Coronavírus desmonta os economistas de planilha, por Andre Motta Araujo

É precário o economista que pretende ser a economia uma ciência abstrata matematizada, mas eis que no Brasil esse economista parece ser a regra e não a exceção, os resultados ai estão.

Coronavírus desmonta os economistas de planilha

por Andre Motta Araujo

Uma construção intelectual aberrante imperou no Brasil nos estudos e prática da ciência econômica. Através da herança ortodoxa de Eugenio Gudin transportada para o Século XXI através da Escola de Economia da PUC Rio, o Brasil absorveu e transformou em uma espécie de “ciência econômica brasileira” um conjunto de ideias ortodoxas sobre a prática da economia como ciência e operação que não tem paralelo em nenhum outro grande País.

É uma espécie de “neoliberalismo caboclo”, atrasado, de lição mal feita por alunos bolsistas brasileiros em universidades americanas, onde a ciência econômica é desligada de contextos culturais e históricos, elos fundamentais para a construção de uma política econômica referenciada no País, na sua geografia, seus recursos naturais e humanos. A ciência econômica não é universal, ela é sempre contextualizada pelo involucro natural da situação de cada País, eis que é uma ciência no grande campo das ciências humanas, ela depende e é focada no ser humano e não na física dos elementos.

Considerar uma ciência econômica fora de seu ambiente e contexto é um mega erro de natureza filosófica, a economia tem raízes sociais, humanas, geográficas, é precário o economista que pretende ser a economia uma ciência abstrata matematizada, mas eis que no Brasil esse economista parece ser a regra e não a exceção, os resultados ai estão.

Um dos maiores países do mundo por seu território, seus recursos humanos extraordinários, multiétnicos, multirraciais, naturais, ecológicos, culturais, uma herança das grandes monarquias europeias, fertilizada pelas maiores imigrações italianas, japonesas, africanas, árabes entre todas as grandes migrações dos séculos XIX e XX, o Brasil tem um ambiente extraordinariamente especial, diferente não só dos países do Hemisfério Norte como dos países latino americanos, muito diferentes do Brasil.

Leia também:  Na série 'Ares', 'O Guia Pervertido da Ideologia' de Zizek encontra-se com as sociedades secretas, por Wilson Ferreira

No entanto, economistas obtusos querem aplicar no Brasil experiências do meio oeste americano, fertilizado por populações protestantes e calvinistas completamente diferentes do tecido social brasileiro, com história diferente, clima diferente, solo diferente, forma de organização política e social completamente diversa da brasileira.

A disfuncionalidade estrutural dos gastos do Estado brasileiro foi coberta no passado por inflação, após o Plano Real foi pago por dívida pública, que simplesmente substitui a impressão de moeda, mas a origem dos dois eventos, a inflação e a dívida pública interna, é a mesma. O Estado brasileiro gasta muito e mal. Para reconfigurar o Estado e recolocá-lo nos trilhos de arrecadação e despesa, os economistas de planilha propõe esparadrapos que não curam a infecção que está na base. Porque o Estado brasileiro custa 40% do PIB, se o do México custa 22% e o dos EUA custa 23%?

Nosso Judiciário custa 2% do PIB, cinco vezes mais do que o da Alemanha que acompanha a média europeia, nos EUA o Judiciário custa ainda menos, em Brasília existem 9 Tribunais, todos com altíssimos salários, mordomias, carros com motoristas, nada disso existe em Washington.

Nosso Congresso custa 3 bilhões de dólares por ano, o mesmo do que o Congresso dos EUA, nossas Assembleias estaduais e Câmara de Vereadores custam absurdos, a Câmara Municipal de São Paulo custa mais de um bilhão de Reais por ano, o modelo serve para todo o Brasil. Mesmo em cidades pequenas, vereadores se atribuem altos salários quando deveriam trabalhar de graça, como em muitos países bem organizados onde servir ao interesse público é uma horaria por si só.

Os Estados brasileiros, quase todos, tem uma folha de aposentadorias e pensões que consomem boa parte da arrecadação, há algo de profundamente desequilibrado nessa conta e isso não foi consertado porque não há consenso e força política para isso, então o desequilíbrio continua e os remédios propostos são o corte linear de gastos que recaem sobre a linha de menor resistência, os gastos sociais, e não na cúpula dos poderes e no corte total dos investimentos públicos.

Existem 15 mil obras paradas, com desperdício de recursos já investidos de 200 bilhões de Reais, um ápice de MÁ GESTÃO, falta de planejamento, medidas erráticas tanto administrativas como judiciais, que ampliam o desperdício e a irracionalidade de gastos. Um exemplo, bilhões de Reais gastos com BIOMETRIA de títulos eleitorais, uma aberração com dinheiro público, sem qualquer justificativa lógica, nos EUA não há sequer Justiça Eleitoral, que aqui tem sede em um palácio digno de Abu Dahbi.

Leia também:  Pandemia: Ecossistema da desinformação é "intencional, organizado e tem muito dinheiro"

O número de edifícios públicos próprios e alugados no Brasil não tem paralelo no mundo sem que essa despesas seja centralizada, a União não sabe quantos prédios tem e porque aluga prédios novíssimos com valores aberrantes quando tem prédios vazios há anos por todo o País. Da mesma forma paga valor cheio por passagens de avião, mais de 3 bilhões de Reais por ano, sem pedir descontos de compra por atacado, nos EUA a Administração consegue descontos de até 80% quando compra passagens por atacado.

No Brasil os governos gastam fábulas em INFORMÁTICA por sistemas e programas que valem muitas vezes menos do que o valor cobrado, não há uma centralização de gastos.

O sistema brasileiro de TRIBUNAIS DE CONTAS fiscaliza contas depois do dinheiro gasto, nos EUA, o Escritório de Contas do Congresso, precisa aprovar despesas pela sua racionalidade intrínseca, não se constrói um hospital onde já existe um outro que pode ser reformado. O Escritório de Contas (GAO) vetou 2 trilhões de dólares de programas militares sem lógica econômica. O GAO custa vezes menos que nosso Tribunal de Contas com seus Ministros e carros com motoristas.

Essas são as disfuncionalidades que os economistas de planilha não enxergam, eles propõem CORTE LINEAR de gastos, corta-se tudo com uma régua e não o que deve ser cortado.

Na maior crise econômica e financeira que se avizinha, o Brasil conta apenas com economistas de planilha de baixa estatura, poucos são MACRO ECONOMISTAS, a maioria são economistas micro, de mercado, analisam bolsa e índices e param por ai, não têm visão de políticas públicas e racionalidade econômica mais ampla.

A grande crise do CORONAVÍRUS vai acelerar a disfuncionalidade do Estado brasileiro e a incapacidade absoluta de sua gestão econômica para enfrentar essa crise, já era incapaz de enfrentar a recessão precedente a crise do vírus. Um comandante que não cuidava da limpeza do quartel agora tem que enfrentar uma guerra de verdade sem ter sequer a experiência anterior de crises ou de funcionamento da gestão de políticas públicas de amplo espectro. O Brasil está entrando em uma grande guerra com simples taifeiros para comandar a tropa, a guerra econômica será muito maior que a guerra sanitária e estamos sem lideranças e sem inteligências para a tarefa.

11 comentários

  1. O presidente pretende cuidar da ‘saúde da economia’ colocando no ministério da saúde um carniceiro para ‘confiscar’ a saude do povo brasileiro. É isso aí.

  2. Muito boas considerações.
    Tenho dito que não se trata de Estado máximo ou mínimo, mas do necessário (eficaz, altivo, presente) ..e pra tanto o que esta aí, principalmente entocado nos Poderes Permanentes (FFAA, Judiciário, BC e burocracia dos Poderes) precisam ser ESTATIZADOS, pois hoje são Instituições ditas Públicas mas que são recheadas de interesses privados nem sempre confessados.

  3. O andar de cima deste país sempre foi insaciável, daí os Tribunais por todos os lados a concorrerem entre si, para ver qual deles é do marajá.
    Há pouco tempo um juiz, casado com uma juíza e morando num bairro de alto luxo, deu o passo inicial para o auxílio-moradia para a classe, conseguiu emplacar a cretinice e o valor do tal auxílio foi estendido para centenas de pessoas na ativa,aposentados e pensionistas num efeito-cascata que ocorre somente para os escolhidos por deus, que é como se sentem.
    Ministros da Fazenda que desconhecem inteiramente o que seja gestão pública, isto é, aqueles vindos do mercado financeiro é anomalia tupiniquim, afinal, se PArida teve dificuldade no BC, imaginemos este PGuedes, que chegou ao ponto de preferir andar no calçadão de Ipanema numa quarta-feira à tarde quando o país estava de cabeça pra baixo.
    Apenas ter conhecimento do salário do pessoal do Senado Federal foi motivo de processo, a gráfica do mesmo Senado também parece ser caso de polícia, as pensionistas repletas de filhos e netos e ainda assim solteiras, as pensionistas netas do falecido, tudo isto, em enormes proporções, só ocorre no brasilsil.
    Considero o andar de cima brasileiro como o pior do mundo, o mais racista e preconceituoso, capaz de qualquer covardia contra uma pessoa, caso isto seja necessário, e quem determina a tal necessidade ou não?
    A lista de aberrações que está presente em nosso cotidiano não tem fim, há quem diga que este é o país das 200 famílias, pode ter razão.

  4. Mas Ojuara é só fazermos mais umas reformazinhas q aí o investimento virá automaticamente e poderemos ser igual ao Chile em prosperidade e eficácia e cresceremos no MÍNIMO UNS 1000 POR CENTO, não dá para o Estado ficar se intrometendo em tudo !!!

    1
    1
  5. A questão, e não sei o porque o sr André não entra nesse detalhe, é que por aqui o neoliberalismo foi, é, empregado como possibilidade de ganhar dinheiro.

  6. Como sempre, irrretocável o artigo do AMA !!! Sintetiza sempre, de forma brilhante, a discricionariedade nas relações sociais e na distribuição de renda aqui na colonia – herança da casagrande !!! Imutável !!!

  7. “E CONHECEIS A VERDADE. E A VERDADE VOS LIBERTARÁ”. O Brasil é de muito fácil explicação, mas os textos de AMA, tornam as explicações inigualáveis e insuperáveis. Não foi apenas a parte Econômica do Brasil que teve um projeto tortuoso a partir dos anos de 1930. Foi toda Estrutura Politica, Intelectual e Estatal. Criada por Leitores de um único livro, como já afirmou grande Intelectual Brasileiro. Sem citar um único Politico ou Partido ou Ideologia esmiuçou a tragédia brasileira destes 90 anos. Brilhante foi pouco, tornando o simples em óbvio:”…A disfuncionalidade estrutural dos gastos do Estado brasileiro foi coberta no passado por inflação, após o Plano Real foi pago por dívida pública, que simplesmente substitui a impressão de moeda, mas a origem dos dois eventos, a inflação e a dívida pública interna, é a mesma…” Sem ter como emitir Moeda e gerar inflação, financiando seus gastos, o Estado Brasileiro das Privatarias começa vender o País aos pedaços, para pagar as suas contas. O mote é a melhoria dos serviços públicos. Medíocres Serviços Públicos oferecidos por Aqueles que oferecem o Serviço Público. A culpa das próprias Empresas e Serviços, e não destes Gestores que se eximem de responsabilidade, enquanto leiloam o Estado Brasileiro, mantendo suas Castas, Feudos e Castelos. A Nação Brasileira constituída entre 98% de Analfabetos plenos e funcionais….bem, dizer mais o que? Estamos discutindo, criando, vislumbrando mais o que nestes 40 anos de Redemocracia, que não estão absorvidos num texto de única página? Definitivo foi pouco. Falar mais o que? Pobre país rico. Mas a explicação foi dada.

  8. Se o Estado gasta muito e mal, é preciso diminuir a quantidade de dinheiro que passa pelas mãos do Estado, para que fique nas mãos de quem pode criar empreendimentos e gerar empregos.

  9. André: vou pedir novamente. Escreva um livro que sintetize seu conhecimento de Economia. Sugestão de título: Conceitos Fundamentais pra Economia Política.

  10. + comentários

Deixe uma mensagem

Por favor digite seu comentário
Por favor digite seu nome