O coronavírus, o salário do funcionalismo e os ganhos financeiros da Globo

Em nome dessa loucura institucionalizaram-se as práticas econômicas mais deletérias, como a apreciação cambial, as taxas de juros dos títulos públicos, promovendo a mais brutal transferência de renda da história.

O coronavírus está varrendo como um tsunami ideias estabelecidas e todo um edifício retórico que, nas últimas décadas, sustentou o maior processo de concentração de renda da história.

Toda a lógica que legitimou a concentração de renda das últimas décadas baseava-se em premissas falsas. Na ideia de que todo ganho corporativo reverteria em mais investimentos, que gerariam mais empregos, trazendo um ganha-a-ganha geral. O sofisma da “lição de casa” justificou todos os abusos, de Marcílio Marques, no governo Collor, passando por Pedro Malan, no governo FHC, se prolongando com Antônio Palocci e Henrique Meirelles nos governos Lula e Temer. Os erros de Dilma foram de outra natureza.

Em nome dessa loucura institucionalizaram-se as práticas econômicas mais deletérias, como a apreciação cambial, as taxas de juros dos títulos públicos, promovendo a mais brutal transferência de renda da história.

Esse modelo acabou. O coringavirus veio com pitadas de castigo divino, obrigando a uma solidariedade geral. Sem a solidariedade, haverá morte, conflitos, ranger de dentes, a dissolução do tecido social brasileiro e das barreiras sanitárias, com o coringavirus se impondo definitivamente.

Mas a síndrome do escorpião é terrível.

Ontem, o Globo fez um editorial sugerindo que o funcionalismo público deva dar sua contribuição à crise. Para justificar, recorreu à indefectível economista Zeina Latif, que montou um modelito econômico a la carte, para atender à tese proposta.

Nem vou entrar no caso da Zeina, que ganhou uma belíssima e justa bolada do banco XP por ajuda-lo, com suas análises econômicas, a galgar um reconhecimento do mercado, permitindo um IPO bilionário, que não acontecerá nunca mais, pois fruto das distorções monumentais do excesso de liquidez e de análises furadas de economistas de mercado que levaram o mundo a este situação.

Leia também:  Coronavírus: Brasil contabiliza 155.939 casos de infecção com 10.627 mortes, Bolsonaro passeia de Jet Ski

Mas vamos à Globo.

O raciocínio da Globo se baseia no manual das simplificações de planilha, do cabeça de planilha tradicional. Consiste no seguinte: defino a conclusão de acordo com minhas conveniências. Depois, monto um mundo de planilha, apenas com as variáveis que ajudam a justificar meu raciocínio. O economista age como um bom Ministro do Supremo: primeiro firma a convicção política, depois vai buscar o argumento.

O mundo simplificado consiste em um país com duas variáveis apenas: os trabalhadores do setor público e do setor privado.

Como só tem duas variáveis – empregados do setor público e do setor privado – que se façam as comparações.

Diante da rápida e maciça perda de receita das empresas, é preciso agir para que elas sobrevivam. Na quarta, foi anunciado que será proposto que os empregadores possam cortar pela metade o salário de seus funcionários, na mesma proporção da redução da jornada de trabalho. O conceito de que é melhor preservar o emprego e parte da remuneração do que ser demitido é indiscutível.

Ora, se as finanças públicas estão dissolvendo, porque a recessão seca os canais que abastecem o Tesouro de impostos, e é preciso dinheiro público para salvar vidas em hospitais, postos de saúde e garantir alguma renda a dezenas de milhões de pessoas que vivem na informalidade, entre outras, os servidores precisam dar sua contribuição. Eles são um dos maiores itens de despesa nos orçamentos públicos, federal, estaduais e municipais.

Fantástico, justo e correto.

Mas vamos ampliar um pouco o mundo. Além de trabalhadores do setor privado e público, vamos incluir os beneficiários de ganhos financeiros em cima da dívida pública.

O Brasil é um caso único de ganho em cima do Tesouro. Em outros mercados, acionistas e executivos ganham em cima de operações não muito corretas, de recompra de ações, mas, em todo caso, fica entre eles e o mercado.

Leia também:  Mais uma voz se cala pela Covid-19, morre o cantor Carlos José

Veja bem, esse ganho financeiro não gerou um emprego, um aumento do nivel de atividade, não exigiu esforço algum. Bastou aplicar em títulos públicos e esperar o resultado em casa.

Já os gastos do funcionalismo, tirando uma elite de marajás e distorções pontuais, resultam em produtos entregues: aulas, atendimento de saúde, segurança, arrecadação fiscal, regulação do setor monetário etc. Podem melhorar? Podem. Podem deixar de existir? Jamais.

E nada como analisar o próprio balanço do Grupo Globo e comparar receitas financeiras estéreis (pois não resultam em investimentos nem em mais emprego, nem exigem criatividade, inovação, melhorias) com empregos públicos essenciais.

O resultado operacional líquido (aquele que reflete receitas menos despesas) em 2019 foi negativo em R$ 572,5 milhões, contra R$ 530 milhões em 2018. Quando inclui a TV por assinatura, o resultado operacional foi melhor, mas também em queda, de R$ 573 milhões contra R$ 1 bilhão em 2018.

Quando se entra nos resultados financeiros, o quadro muda. A receita financeira em 2019 foi de R$ 752 milhões, contra R$ 1,2 bilhão em 2018. 2020, sem eventos esportivos, será pior.

Mas a questão é outra. Vamos a algumas comparações, com algumas categorias fundamentais do funcionalismo.

Confira a tabela.

O lucro financeiro da Globo em 2018 daria para contratar

* 6.944 médicos clínicos para o SUS,

* ou 25.469 professores do ensino básico,

* ou 7.234 médicos cubanos, garantida a parte de Cuba,

* ou 30.848 funcionários DAS 1 e 8.033 DAS 4,

* ou 8.286 professores com doutorado.

Representa o mesmo que os vencimentos de

  • 120 Ministros do STF ou
  • 6.186 Almirantes de Esquadra, ou ainda
  • 3.963 fiscais da Receita.
Leia também:  Coronavírus: pandemia amplia desigualdades no Chile

Por que é possível essa comparação? E porque a Globo tem interesse em reduzir o salário do funcionalismo público e manter as regras fiscais? Porque todos esses gastos são medidos em reais e constam do orçamento. Saem todos da mesma boca de caixa. E, portanto, a Globo está defendendo os interesses dela e de todos os proprietários de dívida púbica. Em um momento de calamidade, a Globo está discutindo contabilidade.

Vamos comparar, agora, com programas relevantes do setor público.

A penúltima coluna é a equivalência com o lucro financeiro de 2019; a última com o lucro financeiro de 2018.

Confira, então, que apenas o lucro financeiro da Globo correspondeu 1,11 o orçamento da Unifesp, a Universidade Federal de São Paulo; a 2,23 da Universidade Federal de Ouro Preto e a 3,52 da Universidade Federal do ABC.

Corresponde a 1,66 vezes mais tudo que é gasto com Vigilância Epidemiológica, 5.20 vezes mais do que os gastos com toda a população indígena e 6,25 vezes as verbas para desenvolvimento científico.

Repito, é um dinheiro estéril, que não resulta em mais investimento, em mais emprego, em mais riqueza. E representa o ganho de apenas uma grande empresa nacional.

Á medida que o coronavirus vai fazendo baixar a maré da especulação, as águas vão se esvaindo deixando à vista os detritos e comparações inevitáveis. E a dúvida que jamais será respondida: como chegamos tão baixo no nível de percepção e no conceito de justiça e de desenvolvimento?

Você pode fazer o Jornal GGN ser cada vez melhor

Assine e faça parte desta caminhada para que ele se torne um veículo cada vez mais respeitado e forte.

Assine agora

18 comentários

  1. Prezado Nassif
    Prezados Camaradas

    E a grana dos títulos públicos é embolsada pela minoria (que faz a campanha permanente pelas reformas e outras asneiras, enquanto briga para manter na Lua o juro das “aplicações financeiras”).
    Basta vc consultar os fundos DI e Renda Fixa da maioria dos bancos: até R$ 50.000,00; pagam 0,6% ou 0.5 a.m. e vc precisa ainda descontar a taxa de administração. Para os tubarões (que aplicam mais de R$ 500.000, 00. Quem vive de salário tem 500 contos para aplicar?), o retorno é de até 15% a.a..
    E tratam aplicações especulativas em bolsa como “investimentos”: o gerente do banco onde tenho conta ligava (agora que a bolsa murchou como pastel de vento, parou) dizendo que “perdia dinheiro” deixando o que tinha na poupança. Acho que quem perdeu foi quem entrou na conversa mole dele.
    Então, todo o edifício (informação, omissão, propaganda); todo o sistema foi construído para que todos coloquem o dinheiro nisso, ganhem taxas ridículas; para os de sempre (Li textos bons sobre o desmoronamento da AmBev – que transforma cervejas em merda, mas não liou não entendi se está pendurada em títulos públicos como a globo) ganharem muito

  2. Creio que no quarto período de baixo para cima o Nassif quiz dizer “lucro financeiro da Globo” e não “lucro financeiro da USP”, mesmo porque penso que a USP não agrega lucros financeiros, e o nome da mesma nem aparece na tabela.

  3. Bom dia. Li reportagem em que a grafia correta é “o Coronavírus”, masculino e “a CoVid-19”, feminino. A conferir.

  4. A derrubada do Muro de Berlim, representou a vitória do capitalismo do Ocidente e a derrocada do Socialismo soviético. A partir daí o Liberalismo, é surge com a idéia de menos Estado e mais liberalismo. O discurso de que as empresas Transnacionais e o capital são capazes de promover o desenvolvimento económico e social dos países em desenvolvimento, aumentar a produção, regular o mercado globalizado e oferecer melhor salários ao trabalhador e melhor padrão de vida. Praticamente todos os sistemas dos Estados-nação estão sendo privatizados, inclusive os sistemas básicos de saúde, a educação e segurança
    pública, considerados universais. A rede pública dos diversos países operam com deficiências de atendimento, operadores especializados em saúde (médicos, serviços de Enfermagem, técnicos etc.) falta de equipamentos básicos e medicamentos. Um exemplo é o caos no sistema público na Itália, que os idosos acima de 70 anos , improdutivos estão sendo descartados. O capital especulativo entra, especulam, obtém lucros e saem sem nenhum controle. Mas controle é coisa de país comunista. O excesso de liquidez causou a ‘pandemia econômica de 2008″ da bolha imobiliária americana.

    1
    2
  5. “Á medida que o coronavirus vai fazendo baixar a maré da especulação, as águas vão se esvaindo deixando à vista os detritos e comparações inevitáveis. E a dúvida que jamais será respondida: como chegamos tão baixo no nível de percepção e no conceito de justiça e de desenvolvimento?”

    Egoísmo, excesso de individualismo, inveja. Em nosso caso, também um desprezo infinito pelos mais fracos e necessitados, resquício da escravidão.

    A mídia, dirigida e remunerada pelas nossas classe dominantes, enfiando na cabeça de todos os piores valores.
    Da parte dos privilegiados, a adoração do bezerro de ouro, a renúncia à empatia.
    Só isso.

  6. Muito providencial essa precisa e bem deralhada análise, Nassif. Mas, o que esperar de quem apóia e usufrui de ditaduras, de golpismos, de rentistas e ainda se dá ao luxo de sonegar impostos, ocultar patrimônios e ter vínculos com paraísos fiscais e mega empresa de lavagem de dinheiro?

  7. É fácil responder a última pergunta: em grande medida, ao permitir que a própria Globo se tornasse a “líder de audiência”; que essas emissoras que temos conduzissem quase sem concorrência a cultura de massas. Aquilo deu nisso que temos. Houve muuuuito tempo para corrigir ou pelo menos atenuar o estrago, inclusive nos 13 anos do PT, mas…

  8. Há controvérsias sobre onde começou o golpe. A visão primária, na minha opinião, aponta para os protestos de 2013 pelampassagem de ônibus. Data correta, evento errado. Acho que começou sim em 2013, mas quando o Supretmo Tribunal Federal liberou condenar petistas sem provas. Foi o ano em que Rosa Weber deu o start com sua famosa não há provas mas a literatura me permite. A partir daí foi a festa do caqui da caça aos “mortadelas” no Judiciário, um vale-tudo que começou a rolar a bola de neve. Mas essa artigo de Nassif sobre os ganhos financeiros da Globo me fez lembrar de outra questão que talvez antecipe essa data para 2012. Foi quando Dilma começou mirou o spread bancário, e por certo começou a cair aí.
    http://g1.globo.com/economia/seu-dinheiro/noticia/2012/02/queda-do-spread-bancario-e-determinacao-de-dilma-diz-tombini.html

  9. E o pior é que essa merda vai vir, esses loucos da rede Goebbels vão implementar tal imbecilidade, pois detêm o controle do Centrão. E eu que estudei 40 anos da minha vida, jamais votei na direita, odeio opressão e opressores, tenho asco da classe-dominane brasileira, só vou poder assistir enquanto sou currado e perco a capacidade de alimentar minhas filhas e minha querida esposa.
    Serei esfolado vivo, morto à míngua de fomne e doença, sob tortura. E eu sou só um caso. O pior de tudo, o que essas miseráveis aberrações egoístas não entendem em sua usura desmedida é que não sustento só minha família, e que já estou consumindo apenas alimentos, roupas e medicamentos desde o Golpeachment. Já fui chamado de ‘parasita’ entre outros adjetivos e agora terei meu salário confiscado sob motivo nenhum, dane-se a necessidade de alterar cláusula pétrea da constituição.
    Alguém ai me de um motivo para atirar na minha própria cabeça.

      • Lá vai,
        você ainda tem emprego e renda.
        Tem família, saúde e capacidade de se indignar.
        E parasita é quem vive do sacrifício do trabalho alheio sem oferecer qualquer retribuição.

        • Agradeço a nobre tentativa, mas tenho a segunda mais insalubre profissao do mundo segundo a OMS, acho que obesidade de grau 3, ler, bursite, varises a danos severos às cordas vocais não seria descrito exatamente como saúde por ninguém. Só o salário do trabalhador brasileiro é descrito como renda, é o emprego não sei até quando Paulo Jegues vai me permitir ter. Note que para os Ruralistas, tudo que não for Mato é boi é parasita, não estão nem ai para o resto. Assim que perder minha renda, perco a família e os amigos também. Então….

  10. O financismo, entendido como a parte do capitalismo que gera riqueza pela própria riqueza (e não pela troca por produtos e serviços reais) é a “mãe de todos os males” da humanidade contemporânea, já que cada vez mais existem truques e invenções que remuneram riqueza sem beneficiar a economia REAL.
    Exemplos banais são: a valorização de empresas e os títulos podres sem contrapartida econômica.
    O “valor de mercado” da Apple, por ex., embora perdendo posições no mercado, chegou ao inédito patamar de US$ 1 trilhão. Assim como pode cair a 10% disso em uma crise como a de 29. Ou seja, quase 1 trilhão “dela” pode “desaparecer” por mero pânico (vide 29), sem nenhuma relação com sua geração econômica: empregos, cadeia de suprimentos, vendas, etc.
    Pior a economia real, sem nenhuma mudança de oferta e procura (desejos e necessidades do mercado), pode ser afetada por essa “virtualidade” (novamente vide 29).
    No caso dos títulos podres, inventaram truques matemáticos, “derivativos” e piramidais, que geraram imensa riqueza para seus operadores (bandidos de “high society”) e gigantescos danos ao restante da sociedade (global), cujo resultado econômico foi dívida e pobreza generalizada. GANHAR COM PERDAS!
    Investimento precisa ser uma via de duas mãos, onde o ganho financeiro precisa estar associado a um ganho econômico direto (ex. investir em um empreendimento/empresa e ganhar com seu RESULTADO).
    Com a ganância e a criatividade humana, o resultado financeiro é cada vez mais DISTANTE do ganho econômico (quando há), através de artifícios de risco como hedges, derivativos, títulos, etc. onde o ganho de poucos INDEPENDE das eventuais (cada vez mais frequentes) perdas econômicas de muitos.
    Quando ações são ofertadas (ex.IPO’s), a empresa ofertante beneficia-se economicamente, entrando dinheiro na empresa. Depois disso, seja calorizando 20 vezes mais ou desvalorizando a 10% do valor original, isso não afeta a empresa economicamente, seu resultado operacional, não entrando ou saindo dinheiro por tais (des)valorizações., apenas o jogo de ganhos e perdas dos investidores que as negociarem nas bolsas.
    Mesmo os juros foram inventados como um ganho razoavelmente “descompromissado” com a qualidade do emprego do dinheiro emprestado. Apenas o risco do não pagamento, que dependendo do caso e do país, pode ser retomado à força por garantias, hipotecas, seguros, spreads, reservas fracionárias (!!!), etc., numa cadeia cada vez mais confortável para quem empresta, transferindo praticamente TODA a responsabilidade (e risco) para o tomador, seja ele um verdadeiro investidor empreendedor , um comprador de bens e serviços, um endividado ou sem receita para sobreviver um bandido ou um picareta. às vezes até em associação do emprestador com o tomador.
    Enfim, num mundo onde a DÍVIDA financeira já é um MÚLTIPLO (>3x) do PIB mundial (tudo que se produz de fato), e isto não para de crescer, temos uma tendência REAL (constatada) de concentrar cada vez mais o estoque da riqueza global nas mão de poucos.
    Isto dá a estes poucos um poder incomensurável de controlar não só os negócios, como a agenda, a informação e até a emoção mundial.
    Tudo isso confortavelmente, consumindo mansões e iates que não conseguem utilizar mais do que poucas vezes, carros exclusivos que valem mais que centenas de outros, prostitutas de milhares de dólares por período, sanitários folheados a ouro, festas com buffet de cocaína e outras.
    Enquanto centenas de milhões morrem de fome e doença.
    Ou matando-se pela essencial sobrevivência.

    • Complementando, em:
      “…DÍVIDA financeira MÚLTIPLA do PIB mundial…”
      Ressalte-se: dívida PÚBLICA, apenas, aquela que os governos (representantes do povo?) adquirem, com cada vez menos TRANSPARÊNCIA e mais CUMPLICIDADE!
      Mas além das nossas, quem paga essa também somos nós.

  11. Nassif,
    Que tal fazer um estudo sobre o tanto que a classe média – euzinho – perdeu nos seus fundos de aposentadoria!? Nas suas aplicações!?
    Eu estou com perdas de mais de 10% do meu BrasilPrev.
    E não sei o que isso vai representar no resgate. Sei sim, bem menos.
    Não é uma boa hora para debater a previdência social com contas individuais!?

  12. + comentários

Deixe uma mensagem

Por favor digite seu comentário
Por favor digite seu nome