Sugerido por aliancaliberal
Do site do Instituto Ordem Livre
Postado em 24 de Setembro, 2013.
Steven Horwitz
É comum que nós, defensores do livre mercado, respondamos a dois tipos de críticas. Uma delas aponta as imperfeições dos mercados no mundo real e as utiliza para argumentar que o mercado não funciona e que, dessa forma, a intervenção governamental seria desejável. A outra frustração por não podermos explicar exatamente como os mercados resolveriam um problema. Efetivamente, essa crítica diz: “se você não consegue explicar como os mercados farão algo, por que eu deveria acreditar que são capazes de fazê-lo?”
Eu acredito que essas duas críticas estão conectadas e servem para nos lembrar de como os defensores do livre mercado devem responder a elas. A ligação é que ambas ignoram a natureza dos mercados como um processo de descoberta – mesmo que seja desorganizado. Esperar perfeição dos mercados ou que saibamos antecipadamente como as pessoas resolverão problemas através do mercado é não compreender o que o mercado faz, como opera e por que ele é o nosso processo favorito para a resolução de problemas.
Para compreendermos por que os mercados são processos de descobrimento, nós devemos reconhecer, em primeiro lugar, que o problema fundamental que enfrenta qualquer tentativa de cooperação social é o fato de que o conhecimento humano é disperso, tácito, contextual e imperfeito: cada um de nós sabe coisas diferentes, talvez não sejamos capazes de articular o que sabemos, nosso conhecimento pode ser relevante apenas em um contexto em particular, e o que nós sabemos pode estar errado.
O desafio, como colocado por F. A. Hayek em seu famoso ensaio “O Uso do Conhecimento na Sociedade”, é saber como tornar as outras pessoas capazes de utilizarem o conhecimento que possuímos, para que possamos então colaborar buscando melhorar os padrões de vida da população de forma mais eficiente. O problema da cooperação social e do crescimento econômico é encontrar a melhor maneira de utilizarmos o conhecimento.
Assim, o papel da competição em um mercado livre é nos ajudar a descobrir o que os consumidores desejam e como satisfazer essa demanda, fazendo com que o conhecimento disperso se torne disponível para a sociedade. A chave dessa questão é o papel que os preços desempenham como substitutos do conhecimento. Eles sinalizam aos produtores e consumidores o que as pessoas sabem e o que desejam, possibilitando a coordenação de nosso comportamento. Mais tarde, os lucros e perdas dirão se fizemos ou não as escolhas apropriadas. O processo do mercado competitivo é mais bem compreendido como uma forma de sabermos coisas que não saberíamos de outra forma. Da mesma forma que um jogo de baseball é meio mais apropriado para descobrirmos qual time é o melhor nesse esporte, a competição é o melhor meio para descobrirmos a melhor maneira para a produção de um produto.
Mas, de fato, a competição é desorganizada e, por ser um processo de descoberta, os empreendedores sempre cometerão erros. Eles experimentarão produtos novos que os consumidores podem não gostar (como o Ford Edsel e a nova Coca-Cola). Tentarão fabricar os produtos de novas maneiras que poderão não ser lucrativas: talvez serão caras demais ou porque os consumidores não gostarão das mudanças. Os empreendedores poderão ignorar algo que, mais tarde, se revelará uma oportunidade óbvia.
Para o funcionamento do mercado, o fracasso é tão importante quanto o sucesso. O resultado disso é que o mercado sempre parecerá desorganizado, já que os empreendedores estarão cometendo erros e tentando descobrir como corrigi-los. Os mercados do mundo real, diferentemente dos modelos de equilíbrio nos quais se baseiam os economistas, jamais poderão ser perfeitos porque sempre serão parte desse processo de descobrimento.
A desorganização também explica porque não podemos saber antecipadamente como as pessoas solucionarão problemas utilizando o mercado. E esperar uma resposta detalhada a essa crítica é o mesmo que esperar que uma cientista lhe revele as descobertas de sua pesquisa antes mesmo que ela se inicie!
A justificativa da liberdade científica é que não podemos saber antecipadamente o que será descoberto porque, caso soubéssemos, nós não precisaríamos da ciência. O mesmo é verdade para o mercado: se soubéssemos como os mercados solucionariam um problema, nós não precisaríamos mais dos mercados.
A resposta a essas críticas pode ser resumida à explicação da razão pela qual acreditamos que os mercados, mesmo desorganizados, são mais indicados para a resolução de problemas do que a intervenção governamental. Eu já discuti em várias colunas anteriores a razão pela qual o papel dos lucros e perdas não pode ser reproduzido pelo governo e por que o governo não consegue obter o conhecimento gerado pelo processo de mercados competitivos.
O meu ponto aqui, no entanto, é que a desorganização do mercado não é um problema, mas sim um sinal de vitalidade. É o processo de descoberta acontecendo, ajudando seres humanos imperfeitos a descobrir o que produzir e de que maneira, duas coisas que não poderíamos saber por outros meios.
Postado em 25 de Setembro, 2013.
Steven Horwitz
Em artigo anteiror, argumentei que as críticas contra o mercado são erradas quando apontam as imperfeições como motivo para a intervenção governamental e quando criticam os defensores dos mercados por serem incapazes de explicar exatamente como eles resolveriam um problema em particular. Os mercados são inerentemente desorganizados e imperfeitos, eu argumentei, porque eles são processos através dos quais descobrimos o que de outra maneira não descobriríamos. Pedir que os mercados sejam perfeitos ou aos seus defensores que saibam o que vão fazer no futuro é querer o impossível. O argumento em favor dos mercados tem de reconhecer as suas imperfeições, mas também observar que eles ainda são melhores que as alternativas.
Um comentário no Facebook apontou que não devemos estar surpresos que os críticos do mercado esperem dele perfeição quando tantos economistas usam modelos que insistem em como os mercados resolvem os problemas “perfeitamente”. Isso é verdade, e levanta alguns pontos que devemos explorar mais detalhadamente.
O modelo principal dos economistas do mainstream descreve a “competição perfeita”. Ele mostra como, sob certas hipóteses, os mercados produzirão os resultados ideias: os recursos serão alocados para o seu uso de maior valor, os preços dos bens refletirão os custos marginais de produção, e os produtores, sabendo exatamente quais bens os consumidores querem, produzirão a custos totais médios mínimos. Qualquer empresa que obtenha lucros acima do custo de oportunidade atrairá novos rivais para competirem e eliminarem os excessos de lucro. O mundo de competição perfeita é um mundo de alocação de recursos ótima.
Para atingir tal resultado, o modelo requer que os cinco pontos a seguir aconteçam:
1. Todos possuem informação relevante perfeita;
2. Há um grande número de compradores e vendedores para que ninguém tenha poder de monopólio;
3. Cada mercado tem um produto perfeitamente idêntico;
4. Todos tomam o preço do mercado como dado;
5. Existe mobilidade de recursos sem custos.
Não neste mundo
Obviamente essas são suposições extremamente fortes, praticamente nenhuma delas sendo verdadeira no mundo real. Não é surpreendente que nenhuma parte da economia pareça tão perfeita como o modelo prevê. Como economistas austríacos argumentaram por décadas, o problema fundamental com esse modelo é que ele interpreta mal a natureza do problema econômico. Particularmente por presumir que todos sabem o que precisam saber e que as empresas vendem produtos idênticos, o modelo elimina o processo de descoberta como núcleo da competição. Como F.A. Hayek escreveu em O uso do conhecimento na sociedade, o problema fundamental diante de nós é o problema da dispersão do conhecimento. A competição é justificada pela nossa própria ignorância. Precisamos da competição para descobrir qual é a demanda, quais são os custos e quais tipos de produtos as pessoas querem.
O maior problema surge quando os economistas confundem “competição perfeita” e “livre mercado”. O modelo de competição perfeita pode muito bem ter alguns elementos úteis, mas ele é apenas um modelo e não uma descrição de como a competição no mundo real deve ou irá funcionar. À medida que os defensores do mercado dependem do modelo para argumentar em favor do livre mercado, eles estão se preparando precisamente para dar a resposta que discuti no artigo anterior: os mercados, na verdade, nunca são perfeitos. Se pressupomos a nossa defesa do mercado na sua suposta perfeição, essa defesa será impossível de ser feita.
A falácia antitruste
Felizmente, essa confusão de competição perfeita com laissez faire é menos comum do que costumava ser. No entanto, na lei antitruste ainda existe a suposição de que qualquer comportamento que se desvie do ideal de competição perfeita é altamente suspeito. A objeção do governo americano à fusão das companhias de telefonia AT&T e T-Mobile é um bom exemplo. A fusão realmente reduziria o número de competidores, mas de uma perspectiva mais austríaca, a fusão seria pró-competição, pois permitiria que a empresa resultante da fusão melhor competisse com outra companhia maior, a Verizon. Usar o modelo de competição perfeita como objetivo das políticas de competição confunde o modelo com processos competitivos reais e leva a enormes erros de políticas. Como Robert Bork uma vez disse, usar o antitruste para fazer a economia parecer uma competição perfeita causaria o mesmo efeito de diversas bombas nucleares bem localizadas.
Os defensores do mercado cometem um erro quando dependem do modelo de competição perfeita para defender o livre mercado. O modelo de competição perfeita descarta a função chave da competição real, que é descobrir os fatores que o modelo toma como dados. Os economistas que ignoram esse ponto e a desorganização dos mercados não podem culpar ninguém além de si mesmos quando as inevitáveis imperfeições do processo de descoberta do mercado se tornam a razão pela qual os críticos a rejeitam.
Originalmente publicado em The Freeman Online.
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