25 de junho de 2026

Entrevista com ex-agente da CIA: um ‘limited hangout’ para Moro, por Wilson Ferreira

Em uma “bombástica” entrevista ao DCM, John Kiriakou (condenado em 2013 por vazar informações sobre torturas de prisioneiros da Al Qaeda) afirmou que “ódio e dinheiro” alimentaram a parceria CIA-Lava Jato.

Entrevista com ex-agente da CIA: um ‘limited hangout’ para Moro

por Wilson Ferreira

No momento em que se lança candidato à presidência, além da voz de “marreco de Maringá” (que uma fonoaudióloga da Globo está tratando), a grande dificuldade do ex-juiz Moro será lidar com uma verdade repercutida pela imprensa internacional, em veículos como o “Le Monde”: um magistrado parcial que conspirou, junto com a CIA, para destruir a Odebrecht e prender o “rei” Lula. Então, nada como lançar mão de uma velha estratégia conhecida pelas comunidades de inteligência: o “limited hangout”. Principalmente quando é feita por um ex-agente da CIA. Em uma “bombástica” entrevista ao DCM, John Kiriakou (condenado em 2013 por vazar informações sobre torturas de prisioneiros da Al Qaeda) afirmou que “ódio e dinheiro” alimentaram a parceria CIA-Lava Jato. Assim como Edward Snowden, revelou verdades de polichinelo. Para ocultar as verdades mais sensíveis: uma estrutura de inteligência e guerra híbrida que vai muito além de “acordos laterais”.

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No filme Terra Prometida (Promised Land, 2012), o diretor Gus Van Sant nos mostrou até que ponto a propaganda acaba se confundindo com a opinião pública: uma grande empresa de prospecção de gás com negócios tão gigantescos não pode ficar dependente da imprevisibilidade de resultados eleitorais. Ela deve vencer controlando qualquer resultado, seja a favor ou contra. Em outras palavras, gigantes corporativas muitas vezes devem criar sua própria oposição, jogar dos dois lados para atingir dois objetivos: (a) criar na opinião pública a aparência do debate livre e democrático; (b) controlar todas as variáveis, seja qual for o resultado eleitoral.

E quando lidamos com comunidades de inteligência como a CIA, essa exigência passa a ser exponencial – o xadrez, seja geopolítico ou da política interna, obrigatoriamente deve ter lances com riscos os mais próximos de zero. Deixar vazar algumas informações classificadas, por exemplo, é uma forma de manter previsível os movimentos dos adversários.

Uma estratégia é criar não-acontecimentos (diversionismo, factoides, cortinas de fumaça, balões de ensaio etc.) para alimentar o medo e paranoia no campo adversário, como foi o caso da visita surpresa no Brasil do diretor da CIA, Willian J. Burns. Fora da agenda oficial do presidente Bolsonaro, um encontro que reuniu o ministro do Gabinete de Segurança Institucional (GSI), Augusto Heleno, o diretor-geral da Agência Brasileira de Inteligência, Alexandre Ramagem, o ministro da Defesa, Walter Braga Netto. 

Um “encontro furtivo”, após passar pela Colômbia, alimentando a atmosfera misteriosa com declarações como “missão delicada” e “missão de inteligência importante”. O que só atiçou a paranoia no campo da esquerda: task force? Planejam assassinar Nicolas Maduro? Como Celso Amorim (ex-chanceler e Ministro da Defesa no governo Dilma Rousseff) disse: “a CIA quando aparece não age, quando age não aparece… Fazem ações e não anunciam”. Típica estratégia diversionista quando o “número um” da CIA pousa no País no momento de temperatura política elevada no País, em julho desse ano – clique aqui.

Outro dispositivo predileto das comunidades de inteligência são os “limited hangouts” (“ponto de encontro limitados”): ocorre quando conspiradores divulgam parte da verdade para esconder as informações mais sensíveis. Estratégia utilizada quando uma verdade se torna tão notória para a mídia e opinião pública que fica impossível mantê-la em segredo. Por isso, com um limited hangout alimentam-se as “teorias de conspiração” do adversário: paradoxalmente a CIA confirma, até certo ponto, as denúncias mantendo-as sob controle.

Depois da repercussão internacional de jornais como o “Le Monde” ter denunciado nesse ano “a trama dos EUA para treinar o magistrado tendencioso Sérgio Moro, detonar a Odebrecht e prender o ‘rei’ Lula” (clique aqui), torna-se delicada a operação em andamento de lançar o ex-juiz como o campeão da “terceira via” para a presidência nas eleições 2022.

Nada como um bom limited hangout para liberar informações até um certo ponto e dar à esquerda uma boa motivação para o seu notório wishful thinking.

Entrevista “limited hangout”

A entrevista exclusiva do ex-agente da CIA, John Kiriakou, ao portal de notícias progressista DCM (clique aqui) foi um exemplo flagrante dessa estratégia predileta das comunidades de inteligência. Kiriakou foi condenado em 2013 por vazar informações sobre as práticas ilegais de tortura de prisioneiros da Al Qaeda, após dar nomes de agentes da CIA em uma entrevista para a rede norte-americana ABC. Libertado em 2015, lançou uma série de livros e dá palestras relatando sua experiência.

Na entrevista Kiriakou nada mais faz do que confirmar informações que são amplamente conhecidas, inclusive pela imprensa internacional: desde o modus operandi de recrutar analistas no meio acadêmico até como a CIA apoia líderes no exterior que apoiem a agenda americana.

Ou o fato “incomum” de Bolsonaro e Moro fazerem uma visita à CIA, em Langley, após vencer as eleições. Fato noticiado até pela grande mídia, mas na voz de Kiriakou soa como denúncia. Principalmente quando ele sugere que o “ódio” e “dinheiro” foram motivações para um “acordo lateral” da CIA com o ex-juiz Moro.

Como um bom “ponto de encontro limitado”, o ex-agente mantém a conspiração da Lava Jato no plano das motivações pessoais. Elementos estruturais mais sensíveis são deixados de lado: CIA e o poder Judiciário brasileiro como um todo, estratégias de guerra híbrida e suas relações com grande mídia brasileira e os militares etc. 

Fica, portanto, na superfície: a conspiração Lava Jato como um “acordo lateral” que se aproveitou de um juiz corrupto a ponto de se vender por ódio a Lula e vontade de ganhar muito dinheiro – uma espécie de meta discurso da corrupção: sugerir corrupção num juiz que se lança candidato à presidência sob o discurso antissistêmico do combate à corrupção.

Curioso é que Kiriakou mantém intacta na entrevista a conotação negativa do conceito de “conspiração” (conotação criada pela CIA na década de 1960, para nomear como “teoria da conspiração” qualquer narrativa que se opusesse à oficial): “isso não é uma conspiração… é um esforço concertado do governo americano para manter líderes no exterior que eles gostem…”, referindo-se à verdadeira conspiração que foi a Lava Jato.

Também é curioso como Kiriakou quer defender a “legalidade” do seu vazamento: ele não teria cometido o crime de “espionagem”: “não retirei nenhum documento da CIA”. Então, como conseguiu provas das torturas para entregar aos jornalistas investigativos? Simples, Kiriakou afirma ter “uma ótima memória para detalhes” e pode fornecer detalhes dos programas ilegais.

Além da declaração paradoxal de que foi um agente da CIA que sempre acreditou “no império da Lei” (como essa contradição de termos é possível, não explica…), para ele, até 2002 a CIA derrubava governos e assassinava líderes mundiais dentro da supervisão de comitês do Senado que decidia o que era legal ou ilegal. Mas, a partir da guerra ao terror pós- 2001 isso desapareceu e decidiram que atos de tortura não existiam.

Por que a tortura é nefasta para o ex-agente? Porque é “ilegal” e simplesmente “não funciona”. Portanto, é uma questão muito mais de disfuncionalidade do que de imoralidade. 

O papel de John Kiriakou na verdade lembra o mesmo papel das verdades de polichinelo sobre a NSA denunciadas por Edward Snowden em 2013 – que, na verdade, foram usadas contra Dilma Rousseff na guerra híbrida brasileira.

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Wilson Ferreira

Wilson Roberto Vieira Ferreira – Mestre em Comunição Contemporânea (Análises em Imagem e Som) pela Universidade Anhembi Morumbi.Doutorando em Meios e Processos Audiovisuais na ECA/USP. Jornalista e professor na Universidade Anhembi Morumbi nas áreas de Estudos da Semiótica e Comunicação Visual. Pesquisador e escritor, autor de verbetes no “Dicionário de Comunicação” pela editora Paulus, e dos livros “O Caos Semiótico” e “Cinegnose” pela Editora Livrus.

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