4 de junho de 2026

Os causos de Paulinho da Viola no Bar do Alemão

A terça-feira passada foi especial no Bar do Alemão.
 
Eduardo Gudin convidou Paulinho da Viola, que há anos não aparecia no bar.
Embalada pela presença de Paulinho, apareceu a fina flor do choro paulistano, dos bandolinistas Danilo (hoje em dia, um dos três melhores do país), do revelação Milk, ao violão soberano de João Macacão e demais músicos.
 
Paulinho é um insuperável contador de “causos” musicais. Gosta de contar, gosta de ouvir.
 
Contou, mais uma vez, o grande momento do choro, em 1957, quando Jacob convidou os pernambucanos a mostrarem sua música no Rio. Desceu um comboio de Recife, no qual brilhavam o violão de Canhoto da Paraiba e o bandolim de Rossini.
 
Foi nesse encontro que, encantado com o som que ouvia, o grande Radamés jogou seu copo de chopp para o alto, deixando uma mancha no teto. E Jacob, com seu senso histórico, jamais limpou a mancha para eternizar a passagem dos pernambucanos.
 
Paulinho tinha 17 anos quando testemunhou o encontro.
 
Das inúmeras histórias de Paulinho, chamou a atenção o personagem Ioiô, do grupo de choro de Niteroi. Conta Paulinho que era um sujeito de mais idade, conhecedor profundo do choro e de todos os improvisos em todos os instrumentos. Ficava ouvindo, apoiado em uma bengala e chamava a atenção para qualquer escorregão.
 
Foi o único sujeito perto do qual o Jacob tremia, contou Paulinho.
 
Procurou desmanchar a imagem que se tinha de Jacob, de um sujeito rabugento. Jacob era um gozador empedernido. Lembrou uma gravação na casa de Antonio Dáuria, em São Paulo, onde
 
Jacob tirava o maior sarro de Pixinguinha, que estava bêbado como um peru.
 
Tenho a gravação e é um barato, de fato.
 
Depois, lembrou-se de compositores históricos, como Henrique Lobo de Mesquita, autor de “Batuque”, que recebeu uma gravação pouco conhecida de Jacob. Quando lhe disse que tinha a gravação, e até solfejei um pedaço, surpreendeu-se.
 
Quem me forneceu tanto a gravação do Jacob com Pixinguinha, quanto a do “Batuque” foi Barão do Pandeiro que pela primeira vez estava tímido no bar, a ponto de nem se aproximar da mesa. Passou por lá  em um momento em que Paulinho relatava um episódio pouquíssimo conhecido do choro. Mencionava um violonista, também pouco falado. E Barão, de passagem, identificou-o.
 
\Paulinho se surpreendeu com o conhecimento do Barão; eu não. O que o meu amgo Barão conhece de samba e choro não está escrito.
 
Contou também o primeiro encontro do menino Raphael Rabello, com 12 anos, e seu futuro mestre, Meira – que, antes, tinha ensinado Baden Powell e João de Aquino.
 
A mãe levou Raphael até a casa do mestre. Este, já de idade, não queria mais aceitar alunos.
 
Mas ao ver o lourinho baixo, com mãos pequenas, teve curiosidade em ouvi-lo tocar.
 
Bastou Raphael executar uma valsa, composta por seu avô, para Meira não apenas aceitá-lo como aluno, como não deixá-lo sair de casa. A mãe voltou de mãos abanando e Raphael passou dois dias inteiros na casa do mestre.
 
Naquela noite, pelas histórias de Paulinho passaram Jair do Cavaco, Tantinho da Portela, e, principalmente, Nelson Cavaquinho e Zé Ketti.
 
Ele achou curioso que até hoje não tenha saído um livro com os casos de Nelson, um mais divertido que o outro.
 
Contei dois deles, que testemunhei.
 
Um, o dia em que, depois de um show na boate Dobrão (na rua Cubatão) Chico Buarque, já embalado por uísque, foi até o bar da esquina e, ao ver Nelson Cavaquinho, ficou tão entusiasmado com o mestre que se curvou sobre uma mesa de ferro fundido, para beijar o ídolo.
 
Nelson refugava, solene por trás da bebedeira: “Não beijo homem”. Chico inclinou-se tanto que cairam ele, a mesa de ferro e mais uns dois do MPB4 em cima do sambista. Com três meses de carreira jornalística, testemunhei um tombo histórico e o beijo musical que não houve
 
Outra história foi do negão Almeida, que resolveu levar Nelson Cavaquinho do bar do Alemão até a Rodoviária. Chegando lá, Nelson virou-se para ele e disse
 
– Você é meu afilhado. Vamos para o Rio que vou fazer uma buchada e convidar a velha guarda da Mangueira.
 
O negão deixou o carro na rua, comprou uma passagem e seguiu para o Rio, com Nelson dormindo e babando no seu ombro
 
Perto de Volta Redonda, Nelson acordou, olhou para o Almeida com ar estranho e perguntou
 
– Quem é você?
 
Outra história de Nelson, contada por Paulinho, foi em uma rodada em um boteco no Rio. Nelson apareceu com uma moça com quem circulava há dois dias e duas noites pela cidade. Começou a tocar e toda hora a moça vinha cochichar algo no seu ouvido, atrapalhando a música. Na terceira vez, Nelson reagiu:
 
– Minha filha, se você está com vontade de mijar, mije, mas não atrapalhe a música.
 

Luis Nassif

Jornalista, com passagens por diversos meios impressos e digitais ao longo de mais de 50 anos de carreira, pelo qual recebeu diversos reconhecimentos (Prêmio Esso 1987, Prêmio Comunique-se, Destaque Cofecon, entre outros). Diretor e fundador do Jornal GGN.

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6 Comentários
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  1. Jose Fernando Entratice

    20 de dezembro de 2013 12:22 am

    Que beleza!! Isso deve fazer

    Que beleza!! Isso deve fazer um bem danado pras calmas.

  2. Laura Macedo

    20 de dezembro de 2013 2:43 am

    A vibração etílica de Radamés Gnattali

    Nassif, que delícia de relato!

    Uma das minhas primeiras postagens no PLN foi “A vibração etílica de Radamés Gnattali” (2008). Existem (existiram ‘?’) controvérsias sobre o ocorrido. Que bom que apareceu mais uma testemunha ocular do episódio – Paulinho da Viola. O violonista Henrique Annes em conversa comigo, aqui em Teresina, garantiu que o Radamés realmente jogou o copo de cerveja no teto da sala do Jacob, fato relatado a ele pelo violonista Canhoto da Paraíba, presente na histórica reunião na casa do Jacob do Bandolim.

    O próprio Canhoto, em depoimento a Myrian Taubkin e outros pesquisadores, em 13/06/1989, publicado no livro “Violões do Brasil”, diz: “O Radamés se interessou muito por um choro meu, “Lembrança que ficou”. Ficou entusiasmado mesmo, até jogou o copo prá cima”.

    Já o cavaquinista Henrique Cazes contesta afirmando que Radamés nega o episódio.” Oh rapaz, você já me viu jogando cerveja pro alto? quem foi o filho da (*) que inventou essa história? Isso é uma esculhambação”.

    Mesmo sem saber que o Paulinho tinha testemunhado o episódio eu já acreditava no que o Canhoto da Paraíba relatou ao Henrique Annes. O amigo Urariano Mota, também, em comentário no meu post, diz que o Canhoto não era homem de mentir.

    E vocês, Nassif e amigos, o que acham?

     

  3. Nilva de Souza

    20 de dezembro de 2013 3:10 am

    Putz! Deve ter sido uma

    Putz! Deve ter sido uma delícia, Paulinho é demais. Sempre aparece por aqui procuro ir aos seus shows. Adoro seus causos contados com aquela calma peculiar. Monstro sagrado !

  4. Lucinei

    20 de dezembro de 2013 3:15 am

    Muito bom!
    De fato, em outras

    Muito bom!

    De fato, em outras plagas já haveria livros e mais livros, filmes e mais filmes. Aqui o pessoal “da cultura” que contar “historinha” de relacionamento. Chique, né?

    Pra mim o principal é essa de “dar tombo” na roda de de quem toca. Não é corporação de ofício mas não tem ninguém de bobeira, não!

  5. implacavel

    20 de dezembro de 2013 3:20 am

    Paulinho e Marisa Monte sábado passado na Portela

    Marisa Monte emocionou o público na Portela ao entrar cantando 'Carinhoso', de Pixinguinha (Foto: Ricardo Almeida/ Portela/ Divulgação)

    Paulinho da Viola cantou clássicos e exaltou a Portela em 'Foi um rio que passou em minha vida' (Foto: Ricardo Almeida/ Portela/ Divulgação)

    Glória Pires recebe título honorário e medalha da Portela das mãos de Monarco (Foto: Ricardo Almeida/ Portela/ Divulgação)

    [video:http://youtu.be/grQl4cbPD-I%5D

    [video:http://youtu.be/1itFzZYDrxo%5D

    [video:http://youtu.be/7LkikePRE5Q%5D

    [video:http://youtu.be/8g4qmz-ZVPc%5D

    [video:http://youtu.be/OuqssH3NlCQ%5D

    [video:http://youtu.be/uHNMK4EHCqU%5D

    [video:http://youtu.be/myB_vwXr99Y%5D

  6. lucianohortencio

    21 de dezembro de 2013 1:48 am

    Batuque, de Mesquita!

    [video:https://www.youtube.com/watch?v=TrYBg4nTia4%5D

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