Maira Vasconcelos
Maíra Mateus de Vasconcelos - jornalista, de Belo Horizonte, mora há anos em Buenos Aires. Publica matérias e artigos sobre política argentina no Jornal GGN, cobriu algumas eleições presidenciais na América Latina. Também escreve crônicas para o GGN. Tem uma plaqueta e dois livros de poesia publicados, sendo o último “Algumas ideias para filmes de terror” (editora 7Letras, 2022).
[email protected]

Villa Fiorito: bairro onde Maradona cresceu está abandonado

Milei, com seu plano motosserra, diminuiu a verba dos governos estaduais. Falta merenda em algumas escolas de Fiorito.

Casa da infância de Diego Maradona, em Villa Fiorito

Villa Fiorito: bairro onde Maradona cresceu está abandonado e escolas padecem falta de merenda

por Maíra Vasconcelos, especial para Jornal GGN

O carro seguia pela avenida “Los Hornos”, que divide os municípios de Lanús e Lomas de Zamora, zona Sul da província de Buenos Aires. Logo, pegamos a avenida “Larrazábal” e entramos em Villa Fiorito. Enquanto dirigia, o professor Héctor Saucedo, 49, começou a apontar a extrema sujeira nas ruas, o lixo aberto e jogado, os cachorros de rua, os catadores de papel. Ele lembrava do tempo em que o bairro era constituído por uma classe operária, que todas as manhãs pegava o trem na estação “Fiorito” para trabalhar na capital. Em meados da década de 1980, às vezes, Héctor esperava a chegada desses mesmos vagões para viajar com seu pai ao trabalho, até a fábrica de curtume de couro. Descemos do carro e caminhamos pelos trilhos abandonados, de onde se podia ler no muro, “A cidade de D10S”, “Milei lixo você é a ditadura”, “Greve geral 24-1”. E ali estava Maradona pintado de costas com a camisa 10 da seleção argentina. Hoje, o trem não chega mais ao bairro, onde parte de suas vias estão cobertas de terra e mato.

Saucedo nasceu em San Miguel de Tucumán, região Norte do país, e aos três anos, após algumas mudanças da família, eles se instalaram em Villa Fiorito, em 1978. E Fiorito, o bairro onde cresceu Don Diego Armando Maradona, que desde meados dos anos 1990 ganhou status de cidade, está abandonado em muitas de suas partes. Não fossem as cerca de 20 escolas que dão vida e esperança aos moradores. Há décadas, os problemas sociais vêm se agravando, e de modo mais acentuado, desde o ano passado. Agora, também após o ajuste aplicado pelo governo Milei, que recai, por exemplo, sobre o corte de insumos para os refeitórios escolares. Assim contava Héctor, professor no bairro, há 24 anos, filho de pai operário e mãe ama de casa e também empregada doméstica. Quando os pais se separaram, ele tinha 16 anos, e com as duas irmãs chegou a ajudar a mãe no trabalho de doméstica.

Ele lembrou que a estação “Fiorito” foi desativada em 2017. O bairro pertence ao município de Lomas de Zamora, então depende tanto do trem como todos os outros municípios da Área Metropolitana de Buenos Aires (AMBA). Em uma parte de seus trilhos deixados inutilizados, há, nada menos, que uma construção de concreto. Durante o governo de Mauricio Macri (2015-2019), a Trenes Argentinos, que agrupa várias empresas ferroviárias estatais, desativou a linha que chegava a Fiorito, após descarrilamento na estação “Puente Alsina”, que também deixou de operar, naquele então. A AMBA reúne 35% da população total do país, e concentra 40 municípios.

Saímos da antiga estação, pegamos o carro novamente. Logo, Héctor, também militante do partido Esquerda Socialista, apontou para a Escola Secundária 11. Construída após uma luta que durou mais de dez anos, na qual ele esteve empenhado e conta orgulhosamente o feito, até ser inaugurada em 2018. Em Fiorito, há, aproximadamente, 20 escolas, desde o jardim até o nível de formação de docentes, para uma população de 42,9 mil habitantes. Ao menos três escolas padecem pela falta de merenda e também é visível o aumento da quantidade de alunos que chegam famintos para estudar, disse Héctor. A direção precisa decidir quais grupos escolares podem merendar. Hoje, apenas os meninos e meninas do nível primário. Além da qualidade da comida ser cada vez pior, denuncia Saucedo. Em sua época, não havia escola de nível secundário no bairro. Aos 12 anos, Héctor foi estudar em Lanús, município vizinho. Todas as escolas da província de Buenos Aires dependem do governo do Estado, que, por sua vez, depende também dos recursos enviados pelo governo federal. O governador, hoje, é Axel Kicillof, peronista kirchnerista, quer dizer, pertencente à ala do peronismo que se formou a partir dos ex-governos de Néstor Kirchner (2003-2007) e Cristina Fernández (2007-2015). 

“O pão é incomível. No país do trigo, dão, aos setores mais empobrecidos da população, um pão que parece uma goma, às vezes, vem meio amarelado, é estranho. Os meninos, às vezes, estão com fome, apesar disso, jogam fora”. O professor, que dá aulas de cidadania e história, destrinchou os problemas sociais que perpassam o ambiente escolar, entre a falta de material, a falta de roupa das crianças para ir à escola, e constatou: “Estamos chegando a um nível tremendo. Não me lembro de ter visto algo assim. Atuo como docente, na mesma zona, há 24 anos, e é a primeira vez que vejo isso”. Héctor é professor nas escolas Secundárias 67, 11, e 56 de Fiorito. É também diretor da Escola Primária de Adultos 727, de Santa Catalina, município de Lomas de Zamora.

Antes de voltar a falar sobre o problema da baixa no número de alunos no início do ano letivo, entramos na Escola Primária 63, onde o polêmico gênio da bola, Maradona, estudou dos 6 aos 11 anos. No pátio, há um mural do pequeno Diego, naquele espaço de apenas sete salas de aula. E “ o pelusa”, seu apelido de menino, por causa da cabeleira, passou por cada uma delas, dizia Héctor. Pela curiosidade por saber onde se merendava na época de Maradona, entramos no antigo refeitório, onde estava acontecendo uma aula de cozinha. E ali presente estava María Esther, junto a outras senhoras que contavam entre risos e poses tímidas, “ela foi a primeira namorada de Maradona”, quando eles tinham por volta dos treze, quatorze anos.

Em meio a uma infestação de pernilongos, saímos da “escola maradoniana”, que tem suas próprias lutas, ao menos desde que quase foi demolida, em meados dos anos 1990. Continuamos a dar uma volta por Fiorito. Nas escolas onde Héctor trabalha, os professores começaram a notar o baixo número de inscritos, no início do semestre letivo deste ano. Ele diz que houve um “salto exponencial” no nível das carências identificadas nas escolas, e isso começou mais fortemente no final do governo do ex-presidente Alberto Fernández (2019-2023), da vice Cristina Kirchner e do ex-ministro da Economia, dito dessa maneira pelo professor, somado ao ajuste aplicado por Javier Milei, desde dezembro de 2023. Em Fiorito, o peronismo ganhou as três eleições do ano passado; a eleição primária de agosto, e o primeiro e segundo turnos presidenciais.

“Os pais não podem comprar o material para que os meninos possam ir à escola. Com essa crise mais recente, produto do ajuste implementado pelo governo nacional, as famílias têm uma renda menor, alguns diretamente não têm emprego”, conta. Os professores então criaram uma “caixa de materiais”, com o que vão juntando dos alunos. “Um lápis que ficou curtinho e você não usa mais, uma caneta que você não gosta como escreve, ou também se podemos fazer doações, deixamos na caixa de materiais”.

Durante a pandemia, o governo estadual começou a entregar uma caixa de alimentos para cada aluno, mas  parte da verba vinha do governo nacional. Héctor conta que não conseguiam levantar uma caixa sozinhos de tão pesada. “Agora vem cinco produtos. Um arroz, um macarrão, um óleo, um pacote de farinha de trigo e uma lata de purê de tomate”. O professor opina que os governos peronistas “foram um desastre”, “estamos muito piores”.

 A escola e os catadores de papel

“Tenho uma aluna da Secundária 11, magrinha, ela junta papelão. Acorda às 5 horas da manhã para catar papel e vender em Avellaneda (município também da zona Sul de Buenos Aires). Ela sempre chega tarde. É uma menina, tem 16 anos. E isso é um exemplo do que está acontecendo agora”. Héctor Saucedo pensa na formação que é oferecida na escola, em seu trabalho como professor, e o destino que “seus meninos e meninas” estão tendo.

O aumento do número de catadores de papel, em Villa Fiorito, cresceu visivelmente, afirmava e reafirmava, uma e outra vez. Héctor contabiliza essa problemática social como um indicativo do rápido alcance da atual crise econômica e social. “Antes você via um catador a cada dez quarteirões. Ano passado, com Sergio Massa, você via um a cada cinco quadras. Agora, com Milei, você vê um catador a cada dois quarteirões. Estamos falando de meninos jovens, alunos meus, que estão juntando papelão”.

Saucedo colocou-se como exemplo para explicar o rápido empobrecimento de certas áreas de Buenos Aires. Há 35 anos, ele ia com seu pai ao trabalho, algumas vezes, para colaborar na fábrica, lembra. Mas, se ele não fosse, mesmo assim comia, estudava, se vestia, comprava livros, um sanduíche e tinha dinheiro para as passagens de ônibus e trem. Listou, assim, cada um desses itens, tudo o que podia consumir sem que isso afetasse seu desenvolvimento escolar. “Essa é a mudança. Há 15 anos, isso não acontecia, ao menos com essa frequência (essa quantidade de alunos com trabalhos muito precarizados). Cada vez tem mais miséria e a escola é uma caixa de ressonância social”.

Ainda com o carro em movimento pelas ruas de Fiorito, em um dado momento, disse a Héctor para que procurássemos um lugar para que nos sentássemos e eu pudesse gravar algumas perguntas. Saucedo me respondeu com uma negativa, e lamentou. Naquela parte central do bairro não haveria um café ou um bar onde pudéssemos estar por um tempinho. “Esse centro é o mesmo há anos. Se quisermos sentar para tomar um café, não tem”.

O parquinho colorido junto com o lixo

Ao continuar o percurso pelo bairro, de repente, havia um parquinho muito colorido e bem cuidado, com brinquedos para crianças, e em ótimas condições. O parquinho estava ali junto ao arredor com muito lixo acumulado a céu aberto. “Isso aqui é um ninho de ratos”, aponta o professor filiado ao Sindicato Unificado de Trabalhadores da Educação de Buenos Aires (SUTEBA). O serviço de coleta de lixo chega ao bairro, mas não como deveria. Os moradores queimam o lixo na beira do tão comentado Riachuelo.

Olhando desde Fiorito, do outro lado do córrego, está a Capital Federal, Buenos Aires. Javier Milei e seu plano motosserra de ajuste fiscal diminuíram os recursos enviados às províncias. Apesar das décadas de aumento da pobreza, em Villa Fiorito todas as carências sociais foram agravadas, nos últimos  meses, segundo refirma, uma e outra vez, o militante professor de história. A ineficiente coleta de lixo é realizada pela CEAMSE, (Sociedade do Estado para a província de Buenos Aires e Cidade Autônoma de Buenos Aires).

A casa de Don Diego Maradona

Era quase impossível permanecer no passeio de terra e barro da casa onde Maradona cresceu e morou com sua família. Havia nuvens de pernilongos que rapidamente se formavam em nossas pernas e mãos. E, novamente, é inevitável retornar ao ídolo do futebol, estando em Fiorito. Mas Maradona foi menemista, quer dizer, apoiou Carlos Menem, presidente por duas vezes nos anos 1990, responsável por implementar o neoliberalismo na Argentina, talvez o mais profundo que se teve notícia na América Latina, opinam especialistas. “Sabe o que é isso? Que Maradona tenha apoiado Menem? Isso eu não perdoo”, condenou Héctor o “D10S”.

A casa onde moraram Maradona e sua família, talvez, seja uma espécie de museu. Mas é um museu que, possivelmente, boa parte de quem leia essa matéria, ainda que vá a Buenos Aires, não consiga ter acesso, para conhecer onde passou toda a infância e parte da adolescência, o maior ídolo do futebol argentino e um dos mais adorados mundialmente. A casa onde morou Àstor Piazzolla, o gênio do tango instrumental, tem na porta uma placa em sua homenagem, a casa da escritora Silvina Ocampo é um museu aberto à visitação, a casa onde morou o escritor polaco Witold Gombrowicz, virou uma livraria. A pouco menos de um mês após a morte de Maradona, em outubro de 2021, a casa do ídolo foi declarada “lugar histórico nacional”, pelo governo federal. Mas essa casita onde morou o menino Maradona fica na rua Azamor 523, em uma das partes mais carentes de Villa Fiorito.

Maíra Vasconcelos é jornalista e escritora, de Belo Horizonte, e mora em Buenos Aires. Escreve sobre política e economia, principalmente sobre a Argentina, no Jornal GGN, desde 2014. Cobriu algumas eleições presidenciais na América Latina (Paraguai, Chile, Venezuela, Uruguai). Escreve crônicas para o GGN, desde 2014. Tem publicado um livro de poemas, “Um quarto que fala” (Urutau, 2018) e também a plaquete, “O livro dos outros – poemas dedicados à leitura” (Oficios Terrestres, 2021).

Maira Vasconcelos

Maíra Mateus de Vasconcelos - jornalista, de Belo Horizonte, mora há anos em Buenos Aires. Publica matérias e artigos sobre política argentina no Jornal GGN, cobriu algumas eleições presidenciais na América Latina. Também escreve crônicas para o GGN. Tem uma plaqueta e dois livros de poesia publicados, sendo o último “Algumas ideias para filmes de terror” (editora 7Letras, 2022).

1 Comentário

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

  1. Dirigentes políticos e dirigentes de clubes do futebol produzem cenas lamentáveis por todo país e quase nada acontece para evitar o prejuízo, o desgaste ético e moral e os danos a imagem das entidades que representam.

    Assim acontece agora com o bairro e a imagem de Villa Fiorito, como também acontece com o C R do Flamengo e com a sua imagem.

    Se provarem que Gabriel Barbosa Almeida (o nosso Gabigol) premeditou o uso da camisa do Corinthians, a tiragem da foto e a divulgação para o presidente do clube, aí sim, ele poderá merecer uma punição.

    Digo que poderá, pelo motivo de estar em sua casa, de talvez ser vitima de traição por uma das pessoas presentes que o fotografou e enviou a foto para o presidente do clube, sem que ele tenha ciência ou que tenha autorizado. Digo também, pelo fato de que precisa existir um registro documental listando o que ele pode ou não pode usar, dentro da sua própria residência.
    Qual das notícias trouxeram mais prejuízos ao C R do Flamengo e a sua imagem, além desta alimentada pela diretoria?

    – Será a estúpida manifestação dessa diretoria do clube, com os dedinhos fazendo 22 para um político que é um próprio escândalo em vida?
    – Será a foto ao lado de Bolsonaro e o imoral pedido de voto que um diretor que postou em seu perfil? Aliás, um pedido de votos feito aos torcedores do clube, para votarem pela reeleição do político?
    – Será que foi o barraco que o diretor Marcos Braz protagonizou em famoso Shopping Center?

    – Será que foi outros gravíssimos descasos da diretoria que foram abafados?

    Quantos e quais são os dirigentes que foram punidos por seus destemperos, por seus erros, por suas graves e imprudentes omissões?
    Parece que estão alimentando um acontecimento banal, se comparados aos que eles próprios já protagonizam.

    Quem sabe se estão fazendo essa tempestade imprudente ao clube, ao elenco e a imagem do clube, com o intuito de se livrarem do atleta? Não é possível que não saibam o grande prejuízo financeiro que causa ao passe do atleta e ao clube, pela depreciação que causará ao seu valor comercial do atleta do clube.

    Então fica a pergunta: qual dos dirigentes será o primeiro a ter coragem e vir a público atirar a primeira pedra contra o Gabigol?

    Pimenta nos olhos do outros é refresco e o momento de amadorismo parece que incorporou em na diretoria, que já não mostra mais os sinais da responsabilidade e do equilíbrio, que se espera para dirigir um clube do porte do C R do Flamengo.

Você pode fazer o Jornal GGN ser cada vez melhor.

Apoie e faça parte desta caminhada para que ele se torne um veículo cada vez mais respeitado e forte.

Seja um apoiador