Resposta ao post ”Antes de Elvis não havia nada, declarou John Lennon” enviado por jns
Do Pintando Música/Tamára Baranov
Final dos anos 40. Para os mais conservadores membros da promissora sociedade norte-americana, nada poderia ser considerado pior do que o surgimento do rock´n´roll, música com ‘alto potencial para perverter os jovens’. E foi com horror que essa sociedade teve que engolir em seco quando viram o cenário das rádios recheado de negros talentosos que subiam ao topo das paradas: Chuck Berry, Fats Domino e Bo Diddley. Mais assustador para esses conservadores, foi Little Richard, que além de negro, era homossexual assumido, usava maquiagem e um penteado exótico, e cravou nas paradas o hit ‘Tutti Frutti’, que se tornaria um hino do rock. Maquinou-se então, toda uma movimentação por parte das gravadoras na busca de figuras que reduzissem essa polêmica em torno do novo estilo musical, que pelo menos os jovens brancos de classe média tivessem heróis brancos, e preferivelmente com um ‘comportamento mais razoável’. E assim, as gravações feitas por músicos negros foram relançadas, mas com intérpretes brancos, usurpando dos negros a sua gigantesca contribuição para o desenvolvimento do rock.
Esse desejo de encontrar algum rapaz branco capaz de cantar como um negro foi realizado pelo produtor e dono de um pequeno selo, Sam Phillips, que contratou o jovem Elvis Presley que só cantava baladas countries. Sam lançou o primeiro sucesso de Elvis, o hit, ‘That´s All Right’. Em 1955, Elvis rompeu com Sam e assinou novo contrato com uma grande gravadora. Este foi o momento que marcou a real reviravolta na carreira de Elvis, com a gravação ‘Heartbreak Hotel’, lançada em 1956. A partir daí, Elvis gravou um sucesso atrás do outro, inclusive ‘Tutti Frutti’ de Little Richard, e ingressou no cinema. Em 1958, era o artista mais popular, arrastava multidões de jovens em seus shows. Suas atitudes se tornaram símbolo da rebeldia e a sensualidade de sua dança era objeto de culto desses jovens. Estava na hora de transformar Elvis em um ‘artista mais respeitável’, aos olhos da sociedade branca americana, o astro branco também tornou-se uma influência venenosa para os seus jovens. Neste mesmo ano, Elvis alistou-se ‘voluntariamente’ no exército americano para cumprir seu dever de cidadão; atitude que foi aplaudida por toda a classe média e imprensa norte-americana.

Presley recebeu sua convocação em 20 de dezembro de 1957…

…e voltou para os EUA em 2 de março de 1960
Não demorou muito para o rock´n´roll entrar em rota de colisão com o moralismo político, sexual e religioso então vigente. O macarthismo estava no ápice de sua histeria, e certamente não daria ao rock um tratamento diferente do que era dado aos demais setores culturais, como a imprensa, a literatura, os quadrinhos e o cinema. Era preciso então promover uma ‘higienização’ do rock´n´roll, sem afetar, porém, os lucros dentro do grande mercado que o estilo movimentava até então. Uma imensa pressão vinda de diversos setores políticos e religiosos da direita se abateu então sobre os músicos. No final da década de 50, os poucos que não haviam sucumbido à pressão desses setores acabaram vítimas de episódios trágicos. Os músicos mais progressistas terminaram então renegados, marginalizados, presos ou mortos. O primeiro a pagar seu preço foi o próprio Elvis Presley, domesticado e submetido às gravadoras. Ao voltar do exército, Elvis nunca mais foi o mesmo, trocando a agressividade de seus primeiros anos pelas baladas românticas que caracterizaram todo o resto de sua carreira, que culminou com o astro apoiando a guerra e os programas governamentais do governo Nixon. No início dos anos 60, o rock encontrava-se domado e surgiram uma série de músicos ‘limpos’, como Neil Sekada, Paul Anka e diversos outros. E Elvis Presley, frustrado e decadente, tocando nos cassinos de Las Vegas.
Rubem
22 de dezembro de 2013 5:34 amO Rock pelo avesso……ou:
O Rock pelo avesso
Ou: assim seria, se assim tivesse sido.
Infelizmente, nossa infatigável Tamára, que escreve textos deliciosos, tão articulados e suculentos, simplesmente se esqueceu de Bill Haley e dos Seus Cometas. E de uma certa cronologia dos fatos.
O branco, gordo e inofensivo Haley gravou o que viria a ser popularizado pelo disc jockey Alan Freed como “rock’n’roll”, a partir de 1951 – ano que Freed começou a utilizar o termo para o gênero que misturava o blues uptempo negro com pitadas de country e western swing, dois gêneros musicais brancos.
Sua primeira gravação foi uma versão daquele cujo original, pela banda de Ike Turner, sob o nome de seu saxofonista Jackie Brenston , muitos consideram “o primeiro rock’n’roll”, “Rocket 88”. Seguido, em 1952 por uma regravação de “Rock the Joint” e, em 53, seu primeiro sucesso nacional, “Crazy, Man, Crazy”, um original.
“Crazy, Man, Crazy” foi o primeiro rock’n’roll televisionado nacionalmente nos EUA, em 53, ao ser utilizado na trilha sonora de um programa estrelado por James Dean.
Seu maior sucesso, “Rock Aroud the Clock” foi gravado em 1954, embora só tenha “batido” em 55. Foi também em 1954 que Elvis fez sua primeira gravação, uma versão rockabilly do blues “That’s All Right”, de Arthur Crudup.
Só depois disso, em 1955, é que o grande Chuck Berry faria sua primeira gravação na Chess, “Maybelline”, e Little Richard gravaria o icônico “Tutti Frutti”, lançado apenas em novembro daquele ano.
E se não bastasse, qualquer fã de Elvis, ou de rock’n roll, ou da Sun Records, sabe que o produtor Sam Phillips não estava procurando nada, e que “descobriu” Elvis por puro acaso, quando ao final de uma sessão frustrada, com o garoto cantando baladas insossas, o futuro Rei do Rock pegou o violão e começou a cantar de improviso aquele blues do Crudup.
Sam Phillips (ou)viu que tinha ali algo muito melhor, mais sensual, e mais perigoso que Bill Haley.
E igualmente branco.
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The Pelvis, 1956, live:
[video:http://www.youtube.com/watch?v=MMmljYkdr-w%5D
[video:http://www.youtube.com/watch?v=Wt7Akjzkc54%5D
1957, live:
[video:http://www.youtube.com/watch?v=geVeTQT3UiY%5D
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Uma, breve e incompletíssima, cronologia musical do início do rock’n’roll:
1951, Bill Haley & the Saddleman:
[video:http://www.youtube.com/watch?v=bp-evD5aH8c%5D
1952, Bill Haley & the Saddleman:
[video:http://www.youtube.com/watch?v=ZFGOKD4KA9U%5D
1953, Bill Haley & the Comets:
[video:http://www.youtube.com/watch?v=xNYZ1ApQ6Js%5D
1954, Bill Haley & the Comets:
[video:http://www.youtube.com/watch?v=ZgdufzXvjqw%5D
1954, Elvis Presley:
[video:http://www.youtube.com/watch?v=NmopYuF4BzY%5D
1955, Chuck Berry:
[video:http://www.youtube.com/watch?v=LvKDr8AgvK8%5D
1955, Bo Diddley:
[video:http://www.youtube.com/watch?v=IMZjAOoX6nw%5D
1955, Little Richard:
[video:http://www.youtube.com/watch?v=X7pjP_XkK4U%5D
Tamára Baranov
22 de dezembro de 2013 9:54 pmEu jamais esqueceria Bill Haley
Olá Rubem. Este meu post foi uma reposta ao post ”Antes de Elvis não havia nada, declarou John Lennon” escrito por jns. Infelizmente, até o momento do seu comentário, essa informação não constava na postagem, coisa que consegui corrigir agora, e como apenas Elvis foi mencionado no texto de jns, assim foi a minha resposta, somente sobre ele. Agora, lendo o seu comentário, realmente, fui falha nesse sentido, deveria sim ter comentado sobre Bill Haley, Jerry Lee Lewis…
Eu jamais esqueci, como esqueceu John Lennon, de Bill Haley, dos seus Cometas, e da sua ‘Rock Around the Clock’, o marco inicial do rock´n´roll. E muito menos esqueceria do produtor de cinema Sam Katzman, que farejou o potencial do ritmo frenético de Bill Haley que já dominava as rádios, e produziu o filme ‘Rock Around the Clock’, considerado o primeiro filme de rock and roll, filmado em 1956 e dirigido por Fred F. Sears, com o próprio Bill Haley, em companhia de seus Cometas. Uma aventura do rock´n´roll onde tudo começou, uma história romanceada do ‘ritmo selvagem’ criado por um gorducho de 29 anos e meio careca que descobriu uma nova fórmula musical, baseada numa mescla de country e de rythm & blues, e que levou pela primeira vez uma música de rock à parada de sucessos, que tornou-se um símbolo de uma época e abriu caminho ao triunfo de Elvis Presley e Chuck Berry.
Os jornais dessa época relatavam que a sua música e a dança surgida com ela causavam conflitos aos jovens mal formados pela educação moderna e causando problemas psicológicos, atitudes reacionárias dos que não entendiam ou não queriam entender o velho e bom rock’n’roll.
Um abraço carinhoso, e obrigada por me trazer lembraças de Bill e seus cometas.
[video:http://www.youtube.com/watch?v=cRRSbOA1D8Y align:center]
Ed Döer
22 de dezembro de 2013 2:37 pmE assim, as gravações feitas
E assim, as gravações feitas por músicos negros foram relançadas, mas com intérpretes brancos, usurpando dos negros a sua gigantesca contribuição para o desenvolvimento do rock.
Naquela época era bem normal uma música ter vários intérpretes, pois a música era das gravadoras e/ou dos compositores, eram poucos os artistas que criavam sua própria música. Então, era um fenômeno normal para a época e não uma tentativa deliberada da indústria de “braquear” a música. Em alguns casos, o que houve foi uma tentativa de tornar as letras mais acessíveis e menos sexuais para o público branco mainstream.
Creio que a própria segregação racial existente ainda nos EUA no período, em menor ou maior grau, contribuiu para que os músicos brancos tivessem mais espaço e sucesso que os negros, que cantaram ou cantavam as mesmas músicas. Digo isso porque o sucesso dos negros entre os adolescentes brancos foi “acidental”, pois as próprias rádios e mercado estavam segmentados racialmente e/ou regionalmente, algo que os charts confirmam, apesar do fenômeno do crossover que começa a acontecer no período. Mas como as ondas de rádios são livres e não respeitam esse tipo de “lógica”, acabaram sendo descobertas pelos jovens brancos, que apreciaram aquela música, que teve no Elvis sua primeira mega-estrela.
E indo pouco mais além no tempo para mostrar que essa domesticação comportamental (do Elvis) foi influente, ela atingiu até os músicos negros, pois anos depois, Berry Gordy, criador da Motown, chegou a contratar uma instrutora de etiqueta (Maxine Powell) para por seus artistas “na linha”.