Anna Nicole Smith, Zé da Barra Funda, narrativas e 2022, por Letícia Sallorenzo

Por ser poderosa, a narrativa da superação é um dos mecanismos facilmente utilizados para manipular sensações e sentimentos das pessoas. (Taí 2018 que não me deixa mentir).

Anna Nicole Smith, Zé da Barra Funda, narrativas e 2022

por Letícia Sallorenzo

Quem me acompanha pelo Facebook deve saber que há pouco tempo perdi meu cachorrinho querido, o Zé (calma que tem um propósito). Zé morava no metro Barra Funda, em São Paulo. Eu fui com a cara dele, ele foi com a minha cara, e eu o adotei. Nesse momento, aquele cachorrinho ferrado e encardido da Barra Funda virou cachorro de madame, teve tudo do bom e do melhor (inclusive muito carinho dos humanos de sua matilha), e morreu eutanasiado, bem velhinho e doente, aos 15 anos. É uma historinha bonitinha e fofinha de um cachorrinho que tinha tudo pra ser um ferrado e morrer com menos de 5 anos de vida, mas teve um final feliz. É uma historinha à qual as pessoas reagem com “ooowwwnnn, que lindinho!”

Ponto parágrafo.

Um dos motivos pelo qual eu admiro profundamente meu São George (Lakoff) guerreiro é o fato de ele conseguir correlacionar uma série de teorias cognitivas e linguísticas com a forma como as sociedades pensam e decidem seu comportamento (e o voto faz parte desse comportamento).

Em The Political Mind: why you can’t understand 21st-century politics with an 18th-century brain (A mente política: por que não é possível entender a política do século XXI com a cabeça do século XVIII), editado em 2008 lá fora pela Penguin Books e facilmente baixável nos melhores sites de livros piratas, Lakoff se vale de uma subcelebridade americana pra explicar frames e compreensão de narrativas.

Quando Lakoff escrevia The Political Mind, os Estados Unidos assistiram à tragédia ocorrida com Anna Nicole Smith. A história dessa subcelebridade pode ser contada pelo viés do alpinismo social, mas também pode ser contada pelo viés da sobrevivência a qualquer custo.

Eu não vou me estender na história de Anna Nicole, até porque o filme contando sua vida está disponível no youtube. Se você não quiser perder uma hora e meia de sua vida com um filme B para TV, pode dar uma passad’olhos nesta reportagem de 2018. E o que é importante destacar nessa narrativa (foco e muita ênfase na palavra que eu usei) é a história de superação. É uma história tocante, à qual você não reage racionalmente: ou você ama ou você odeia / despreza Anna Nicole Smith. Não é uma história á qual você reage racionalmente, ponderando todas as questões sócio, politico e econômicas que cercam a história da ex-coelhinha da Playboy.

Vou parar com o nariz de cera e jogar na cara de vocês outra história que muita gente entendeu como superação, em 2018: um candidato à presidência da República que foi esfaqueado no dia 7 de setembro, passou o primeiro e segundo turnos da eleição se recuperando do acidente (vamos chamar assim, por favor) e, após superar os problemas de saúde, pois esteve entre a vida e a morte, foi eleito Presidente da República.

O que Zé da Barra Funda e Anna Nicole Smith tem a ver com a história do sujeito supracitado, cujo nome me recuso a escrever? Sim, a resposta é a narrativa da superação. Tudo bem que o Zé não superou nada, ele só deu uma sorte danada de arranjar uma humana de estimação, mas o que aconteceu com aquele cachorrinho pode ser apreendido pelas pessoas como superação de dificuldades.

A narrativa da superação é poderosa. As pessoas percebem o superador com empatia que, não raro, evolui para uma espécie de amor: elas se projetam naquela pessoa, pois querem ter, assim como seu ídolo (eu não vou usar aqui a palavra mito), a capacidade de superar adversidades e vencer na vida.

Por ser poderosa, a narrativa da superação é um dos mecanismos facilmente utilizados para manipular sensações e sentimentos das pessoas. (Taí 2018 que não me deixa mentir).

É interessante acompanhar o uso dessa narrativa com a participante daquele reality da Globo que é pule de 10 para sair vencedora do programa, que acaba amanhã. E também é interessante perceber o uso (profissionalíssimo) de suas redes sociais para engajar seguidores.

Não pensem vocês que o que estamos vendo nas redes sociais dessa moça que se tornou um verdadeiro midas publicitário – e aqui eu dei apenas um exemplo – não tem nada a ver com 2022. O padrão de gerenciamento das mídias sociais da moça, que vem sendo questionado de forma tímida, será usado a rodo no ano que vem (ou você não sabia que o gerente das redes dela foi acusado de usar Fake News na campanha para prefeito de 2012?).

2022 será o ano das narrativas de superação. E o Brasil tá lascado.

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