3 de junho de 2026

O jogo cifrado do general Mourão, por Christian Edward Cyril Lynch

Minha aposta é a de que o vice-presidente está praticando um jogo cifrado. A lealdade dele, na verdade, não é a Bolsonaro, que sequer é citado. É aos generais conservadores do Planalto e do alto comando.

O artigo do vice presidente publicado hoje no Estadao faz a defesa da centralização político-administrativa e do anti-judiciarismo típicas do militarismo de Floriano, Hermes e do regime militar. Curiosamente, citando clássicos liberais americanos e brasileiros, de tendência unionista e não estadualista (Madison e Amaro Cavalcanti).

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Qual o sentido desse artigo?

Aparentemente ele defende o governo Bolsonaro. Mas por que o vice faria a defesa de um governo encalacrado e cambaleante? Ele não devia estar, ao contrário, acenando para o congresso? É justo agora, com seus colegas tendo que passar pelo constrangimento de deporem em inquérito contra Bolsonaro!

Minha aposta é a de que o vice-presidente está praticando um jogo cifrado. A lealdade dele, na verdade, não é a Bolsonaro, que sequer é citado. É aos generais conservadores do Planalto e do alto comando. É governista, sem ser bolsonarista. Mourão está lhes estendendo a solidariedade política e dizendo o que eles querem ouvir: o mantra tradicional do exército como poder moderador da república e da centralização no executivo como guardião da ordem e da autoridade, garante da unidade nacional, contra as derivas judiciaristas e estadualista. Tudo isso, às vésperas da divulgação do vídeo da reunião ministerial que revelar as entranhas escandalosas do governo.

O movimento do general Mourão parece ir assim no sentido de dar segurança aos colegas militares, constrangidos de terem se manter leais a um governo incompetente e nepotista, de notórios arruaceiros, no caso de uma eventual mudança na presidência. A honra militar do vice-presidente não lhe permite trair o presidente como fez o Temer. O partido de Mourão é o Exército. O que Mourão sugere – mas nunca irá admitir – é que, na hora de desembarcarem do governo Bolsonaro, se este momento chegar, desembarcarão todos juntos.

No governo dele, Mourão, os colegas de farda ficarão tranquilos, porque prevalecerá um projeto conhecido e familiar de ordem nacional, de estilo ESG. A ordem e a unidade seriam restabelecidas tendo o Executivo federal como eixo organizador. Haveria nele espaço para acordos com o congresso, mas “sem corrupção”, e para um governo “ordeiro e de autoridade”, sem o populismo insano e polarizador de Bolsonaro. Um governo nacional, encabeçado por um general, teria moral para respeitado e acatado pelo judiciário e pelos governadores. Bom lembrar que, em declaração anterior, o vice-presudente já fez a defesa da costura de uma base parlamentar na câmara, de base programática. Cada general-presidente com sua ARENA…

Em suma, acredito que Mourão anda ultimamente acenando, não para o Bolsonaro, mas para os outros generais e para o congresso, de modo cifrado, estabelecendo as bases ideológicas e programáticas de um eventual governo dele. Menos Trump e mais Medici, menos Olavo e mais Golbery. Mourão como o verdadeiro Bonaparte do novo regime. – este Bonaparte, que sempre aparece depois da “revolução” que desestabiliza e desmoraliza as instituições (como a que vivemos entre 2013-2018, é que Bolsonaro se revela incapaz de resolver).

Resta saber se o Congresso vai morder a isca, e se está havendo efetivas aproximações entre ele e as lideranças da Câmara, para viabilizar a mudança lá na frente. Isso não é possível saber.

Com sensibilidade das mais altas autoridades é possível superar a grave situação que vive o País.

Redação

Curadoria de notícias, reportagens, artigos de opinião, entrevistas e conteúdos colaborativos da equipe de Redação do Jornal GGN

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2 Comentários
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  1. Anônimo

    14 de maio de 2020 5:14 pm

    O Mourão, em primeiro lugar, mostrou, para quem teima em achar outra coisa, que tá fechadinho com o boçalnaro, que pensa igual a ele.

    Em segundo lugar, que quem quiser que ele participe da derrubada do 00, só cedendo mais poder, só se aceitar uma maior concentraçao e centralização de poder na mão dele.

    E aí, “os setores democraticos” estão a fim? Qual a ”culpa do PT, PT, PT e da ‘esquerrrda’” pro Mourão, com pretensa erudição, falar assim, todo sobranceiro?

  2. ALEXANDRE BARROS NT

    14 de maio de 2020 6:33 pm

    Pra mim não tem nada de cifrado. É a ponte para o futuro do Mourão. É plataforma de governo. Começou o apoio do exército ao impichiment. Honra militar é história da carochinha.

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