
do FNDC – Fórum Nacional pela Democratização da Comunicação
O padrão jornalismo da invisibilidade
por Pedro Rafael Vilela
Meios de comunicação adotam estratégia da ocultação e criminalização na cobertura das manifestações do Dia Nacional de Greve, na última sexta-feira
Não é a primeira vez, nem será a última, mas não deixa de ser simbólica a (não) cobertura da mídia brasileira sobre os protestos e paralisações de diversas categorias profissionais ocorridos em mais de 21 estados e no Distrito Federal, na última sexta-feira (11), no Dia Nacional de Greve. Os atos, organizados por movimentos sociais e pelas principais centrais sindicais do país, contou com a participação de dezenas de milhares de trabalhadores e trabalhadoras, além de estudantes, que interromperam suas atividades em setores como transporte público, limpeza urbana, bancos, escolas e indústria, e foram às ruas das maiores cidades brasileiras para protestar contra a Proposta de Emenda Constitucional (PEC) nº 55, em tramitação no Senado. Se aprovada, essa PEC vai impor um congelamento nos gastos públicos, como saúde, educação, cultura e saneamento básico pelos próximos 20 anos, uma tragédia em termos de direitos sociais sem precedentes na história do Brasil.
A Globo News, canal de notícias das Organizações Globo na televisão por assinatura, que, durante as manifestações pró-impeachment de Dilma Rousseff dedicava praticamente a totalidade de sua programação aos protestos, dessa vez apenas cumpriu um lamentável protocolo de cobrir com distanciamento e até desprezo os atos do Dia Nacional de Greve. Exibindo notas curtas e panorâmicas ao longo de sua programação, sem sequer ouvir os porta-vozes dos atos, a emissora deu ênfase justamente às interrupções no trânsito e paralisação dos transportes públicos em cidades como São Paulo e Brasília. No programa Estúdio I, que se define pela característica de noticiário com análise, e vai ao ar de segunda à sexta, às 14h, a cobertura dos protestos seguiu a lógica de relatar superficialmente os acontecimentos. No momento de analisar a notícia, os participantes do programa praticamente ignoraram as causas do protesto e logo mudaram de assunto. Para se ter uma ideia, o programa dedicou mais tempo à matéria sobre o site de dicas econômicas de moda da filha do Donald Trump do que à repercussão da greve nacional, incluindo aí os comentários de estúdio.
No Jornal da Record, uma nota de 37 segundos, lida pelo apresentador, apenas mencionou protestos de estudantes e servidores do Rio de Janeiro contra atrasos nos salários por parte do governo estadual, com ênfase na repressão da Polícia Militar. O Jornal da Band, levado ao ar na noite da sexta-feira (11), como que reconhecendo a dificuldade em ignorar as manifestações, optou por um caminho misto, entre a ocultação e a distorção com doses generosas de criminalização da manifestação política e do próprio direito de greve. Na matéria de um minuto e 10 segundos, o telejornal enfocou imagens das manifestações pela ótica da paralisação do transporte público e bloqueio de ruas e rodovias, ressaltando a ideia de que os protestos “atrapalharam muita gente”. Os dois únicos entrevistados foram pessoas que criticaram as interrupções no trânsito, e não houve qualquer menção mais clara sobre os motivos do protesto.
Os três maiores jornais impressos do país, em suas edições publicadas no sábado (12), decidiram deliberadamente ignorar os atos ocorridos no dia anterior. Até mesmo a Folha de S. Paulo, que se vende como veículo aberto ao debate e que busca exibir diversos pontos de vista políticos diferentes, não dedicou uma linha sequer ao assunto. No jornal O Globo, da família Marinho, idem. O Estadão, tido como o mais conservador entre os três, publicou uma nota pequena, na página interna B3, de economia, com cerca de 10 linhas, praticamente um registro dos protestos, e não uma cobertura. Nos portais de notícias UOL e G1, foram publicadas matérias sobre os protestos, repetindo a fórmula panorâmica de descrição dos atos a partir do ângulo das interrupções no transporte e paralisação das rodovias. Nenhuma dessas matérias ganhou destaque na página principal desses portais. Para encontra-las, os interessados teriam que buscar principalmente na página de últimas notícias ou no buscador do próprio site, o que diminui muito o potencial de audiência dessas notícias.
Se o comportamento dos veículos privados de comunicação não chega a surpreender, foi lamentável constatar que as mesmas fórmulas de ocultação e cobertura superficial se aplicaram também à matéria exibida pela TV Brasil, emissora da Empresa Brasil de Comunicação (EBC), no seu principal telejornal, o Repórter Brasil, na noite de sexta-feira. Em menos de dois minutos, a “reportagem” exibiu trechos dos protestos e paralisações em diversos estados. Novamente, destaque para os bloqueios de rodovias e paralisações no transporte público e nas escolas. Nenhum porta-voz dos trabalhadores foi ouvido para contextualizar o significado daqueles atos. Oferecer mecanismos para debate público acerca de temas de relevância nacional, como preconiza a lei de criação da EBC, mandou lembranças dessa vez. Esse episódio não parece estar desconectado da grave intervenção promovida por Michel Temer sobre a EBC, que praticamente eliminou as garantias de autonomia e independência de sua programação frente ao governo, ao extinguir principalmente o Conselho Curador e os mandatos do diretor-presidente e do diretor-geral.
Coube aos meios de comunicação alternativos oferecer uma cobertura decente e proporcional ao tamanho das paralisações e mobilizações da última sexta-feira. Apenas para ficar em um dos exemplos mais expressivos, a Mídia Ninja utilizou seus canais nas redes sociais para distribuir, ao longo de toda a sexta-feira, um rico conteúdo das manifestações, que incluía, principalmente, vídeos e fotos, com registro de paralisações em mais de 20 cidades, incluindo diferentes categorias: metroviários, rodoviários, professores, estudantes, trabalhadores da limpeza urbana, e muito mais. Vale destacar que, ao contrário da cobertura televisiva, onde as filmagens se deram com distanciamento, partir do topo de edifícios ou do alto dos helicópteros, a cobertura da Mídia Ninja se dá diretamente das manifestações, abrindo espaço para falas dos trabalhadores e capturando uma dimensão mais orgânica do significado desses atos. O portal Brasil de Fato também publicou dezenas de matérias e postagens destacando a abrangência das paralisações em todo o país.



jose adailton v ribeiro
15 de novembro de 2016 1:24 pmHá interesse?
A manifestação é justa? Sim. Mas quem a conduz traz um viéis político partidário manjadíssimo que , na atual conjuntura, é significativamente rejeitado pela maioria da sociedade. Perante este cenário que a esquerda (por um suposto auto engano) não reconhece , a tal greve geral jornalisticamente é irrelevante.
Manu Guitars
15 de novembro de 2016 3:17 pmDeixa ver se entendi bem….
1-Voce mesmo se contradiz….Se a manifestação é justa, mais um motivo para ser noticia…..
2-“Mas quem a conduz traz um viéis político partidário manjadíssimo” nâo conheço muitas greves no mundo que não tenham um viéis político partidário….ao menos que voce queira criar uma outra jabuticaba genuinamente nacional, depois da escola sem partido……..,o sindicato sem partido, a greve sem paratido…
3-Segundo voce, se é rejeitado pela maioria da sociedade não deve ser noticia………a logica da afirmação me parece, no minimo,bizarra….e se a minoria quiser saber?Não seria assim, uma censurinha?………tipo a ditadura da opinião da maioria?
Eu sei que não esta na moda no Brasil, mas normalmente, em todo canto do mundo uma greve é noticia, independentemente do viéis político partidário ou não, não cabe a imprensa “filtrar” ideologicamente as noticias.(isso sim,esta muito na moda no jornalismo Brazuca….).
Levado ao extremo, acabemos com as seções de politica(viéis político partidário), economia(idem),mundo(idem), opiniào(esse então…..),editorial(vixe maria…), entrevista com politicos, com membros do executivo, judiciario(neste caso não seria uma ma ideia….viéis político partidário em juiz e membros do mp interfere no devido processo legal…..mas esta tambem muito na moda no Brasil…)
A conclusão do teu post, realmente, não entedi a relação de causa e efeito…….
MarFig
15 de novembro de 2016 5:41 pmNão perca seu tempo com esse
Não perca seu tempo com esse aí. Vira e mexe aparece por aqui querendo parecer neutro mas seu cérebro já é propriedade do PIG. A maioria aqui já sabe disso e desconsidera seus comentários.
jose adailton v ribeiro
15 de novembro de 2016 7:07 pmIlusões
A greve é justa, mas a sua liderança não é reconhecida pela maioria da sociedade. Para muitos ,tal movimento é apenas uma fachada que tem como intuito alavancar o conceito moral e politico das facções partidárias que as promove.Isto é que é irrelevante no atual cenário de baixa da esquerda, progressistas e assemelhados. Respondendo ao outro comentário a respeito da influência do PIG sobre meu pensamento, que fique claro que já estou vacinado contra o contágio hipócrita das ideologias. O rei está está nu perante a realidade de nossas misérias.
Manu Guitars
15 de novembro de 2016 1:33 pmcontra….
Discordo de um ponto……..Globo, veja, folha, estado, isto é e assemelhados a tempos deixaram de ser Meios de comunicação para se tornarem serviços de contra-informação…..
Edison Moraes
15 de novembro de 2016 5:15 pmCuriosa opinião
Ok, podem ter deixado de ser em função do óbvio viés político “interesseiro” mas, e este blog, você considera um meio de comunicação e informação razoável?
Jair Fonseca
15 de novembro de 2016 2:43 pmPor coincidência,
Por coincidência, vi esse minuto ridículo sobre as paralisações na Band, com uns três motoristas de carros particulares reclamando do trânsito. As principais universidades e escolas do país paradas (e muitas ocupadas) contra a PEC, e nada sobre isso.
Genesio Mourag
16 de novembro de 2016 1:53 amRealmente! Lutar por uma
Realmente! Lutar por uma comunicação democrática numa ditadura é o fim de la picada!!…