Bolsonaro trouxe a ditadura de volta, mas ele não é o ditador, por Wilson Luiz Müller

O que representa, nesse contexto, a figura do “presidente operacional” senão um mal disfarçado eufemismo para caracterizar uma ditadura?

Bolsonaro trouxe a ditadura de volta, mas ele não é o ditador

(Crônica de um golpe dentro do golpe)

por Wilson Luiz Müller

O sonho maior de Bolsonaro era trazer de volta a ditadura para terminar o serviço de matar uns trinta mil. Mas o destino pregou uma peça. Bolsonaro nunca leu os filósofos antigos. De pouco teria adiantado se os tivesse lido, pois não os  teria compreendido. “Cuidado com os seus desejos; eles podem se realizar”. Isso é dito de diversas formas pelos sábios. Significa, entre outras coisas, que os desejos nos aprisionam e podemos não gostar do resultado quando eles se realizam.

Essa semana, os militares terminaram de remover Bolsonaro da presidência. Para poder continuar usando a cadeira de presidente, ele agora fica obrigado a ler de vez em quando um pronunciamento escrito por comandantes militares. Todos os atos de governo passarão de ora em diante pelo crivo dos generais.  As pretensões e os atos do presidente pro-forma, que contrariarem o alto escalão militar, serão sumariamente vetados no Estado Maior do Planalto. E para que não falte nenhum detalhe de um golpe típico aplicado abaixo da linha do Equador, Bolsonaro manterá o direito de se dedicar ao que mais gosta: todas as manhãs ele poderá se postar na frente do Palácio da Alvorada para mentir, ofender pessoas e inventar teorias conspiratórias. Nada disso, afinal, fará qualquer diferença no desenrolar dos acontecimentos doravante.

A notícia do golpe foi dada pelo site DefesaNet, porta-voz oficioso do meio militar, em matéria do dia 01 de abril de 2020.

“Ao abrir a coletiva de imprensa, na tarde de segunda-feira (30MAR2020), o ministro-chefe da Casa Civil, General-de-Exército Braga Neto, assumia um novo papel na política, mas que era a continuidade de seu último cargo, o de Chefe do Estado-Maior do Comando de Exército.”

“Agora o Gen Braga Neto, de “Interventor no Rio de Janeiro” é o “Chefe do Estado-Maior do Planalto”, uma posição bem mais abrangente do que a já poderosa função de Ministro-Chefe da Casa Civil.”

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“DefesaNet teve informações que o novo “Chefe do Estado-Maior” não foi uma simples indicação ou nomeação, mas uma complexa construção. A nova “missão  informal” foi produto de um “acordo por cima”, envolvendo ministros e comandantes militares e o próprio presidente da República. Braga Neto tem grande empatia com Bolsonaro.”

“Sua “missão” busca reduzir a exposição do presidente, deixando-o “democraticamente” (Apud Paulo Guedes) se comportar como se não pertencesse ao seu próprio governo. O general passa a enfeixar as ações do Executivo na crise. Pode, inclusive, contrariar as declarações de Bolsonaro.”

“Para muitos, “a missão” de Braga Neto nada mais é que uma intervenção ou uma junta militar coordenando o governo.”

“Pelo menos enquanto a grave situação de crise perdurar, o general será o “presidente operacional” do Brasil. Braga Neto assume para distender e organizar.”

O que representa, nesse contexto, a figura do “presidente operacional” senão um mal disfarçado eufemismo para caracterizar uma ditadura?

O presidente pro-forma acusou o golpe, porém sem muito alarde. No dia seguinte à entrevista dada pelo novo Presidente Operacional, Carlos Bolsonaro, em tuíte matutino, disparou: “É muito mais valoroso conversar com um humilde inteligente soldado do que com um general que não apita porra nenhuma!”

O esperneio de pouco adianta. No meio militar, quem manda é general e o soldado, se inteligente, e com juízo, obedece. Como diz a matéria do site DefesaNet, o tuíte foi o “estertor de uma situação passada”. O futuro começou para os generais. Bolsonaro não faz parte dele. O fanfarrão das falas escrotas na porta do palácio é  coisa do passado; são apenas ecos do direito do livre espernear de quem já não manda mais nada. Certamente lhe darão algum direito adicional quando a hora derradeira do descarte se apresentar.

Como foi que Bolsonaro caiu em desgraça do dia para a noite?

A mudança repentina é aparente. Os militares são treinados  em planejamento estratégico. Depois que viram, no decorrer do ano passado, a grande roubada em que tinham se metido ajudando a eleger Bolsonaro (e depois de terem garantido seus privilégios na reforma previdenciária e os aumentos polpudos para os oficiais), os militares começaram a tecer as tramas em que o presidente seria enredado com o passar do tempo.

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O presidente foi convencido, por algum amigo não tão amigo, que ele deveria trazer para perto de si determinados comandantes militares que tivessem autoridade e liderança dentro das Forças Armadas. No início do governo somente a velha guarda da reserva aparecia ao lado de Bolsonaro, dando mais a impressão de que estavam ali apenas para engordar seu contracheque.

Os conselhos amigos serão compreendidos na posteridade como peças de uma arapuca em construção. Os chefes militares da ativa foram se achegando como quem não quer nada, ocupando postos estratégicos, jurando fidelidade incondicional. O último grande lance dessa estratégia foi a nomeação do general Braga Neto para o gabinete da Casa Civil. A nomeação foi um xeque-mate que Bolsonaro deu contra si mesmo.

Há quem especule que Bolsonaro ainda pode retomar a iniciativa política para recuperar o terreno perdido. Na política nada é impossível. Mas é pouco provável. O poder, quando troca de mãos, não é facilmente recuperado. No atual contexto, Bolsonaro teria que ser capaz de executar uma sequência de golpes perfeitos. Mas ele não tem talento nem apoio para isso. As elites e classes médias que o trouxeram até aqui já bateram em retirada. Bolsonaro é rei deposto sem nunca ter sido rei de fato. Foi sempre, e apenas isso, um fantoche dos Estados Unidos de Donald Trump e das elites reacionárias brasileiras que precisavam de um bobo da corte que ficasse distraindo a plateia enquanto as riquezas nacionais eram roubadas e os direitos sociais do povo eram surrupiados. Os fantoches, depois que eles entregam o serviço para o qual foram contratados, são lançados à fogueira. Não sem antes serem pintados como demônios, mesmo que antes tenham sido vendidos como salvadores.

É assim que quase sempre acontece na nossa história. A população brasileira é submetida repetidamente a processos fraudulentos e viciados,  pelos quais as elites colocam no poder pessoas e grupos que não representam os interesses e necessidades da imensa maioria das classes pobres e médias. Ninguém votou no Presidente Operacional General Braga Neto. Mas ninguém da mídia corporativa vai se incomodar com isso. Muitos vão dizer que qualquer coisa é melhor do que o Bolsonaro. E que se dane o ordenamento jurídico e a Constituição Federal. Vão dizer que o mais importante é alguém assumir o poder para arrumar a bagunça do governo Bolsonaro. E haverá ministros iluministas do Supremo correndo a providenciar um substrato legal para mais um golpezinho baixo contra o povo.

A última vez que os militares se apresentaram para resolver a “bagunça” foi em 1964.  No início era a fala mansa do marechal Castelo Branco garantindo que a intervenção militar saneadora seria breve. A pretensão inicial de “arrumar a bagunça” enveredou para uma ditadura sanguinária que durou 21 anos.

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Há anos que nós, brasileiros, somos cobaias de um experimento arquitetado pela  extrema direita estadunidense (com integral apoio de nossas elites) que consiste em verificar até que ponto um povo pode ser idiotizado para passar a defender interesses estranhos que prejudicam a si mesmo e de destruir-se enquanto nação para favorecer um império estrangeiro.

As pontas visíveis desse estranho experimento são:

(i) o treinamento de procuradores e juízes brasileiros, por autoridades estadunidenses, visando a destruição de nossas empresas de engenharia e das estatais estratégicas para o desenvolvimento nacional;

(ii) a deposição de uma presidente por pedaladas fiscais;

(iii) a eleição de um fantoche fascista para defender os interesses dos Estados Unidos;

(iv) a substituição do fantoche por um Presidente Operacional General.

Tudo indica que o experimento está longe de chegar ao fim.

Wilson Luiz Müller – Membro do Coletivo Auditores Fiscais pela Democracia

 

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6 comentários

  1. Faltou acrescentar um quinto fator, que é a perda da identidade cultural. Um povo que abre mão de sua rica cultura para assimilar uma cultura estrangeira, muitas vezes pouco mais do que lixo, fica mais aberta a aceitar a influência estrangeira, leia-se norte-americana, nos demais campos.

    • Por isso educação e cultura são as primeiras a serem destruídas em qualquer golpe!

      Por isso as religiões e culturas populares são perseguidas e proibidas!

    • Chamar o período militar d ditadura sanguinária é um completo desrespeito com as vítimas de ditaduras sanguinárias como Stalin, Mao Tse Tung, Pol Pot, Fidel Castro. 450 vítimas em 20 anos dá uma média de 22 vitimas por ano Hoje no Brasil, se morre nas mãos de bandidos mais de 150 pessoas por dia.

  2. Item (v) do experimento: Exportação de um culto religioso que combina fé, fanatismo e mercantilismo; que vende cara a ajuda de Deus para o enriquecimento dos pagantes nesta vida; que fala em Jesus, mas só cita o Velho Testamento; que tem um projeto de poder e que se esmera na alienação do proletariado, dissipando sua consciência de classe e fazendo-o crer que Deus paga em dobro a quem dá ao pastor. Quem financiou e treinou um certo bispo para que ele desse início a esse êxito do ramo de negócios. Os neopentecostais também são um tentáculo do imperialismo.

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