The Economist vê Bolsonaro tratado como alguém que mostra sinais de insanidade

O boicote de Jair Bolsonaro aos esforços de seu próprio governo para conter o vírus pode marcar o início do fim de sua presidência.

The Economist

O tratamento imprudente do presidente brasileiro pela covid-19 voltará para assombrá-lo

O NE POR UM que duvidam ter feito as pazes com a ciência médica. Apenas quatro governantes do mundo continuam negando a ameaça à saúde pública representada pela covid-19. Dois são destroços da antiga União Soviética, os déspotas da Bielorrússia e do Turquemenistão. Um terceiro é Daniel Ortega, o ditador tropical da Nicarágua. O outro é o presidente eleito de uma grande democracia, ainda que maltratada. O boicote de Jair Bolsonaro aos esforços de seu próprio governo para conter o vírus pode marcar o início do fim de sua presidência.

Desde que o novo coronavírus foi detectado pela primeira vez no Brasil, no final de fevereiro, Bolsonaro, um ex-capitão do exército que gosta de governantes militares, fez pouco caso disso. Ignorando seus efeitos como “apenas uma pequena dose de gripe”, ele disse “vamos enfrentar o vírus como um homem, caramba, não como um garotinho”. Ele acrescentou, prestativo: “todos nós vamos morrer um dia”. Nos 15 meses desde que ele se tornou presidente, os brasileiros se acostumaram à sua bravata e ignorância em questões que vão desde a conservação da floresta amazônica até educação e policiamento. Mas desta vez o dano é imediato e óbvio: Bolsonaro associou a retórica desafiadora à sabotagem ativa da saúde pública.

Ele afirma acreditar no “isolamento vertical”, na quarentena apenas dos brasileiros com mais de 60 anos, para limitar os danos à economia. Existem dois problemas com isso. Os jovens morrem de covid-19 (10% dos que matou no Brasil têm menos de 60 anos), e a imposição dessa quarentena seria impossível.

Os governadores dos estados mais importantes do Brasil foram adiante e impuseram bloqueios usando seus próprios poderes. Bolsonaro incentivou os brasileiros a ignorá-los. Um homem que teme a traição e tem uma necessidade perpétua de provocar, ele foi recebido com abraços e selfies que apoiaram uma manifestação contra o Congresso em 15 de março. Ele lançou uma campanha pedindo que as empresas reabrissem e pediu um “jejum e demonstração” religiosos nas igrejas em 5 de abril. Ele pensou em decretar, ilegalmente, o fim dos bloqueios. Ele chegou duas vezes perto de demitir seu próprio ministro da saúde, Luiz Henrique Mandetta, um médico conservador que se opôs publicamente ao chamado do presidente para diminuir as restrições. Bolsonaro está aparentemente com ciúmes do crescente perfil de um ministro que ele alega “carece de humildade”.

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Mesmo para seus próprios padrões, a violação de Bolsonaro de seu dever principal de proteger vidas foi longe demais. Grande parte do governo o trata como um parente difícil que mostra sinais de insanidade. Os principais ministros, incluindo o grupo de generais no gabinete, bem como os oradores das duas casas do Congresso, deram apoio às vezes ostensivo a Mandetta, que tem o público ao seu lado. Uma pesquisa realizada neste mês pelo Datafolha encontrou 76% de aprovação para o tratamento do vírus pelo Ministério da Saúde, em comparação com 33% para o gerenciamento da crise por Bolsonaro.

Os pedidos de demissão de Bolsonaro aumentaram. Eles vieram não apenas da esquerda, mas também de alguns de seus ex-apoiadores, como Janaina Paschoal, uma deputada estadual de São Paulo que ele considerou como seu companheiro de chapa. Dizendo que ele era culpado de “um crime contra a saúde pública”, ela acrescentou: “não temos tempo para o impeachment”.

Pode haver pouca dúvida de que a conduta do presidente mereça constitucionalmente um impeachment, um destino que aconteceu com dois de seus antecessores, Fernando Collor em 1992 e Dilma Rousseff em 2016. Mas, por enquanto, Bolsonaro mantém apoio público suficiente para sobreviver. Enquanto as pesquisas encontraram uma maioria a favor da deposição de Dilma (por violar a lei de responsabilidade fiscal para ganhar a reeleição), 59% disseram ao Datafolha que não querem que Bolsonaro renuncie. Seu índice de aprovação caiu para cerca de 10%; ele mantém o apoio de um terço dos eleitores. Poucos em Brasília acreditam que o país quer ou pode arcar com a distração do impeachment enquanto está cercado pela covid-19.

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Bolsonaro é apoiado por um pequeno círculo de fanáticos ideológicos que incluem seus três filhos, pela fé de muitos protestantes evangélicos e pela falta de informações sobre a covid-19 entre alguns brasileiros. Os dois últimos fatores podem mudar à medida que o vírus atinge seu sulco fatal nos próximos meses. Em 8 de abril, o Brasil havia sofrido 14.049 casos confirmados e 688 mortos. E o presidente pode não ser capaz de se colocar em quarentena de culpa pelo impacto econômico. Por sua imprudência com a vida dos brasileiros, Bolsonaro forçou a possibilidade de sua própria saída para a agenda política. É provável que permaneça lá após o desaparecimento da epidemia.

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