O presidente Lula (PT) conversou por telefone com o presidente da Bolívia, Rodrigo Paz, para estruturar o envio de ajuda humanitária ao país vizinho. A iniciativa ocorre no momento em que a Bolívia entra na quarta semana de uma intensa onda de protestos e bloqueios de estradas, que têm gerado forte desabastecimento em diversas regiões.
Durante a ligação, realizada a pedido do mandatário boliviano, Paz apresentou três solicitações específicas ao governo brasileiro: o empréstimo de uma aeronave para o transporte interno de alimentos, o envio de mantimentos não perecíveis e a publicação de uma nota oficial sobre a conversa como um gesto político para estimular o diálogo interno.
Assessores do Palácio do Planalto informaram que há disposição por parte do Brasil em ceder o avião, e equipes técnicas realizam um levantamento para viabilizar a operação. Ainda não há uma data definida para o início das missões.
Redução salarial e repressão policial
As manifestações ganharam força após uma marcha que reuniu mineradores, camponeses, motoristas e operários de fábrica. O grupo desceu da cidade de El Alto em direção a La Paz, sede do governo, onde entrou em confronto direto com as forças de segurança.
Na tentativa de conter a insatisfação popular, o presidente de centro-direita anunciou, em discurso na cidade de Sucre, o corte de 50% nos salários da presidência e dos ministros. A medida, contudo, é vista como simbólica e não arrefeceu os ânimos das lideranças civis.
O clima de tensão aumentou após o governo confirmar a morte de uma pessoa em confrontos ocorridos no último fim de semana. O porta-voz da presidência, José Luis Gálvez, lamentou o episódio e declarou: “Lamentamos que isso tenha acontecido. Agora esperamos […] que a investigação seja concluída”. Gálvez assegurou ainda que as forças de segurança receberam ordens para não utilizar armas letais.
Crise econômica e estradas bloqueadas
No poder há seis meses, Rodrigo Paz enfrenta a maior crise econômica da Bolívia em quatro décadas. Os manifestantes rejeitam sua agenda liberal, demandam reajustes salariais e apontam falhas no fornecimento de combustíveis.
Atualmente, cerca de 50 rodovias bolivianas permanecem bloqueadas por convocação da Central Obrera Boliviana (COB), a principal organização sindical do país. As barreiras impedem o tráfego de comboios com combustíveis e alimentos, impactando gravemente o abastecimento de La Paz e El Alto.
Paralelamente, a gestão de Paz atribui a articulação dos protestos ao ex-presidente Evo Morales, que se encontra foragido e defende a convocação de novas eleições em um prazo de 90 dias.
Em posicionamento oficial, o Palácio do Planalto informou que “O presidente Lula reiterou sua solidariedade ao governo e ao povo bolivianos e ressaltou a importância do pleno respeito às instituições democráticas e ao Estado de Direito“. De acordo com o comunicado, o chefe do Executivo brasileiro “defendeu que governo e movimentos sociais evitem o recurso à violência e privilegiem o diálogo como caminho para a superação das divergências e para a preservação da paz social“.
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