Precisamos de um Partido, por Luan Medeiros
A legenda eleitoral segue muito bem, obrigado, mas a organização política para o cotidiano está se tornando um legado distante.
Acredito que qualquer cidadão que tem alguma interação de mais tempo com política já escutou a típica pergunta: “Você pensa em se candidatar?”
Essa pergunta, de certa forma, pode ser entendida como um elogio. Elogio ao seu caráter, à capacidade de sintetizar processos complexos, ou um elogio simplesmente ao interesse de permanecer interessado em soluções para um mundo cada vez mais vil, cheio de absurdos e degradado. Mas essa pergunta ilustra também uma limitação da política aos marcos da democracia representativa.
Antes de continuar, quero deixar claro que as linhas que se seguem não compõem o esforço de mobilização para virar voto e convencimento de indecisos. Trata-se de uma sucinta exposição de elementos para um diagnóstico do estado avançado de conversão de um partido político com quarenta e seis anos de história em uma pessoa jurídica meramente formal, que independe do resultado do próximo domingo, dia 25 de Outubro de 2026.
Eleições como expressão única da vida política
Recentemente, além daqueles que se interessam pela política de dois em dois anos, escutei essa pergunta — sobre uma eventual candidatura — de alguns amigos que de fato trabalham com política numa base diária. Apesar da minha negativa imediata, me pediram para pensar no assunto. Por óbvio, depois de meditar, minha resposta continua negativa. Sou um sujeito absolutamente lowprofile, conhecido por demorar a responder mensagens, e que realmente rejeita qualquer tipo de exposição quando não é absolutamente necessário.
Apesar da minha galeria ser lotada de fotos e minha cabeça lotada de opiniões, eu raramente as compartilho. Poucos sabem da minha vida particular, meus gostos, meus hobbies. E quem sabe de uma parte da minha vida, frequentemente desconhece a outra. É normal que me peçam para participar de lives, dar entrevistas, mas eu nunca assisti nenhuma delas. E só participo quando não há ninguém que possa me substituir. Não tenho media training, não sou versado nas técnicas de debate público, muito pelo contrário. Faço avaliações importunas, por vezes desagradáveis e que raramente saem dos meus circuitos mais íntimos e prefiro me calar quando chega à mim alguma informação que poderia me render uma dor de cabeça caso seja eu o responsável por torná-la pública.
Então, agradeço aos amigos que perguntaram, mas eu continuo rejeitando qualquer sugestão para me tornar uma figura pública de qualquer natureza. Dito isso, gostaria de discorrer sobre algo que não me foi perguntado.
Em processos eleitorais, sou também frequentemente procurado para orientar quem está perdido: “Qual partido se filiar”; “qual candidato votar”; “quanto tempo de dedicação”; “o que fazer para virar voto”’; “onde conseguir material”; “o que fazer se o Flávio ganhar”; “não tem ninguém pensando nisso?!” Ainda que eu tenha alguma noção do que responder, a ausência de uma linha de massas orientada por um planejamento estratégico faz com que essas perguntas não se convertam em uma ação política continuada com consequência na realidade cotidiana, de longo prazo, e acabem por se diluir no voluntarismo periódico e desesperado das eleições.
Em 2018, quando meu antigo grupo tomava a decisão de filiar coletivamente no PT, éramos orientados por um planejamento deliberado coletivamente. Em documento intitulado “Por quê os Marxistas-Leninistas Devem Construir o Partido dos Trabalhadores” [1], fazíamos uma discussão sobre a história do movimento comunista no Brasil, e chegávamos à conclusão de que o PT, por se tratar de uma organização democrática, massificada e nacionalizada, poderia ser um terreno fértil para a nossa ação. O nosso papel seria, portanto, colocar em marcha as longas listas de filiados que eram acionadas apenas em períodos eleitorais, sejam eles internos ou externos:
A entrada dos comunistas no PT não deve se dar pela disputa sem sentido dos aparelhos burocráticos, nem para promover divisionismo nos amplos setores democráticos existentes no Partido, mas é fundamental para colocar o partido em ação. Deve se defender com todo vigor o Manifesto de Fundação do Partido e o resgate da Carta de Princípios. A política não deve ficar restrita para dentro do partido, mas ser levada à todos os cantos da nação: formando núcleos, células e comitês em todo o país. (Voz Operária. Porque os Marxistas-Leninistas Devem Construir o Partido dos Trabalhadores? Rio de Janeiro, Novembro de 2018)
Em outro documento que orientava a nossa ação no PT, reiterávamos que nossas táticas deveriam ser orientadas para combater o golpismo, seja o de direita ou o de esquerda, tendo como eixos a defesa da anulação do impeachment contra a Presidente Dilma, exigir a liberdade dos presos políticos, defender uma constituinte “popular, soberana e exclusiva”, combater o esquerdismo, e defender direito do Partido dos Trabalhadores de governar o Brasil — direito esse interrompido em 2016. Partiríamos da “construção de comitês populares priorizando o trabalho junto às categorias e sindicatos onde temos entrada ou atuação, além do trabalho comunitário junto aos petistas filiados”, e assim o fizemos.
Com pouco menos de um ano de partido, esse bando bruto, sem mandato e sem um centavo no bolso, que contava com vidreiros, operadores de telemarketing, garis, estivadores e militantes do movimento de moradia, logrou conquistar quatro de doze secretarias de organização zonais do PT no município do Rio em 2019. Entre os anos de 2018 e 2020, criamos cerca de vinte núcleos de base entre a gigantesca zona oeste e a zona norte do Rio de Janeiro, regiões marcadas pela precarização. Apesar de não estarmos interessados na disputa da máquina burocrática, outros estavam. E nosso grupo, bem-aventurado, passou a ser combatido e isolado pelas correntes “de esquerda” do Partido — que nos viam como ameaça —, enquanto nossos jovens militantes precários eram impactados pela Operação Lava Jato e, mais tarde, pela pandemia.
Uma vez me disseram que a melhor forma de se projetar no PT é tendo uma atuação fora do PT, e depois que eu comecei a construir uma carreira profissional que nada tinha a ver com o Partido — e também distante das dinâmicas partidárias no Rio — passei a ser consultado sobre processos dentro do Partido. Se me perguntarem, avalio como trágico o fato de que agora, enquanto indivíduo, tenho mais influência no PT do que quando dispunha de um grupo organizado e centralizado, que de fato tinha capacidade de influenciar a sociedade.
“Hiperindividualização” versus Organização
Respondendo sobre como o bolsonarismo opera em nível organizativo, Rodrigo Nunes, em entrevista à revista Equator, divide em três principais vantagens: A primeira vantagem consiste na sua maior compatibilidade com os interesses do capital, que lhe garante apoio empresarial e midiático; a segunda vantagem se dá por sua capacidade de articular coalizões entre grupos de oligarquias (fundiária e financeira) que preservam suas respectivas esferas de poder, sem precisar resolver divergências estratégicas e hierarquias de prioridades tão frequentes na esquerda; e a terceira vantagem se dá por uma dinâmica de organização impulsionada pelas redes sociais, que favorece a competição individual por atenção:
A terceira vantagem decorre das redes sociais, que estruturam a esfera pública como um mercado no qual as pessoas competem individualmente por curtidas e compartilhamentos, que funcionam como unidades de atenção. Isso resulta tanto em uma hiperindividualização da política quanto na valorização da participação on-line em detrimento da organização e da mobilização presenciais. Esse mecanismo molda profundamente a forma de organização de grande parte da extrema direita contemporânea: uma espécie de esquema de pirâmide cujos elementos básicos são os empreendedores políticos, isto é, pessoas que, a partir de uma posição de destaque nas redes sociais ou na mídia tradicional, produzem conteúdo que lhes permite acumular, simultaneamente, capital de atenção, capital social e capital político. (Rodrigo Nunes, Brazil: The Future of the Far Right. Equator Magazine, 30 de Setembro de 2026)
O que Nunes chama de “hiperindividualização”, eu chamaria de arrivismo. Sem uma linha política clara, sem uma política de organização, continuaremos sendo empurrados para o abismo das candidaturas cada vez mais atomizadas, que explodem nos grandes centros urbanos por evocar uma identificação com a linha política dos amarelos — a agenda democrata importada, caracterizada por seu identitarismo cosmopolita, solipsista e inconsequente — diferente daquela que em algum momento foi a nossa. Aqui, se constrói uma dinâmica onde o PT se torna uma legenda de aluguel que apenas se difere por sua competitividade. Apesar do surgimento dessas figuras, está claro como o Sol que candidaturas cosmopolitas não elegem campanhas majoritárias.
O Partido dos Trabalhadores, fundado por três principais setores — Novo Sindicalismo, movimentos sociais vinculados ao catolicismo progressista e os comunistas em reorganização durante a redemocratização —, tornou-se uma agremiação desorganizada e esvaziada do seu conteúdo fundador. Qualquer cidadão identificado com aquilo que a percepção pública passou a chamar de esquerda após as trágicas Jornadas de Junho de 2013, pode se candidatar pelo PT mesmo sem possuir qualquer vestígio de identificação com os setores que assinaram seu manifesto em 21 de outubro de 1980. Quer dizer, o PT está cada vez mais perto de se tornar um excelente CNPJ para disputar eleições, uma sigla jurídica e não política — sobretudo agora com legislações eleitorais cada vez mais restritivas — e cada vez mais distante de uma organização presente no cotidiano, conforme expresso no seu manifesto:
Queremos a política como atividade própria das massas que desejam participar, legal e legitimamente, de todas as decisões da sociedade. O PT quer atuar não apenas nos momentos das eleições, mas, principalmente, no dia-a-dia de todos os trabalhadores, pois só assim será possível construir uma nova forma de democracia, cujas raízes estejam nas organizações de base da sociedade e cujas decisões sejam tomadas pelas maiorias. (Partido dos Trabalhadores. Manifesto de Fundação. 1980)
O Partido há muito vem numa direção confusa, onde seus dirigentes pouco dirigem, por vezes são até estranhos às suas atribuições e só fazem dizer o que o Partido “deveria” fazer. Há toda a sorte de relatos de pessoas que trabalharam com a campanha majoritária no primeiro turno que ilustram um cenário onde ninguém parecia querer assumir um compromisso, seja por indefinição, ou por medo de ser assertivo e falhar. Poucas orientações, muitas sugestões e poucas respostas para as dificuldades encontradas por eleitores e filiados. Muito pelo contrário, o que vimos na verdade eram esforços desesperados para as candidaturas proporcionais se manterem relevantes, e da campanha nacional em responder às polêmicas criadas pela mídia e pela crise do judiciário.
Pessoa Jurídica e Partido
Nossa capacidade de pautar a sociedade se esvaiu. As campanhas proporcionais, ao invés de estarem imersas em uma lógica disciplinada pela organização partidária, formavam grupos isolados que agiam por voluntarismo, disputando os mesmos eleitores. Em síntese, deixamos com que a lógica atomizada da democracia liberal varresse o sentido de se ter um partido político. O PT está cada vez mais próximo de se tornar uma agremiação meramente eleitoral que difere pouco de outras siglas, cuja identidade está se tornando um legado distante.
E preparem-se: Se já sofríamos com a indisciplina e o egocentrismo, se avizinha a entrada de mais figuras interessadas pela pessoa jurídica, e não pelo Partido. Veremos personalidades solipsistas que são genuinamente um sucesso eleitoral nas capitais, mas que pouco tem a ver com aqueles três setores que deram origem ao Partido. Talvez isso até contribua para o diagnóstico do que é o PT jurídico, igualmente dependente do fundo partidário como era o sindicalismo da contribuição obrigatória. Sabemos qual foi o seu destino depois de aprovada a Lei 13.467/2017 por Michel Temer.
Quantas milhares de pessoas se juntam em filas que dobram os quarteirões com suas cartas redigidas de próprio punho sem encontrar um único panfleto conscientizando sobre a importância da contribuição sindical? É óbvio que haverá animosidade, mas a resposta não poderia jamais ser a nossa apatia por medo do escrutínio público.
As soluções fáceis encantam, os números de visualizações nas redes sociais impressionam Mesmo eu, um marginal nas redes sociais, vejo volumes numerosos pelo meu painel na Meta. Mas soluções fáceis pouco resolvem os desafios históricos impostos contra o Brasil. Nosso problema pode estar também na comunicação, mas atingir um público cada vez mais amplo com pautas cada vez mais difusas, estranhas à história do Partido e seus filiados, distante de uma agenda correta, resultará em um distanciamento ainda mais óbvio da vitória sobre os traidores da pátria. Esse cenário soma-se ao fato de que estamos cada vez mais próximos de um novo regime constitucional, ungido pelo voto popular, almejado pelo sionismo evangélico e por atores do estrangeiro.
Priorizamos um mito de que o voto religioso poderia ser disputado, partindo de uma premissa equivocada de que o voto se daria por mera afirmação na fé, e não pela dinâmica social de pertencimento à grupos presentes nos territórios onde a fé se pratica. O sionismo evangélico cresce por suas promessas em um cenário em que o trabalho formal e estável se tornou escasso e precário, cresceu pelo seu acolhimento, pela criação de um senso de comunidade, pela afirmação de um modo de vida que se expressa no cotidiano, e não por um hino cantado em atividade de campanha.
Mais do que as acusações fáceis que são feitas por aí, talvez o maior dilema do petismo não está em uma redução do eleitorado, ou em perder uma eleição, mas do abandono da comunhão. A falta de liderança, a falta de coordenação, a falta de um terreno fértil para que ideias circulem, a falta de redes de apoio para os filiados necessitados: todos figuram sintomas de uma instituição em declínio.
Em “Sobre o Conceito de História”, Walter Benjamin argumenta que, ao contrário da máxima de Marx, as revoluções não são a locomotiva da história mundial, mas o ato pelo qual a humanidade puxa os freios de emergência. Certamente, não estamos diante de uma revolução do mesmo caráter sobre o qual versava o filósofo de Frankfurt, muito longe disso. Se consagrados com uma vitória no executivo federal, sem que se dê um passo atrás para reorganizar o Partido, veremos a república em um regime de estagnação sem precedentes. Será uma batalha para barrar iniciativas de um legislativo muito mais ávido por aventuras do que aquela composição que resultaria no Golpe de 2016.
Apesar de cada vez mais limitado e à reboque da conjuntura, o PT continua sendo um instrumento dos brasileiros para frear absurdos, mas com dificuldades sérias para conseguir avançar. Nos tornamos uma agremiação excelente para vencer eleições, mas cada vez mais distantes daquela organização partidária para atuar no dia-a-dia dos trabalhadores sobre a qual versava o manifesto de fundação. Precisamos de uma recalibragem para uma ação também fora dos parlamentos, subordinada aos objetivos gerais do Partido. Só que, para que os objetivos gerais sejam alcançados, uma pessoa jurídica de direito privado é insuficiente: Mais do que nunca, precisamos de um Partido. Seu formato, no entanto, não serei eu a propor, mas sim um intelectual coletivo composto por tantos outros filiados que compartilham da mesma angústia sobre os rumos do Brasil.
Luan Medeiros, jornalista, 31 anos, nascido e criado na Zona Oeste do Rio de Janeiro, atualmente reside em São Paulo. Filiado ao Partido dos Trabalhadores.
[1] Disponível em: <https://web.archive.org/web/20190817210204/https://vozoperariarj.com/2018/11/25/porque-os-marxistas-leninistas-devem-construir-o-pt/> Acesso em: 13 de Outubro de 2026
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