5 de junho de 2026

Para além da esquerda e da direita no Brasil?

Certos temas permanecem polêmicos no Brasil por longos anos e não convém acreditar que irreconciliáveis divergências intelectuais sejam resolvidas, algum dia. Apresentarei algumas ideias que trabalhei em outro artigo (Hartung e Medeiros, 2013). Reconheço existirem algumas dificuldades em um país de grandes contrastes para se tratar esse tema, porém creio que o debate civilizado e propositivo se faz necessário. Ademais, uma polêmica intelectual pode se mostrar rica em seus mais diversos desdobramentos práticos. Ressalto que não tenho a pretensão aqui de abarcar todas as múltiplas e complexas dimensões dessa discussão.

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Desde as impressionantes manifestações sociais, mais especificamente aquelas ocorridas entre os dias 17 e 24 do mês de junho, a qualidade de muitos serviços públicos brasileiros, incluindo alguns prestados por concessionários privados, tem sido objeto de grandes questionamentos. Pesquisa do instituto Data Popular, de julho, apontou que 68% declararam ter melhorado de vida nos últimos anos. Insatisfações gerais, por outro lado, cresceram porque as pessoas se tornaram mais críticas e exigentes com a ascensão social. Muitos não desejam esperar pelo longo prazo para que suas demandas sejam atendidas. Vejamos o tamanho da encrenca: oito em cada dez brasileiros avaliam de forma ruim a saúde pública; sete em cada dez avaliam da mesma forma a educação pública; os transportes coletivos são motivos de insatisfação para 77%.

Certos sinais e colocações nos levam a crer que há certo esgotamento político do modo como se administra o Estado brasileiro. Para Jorge Gerdau, por exemplo, em entrevista à Folha de S.Paulo (15/03/2013), “dentro da estrutura brasileira, o conceito de política atrapalha bastante a gestão”. O ilustre empresário emendou coloquialmente: “No Brasil, só tem quatro ou cinco instituições em que a estrutura de meritocracia e profissionalismo funcionam: Banco do Brasil, Banco Central, Itamaraty e Exército. Tem ainda o BNDES também”. O necessário aumento da produtividade não se restringe ao setor privado. Referindo-se também ao Brasil na entrevista à revista semanal Época (30/11/2013), Gerdau disse: “Pode 40% do PIB não discutir governança? Não. Não tenho a solução política para a equação, mas o problema tem de ser posto na mesa”.

O debate sobre a modernização institucional da gestão pública não é novo entre nós. Podemos dizer que ele se faz de forma qualificada desde meados da década de 1990, quando o emérito professor Luiz Carlos Bresser-Pereira foi conduzido ao Ministério da Administração Federal e Reforma do Estado. As dificuldades enfrentadas foram muitas desde então. Em um instigante artigo de reflexão sobre a reforma gerencial de 1995, Bresser-Pereira (2011) levantou duas questões relevantes. Qual é a lógica dessa reforma? Por que ela existe? Ele mesmo as respondeu: “A esquerda entendeu que essa reforma era uma estratégia neoliberal para reduzir o Estado ao mínimo e para prejudicar os servidores de baixo nível dentro do Estado. A direita neoliberal, por sua vez, também entendeu a reforma como um sistema para reduzir o tamanho do Estado e chegar ao Estado mínimo. Não era isso”. A reforma visou legitimar e desenvolver um Estado social eficiente, eficaz, ágil e democrático.

Diversas civilizações conheceram basicamente três formas institucionais capazes de organizar a alocação de recursos: a tradição; o mando; e o mercado (Heilbroner, 1972). Cada sociedade aprendeu, ao longo de sua história, a organizar atividades econômicas misturando tradições, centralizando certas decisões (mando) e descentralizando outras (mercado). A partir dessa perspectiva social híbrida dos processos de organização econômica, pode-se afirmar não existir uma única receita universal. O campo da administração pública deve considerar essa perspectiva de complexidade institucional.

Sabe-se muito bem ser possível a eficiência na gestão pública sem a eficácia, ou mesmo o contrário. Esse é um problema na administração pública de nosso país porque a legalidade prestigia os meios (procedimentos) em detrimento dos fins (resultados). Do ponto de vista do setor privado, quando há necessidade de se garantir agilidade (responsividade), ser eficaz se sobressai ao critério da eficiência, mas não a qualquer custo (Christopher, 2007). O mercado costuma oferecer os parâmetros de qualidade, eficácia e eficiência, até mesmo quando há a indesejável seleção adversa. Um problema como esse é um campo fértil para os estudiosos da regulação econômica, algo que não é objeto específico deste sucinto artigo.  

Nas sociedades mais complexas e detentoras de instituições maduras, espera-se que os radicalismos ideológicos não sejam hegemônicos na condução permanente das políticas de Estado (Giddens, 1996). Isso não significa que o debate político deva ser morno (ou cosmético), afinal, a história não terminou. As teorias e os modelos de administração pública são motivos de debates acadêmicos diversos (Denhardt, 2012). Não há um modelo único e que possa ser impunemente transladado. Cada país precisa encontrar o seu próprio caminho. Entre os princípios de uma nova gestão pública, consta uma administração melhor (eficácia e qualidade) e que custe proporcionalmente menos (eficiência). Governos mais produtivos e orientados para os resultados representam outro importante princípio dessa perspectiva (mais detalhes em Denhardt, 2012, capítulo 6). A condução das políticas públicas acabará sendo decidida periodicamente nas urnas, como consequência natural do debate de ideias. Do ponto de vista da maturidade institucional de um sistema político responsável e representativo, o ideal seria que apenas as políticas não estruturantes fossem objetos de questionamentos e mudanças mais recorrentes.

Conforme apurou o Datafolha, “nada divide tanto os brasileiros como a concepção do papel que o Estado deve ter em suas vidas. Os resultados mostram que o brasileiro médio preza valores comportamentais de direita, mas manifesta acentuadas tendências de esquerda no campo econômico. (Folha de S.Paulo, 08/12/2013). Podemos afirmar, seguindo o esquema conceitual de Bobbio (2001), que gravitamos ao redor do centro, ou seja, entre o socialismo liberal (centro-esquerda) e o liberalismo social (centro-direita)? Acredito que sim.

Vivemos tempos de “modernidade líquida” e não há como se desconsiderar uma crescente aceleração do ritmo de vida dos indivíduos, que afeta inclusive a nossa relação coletiva com a administração pública (Bauman, 2001). Um contexto mais globalizado, complexo, fluido e incerto, exige maior capacidade de realização (eficácia com responsividade) da parte da administração pública. O aprendizado do que vem ocorrendo no campo da gestão pública no Brasil e em outros países deve ser permanente entre nós. Nesse sentido, não precisamos fazer muita força para enxergar os caminhos de reformas institucionais capazes de aumentar a produtividade.

A desburocratização, em diversos aspectos públicos e privados, segundo apontam importantes relatórios (Doing Business e Global Competitiveness Report, por exemplo), é um imperativo institucional para que possamos ser mais competitivos e, portanto, desenvolvidos. Precisamos encarar o caminho político das reformas institucionais progressistas, superando gradualmente a tradição patrimonialista. Problemas de corrupção devem ser resolvidos com transparência e maior agilidade dos órgãos de controle. Elevar a quantidade de leis e o nível de burocratização da vida dos cidadãos não se mostra capaz de inibir a corrupção (Freitas, 2013). A redução da impunidade aumentará os riscos para os malfeitos de todas as naturezas.

Referências

BAUMAN, Z. Modernidade líquida. Rio de Janeiro: Zahar, 2001.

BOBBIO, N. Direita e esquerda: razões e significados de uma distinção política. 2.ed.São Paulo: Unesp, 2001.

BRESSER-PEREIRA, L. C. É o Estado capaz de se autorreformar? Desigualdade & Diversidade – Dossiê Especial, Revista de Ciências Sociais da PUC-Rio, segundo semestre de 2011.

CHRISTOPHER, M. Logística e gerenciamento da cadeia de suprimentos. 2.ed. São Paulo: Thomson Learning, 2007.

DENHARDT, R. Teorias da administração pública. São Paulo: Cengage Learning, 2012.

FREITAS, J. No reino da trapaça. Folha de S.Paulo, 05/12/2013.

GIDDENS, A. Para além da esquerda e da direita. São Paulo: Unesp, 1996.

HARTUNG, P.; MEDEIROS, R. Gestão pública: uma modernização necessária no Brasil. In: <http://www.paulohartung.com.br/inicial>, 11/12/2013.

HEILBRONER, R. A formação da sociedade econômica. Rio de Janeiro: Zahar, 1972.

Rodrigo Medeiros é professor do Instituto Federal do Espírito Santo (Ifes)

Rodrigo Medeiros

Professor do Instituto Federal do Espírito Santo (Ifes) e editor da Revista Interdisciplinar de Pesquisas Aplicadas (Rinterpap)

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16 Comentários
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  1. Luis Filipe - Resenha do Pipo

    13 de dezembro de 2013 12:24 am

    Meu questonamento é se já

    Meu questonamento é se já estamos preparados ou no ponto deste diria choque administrativo aí icluido reformas nos metodos de gerência e não somente o aprimoramento dos existentes , este primeiro de certa forma representado por Dilma e obviamente com resultados que devem levar em consideração aspectos como resistência de alguns setores , aprimoramento de lideranças e solidificação dos avanços da sociedade como o autor citou.

    A grande sacada ou novidade é setores progressistas já pensando em eficiência sem a perda ou menosprezo pelos ganhos do viés política priorizando a questão social , Bauman , ou seja uma sociedade com bases sociais sólidas e planejando um administração pública mais eficiente , Nassif , puxadinha.

    Se já está nos textos e nos blogs podemos supor que uma parcela da sociedade já esteja pensando Brasil desta forma , ou seja teremos ultrapassado a etapa das reformas básicas e estaremos começando a debater aperfeiçoamentos , o rumo do texto é avançado e pode significar a segunda etapa do progressismo ou uma nova ou pós teoria ao progressismo inicial.

    Sociedade mais bem dividda , condições sociais e soberania garantidas e a formulação de praticamente um novo ou muito modificado sistema de governança em formação , já é. 

  2. Luiz Eduardo Brandão

    13 de dezembro de 2013 12:36 am

    O equilíbrio do tripé

    Artigo interessante e proveitoso. Um bom tema a meditar,  esse do tripé institucional: tradição; mando; mercado (um espelho dos três poderes da República?). O bom governo seria aquele capaz de dosar equilibradamente esses três fatores, estaria aí a arte de governar. No entanto, isso não significa que se supere a divisão esquerda/direita, ou como se quiser chamá-la, e que existe desde os tempos Antigos, mas com outros nomes, claro.

    O que caracteriza esses dois (quase) extremos é o peso que dão, ou deveriam dar, a cada um desses fatores: a direita dando mais ênfase ao mercado como regulador, mas sem esquecer os outros; a esquerda, o papel do Estado na construção de uma sociedade mais justa, mas sem comprometer os demais. De qualquer modo, a disputa entre tendências opostas é que faz a sociedade ir para a frente. Superá-las não há como: a suposta superação sempre seria, na realidade, o domínio sufocante de uma sobre a outra. Como no ciclo que ainda estamos vivendo, de domínio desvairado do mercado, e que espero esteja chegando ao fim.

  3. Hélio Jorge Cordeiro

    13 de dezembro de 2013 12:48 am

    Nassif, vendo hoje e muito

    Nassif, vendo hoje e muito mais antes, alguns, senão a maioria dos profissionais renomados na área artistica, que hoje fazem parte de um conglomerado midiático, confessadamente participe da ditadura, ou seja, coautora de todas as barbáries contra todos, inclusive, àqueles que hoje dependem desse mesmo conglomerado para se sustentar na vida e ficam falando de como sofreram naqueles tenebrosos tempos. Que coisa louca somos nós, não é mesmo, meu caro! Será que somos os maiores seres do mundo em termos de resiliência?

  4. Marcelo Castro

    13 de dezembro de 2013 1:41 am

    para além ou simbiose

    Acho que o título mais apropriado seria: “uma simbiose entre esquerda e direita”. No gerenciamento público, apoio a solução.

    Nos temas sensíveis o lema continuará sendo : Não mexa no meu Ibovespa que não toco no teu bolsa familia.

  5. Alexandre Weber - Santos -SP

    13 de dezembro de 2013 1:54 am

    Esquerda, Direita, volver

    Esquerda e direita depende do que quem está falando Leu, Cogitou e Acreditou.

    Já o governo têm uma posição definida, no tempo e no espaço, real.

    Como classificar, ou não, esta posição depende do classificador e, atentem a isto, nada garante que sendo de um lado esquerdo, ou de um lado direito, ou de um lado de cima, ou de um lado de baixo, ou do lado da frente ou do lado de trás, o bem do povo e da nação estará garantido.

    Mistério, além dos mistérios.

    Por outro lado, quando um ganha, outro perde e a graça é estar sempre do lado que ganha.

    No final, como a China não me deixa mentindo sozinho nesta, só com uma moeda própria benéfica ao povo e a nação é possível se implementar boas políticas públicas. 

    Dilma, sem uma moeda como o Yuan circulando no Brasil, todo esforço se parece com enxugar gelo.

  6. Calvin

    13 de dezembro de 2013 2:20 am

    Falta um partido conservador no País

    “o brasileiro médio preza valores comportamentais de direita…”

    Eis a falta que faz um partido que represente estes anseios do povo no Brasil.

    Para mim diretista é conservador. Retrógrado? Nãããããoooo…. quer progresso, mas sem ruptura, incrementalmente. Também dá valor à lei e à independência proporcionada pelo  individualismo.

    Já o esquerdista espera que o Estado resolva os seus (de sua minoria) e os problemas da sociedade. Acredita mais em categorias do que em indivíduos e se for para uma boa causa, dane-se a lei.

    1. Marco Antonio Almeida Terra

      13 de dezembro de 2013 10:14 am

      trunfo da ditadura militar !

      trunfo da ditadura militar !

      1. Calvin

        16 de dezembro de 2013 12:56 pm

        Nada a ver com ditadura.
        No

        Nada a ver com ditadura.

        No mundo houve mais ditaduras de esquerda (as que persistem até hoje, inclusive) do que de direita.

  7. Anarquista Lúcida

    13 de dezembro de 2013 2:23 am

    Papo posto na altura das nuvens, sem nenhum conteúdo concreto…

    Tudo muito bonito, etc e tal. Meio inútil (se nao for totalmente inútil…)

  8. Marcos Chiapas

    13 de dezembro de 2013 5:26 am

    Nada que se aproveite

    O texto é uma apologia ao neo-liberalismo.

     

     

  9. Marco Antonio Almeida Terra

    13 de dezembro de 2013 9:53 am

    Esse Gerdau deveria falar

    Esse Gerdau deveria falar isso pros milicos nos tempos de chumbo !

  10. Julio Palmieri

    13 de dezembro de 2013 10:37 am

     a Dilma disfarçou legal

     a Dilma disfarçou legal ontem ao não erguer o bracinho em desafio ao status quo dessa sociedade em que vivemos 

     

     

    me lembrou esse cidadão que não seguiu a manada!!!  e preferiu se manter lucido no meio da esquizofrenia da epoca!

     

    1. Julio Palmieri

      13 de dezembro de 2013 11:00 am

      em tempo, não comparo o

      em tempo, não comparo o petismo ao nazismo em sua sanha assassina e preconceituosa, longe disso. Mas sim em seu fanatismo cego a dogmas que nem sempre representam a verdade dos seus membros, mas apenas de sua cupula!

  11. alexis

    13 de dezembro de 2013 10:58 am

    Política apenas de esquerda e direita?

    O jogo: esquerda vs. direita confunde-se ao mudar a perspectiva para o eixo vertical do problema: globalização vs. interesse nacional (economia planejada). Acredito numa posição mais próxima do socialismo, mas com visão estratégica nacional e do MERCOSUL. O texto, pelo contrário, aposta no Estado mínimo para uma globalização máxima, boa para os negócios de poucos, exatamente os que levam o seu dinheiro para Miami.

  12. Fábio de Oliveira Ribeiro

    13 de dezembro de 2013 11:14 am

    O problema do Brasil é

    O problema do Brasil é o design do Estado, que desde os tempos do D. João VI tem mantido as principais características do “antigo regime”: a distinção entre duas ordens sociais, uma das quais está acima da Lei.  O próprio Poder Judiciário está impregnado desta mácula fundamental, pois tende a usar o rigor da Lei para uns e ignorar a mesma Lei para outros. Enquanto o Estado brasileiro não for demolido de cima abaixo (a exemplo do que ocorreu com os Estados europeus durante as Guerras Napoleônicas) não podemos ter esperança da construção de uma única legalidade sob a qual todos responderão da mesma forma. 

  13. Ivan B

    13 de dezembro de 2013 11:16 am

    “Sempre que leio a palavra

    “Sempre que leio a palavra ‘meritocracia’, saco meu talão de cheques.”

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