1la32ta

    http://glo.bo/1jAWBE7

  3. Assis Ribeiro

    23 de dezembro de 2013 6:04 pm

    E la nave va
    Tudo

    E la nave va

    Tudo privatizado. Por que não os próprios governos?

    1. Caetano.

      23 de dezembro de 2013 7:21 pm

      Boa ideia

      Boa ideia. Quem sabe aí funciona…

    2. Anarquista Lúcida

      23 de dezembro de 2013 8:29 pm

      Ei Assis! Já sao…

      Quer que sejam ainda mais privatizados? E os financiamentos de campanha, sao o quê? 

  4. MarcoPOA

    23 de dezembro de 2013 7:16 pm

    Qual a solução?

    1. Anarquista Lúcida

      23 de dezembro de 2013 8:30 pm

      E isso melhoraria com busca de lucro? O q Papai Noel te trouxe?

      .

    2. Calvin

      23 de dezembro de 2013 9:09 pm

      Agora compare essas imagens

      Agora compare essas imagens com a prisão privada de Ribeirão das Neves:

      http://turmadochapeu.com.br/prisao-privada-minas-gerais/

  5. MarcoPOA

    23 de dezembro de 2013 9:08 pm

    Santa Claus…

    trouxe um comentário como o teu: tosco e impensado, basta o simples fato de lembrar o maldito Santa Claus (o nome em inglês sempre achei bem mais cretino)!

    Cadeias assim existem as centenas em vários cantos do Brasil. Pessoas, seres humanos, uns que realmente não valem nada e outros que por um motivo ou outro erraram na vida e estão pagando! Ambos num verdadeiro inferno como os que mostrei, igualados pela nossa confiável justiça. Procura que tu vai achar imagens bem mais terríveis!

    Estou perguntado pela solução. Qual é? Deixar como tá? Continuar com papo de cartilha socialista cheia de direitos, olhos vermelhos e indignação e sem nenhuma pratica? Uma resposta direta, pratica e urgente é necessária! Qual é?

    1. Anarquista Lúcida

      23 de dezembro de 2013 9:21 pm

      E melhoraria com a busca de lucro? Esse é o ponto do tópico

      1. MarcoPOA

        23 de dezembro de 2013 9:28 pm

        O ponto é…

        Se resolver SIM, valeria a pena tentar. Porque não?

        Essas cadeias são filiais do inferno pioradas e qualquer um que entrar nelas seguramente sairá pior!

        O ponto é outro: qual a solução pratica dentro de um contexto de violência crescente em nível de planeta?

  6. Gunter Zibell - SP

    23 de dezembro de 2013 9:18 pm

    Seria melhor estudar logo

    Seria melhor estudar logo formas de reduzir o aprisionamento excessivo e o Estado Penal.

  7. sergio m pinto

    23 de dezembro de 2013 9:29 pm

    Como sempre, transfere-se a

    Como sempre, transfere-se a gestão (gerir dá tanto trabalho!) para terceiros. É só isso que sabe fazer o psdb.

    E nesse caso, cuidar do paliativo, ao invés de tentar solucionar a causa. Por que há tanto crime no país? E o que se faz para prevenir que ele aconteça?

    Dirão alguns neobobos que isso é papo de comunista. Não é. É papo de gestão. Simples assim. Alguém tem idéia de quanto custa um preso hoje em dia? E quanto custará depois da privatização das cadeias?

    Temos um bom exemplo para comparar. Nos Estados Unidos, que tem a maior população de presidiários do planeta, todo o sistema é privatizado. Resolveu o problema da criminalidade?

  8. Gunter Zibell - SP

    23 de dezembro de 2013 11:56 pm

    Que lindo…

    “O Governo de Geraldo Alckmin (PSDB) está em busca… Pernambuco (PSB) e Rio Grande do Sul (PT) também estudam…”

    Sem contar SC, MG e ES…

    Coloca logo BA e RJ e já teremos metade de população vivendo “à la Texas”.

  9. peregrino

    24 de dezembro de 2013 1:01 am

    perigo maior é abrir caminho para uso indevido dos presos

    para trabalho forçado em fazendas e construção de estradas particulares, por exemplo

  10. Hamilton

    24 de dezembro de 2013 1:44 am

    A privatização é restrita

    aos aspectos de administração predial, manutenção, fornecimento de alimentação etc.

    A administração da execução penal propriamente dita permanece com o estado, até por imposição legal.

    A possibilidade de funcionar melhor é notável. Inclusive para colaborar para que os direitos dos detentos sejam efetivados.

    Até hoje o estado -esse ser intrinsecamente magnânimo, esse deus insubstituível- não conseguiu bloquear os sinais de celulares nos presídios e fornecer comida minimamente digna aos presos.

  11. DeBarros

    24 de dezembro de 2013 2:25 am

    Isso tem que ser Barrado!

    Uma vez que as corporacoes famintas por dinheiro sintam o gostinho do vil metal jorrando em borbotoes rumo as cadeias privadas, todo o cidadao pobre se tornara um escravo em potencial.

    Se permitido, a populacao carceraria Brasileira so tende a aumentar, a exemplo do que acontece com os EUA, onde a industria da carceragem se tornou tao poderosa que agora paga lobbistas para “influenciar” politicos do congresso a promover legislacao que transfira ainda mais dinheiro publico para suas contas e faca qualquer que cometa um delito menor, e que nao tenha recursos para pagar um bom advogado, cair nas garras do sistema prisional privado e por la permanecer por longo periodo.

     

    Isso tem que ser barrado ja, ou estara decretada a volta da escravidao, por simples delitos, tido jogar um chiclete na rua (como ja existe em Singapura).

    1. Hamilton

      24 de dezembro de 2013 10:57 am

      Pois é

      Mas em Singapura dá até pra “comer” no chão, de tão limpo.

      Excluindo as motivações famélicas, o cometimento de crime é um ato de livre arbítrio.

      E as escolhas penais feitas pelo legislador emanam da vontade popular, não é mesmo? E o judiciário que não se atreva a invadir o espaço desta casa sempre em sintonia com as legítimas aspirações da sociedade.

      Se cuspir chiclete na rua é crime, simples, é só não cuspir. Aliás, para que serve um chiclete. Por que fabricam estas merdas?

  12. peregrino

    24 de dezembro de 2013 2:27 am

    se lançarmos os olhos para o nosso passado…

    veremos que seguimos expostos às mesmas condições de um tempo nunca descrito…………….

     

    hoje, em ciclos de ilusão de garantia de direitos, para não dizer ilusão democrática de nossa representatividade

     

     

    mas até que poderia funcionar muito bem com uma nova corte, fora e acima dos poderes já constituídos e que incluiria também representantes do ministério público

     

    da forma que está pode acontecer qualquer tipo de bestialidade………….ou já não acontece?

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