Depois da Guerra Híbrida: discos voadores e Guerra Cognitiva na Guerra Fria 2.0, por Wilson Ferreira

Os Casos Kenneth Arnold e Roswell marcaram a onda de avistamentos de OVNIs pelo país e pelo mundo, alimentando a escalada de paranoia anticomunista.

Depois da Guerra Híbrida: discos voadores e Guerra Cognitiva na Guerra Fria 2.0

por Wilson Ferreira

Tendo a pandemia Covid-19 como janela de oportunidades, ocorrem dois eventos sincronicamente ligados no atual contexto da escalada da Guerra Fria 2.0 – no lugar dos velhos soviéticos, os malvados favoritos russos e chineses. De um lado, depois de décadas como tema tabu, os discos voadores viraram hype na grande mídia, depois de um relatório do Pentágono que suspeita de “aeronaves hipersônicas chinesas” por trás do fenômeno OVNI; e os eventos chamados “Desafios de Inovação” promovidos pela OTAN que apresentam o próximo passo da Guerra Híbrida: a Guerra Cognitiva – a militarização das neurociências e a transformação do cérebro de civis em campo de batalha, para defende-los da suposta ofensiva cognitiva da Rússia e China. Oportunidade de manipulação e controle de uma nova engenharia social, testada no Canadá em 2020 na coleta militar de big data, sob alegação de se tratar de programa para combater a pandemia.

Em março de 1947 o então presidente dos EUA, Henry Truman, lançou um conjunto de medidas políticas e econômicas que ficou conhecida como Doutrina Truman, proferida em um violento discurso contra a “ameaça comunista”, onde assumia o compromisso de “defender o mundo livre dos soviéticos”. Era o ponta pé inicial da Guerra Fria.

Sincronicamente, nos meses de junho e julho desse mesmo ano, respectivamente, o piloto Kenneth Arnold avistou sobre o Monte Rainier nove objetos voadores luminosos (que a imprensa logo chamou de “discos voadores”) e em Roswell ocorreu a queda de um objeto não identificado que a imprensa também chamou de “disco voador”, desmentido depois pela Força Aérea ao afirmar que o objeto nada mais era do que um balão meteorológico.

Os Casos Kenneth Arnold e Roswell marcaram a onda de avistamentos de OVNIs pelo país e pelo mundo, alimentando a escalada de paranoia anticomunista. Principalmente pelos desmentidos governamentais e militares ambíguos: embora a Força Aérea investigasse o fenômeno com o Projeto Blue Book, as autoridades sempre desmentiam tudo, alegando que o fenômeno não passava de histeria ou ilusões de ótica provocadas pelo planeta Vênus, balões meteorológicos etc.

Enquanto Hollywood mantinha a atmosfera persecutória com o simbolismo da enxurrada de produções sci-fi sobre ataques de discos voadores e de alienígenas invadindo corpos humanos para subjugar a nação. 

Desde o episódio do pânico provocado pela transmissão radiofônica de Guerra dos Mundos em 1938 (milhares de ouvintes acreditaram que marcianos estava invadindo os EUA), aquele país passou a viver a paranoia da invasão de algum agente externo: marcianos, nazistas, comunistas e assim por diante – estudos posteriores ao episódio de 1938 identificaram uma percepção confusa dos ouvintes que confundiram marcianos com nazistas invadindo a nação…

Hoje estamos acompanhando o ressurgência de uma nova Guerra Fria (agora contra o eixo Rússia/China) acompanhado, mais uma vez, pelo fenômeno OVNI. Tudo começou na campanha eleitoral de 2016 quando Hillary Clinton declarou que o governo Obama liberaria informações sobre a questão ufológica. Seguido por denúncia de Donald Trump, supostamente vazado por hackers ativistas do Anonymous, do Projeto Firesign – projeto false flag para simular uma invasão alienígena para as eleições presidenciais serem suspensas por Obama – clique aqui.

Embora o tema OVNI tenha sido sempre envolto por tabus e segredos pelas diversas agências militares e de inteligência, de repente, em meio à crise global da pandemia Covid-19, surpreendentemente o Pentágono traz os extraterrestres à moda na mídia norte-americana.

Aeronaves hipersônicas chinesas

Em 25 de junho desse ano, a diretora nacional de Inteligência dos EUA, Avril Haines, divulgou um relatório incomum ansiosamente esperado: o estudo preliminar sobre “fenômenos aéreos não identificados” (com vídeos liberados de objetos cujas imagens foram capturadas por jatos de caça), denominação agora preferida, em vez do antiquado conceito de “objeto voador não identificado” ou OVNI. O estudo, teoricamente, revelaria a explicação de 143 casos de objetos voadores estranhos, presenciados exclusivamente por pilotos da Marinha ou detectados pelos radares dos caças americanos.

Como sempre, um relatório carregado de ambiguidade: em nenhum momento o documento menciona extraterrestres. Deliberadamente, também não os descarta de forma explícita.

A sutil mudança da nomenclatura (agora são “fenômenos aéreos” não identificados) tem uma razão de ser dentro da nova guerra fria: funcionários do governo dos EUA admitiram ao “New York Times” que sua maior preocupação é que as imagens de objetos em alta velocidade registrada em vídeo possam ser de aeronaves hipersônicas chinesas ou russas – clique aqui.

Parece que o atual hype em torno dos discos voadores (contando agora com diversas variações como “tic-tacs” e “OSNIs” – objetos submarinos não identificados) confirma um modus operandi na engenharia social em cada conflito geopolítico: contra a URSS, discos voadores como metáfora paranoica; e hoje, diante da ameaça russa e chinesa, os “fenômenos aéreos não identificados” como evidências reais de uma suposta tecnologia secreta inimiga.

Hackear o indivíduo

Não por acaso, como veremos, em meio a escalada da tensão dessa Guerra Fria 2.0 do século XXI, o Centro de Inovação da OTAN (iHub) publicou em 2020 um documento intitulado “Guerra Cognitiva” (CW), redigido por François du Cluzel – ex-militar francês que ajudou a criar o iHub em 2013 e, desde então, administra a base sediada em Norfolk, Virgínia (EUA) – clique aqui.

Para Cluzel, a CW traz uma terceira grande dimensão estratégica ao campo de batalha moderno: às dimensões física e informativa é agora adicionada uma dimensão cognitiva. Cria um novo espaço, para além dos domínios terrestre, marítimo, aéreo, cibernético e espacial, que os adversários já integraram.

Em um mundo permeado de tecnologia, a guerra no domínio cognitivo mobilizaria uma ampla gama de espaços de batalha, para além das dimensões físicas e informativas podem fazer. Sua própria essência é assumir o controle de seres humanos (civis e militares). 

Para o autor, através da ação conjunta que exerce nas três dimensões (física, informativa e cognitiva), a guerra cognitiva incorpora a ideia de combate sem luta cara a Sun Tzu – “a suprema arte da guerra é subjugar o inimigo sem lutar.” Isto é, expandir os conflitos tradicionais e produzir efeitos a custos mais baixos.

A cognição é a nossa “máquina pensante”. A função da cognição é perceber, prestar atenção, memorizar, raciocinar, produzir movimentos, expressar-se, decidir. Cognição significa agir sobre o ser humano.

A Guerra Cognitiva seria um tipo inteiramente novo de combate que chamou de guerra cognitiva. Descrito como a “militarização das ciências do cérebro”, o novo método envolve “hackear o indivíduo”, explorando “as vulnerabilidades do cérebro humano” para implementar uma “engenharia social” mais sofisticada.

O estudo deixa claro que a OTAN e seus aliados poderiam, nesse momento, estar sob ataque de guerras cognitivas disferidas pela Rússia e China cujo propósito é transformar cidadãos comuns em “células adormecidas chinesas ou russas, quintas colunas” que desafiariam a “estabilidade das democracias liberais ocidentais”. Populações doméstica seriam alvo em um nível sem precedentes.

No dia 5 de outubro a OTAN realizou o “Desafio de Inovação”, que teve como parte do evento um painel de discussão sobre guerra cognitiva. François du Cluzel participou do evento, ao lado de oficiais militares canadenses apoiados pela OTAN – clique aqui.

“A guerra cognitiva é um novo conceito que começa na esfera da informação, que é uma espécie de guerra híbrida”, disse du Cluzel.

“Tudo começa com hiperconectividade. Todo mundo tem um celular. Começa com informação porque informação é, se assim posso dizer, o combustível da guerra cognitiva. Mas vai muito além da informação, que é uma operação autônoma”.

“A guerra cognitiva se sobrepõe às corporações Big Tech e à vigilância em massa, porque trata-se apenas de alavancar big data”, explicou du Cluzel. “Produzimos dados onde quer que vamos. A cada minuto, a cada segundo que entramos, ficamos online. E é extremamente fácil aproveitar esses dados para conhecê-lo melhor e usar esse conhecimento para mudar a maneira como você pensa.”

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