21 de maio de 2026

A fortuna (?) do lítio, por Angelita Matos Souza

Estamos em uma fase de redobrar a atenção para o peso dos constrangimentos “externos” sobre a vida política nos países latino-americanos
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do Observatório de Geopolítica

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A fortuna (?) do lítio

por Angelita Matos Souza

Acredito que ninguém ficou surpreso com a afirmação de Donald Trump sobre a Venezuela, de que, se reeleito em 2020, teria tomado o país e “pegado todo o petróleo”. Tampouco alguém deve ter se surpreendido quando, em 2020, Elon Musk comentou sobre a tentativa de golpe na Bolívia: “Vamos dar golpe em quem quisermos! Lide com isso”. E uma lista de episódios similares seria imensa.

No momento, aumentam as expectativas com relação ao lítio. Ontem (18/06/23), o jornal Folha de São Paulo trouxe uma matéria a respeito, na qual afirma que países da região estão debatendo “se vão focar a exportação para países ricos ou investir no desenvolvimento da indústria local. Também debatem se vão usá-lo como recurso estratégico de prioridade do Estado, ou se abrirão a exploração para investidores estrangeiros”.  A reportagem informa ainda que mais da metade do lítio do planeta está na América Latina, maiormente no chamado “triângulo do lítio” formado por Argentina, Bolívia e Chile.

Algo que me chamou a atenção foi a forma quase pueril de abordagem da questão sobre o que fazer com lítio, como se os países tivessem autonomia política para decidir livremente, bem como estofo financeiro-tecnológico para investir no desenvolvimento da indústria local, quando o mais provável é que haja batalha política intensa em torno do recurso, com farta interferência estrangeira. Neste terreno, uma informação comovente, trazida pela matéria, é o de que a chefe do Comando Sul dos EUA teria exposto sua preocupação com a “atividade maligna” da China na região, uma vez que os chineses estariam apenas extraindo riqueza, e não fazendo investimentos.

É certo que as relações entre China e países latino-americanos não têm implicado em ingerência política. Até o momento este não é um aspecto que se sobressai no expansionismo chinês por essas bandas. Entretanto, é correto afirmar que as relações econômicas com o país asiático estão bem adaptadas à fase atual das relações de dependência, caracterizada pela preferência pela extração de riqueza, em vez da sua criação. Portanto, a observação da “generala” dos EUA talvez possa ser considerada cínica, mas não inverificável.

De todo modo, parece possível aproveitar a disputa entre China e EUA (e não apenas em torno do lítio), para atrair de ambos os lados investimentos produtivos portadores de desenvolvimento. Embora não se deva descartar a hipótese, hoje implausível, de China e EUA/tríade se unirem para tentar dividir entre eles o “triângulo do ouro branco”, mais recursos existentes no Brasil e em demais países da região.

Tudo vai depender da vida política doméstica, articulada ao aproveitamento (ou não) da conjuntura geopolítica mundial. No caso da Venezuela, a fórmula de resistência combina cooptação de militares com mobilização popular e conta com o apoio da China e Rússia. Por isso, assemelha bravata a afirmação de Trump de que os EUA invadiriam o país, possivelmente levando a uma guerra civil, para tomar o petróleo. O problema é que o modelo venezuelano não é fácil de reproduzir, devido justamente ao elemento militar; e por vários motivos nem sei se vale a pena.

Por fim, quando digo que tudo depende da vida política nos países latino-americanos ricos em lítio, isso não significa que o destino esteja em suas mãos (do interesse nacional). Infelizmente não é assim, na medida mesmo em que os interesses estrangeiros se internalizam e fazem parte da vida política doméstica, sendo apoiados por sócios locais poderosos.

De fato, acho que estamos em uma fase de redobrar a atenção para o peso dos constrangimentos “externos” sobre a vida política nos países latino-americanos. A batalha pelo lítio, se vier, poderá ser mais uma batalha perdida caso não se busque a ação unificada. Preferencialmente, com liderança, pois união sem direção não costuma prosperar.


Angelita Matos Souza – Docente no IGCE-UNESP e pesquisadora no IPPRI-UNESP.

O texto não representa necessariamente a opinião do Jornal GGN. Concorda ou tem ponto de vista diferente? Mande seu artigo para dicasdepauta@jornalggn.com.br. O artigo será publicado se atender aos critérios do Jornal GGN.

Observatorio de Geopolitica

O Observatório de Geopolítica do GGN tem como propósito analisar, de uma perspectiva crítica, a conjuntura internacional e os principais movimentos do Sistemas Mundial Moderno. Partimos do entendimento que o Sistema Internacional passa por profundas transformações estruturais, de caráter secular. E à partir desta compreensão se direcionam nossas contribuições no campo das Relações Internacionais, da Economia Política Internacional e da Geopolítica.

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