5 de junho de 2026

“Continuamos no campo da ilusão”, diz especialista sobre acordo da OMC

Jornal GGN – Depois de 18 anos, enfim, a OMC (Organização Mundial de Comércio) conseguiu promover um acordo envolvendo os mais de 150 países que integram a entidade. “Voltamos a introduzir a palavra ‘mundial’ na Organização Mundial do Comércio. Estou muito orgulhoso”, comemorou, emocionado, o brasileiro Roberto Azevêdo, presidente da OMC, depois da conferência realizada em Bali (Indonésia), concluída durante a madrugada do dia 7 de dezembro.

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No entanto, nem todo mundo ficou contagiado com a empolgação de Azevêdo. José Luiz Niemeyer, coordenador de graduação e pós-graduação em Relações Internacionais do Ibmec, não vê a aprovação do chamado pacote “Doha Light” com otimismo. “Continuamos no campo da ilusão”, criticou Niemeyer, durante participação no programa “Brasilianas.org” da última segunda-feira, que recebeu especialistas para debater o assunto. “O projeto de um multilateralismo aberto, para fazer um comercio internacional mais eficiente, permanece muito engavetado.”

O pacote recebeu o nome de “Doha Light” porque é fruto de uma rodada de negociações iniciada na capital do Qatar, em 2001, e que seguia emperrada nos últimos anos. As conversas foram conduzidas tendo em vista a desburocratização dos intercâmbios comerciais, a diminuição de subsídios para as exportações de produtos agrícolas e o estímulo ao comércio de países em desenvolvimento, que ficarão isentos de taxas de importação e exportação. A OMC estima que o acordo deve gerar 1 trilhão de dólares.

Acordos regionais

Na opinião do especialista do Ibmec, as negociações em bloco e os acordos regionais ainda vão predominar nas relações entre os países. Ele foi além e disse que, no fim das contas, quem saiu ganhando com o acordo, “do ponto de vista político”, foi a própria organização. “A OMC continua criando estruturas que servem muito mais para um fórum de ideias do que para o comércio internacional propriamente dito”, afirmou.

“Eu continuo muito pessimista com relação a OMC”, enfatizou o especialista do Ibmec. “O Brasil é um país que tem feito a lição de casa em alguns temas da agenda multilateral de comércio, e outros países não tem feito essa lição de casa. Isso me parece uma grande contradição”.

Ele citou, como exemplo, a aproximação entre os Estados Unidos e países que não fazem parte do Mercosul, por meio de acordos bilaterais, “para construir uma estratégia, na minha opinião, de criar algo parecido com o que era a ideia da Área de Livre Comércio das Américas”, se referindo ao projeto de bloco econômico que derrubaria as barreiras alfandegárias de 34 países do continente americano. “É como se os Estados Unidos tivessem percebido – e acho que perceberam – que o comércio, na perspectiva multilateral, vai ser muito difícil de ser organizado”, disse Niemeyer.

O jornalista Luis Nassif também recebeu nos estúdios da TV Brasil o diretor da Faculdade de Direito de Ribeirão Preto da USP (Universidade de São Paulo), Umberto Celli. Livre-docente em Direito Internacional, ele avaliou que a organização tem conseguido, nos últimos anos, atuar com eficácia na solução de controvérsias entre os países-membros. Contudo, ele deixou claro que concorda com as críticas de Niemeyer. “As perspectivas, hoje, são muito mais favoráveis para o relacionamento em blocos inter-regionais ou regionais do que para o sistema multilateral.”

Gargalos na infraestrutura

De qualquer maneira, apesar das ressalvas dos especialistas, o pacote “Doha Light” promete facilitar o comércio entre os países-membros da OMC. Para o diretor acadêmico das Faculdades Integradas Rio Branco, Alexandre Uehara, que completou o time de debatedores que participaram do “Brasilianas.org”, esse novo cenário deve fazer com que os gargalos na infraestrutura do nosso país fiquem expostos.

“Isso [o acordo] vai tirar algumas coisas que tinham peso no custo da importação e da exportação – isso vai diminuir para todo mundo –, mas o nosso custo de infraestrutura vai continuar alto”, afirmou. “Vai ficar mais evidente, para nós, as dificuldades que temos de exportação”. Além disso, segundo Uehara, “o produto externo vai chegar aqui mais competitivo.”

Redação

Curadoria de notícias, reportagens, artigos de opinião, entrevistas e conteúdos colaborativos da equipe de Redação do Jornal GGN

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Carla Castanho é repórter no Jornal GGN e produtora no canal TVGGN

3 Comentários
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  1. Homb

    17 de dezembro de 2013 10:33 am

    a ilusão de domar os capitalistas

    O comércio é um negócio tâo antigo na história humana, que até parece que nascemos com ele, como hoje são os cães e os gatos domésticos. Pena que a OMC não consegue domar os capitalistas que dominam a economia.

  2. Rui Daher

    17 de dezembro de 2013 11:16 am

    OMC

    PUBLICADO EM TERRA MAGAZINE EM 09/12 – RUI DAHER

     

    OMC: quando se espera o pior, qualquer 6,5 serve

    Reuniões para promover acordos multilaterais econômicos não costumam render expectativas de sucesso. Principalmente, se o comércio mundial está em jogo, onde os interesses dos países são conflitantes e o desempenho mundial não está com a curva virada pra lua.

    Assim, pouco se esperava de Bali, na semana passada. Da reunião da Organização Mundial do Comércio (OMC), bem entendido. Da ilha, na Indonésia, se pode esperar muito se o seu motivo for turismo e disposição de gastar uma boa grana.

    Sempre me pergunto por que esses convescotes mundiais, o de Bali com 160 países, a maioria pobre, acontecem em locais de especial beleza e fartura capitalista. Deve ser para dar um gostinho em almas famélicas para lá convidadas.

    Ou os piedosos leitores, a exemplo de Francisco, se lembram de reuniões, cúpulas, conferências, amiúde ocorrendo na África subsaariana, no semiárido brasileiro ou em Oruro, na Bolívia? Vai que, em se tratando de segurança alimentar, falte o indispensável crème brûlée.

    Pois bem, no último fim de semana, folhas e telas cotidianas mundiais reportaram satisfação com os resultados obtidos na OMC. Os primeiros, depois de quase 20 anos de insistentes fracassos.

    A mídia local apressou-se em mostrar a importância do diretor-geral da OMC, brasileiro Roberto Azevedo, pelos esforços e vitória.

    Mas o que leva a tantas comemorações?

    Uma ainda etérea “facilitação das transações comerciais mundiais”, como a eliminação de entraves burocráticos, rapidez de liberação de produtos perecíveis, alívios tarifários, em geral, a serem definidos nos próximos dois anos.

    Nas polêmicas questões agrícolas que, principalmente, envolvem os limites de concessão de subsídios para formação de estoques públicos e manutenção de segurança alimentar, ficam ilimitados durante os próximos quatro anos, prazo dado até uma solução definitiva.

    Foi, porém, ceifado o risco letal de um planeta sem OMC e apontado um recomeço de etapas futuras dispostas à maior proficuidade.

    Muita coisa difícil ainda deverá ser parafusada. O Brasil quer reduzir ao máximo os subsídios concedidos nos EUA e UE. Estes, por sua vez, acham que Brasil, China, Indonésia e Índia, já são bem grandinhos para tanto choro. Os EUA não veem com bons olhos as estatais chinesas na comercialização de commodities, e os europeus os créditos à exportação dados pelos norte-americanos.

    Apesar da unanimidade, inclusive de empresários e autoridades públicas brasileiras, algo me incomoda na agropecuária continuar enfrentando mais um período de laissez-faire de subsídios e produção.

    Meio simples: os países dizem que pra dar segurança alimentícia às suas populações precisam manter determinado nível de estoque diante de uma eventual escassez mundial. Como não sabem se isso irá acontecer mesmo, mandam ver um monte de subsídios e incentivos ao plantio.

    Pronto! Inunda-se o mercado de um produto agrícola com estoques descomunais. O preço da commodity vai lá pra baixo.

    Tenho repetido: por suas falhas infraestruturais, a agricultura brasileira não é competitiva a ponto de aguentar cotações de mercado muito abaixo dos patamares atuais.

    A cafeicultura brasileira, por exemplo, no momento, está quebrada, por uma oferta mundial excessiva. Como facilitadores burocráticos a farão ressuscitar?

    Amanhã, poderá ser o arroz do senhor indiano que lá mostrou suas garras, do trigo, da soja, do milho.

    Uma coisa é certa: sobrou e sempre sobrará para os navios que, depois de ancorarem em Cuba, deverão seguir para o raio que os parta que não sejam os EUA, que os bloqueiam. Reclamaram, mas não levaram.
     

     

     

  3. evandro condé de lima

    17 de dezembro de 2013 12:02 pm

    Eu não sei se no presente

    Eu não sei se no presente caso – sou leigo- vale a máxima: mais vale um mal acordo que um boa demanda. Marido e mulher já brigam, imaginam mais de 150 países entrarem em acordo .

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