Lula vs. Flávio: a eleição que o empate nas pesquisas não explica
Por Gisele Agnelli*
O Brasil chega ao segundo turno dividido quase ao meio nas pesquisas, mas não necessariamente pelas mesmas razões. A matemática do primeiro turno, o desgaste do governo Lula, a transformação das prioridades nacionais e a força do desejo de alternância expõem uma disputa que vai além do lulismo e do bolsonarismo, e colocam em primeiro plano o significado institucional da alternativa oferecida.
Há eleições em que os números explicam quase tudo. E há aquelas em que, justamente por estarem tão próximos, explicam muito pouco. O Brasil chega ao segundo turno presidencial de 2026 com Luiz Inácio Lula da Silva e Flávio Bolsonaro tecnicamente empatados. O Datafolha registra 50% a 50% dos votos válidos. A Quaest aponta 45% a 44% nas intenções totais. A fotografia sugere um país dividido em duas metades praticamente equivalentes. Mas a aparente simetria estatística esconde uma assimetria política mais profunda.
De um lado, um presidente que tenta convencer os brasileiros de que suas conquistas precisam ser preservadas, mas enfrenta uma avaliação de governo ainda mais negativa do que positiva. De outro, um candidato que converteu o descontentamento em promessa de alternância, embora represente uma família instalada há décadas na política e associada a episódios documentados de contestação à ordem democrática. Não se trata, portanto, de uma oposição simples entre o passado e o futuro.
A questão central desta eleição talvez não seja apenas a clássica oposição entre lulismo e bolsonarismo. É a possibilidade de que a vontade de mudança tenha adquirido força própria, ultrapassando identidades ideológicas e reduzindo, para parte dos eleitores, o peso atribuído aos riscos da alternativa disponível. Para compreender esse movimento, é necessário olhar além das intenções de voto. Quatro -dimensões ajudam a explicar o cenário: os limites das pesquisas, a matemática e a geografia eleitoral, o julgamento do governo em exercício e, sobretudo, a transformação das prioridades e expectativas do eleitorado brasileiro.
No Brasil, o primeiro turno de 2022 deixou uma lição sobre os limites das estimativas de reta final. Jair Bolsonaro obteve votação superior à indicada por diversos levantamentos. Em 2026, algo semelhante alimentou a percepção de surpresa diante do resultado de Flávio Bolsonaro. Mas há uma distinção importante: a própria Quaest identificou, nos dias anteriores à votação, um movimento expressivo de concentração do voto útil da direita. Flávio avançou enquanto as demais candidaturas desse campo perderam espaço. Portanto, mais do que uma suposta incapacidade permanente dos institutos de medir a direita, o episódio revela a importância de observar tendências, composição do eleitorado e velocidade de consolidação das escolhas.
A matemática do primeiro turno acrescenta uma dimensão concreta a essa análise. Flávio Bolsonaro recebeu 47,03% dos votos válidos, aproximadamente 56,1 milhões de votos. Lula obteve 45,16%, cerca de 53,9 milhões. Uma diferença de aproximadamente 2,2 milhões de eleitores. É uma distância estreita, mas representa uma vantagem efetivamente registrada nas urnas.
Os candidatos eliminados reuniram cerca de 9,3 milhões de votos, mas esse eleitorado não constitui um bloco transferível. No Datafolha de 20 a 22 de outubro, entre os que haviam votado em Augusto Cury, Ronaldo Caiado, Renan Santos ou Romeu Zema, 47% declaravam preferência por Flávio, 26% por Lula, 21% por branco ou nulo e 6% ainda estavam indecisos. O recorte tem incerteza amostral própria, mas indica uma transferência assimétrica — mais favorável ao senador — em vez de uma simples soma aritmética de apoios partidários.
Há outro dado que torna essa dinâmica particularmente complexa: segundo o Datafolha de 20 a 22 de outubro, 94% dos eleitores afirmam estar totalmente decididos. Entre os eleitores de Lula, o índice chega a 96%; entre os de Flávio, a 95%. Em uma eleição com tamanho grau de cristalização, as campanhas já não disputam um território amplo de persuasão. Disputam segmentos relativamente pequenos, diferenças de comparecimento e, principalmente, a capacidade de fazer com que os eleitores já conquistados permaneçam mobilizados.
A abstenção de 21,08% no primeiro turno introduz outra incerteza, mas não representa um reservatório automático de votos para qualquer lado. A variável decisiva não é quantos ficaram em casa, isoladamente, mas quais perfis poderão comparecer agora: eleitores de baixa renda, jovens, moradores distantes das seções eleitorais ou cidadãos menos mobilizados. É preciso distinguir intenção declarada de comparecimento efetivo. Sem esse recorte, a abstenção explica pouco; com ele, pode alterar o peso relativo das bases de cada candidatura.
O que me parece mais revelador é a distribuição territorial dos votos. São Paulo, maior colégio eleitoral brasileiro, já apresentava sinais claros de dificuldade para Lula antes do primeiro turno. No Datafolha de 12 de setembro, Flávio aparecia com 47% contra 42% do presidente em uma simulação de segundo turno — cinco pontos de diferença. Na pesquisa de 2 e 3 de outubro, a vantagem chegou a nove pontos: 50% a 41%, após oscilações nas rodadas intermediárias.
A Quaest também registrava vantagem de Flávio no estado, embora sua série não reproduzisse exatamente a mesma trajetória de ampliação. O ponto não está em atribuir significado decisivo a cada oscilação. Está em reconhecer uma fragilidade eleitoral persistente de Lula no maior colégio eleitoral do Brasil. Os três maiores eleitorados estaduais — São Paulo, Minas Gerais e Rio de Janeiro — concentram aproximadamente 40% dos eleitores brasileiros. E, no segundo turno, a distribuição do poder político nessas regiões adquiriu importância adicional. Tarcísio de Freitas foi reeleito governador paulista no primeiro turno, com 62,65% dos votos válidos. Em Minas Gerais, Cleitinho Azevedo venceu com aproximadamente 55,4%. No Rio de Janeiro, Douglas Ruas, do PL, foi proclamado eleito após a retotalização dos votos, com 50,88%. As vitórias estaduais ofereceram à candidatura de Flávio uma vantagem organizacional concreta.
Governadores já eleitos não precisam dividir seus esforços com campanhas próprias. Podem mobilizar prefeitos, lideranças regionais, redes partidárias e estruturas políticas em torno da disputa presidencial. Tarcísio participou ativamente da campanha de Flávio; Cleitinho assumiu seu apoio; e a vitória de Douglas Ruas consolidou um palanque importante no estado de origem do candidato. Não se trata de transferência automática de votos. Trata-se de capacidade territorial de organização política.
A esse mapa soma-se uma tendência especialmente preocupante para o governo: a perda de apoio em municípios menores e economicamente ligados à agropecuária. Levantamento do pesquisador Marco Antonio Faganello, divulgado pela Agência Pública, mostra que Lula perdeu proporcionalmente mais votos entre 2022 e 2026 nas pequenas cidades. Nos municípios com até 5 mil habitantes, a queda foi de aproximadamente 7%; nos municípios com mais de 500 mil habitantes, ficou em torno de 1%.
Nos pequenos municípios em que a agropecuária representa mais da metade do PIB local, a redução alcançou aproximadamente 9%. A questão não é apenas o agronegócio como setor econômico. É a formação de uma identidade territorial e cultural que combina propriedade, empreendedorismo, autonomia econômica e uma relação frequentemente desconfiada com Brasília.
A campanha de Lula parece ter subestimado a necessidade de reconstruir pontes com esse universo. Uma agenda mais consistente para o interior — inclusive com a antecipação de uma liderança reconhecida para o Ministério da Agricultura — poderia ter sinalizado maior disposição de diálogo com setores que se distanciaram do governo.
Não há garantia de que isso alteraria os votos. Mas a ausência dessa interlocução merece ser considerada entre as fragilidades estratégicas da campanha. Em uma disputa praticamente empatada, a distribuição dos votos importa tanto quanto sua quantidade.
Há, contudo, uma variável que precisa ocupar lugar mais importante nesta análise: a avaliação do próprio governo Lula. No Datafolha divulgado em 22 de outubro, 39% classificam a gestão como ruim ou péssima, ante 36% que a consideram ótima ou boa e 24% que a julgam regular. Na Quaest de 21 de outubro, são 38% de avaliação negativa, 34% positiva e 26% regular. Não se trata de uma rejeição majoritária e uniforme, e as diferenças estão próximas das margens de erro; trata-se de um saldo desfavorável persistente para quem pede mais um mandato.
Há um elemento de movimento que impede conclusões deterministas: no Datafolha, a avaliação negativa recuou de 41% para 39% na última semana, enquanto a positiva passou de 35% para 36%. A Quaest também mostrou melhora numérica. Essa recuperação tardia revela capacidade de reação, mas não elimina a questão de fundo: quando o incumbente chega à reta final sem vantagem nítida na avaliação do próprio governo, a disputa deixa de ser um plebiscito sobre realizações e se abre à escolha de uma alternativa, mesmo sob dúvidas relevantes sobre ela.
O desgaste do incumbente, porém, não explica tudo. O segundo movimento decisivo é que o próprio conteúdo das demandas sociais mudou. Se existe um conjunto de dados capaz de revelar essa transformação entre 2022 e 2026, ele está menos nas intenções de voto do que nas respostas sobre os principais problemas do país.
A comparação entre os levantamentos da Quaest é particularmente reveladora. Em 2022, a economia era apontada como principal problema nacional por 37% dos brasileiros. As questões sociais, incluindo fome, pobreza e desigualdade, apareciam com 20%. Violência e corrupção eram mencionadas por 5% e 6%, respectivamente. Em setembro de 2026, a hierarquia havia mudado profundamente. A violência alcançou 29%, um avanço de 24 pontos percentuais, e a corrupção chegou a 21%, crescimento de 15 pontos. Economia recuou para 19%, e questões sociais para 9%. Saúde e educação apareciam com 11% e 7%. São comparações entre momentos distintos, que devem ser lidas como mudança de saliência dos temas, não como prova de que deixaram de existir preocupações econômicas.
A comparação não significa que os brasileiros tenham deixado de se preocupar com emprego, renda, inflação ou desigualdade. Significa que, quando convidados a identificar o problema mais importante do país, passaram a priorizar outras questões. O Datafolha confirma a centralidade crescente da insegurança por meio de sua própria metodologia. Entre julho e outubro, a violência passou de 17% para 20% das menções como principal problema de responsabilidade federal, superando a saúde, que recuou de 21% para 18%.
O eleitor brasileiro de 2026 não está necessariamente fazendo as mesmas perguntas que fazia em 2022. Essa mudança tem implicações políticas profundas. O discurso da proteção social, historicamente associado ao PT, continua relevante. Entretanto, a sensação de insegurança e a desconfiança institucional passaram a disputar o centro das expectativas nacionais. A pesquisa Ipsos-Ipec, divulgada em 13 de outubro, oferece uma dimensão sociológica adicional.
O Índice de Conservadorismo em Costumes chegou a 0,680, aproximando-se dos maiores patamares históricos registrados em 2016 e 2018. A parcela da população classificada com alto grau de conservadorismo cresceu de 49% para 55% em apenas um ano. O movimento é especialmente expressivo nas posições relacionadas à punição criminal: 78% apoiam a prisão perpétua para crimes hediondos, 71% defendem a redução da maioridade penal e 52% são favoráveis à pena de morte — um avanço de nove pontos em relação a 2025. Esses resultados, porém, exigem cautela conceitual.
Conservadorismo moral, punitivismo penal e identificação política com a direita não são fenômenos equivalentes. O apoio ao casamento homoafetivo, por exemplo, também aumentou, de 38% para 41%, no mesmo período. O Brasil pode se tornar mais punitivo em segurança pública sem necessariamente caminhar na mesma direção em todas as questões de direitos individuais. Ainda assim, o deslocamento de valores ocorre em um ambiente eleitoral no qual segurança e combate à corrupção ganharam centralidade.
A pesquisa também revela uma transformação geracional importante. O grupo de 25 a 34 anos apresentou uma das maiores elevações do índice de conservadorismo, de 0,643 para 0,696. A hipótese de que as gerações mais jovens seriam necessariamente mais progressistas tornou-se cada vez menos sustentável quando observamos as diferentes dimensões de suas atitudes políticas. Esse fenômeno não é exclusivamente brasileiro.
A crise de credibilidade recente do Judiciário acrescenta outro componente ao ambiente político. As controvérsias envolvendo o STF e o caso Banco Master ampliaram questionamentos sobre transparência, conflitos de interesses e responsabilização institucional. A insatisfação com o Judiciário atravessa diferentes campos ideológicos.
Embora o Executivo não seja juridicamente responsável pelas condutas de integrantes de outro Poder, a percepção eleitoral frequentemente opera de maneira menos precisa do que a arquitetura constitucional. O presidente em exercício pode acabar absorvendo uma parcela do desgaste mais amplo das instituições, especialmente quando representa a continuidade do sistema político.
É uma hipótese analítica, não uma relação causal demonstrada. Mas ajuda a compreender por que a imagem do incumbente pode ser afetada por crises que não se originaram diretamente em seu governo.
O que emerge desse conjunto de dados é um eleitorado que valoriza proteção social, mas também exige ordem; deseja preservar conquistas, mas demonstra impaciência com o desempenho do governo e com instituições percebidas como pouco responsivas; e atribui importância crescente à possibilidade de transformar sua condição individual. A combinação de avaliação negativa do Executivo, insegurança e aspiração econômica cria terreno para uma promessa de alternância — embora não diga, por si, se essa alternativa é democrática, exequível ou institucionalmente segura.
A pesquisa Quaest divulgada em 21 e 22 de outubro talvez contenha a informação mais importante de toda a campanha. Perguntados sobre o perfil desejado para o próximo presidente, 59% dos brasileiros afirmam preferir alguém que proponha mudanças. Apenas 33% escolhem alguém que ofereça estabilidade. Na comparação entre políticas públicas, 52% preferem um presidente que defenda menos impostos, enquanto 38% priorizam a ampliação dos benefícios sociais. A mesma pesquisa mostra que 73% preferem redução de gastos e contenção de despesas públicas, diante de 20% que priorizam o aumento dos gastos e investimentos.
Esses percentuais não são intenções de voto em Flávio Bolsonaro. Um eleitor pode defender menos impostos e continuar votando em Lula. Pode querer mudança sem desejar a substituição do presidente. Mas a combinação dessas respostas indica algo importante sobre o clima político. A demanda por transformação ocupa um espaço maior do que a defesa explícita da estabilidade.
E existe uma diferença entre preferir uma mudança abstrata e reconhecer qual candidato parece mais associado à sua realização. Na Quaest, 51% dos entrevistados consideram Flávio mais capaz de reduzir impostos, enquanto 57% associam Lula à manutenção dos benefícios sociais. Na capacidade de reduzir o preço dos alimentos, a avaliação praticamente empata: 45% para Flávio e 44% para Lula.
Essa última informação merece atenção especial. Flávio conseguiu disputar o imaginário econômico cotidiano — o supermercado, os preços, os impostos e o poder de compra — sem que a proximidade nas percepções de competência econômica se traduza, necessariamente, em um programa mais detalhado ou financeiramente consistente. Em eleições, o candidato pode receber crédito pela expectativa de melhora antes de demonstrar como a produzirá.
É aqui que a palavra prosperidade assume importância. Flávio a utilizou repetidamente nos debates. E prosperidade é uma promessa politicamente distinta de proteção. A proteção social oferece segurança diante do risco. A prosperidade oferece a perspectiva de superar a condição presente. O imaginário da prosperidade também dialoga com uma transformação cultural que ultrapassa o Brasil: a valorização do empreendedorismo, da autonomia individual e da figura do indivíduo como empresário de si mesmo. Há nele algo do self-made man americano, da crença de que o sucesso pessoal resulta da iniciativa, do esforço e da capacidade de aproveitar oportunidades.
É a aspiração de quem não deseja apenas manter um benefício, mas construir um negócio, possuir patrimônio, consumir mais e conquistar independência econômica. Não significa que esse eleitor queira necessariamente abrir mão da CLT ou da proteção trabalhista. A própria Quaest mostra uma divisão quase equilibrada entre a preferência por mais direitos aos trabalhadores, com 46%, e mais incentivos às empresas, com 43%.
A questão é mais sofisticada. O brasileiro pode desejar proteção e mobilidade simultaneamente. Pode defender direitos trabalhistas e, ao mesmo tempo, sonhar em ser seu próprio chefe. Uma linguagem política que consiga conversar com essas duas aspirações encontra um território relevante para disputar.
A participação de Daniella Marques na campanha de Flávio é significativa nesse contexto. Ex-presidente da Caixa Econômica Federal, ela se tornou uma das principais interlocutoras econômicas da candidatura, defendendo redução do custo Brasil, produtividade e mecanismos de mobilidade social. Seu nome é cogitado para comandar um eventual Ministério da Prosperidade, ainda não oficialmente confirmado. A ideia de transformar a Caixa em um instrumento mais explícito de crédito e ascensão econômica também integra essa narrativa.
Não faltam questões a serem respondidas: como financiar os programas prometidos; quais seriam os riscos do aumento do endividamento familiar; como conciliar redução de impostos, equilíbrio fiscal e preservação dos benefícios sociais; e que capacidade de implementação existiria para além do slogan. A promessa de prosperidade não deve ser confundida com sua viabilidade econômica. Sua potência eleitoral está justamente em antecipar uma recompensa futura que ainda não passou pelo teste das restrições fiscais e institucionais.
E esse talvez tenha sido um dos problemas centrais da campanha de Lula: enfrentar o desejo de futuro enquanto precisava responder a uma avaliação desfavorável do presente.
O presidente dispõe de trajetória política excepcional, experiência administrativa e legado de inclusão social reconhecido por parcela importante do eleitorado. Mas esse patrimônio não anula o julgamento dos últimos quatro anos. Sua comunicação esteve frequentemente presa à defesa do que já fez, quando a pergunta para um incumbente é também o que ainda não conseguiu resolver. Nos debates, faltou-lhe, a meu ver, a serenidade política e a capacidade de projeção histórica que marcaram outros momentos de sua trajetória. A expectativa de que poderia vencer ainda no primeiro turno parece ter contribuído para uma leitura excessivamente otimista do ambiente eleitoral e para uma reação tardia à força da candidatura adversária.
Nos confrontos do segundo turno, Lula dedicou muito tempo a justificar realizações, responder acusações e reafirmar o passado. Conseguiu apresentar medidas e propostas, mas nem sempre articulou uma visão suficientemente renovada sobre o Brasil que pretende governar. A distinção importa: dificuldades de comunicação podem agravar uma má avaliação, mas não a criam sozinhas. O desgaste também expressa experiências concretas e expectativas frustradas de parte dos eleitores. Flávio, por sua vez, mostrou habilidade para explorar essa diferença.
Com comunicação agressiva, frequentemente provocativa e marcada por afirmações contestadas por agências de checagem, Flávio conseguiu inserir promessas de futuro em meio ao confronto. Existe certa ironia nessa performance do “menino Neymar da política”: alguém que transforma provocação em espetáculo, administra a atenção pública como ativo político e, mesmo quando comete excessos, mantém-se no centro da conversa.
A vitória de uma narrativa de oposição não altera os fatos documentados sobre a trajetória do grupo que a sustenta. Em setembro de 2025, o Supremo Tribunal Federal condenou Jair Bolsonaro por crimes associados à tentativa de golpe de Estado e à tentativa de abolição violenta do Estado Democrático de Direito. A decisão judicial alcança o ex-presidente, não configura condenação criminal de seu filho e não permite atribuir responsabilidade coletiva à família. Mas torna impossível tratar o histórico institucional do bolsonarismo como questão lateral.
Flávio não é apenas herdeiro de um sobrenome. Ao longo de sua atuação pública, colocou em dúvida a confiabilidade do voto eletrônico, reproduziu alegações já desmentidas sobre o sistema de votação e, durante a campanha presidencial, negou o caráter golpista dos acontecimentos julgados pelo STF. Na sabatina da TV Globo de 16 de outubro, chamou de “farsa” o julgamento do pai. Também defendeu anistia ou indulto. Essas posições são escolhas políticas próprias, relevantes para estimar a relação de uma eventual Presidência com a Justiça, as regras eleitorais e os mecanismos de controle do poder.
A Quaest captou essa tensão em outubro: perguntados sobre quem representa maior risco à democracia, 48% apontaram Flávio e 40% Lula. São percepções dos entrevistados, não uma equivalência objetiva de condutas. Justamente por isso o resultado é analiticamente útil: o risco democrático está presente na disputa, mas não impede que a candidatura bolsonarista seja competitiva. A questão é compreender como a insatisfação com o presente pode relativizar, na hora do voto, riscos que parte da sociedade reconhece.
A soberania brasileira diante dos Estados Unidos merece registro, mas não a trato como variável eleitoral autônoma. Na pesquisa Pew Research de 2026, 47% dos brasileiros tinham imagem favorável dos EUA e 43%, desfavorável; no Canadá, a avaliação negativa chegava a 66%. A exposição comercial também é diferente: em 2025, o mercado americano absorveu 72,5% das exportações canadenses de bens, diante de 10,8% das brasileiras. As tarifas de Trump estimularam no Canadá uma reação nacionalista mais visível e atingiram um país muito mais dependente daquele mercado. No Brasil, houve perdas setoriais, mas a maior diversificação dos destinos de exportação reduziu a exposição agregada. Sem evidência de que a soberania tenha reorganizado a disputa eleitoral brasileira em escala comparável à canadense, não a elevo à condição de explicação independente do voto.
Há, porém, uma ressalva importante na área da segurança pública. O Datafolha de junho registrou 59% de apoio à classificação do PCC e do Comando Vermelho como organizações terroristas, mas 74% de rejeição a ataques americanos contra essas facções em território brasileiro sem autorização do governo. Na AtlasIntel, 50,8% disseram que seria mais fácil votar em um candidato favorável à classificação e 33,6% em um contrário. A resposta hipotética não equivale a intenção efetiva de voto. Tampouco endossa intervenção estrangeira. A coexistência dessas preferências indica que a demanda por enfrentamento do crime pode conviver com a defesa da soberania, sem se converter automaticamente em benefício eleitoral de qualquer candidatura.
Na disputa digital, a situação foi diferente. O bolsonarismo opera dentro de um ecossistema político que nasceu e se consolidou nas plataformas digitais. Influenciadores, canais de comunicação descentralizados e comunidades altamente engajadas fazem parte de sua própria estrutura de mobilização. O PT, historicamente vinculado à organização partidária, aos sindicatos e aos movimentos sociais, precisou incorporar essa lógica de maneira mais intensa. E conseguiu fazê-lo no segundo turno.
A mobilização do chamado “Exército do Lula”, impulsionada por André Janones, representa uma transformação relevante na comunicação petista. O crescimento do engajamento, da circulação de conteúdos e dos indicadores digitais foi reconhecido até por dirigentes da Quaest. Essa capacidade de reação impressiona. Mas existe uma diferença fundamental entre competir pela atenção e conquistar novos eleitores. Mobilização não é necessariamente persuasão.
Em um cenário no qual 94% dos entrevistados pelo Datafolha dizem já ter consolidado sua escolha, o sucesso digital pode fortalecer militantes, melhorar a disposição de comparecimento e ampliar a circulação das mensagens sem produzir mudança equivalente no voto. A campanha de Lula conseguiu disputar o ambiente digital nas condições impostas pelo adversário. Os levantamentos disponíveis, porém, não demonstram que tenha convertido esse avanço de mobilização em uma transformação proporcional da correlação eleitoral.
E é nesse ponto que a análise precisa voltar aos independentes. O Datafolha de 22 de outubro registra Flávio com 56% dos votos válidos entre os eleitores não alinhados, diante de 44% para Lula. Esses números pertencem a um segmento específico, com margem de erro própria, e não devem ser confundidos com a situação dos indecisos.
O eleitor independente pode rejeitar a identificação plena com o bolsonarismo e, ainda assim, escolher Flávio por desejar alternância ou por avaliar mal o governo atual. É essa distinção que ajuda a explicar parte da força de sua candidatura, sem atribuir a cada voto o mesmo significado ideológico. O Datafolha identificou que, entre os eleitores de Flávio, 41% mencionam espontaneamente mudança ou alternância como razão para votar; outros 31% citam rejeição a Lula, ao PT ou ao campo adversário.
Entre os eleitores do presidente, a motivação dominante é a proteção social, mencionada por 48%, seguida do legado de governo, com 22%. Não são apenas dois eleitorados escolhendo candidatos diferentes. São, em grande medida, dois eleitorados estabelecendo relações distintas com o futuro — um deles mais mobilizado pela perspectiva de perda, o outro pela possibilidade de substituição do governo.
Lula oferece, sobretudo, razões para preservar. Flávio procura oferecer razões para substituir. E o desejo de substituição pode alcançar cidadãos que não compartilham integralmente a identidade ideológica, a visão de mundo ou mesmo a avaliação pessoal do candidato oposicionista.
A demanda por mudança torna-se, assim, potencialmente maior do que a identificação com o próprio bolsonarismo. Esse é o paradoxo central de 2026 — e também o ponto em que uma análise exclusivamente eleitoral se revela insuficiente.
É por isso que é tão revelador que um integrante de uma família presente há décadas na política, vinculada a um histórico de confrontação com as instituições eleitorais, possa apresentar-se como instrumento de renovação. A operação política converte a rejeição ao governo atual em licença para separar a promessa de prosperidade da trajetória institucional de quem a oferece. O eleitor não necessariamente endossa esse passado; sua escolha, porém, pode produzir consequências que não se esgotam em suas motivações individuais.
O voto de mudança não exige identificação profunda com quem a promete. Às vezes exige apenas a convicção de que a situação presente não deve continuar. O problema é que essa escolha não suspende as consequências institucionais de levar determinado projeto ao poder. A alternância democrática pressupõe não apenas substituir governantes, mas preservar as regras que permitem substituí-los novamente.
As pesquisas não permitem antecipar com segurança o resultado de 25 de outubro. Os candidatos seguem estatisticamente próximos, e as diferenças observadas permanecem pequenas. Mas há sinais políticos relevantes: a vantagem de Flávio no primeiro turno, a inserção territorial no Sudeste, a consolidação dos palanques estaduais, a avaliação ainda negativa do governo Lula, a mudança das prioridades nacionais, o avanço de posições punitivas, a linguagem aspiracional da prosperidade e a demanda por alternância que alcança parte dos eleitores não alinhados. Ao lado desses sinais está o risco institucional da alternativa, que não desaparece pelo simples fato de ela se apresentar como renovação.
Nenhum desses fatores determina individualmente o resultado. Juntos, ajudam a explicar por que uma eleição estatisticamente equilibrada pode abrigar forças políticas de natureza e intensidade diferentes. Também ajudam a compreender as dificuldades de Lula.
A proteção social continua central para milhões de brasileiros. Mas a defesa das conquistas passadas, desacompanhada de uma resposta convincente ao mal-estar presente, não responde integralmente à expectativa de que o próximo governo ofereça algo diferente. O problema do incumbente não é apenas demonstrar que governou. É convencer o eleitor de que reconhece o que não funcionou e ainda dispõe de respostas novas. Um futuro melhor exige mais do que memória de realizações.
Talvez a característica mais inquietante desta eleição seja a possibilidade de que a vontade de mudança se torne tão poderosa que diminua, para uma parcela do eleitorado, a disposição de investigar seus custos….inclusive os institucionais.
Quando a alternância se transforma em valor político quase absoluto, a pergunta deixa de ser apenas o que um candidato pretende fazer. Passa a ser quanto o eleitor está disposto a relativizar para que o governo atual seja substituído. A democracia exige a possibilidade real de mudar de governo. Mas essa liberdade depende de instituições, regras eleitorais confiáveis, controles sobre o poder e respeito aos resultados — precisamente os pilares tensionados pelo histórico recente do bolsonarismo.
Em 2026, a disputa entre Lula e Flávio pode estar revelando um país no qual a rejeição à continuidade pesa mais, para parte dos cidadãos, do que a discussão sobre a natureza da alternativa. É possível que o resultado seja decidido por eleitores que não se identificam plenamente com nenhum dos dois candidatos, mas já não encontram razões suficientes para preservar o governo. O desgaste de Lula é, portanto, uma variável explicativa incontornável. O histórico de contestação institucional do campo bolsonarista é outra — distinta em natureza e consequências, e igualmente incontornável.
Também há o que explicar na trajetória do próprio candidato. Na Assembleia Legislativa do Rio, Flávio Bolsonaro homenageou Adriano da Nóbrega, posteriormente apontado pelo Ministério Público como chefe de milícia; a mãe e a então esposa do ex-policial foram funcionárias de seu gabinete… são vínculos documentados que não podem desaparecer sob a promessa de renovação. O caso das “rachadinhas” foi arquivado depois da anulação de provas, sem julgamento do mérito; em 2026, Flávio passou a ser investigado pela Polícia Federal no caso do financiamento do filme Dark Horse, ligado ao Banco Master. Relação com o advogado Willew, ao que parece também foragido. Investigação não é condenação, e decisões de arquivamento devem ser respeitadas. Nada disso dispensa, porém, explicações públicas.
O contexto familiar torna a pergunta institucional ainda mais aguda. Jair Bolsonaro cumpre pena em prisão domiciliar após condenação definitiva por crimes ligados à tentativa de golpe de Estado; Eduardo Bolsonaro permanece nos Estados Unidos, com condenação definitiva e mandado de prisão expedido no Brasil pelo crime de coação no curso do processo relacionado ao tarifaço. O artigo 86, § 4º, da Constituição impede, durante o mandato, a responsabilização do presidente por atos estranhos ao exercício de suas funções.. A escolha eleitoral não pode funcionar como dispensa antecipada de prestação de contas, mas parece ser o caso.
O desejo de mudança dos brasileiros pode ultrapassar o bolsonarismo como identidade eleitoral. Mas a mudança que ele produz não ultrapassa, automaticamente, o projeto político que escolhe para realizá-la.
A alternância de poder é um princípio da democracia. A promessa de prosperidade é uma narrativa eleitoral. E nenhuma das duas garante renovação institucional. No domingo, as urnas revelarão quem recebeu mais votos. O desafio político começa na pergunta que o empate das pesquisas deixa sem resposta: que tipo de poder será legitimado pela insatisfação com o governo? O preço da mudança, porém, só começará a ser conhecido depois…. com Flávio no poder.
24 de outubro de 2026
Gisele Agnelli é Cientista política, socióloga, escritora e analista de assuntos públicos, fundadora do movimento #VoteNelas e autora de Autocracia Made in USA.
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